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Capítulo 6 de 34

Ii. Passagem Para A Vida Espiritual — parte 4 de 6

A Vida nos Mundos Invisíveis – Volume 1

Tinha vergonha de ser tão intruso, mas me foi dito 'espere e verá'. Meu amigo inclinou-se ao seu lado enquanto ela virou a cabeça, endereçando-lhe uma palavra amigável e um sorriso de boas vindas. Concluí que eram velhos amigos, mas isto não vem ao caso. Na verdade, depois ele me contou que nunca a havia visto antes, e explicou que aqui no mundo espiritual não necessitamos de apresentações formais; constituímos um imenso e unido grupo em termos de relacionamento social. Depois que estamos por aqui já há algum tempo e camos acostumados ao nosso novo ambiente e modo de vida, vemos que nunca somos intrusos, desde que possamos ler logo a mente da pessoa que por instantes queira um período de segregação. E quando vemos pessoas fora, em espaço aberto, - no parque ou campo – seremos sempre bem-vindos ao nos aproximarmos para mantermos conversas amigáveis com elas. Esta jovem era, como eu, uma recém-chegada, e nos contou como alguns amigos haviam mostrado a ela o método de obter das ores tudo o que elas tinham tão dadivosamente a ofertar. Inclinei-me a seu lado, e ela deu uma demonstração prática do que fazer. Ao colocarmos as mãos, disse ela, em torno da or, como se estivéssemos segurando-a numa espécie de copo, eu sentiria o magnetismo uindo braços acima. Conforme coloquei minhas mãos em torno de um lindo botão, vi que a or no topo do talo moveu-se em minha direção! Fiz o que me ensinara, e instantaneamente senti uma corrente vital subindo pelos meus braços, enquanto o aroma mais delicado era exalado por ela. Ela advertiu-me para que não colhesse as ores, pois elas cresciam eternamente; faziam parte desta vida, como também nós mesmos. Fiquei muito grato por sua advertência oportuna, já que seria a coisa mais natural do mundo colher as que estavam ali em tamanha profusão. Não era bem o caso das frutas, aprendi, porque elas estavam ali para serem consumidas. Mas as ores em si eram decorativas, e cortar uma or para que fosse colhida era o equivalente a derrubar uma árvore frutífera. Havia ores, entretanto, que cresciam expressamente com o propósito de serem colhidas, mas estas que estávamos considerando agora tinham como sua principal função a de doadoras de saúde. Perguntei à nossa jovem se já tinha experimentado algumas das boas frutas que acabáramos de conhecer, ao que respondeu que sim. Meu amigo sugeriu que eu gostaria de me aproximar da margem da água, e, se a jovem estivesse sozinha, talvez pudesse apreciar ajuntar-se a nós em nossos passeios. Ela respondeu que nada lhe daria mais prazer, então nós três seguimos em direção do lago. Expliquei a ela que meu amigo era um morador habituado a estas paragens, e que estava atuando como meu guia e conselheiro. Ela pareceu estar feliz com nossa companhia, não que estivesse solitária, já que tais coisas não existem neste reino, mas ela tinha tido poucos amigos enquanto esteve na terra e sempre vivera uma vida algo solitária, apesar de nunca, neste caso, ter sido indiferente ou desligada dos problemas e das dores dos outros. Desde que chegou ao mundo espiritual encontrou muitas almas gentis, de disposição similar à dela, e supôs que estaríamos no mesmo caso. Contei a ela rapidamente alguns fatos sobre mim, e porque estava ainda usando minha vestimenta - quero dizer, seu duplo! – ela soube, mais ou menos, a que me dediquei prossionalmente. Estando meu amigo vestido similarmente, ela disse, rindo, que se sentia em mãos seguras. Recorri à minha mente sobre o que me havia sido dito sobre o banho, mas estava indeciso sobre como abordar o assunto da necessidade de equipamento para tal propósito. Entretanto, meu amigo salvou a situação ao referir-se ele mesmo sobre isso. Tudo do que precisávamos para o propósito de nos deliciar num banho era a necessária água na qual nos banharíamos! Nada poderia ser mais simples. Devíamos entrar na água precisamente como estávamos. Saber nadar ou não, não traria consequências. Devo dizer que quei espantado com esta estranha saída dos procedimentos usuais, e naturalmente hesitei um pouco. Entretanto, meu amigo calmamente caminhou para dentro do lago, até que cou completamente imerso, e nós dois seguimos seu exemplo. O que eu esperava como resultado disso, não posso dizer. Pelo menos antevia o efeito costumeiro das águas cobrindo alguém, em circunstâncias similares na terra. Grande, então, foi minha surpresa – e meu alívio – quando descobri que a água, ao invés de líquido penetrante, mais parecia um manto tépido colocado em torno de mim. O efeito magnético da água era semelhante ao do riacho no qual eu havia colocado minha mão, mas aqui a força revitalizadora envolveu todo o corpo, dando-lhe nova vida. Era deliciosamente morna e permitia a utuação. Era possível car em pé dentro dela e, claro, afundar completamente abaixo da superfície sem o menor desconforto ou perigo. Se eu tivesse parado para pensar, teria sabido que isso seria impossível. O espírito é indestrutível. Mas além desta inuência magnética havia uma adicional segurança que vinha da água, que era a amizade em sua essência, se assim posso dizer. Não é fácil transmitir nada desta experiência fundamentalmente espiritual. Que aquela água era viva, não havia dúvida. Respirava-se sua bondade ao contato com ela, e estendia sua inuência celestial individualmente a todos que adentravam nela. Por mim, senti uma exaltação espiritual, assim como uma renovação vital, de tal envergadura que esqueci minha hesitação inicial e o fato de que estava totalmente vestido. Agora parecia uma situação bastante natural, e melhorava ainda ao observar meus dois companheiros. Meu amigo, claro, estava completamente acostumado à água, e nossa nova amiga parecia ter se acomodado rapidamente aos novos usos. Minha mente não se perturbou quando relembrei que quando retirei minha mão do riacho e a água saiu toda, deixando-a seca. Já estava preparado, então, para o que aconteceria quando saísse do lago. Quando saí, a água meramente escorreu, deixando minha roupa do jeito que estava antes. Penetrara no material da mesma forma que o ar ou a atmosfera da terra fariam, mas não deixara nenhum efeito visível ou palpável. Nós e nossas roupas estávamos perfeitamente secos! E agora mais uma palavrinha sobre a água. Era límpida como cristal, e a luz reetia, deslumbrantemente, cores brilhantes a qualquer movimento ou pequena ondulação. Era incrivelmente suave ao toque, e sua utuação era a mesma da atmosfera, ou seja, suportava o que estivesse nela ou sobre ela. Como por aqui é impossível cair acidentalmente, como na terra acontece, da mesma forma é impossível afundar na água. Todos os nossos movimentos são respostas diretas da nossa mente, e não podemos nos machucar ou sofrer acidentes. Isto é, tenho bastante diculdade em dar-lhes uma descrição de algumas dessas coisas sem avançar o limite das mentes e das experiências humanas. Tudo tem que ser testemunhado primeiramente, para que se possa ter uma ideia adequada das maravilhas destes reinos. Uma curta caminhada nos trouxe até a igreja que eu havia visto à distância e expressei o desejo de visitar. Era uma construção de tamanho médio em estilo gótico, parecendo uma familiar igreja parisiense da terra. Estava situada em uma agradável localidade, parecendo mais espaçosa pela ausência de qualquer grade ou muro que denisse seus limites eclesiásticos. A superfície das pedras com que era construída tinha a aparência e a textura de um prédio novo, mas, de fato, existia há muitos anos da medida de tempo da terra. Sua limpeza exterior apenas estava em consonância com todas as coisas por aqui – não há decadência. Também não há atmosfera poluída que cause escurecimento ou descoloração! Não havia, claro, nenhum cemitério agregado. Mesmo que algumas pessoas apeguem-se tão tenazmente às suas velhas predileções religiosas terrenas, é difícil pensar que, ao construírem uma igreja para reunirem-se, incluiriam também um cemitério totalmente inútil!

Perto da porta principal havia o costumeiro quadro de avisos, mas este apenas noticiava o tipo de serviços, que eram os da Igreja Estabelecida. Não havia menção ao horário dos serviços, e quei imaginando como uma congregação deste tipo poderia reunir-se onde o tempo, como é conhecido na terra, não existe. Pois aqui não há noite ou dia por onde poderia ser medido o tempo ao alternarem-se. É perpetuamente dia. O grande sol celestial brilha eternamente, o que já lhe contei. Também não temos outra forma de contagem de tempo que os force a uma consciência terrestre – como, por exemplo, fome ou fadiga. Nem mesmo na medida mais longa da passagem de tempo, como a idade do corpo físico e o entorpecimento das faculdades mentais. Não temos as costumeiras estações de primavera, outono ou inverno. Ao invés disso, deliciamo-nos com a glória do eterno verão – e jamais nos cansamos! Como sempre, voltei-me para meu amigo para informar-me sobre esse tópico de reunião da congregação. Reunir as pessoas para a igreja era muito simples, disse. Quem for o encarregado deve enviar seus pensamentos para sua congregação, e os que querem vir, virão! Não havia a necessidade do toque de sinos. As emissões do pensamento eram mais minuciosas e exatas! É simples, se a congregação tiver interesse. Eles devem simplesmente esperar até que o pensamento os atinja, ou pela chamada direta, ou pelo desejo de assitirem. Mas onde o clérigo obtém a indicação de que se aproxima a hora dos serviços? Esta pergunta, disseram-me, levava a um problema maior. Na ausência da contagem do tempo no mundo espiritual, nossas vidas são ordenadas pelos eventos; eventos são, portanto, parte de nossas vidas. Eu não me rero às ocorrências acidentais, mas àquilo que, na terra, seria chamado de acontecimento periódico. Temos muitos deles por aqui, espero poder mostrar-lhe à medida que prossigamos e, ao fazer isso, verá como certos acontecimentos, individual ou coletivamente, são trazidos claramente às nossas mentes. O estabelecimento desta igreja que agora inspecionamos assistiu também a um crescer gradual de uma ordem regular de serviços, como aqueles que pertencem a esta seita em particular na terra estão familiarizados. O clérigo que atua como pastor neste estranho rebanho sentiria, pelas suas obrigações na terra, a aproximação do 'dia' costumeiro e da 'hora' em que os serviços aconteciam. Seria, a este respeito, instintivo. Ainda mais, tornar-se-ia mais forte com a prática, até que esta percepção mental assumisse regularidade absoluta, como é considerada na terra. Com isto rmemente estabelecido, a congregação tem apenas que esperar pelo chamado de seu ministro. O quadro de avisos dava uma lista dos serviços comumente vistos numa igreja da mesma seita na terra. Um ou dois itens estavam notavelmente ausentes, entretanto; os que se relacionam ao casamento e ao batismo. A primeira omissão eu podia entender; a última poderia implicar que o batismo era desnecessário, já que somente os batizados alcançavam os céus – onde presumivelmente eles julgavam que esta igreja estivesse situada! Entramos, e nos encontramos em uma construção agradável, convencional em sua planta, e contendo pouco do que já não seja visto em qualquer igreja da terra. Havia algumas janelas lindas em mosaico, representando cenas das vidas de 'santos', através das quais a luz ltrava uniformemente para todos os lados da igreja ao mesmo tempo, produzindo um estranho efeito no ar com as cores dos vidros das janelas. Providenciar um sistema de aquecimento era, claro, supéruo. Havia um belo órgão em uma extremidade, e o altar principal, construído em pedra, era ricamente entalhado. Exceto ele, havia uma certa simplicidade que de maneira nenhuma diminuía a beleza no total, como peça arquitetônica. Em todos os lugares havia evidências de cuidados pródigos dispensados a tudo, o que, considerando-se onde a igreja fora construída, não surpreende se relembrarmos a graça pela qual a igreja anal pode existir! Sentamo-nos por instantes, no ar calmo e pacíco que encontramos por toda parte, e então decidimos que já havíamos visto tudo o que havia para ser visto, e então saímos. IV. CASA DE REPOUSO Conforme caminhamos, dois de nós ponderavam a respeito do que havíamos visto – e suas implicações. Nossa jovem amiga – que nos contou que seu nome era Ruth – formulou-nos várias perguntas, mas abstive-me de responder, já que eu mesmo era apenas um recém-chegado, em favor de meu amigo, cujo nome – Edwin – omiti até agora. Ruth, pelo que parecia, nunca foi uma “devota” ativa ainda na terra, mas era uma alma gentil, como era fácil de se constatar, e era fácil de constatar, também, que seu afastamento da igreja não zera diferença nenhuma quanto ao seu destino nal sob o ponto de vista terreno. Sua dedicação ao próximo havia feito mais pelo seu bem estar espiritual do que todos os exteriorismos da religião congregacional, os quais são, frequentemente, apenas exteriorismos. Tanto quanto eu, ela cou muito surpresa ao encontrar, aqui no mundo espiritual, a parafernália completa da religião ortodoxa. Edwin disse-lhe que ela apenas havia visto um exemplo até aqui, haveria muitos outros. Ao vermos este, entretanto, já se tinha visto todos eles, mais ou menos. Cada denominação, é claro, se prende ao credo em particular e suas formulações, tal como na terra, com umas poucas pequenas diferenças, como já vimos. Esta sonolência espiritual não é novidade no mundo dos espíritos. A culpa é do mundo encarnado. As travas e as controvérsias religiosas estão no fundo de toda a ignorância e da falta de conhecimento que tantas pessoas trazem para o mundo espiritual, e se as mentes de tais pessoas são teimosas, e se realmente elas são incapazes de pensarem por si mesmas, então realmente permanecerão algemadas aos estreitos pontos de vista religiosos, pensando que são toda a verdade, até que o dia do despertar espiritual amanheça para eles. Verão, então, que sua adesão servil aos seus credos estava retardando-os. É para se lamentar que, para cada um que abandona para sempre estas congregações extraviadas, outro virá preencher seu lugar – até que chegue o tempo em que toda a terra saiba a verdade sobre o mundo espiritual. Claro que elas não causam dano à medida que estejam, por aqui, retardando seu próprio progresso espiritual. Uma vez que percebam o que estão fazendo a si mesmos, dando então o primeiro passo adiante, sua alegria é ilimitada. Perceberão o 'tempo' que aparentemente desperdiçaram. Agora se pode perguntar se, com o adquirir de conhecimento e da verdade, colocadas de lado estas extensões das religiões terrenas no mundo espiritual, o que se colocaria no lugar? Soa como uma condenação à adoração comunal. Absolutamente. Temos nossas reverências comunais aqui, mas são livres de qualquer traço sem sentido dos credos, doutrinas ou dogmas. Adoramos o Grande e Eterno Pai em verdade, absoluta verdade. Temos um pensar, e apenas um. E ninguém é chamado a crer cegamente – ou declarar que o faz – algo que é totalmente incompreensível a qualquer mente. Há muitas, muitas coisas aqui que não entendemos – e levará eras antes que venhamos a ter um rápido relance sobre tal entendimento. Mas não somos cobrados a entender essas coisas; pedem-nos que as conduzamos da forma que são. Não faz diferença ao progresso do espírito. Temos que poder progredir bastante – e ainda mais além – antes de precisarmos pensar a respeito do entendimento sobre tais assuntos. E assim temos uma só mente em nossa adoração ao Supremo. Discutimos assuntos como esse – e era Edwin que expunha – enquanto andávamos no maravilhoso ar do céu de Deus.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.