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Capítulo 23 de 34

V. Posição Geográfica — parte 2 de 4

A Vida nos Mundos Invisíveis – Volume 1

Se iniciarmos nosso mundo do espírito no mais recôndito recesso deste quadro terreno das cavernas subterrâneas, podemos ver como cada um dos reinos está conectado com o reino imediatamente acima. A analogia terrena é, claro, elementar, mas o processo e o princípio são os mesmos. A transição no mundo espiritual de um reino para outro é literal – tão literal quanto passar de uma caverna escura para a luz do sol lá fora, tão literal quanto andar de um quarto a outro em sua casa, para o andar de cima ou de baixo. Para passar deste reino onde vivo para o próximo superior, vejo-me andando ao longo de uma leve subida. À medida que prossigo, vejo todos os sinais inconfundíveis – e os sinto – de um reino de renamento espiritual maior. Eventualmente chegarei a um ponto de minha caminhada onde não mais poderei seguir, porque me sentirei inconfortável espiritualmente. Se eu fosse estúpido o suciente para tentar desaar estes sentimentos, caria, nalmente, completamente incapacitado de arriscar um só passo adiante, sem sentir sensações que possivelmente não aguentaria. Não conseguiria ver mais nada adiante de mim, somente o que cou para trás. Mas se estamos em cima de uma destas fronteiras, ou se camos bem nos conns de nosso reino, aparece uma certa linha na ponte entre os dois reinos, onde o superior torna-se invisível aos olhos dos de menor espiritualidade. Da forma que certos raios são invisíveis aos olhos humanos, e certos sons e notas musicais são inaudíveis para os ouvidos terrenos, assim é nos reinos superiores, aos habitantes dos reinos inferiores. A razão é que cada reino possui um timbre vibracional mais elevado que o anterior e, por isso, é invisível e inaudível aos que vivem abaixo. Desta forma, podemos ver outra lei natural operando para o nosso benefício. VI. OS REINOS INFERIORES Há uma esfera muito brilhante e bela no mundo espiritual, à qual foi dado o título pitoresco e muito apropriado de “Terra do Verão”. As regiões trevosas deviam ser chamadas de “Terra do Inverno”, exceto pelo fato do inverno da terra ter uma grandeza toda sua, enquanto que não há nada mais que abominação nos reinos inferiores do mundo espiritual. Até aqui eu apenas mencionei brevemente os reinos escuros, levando você apenas ao limite, mas, em companhia de Edwin e Ruth, realmente penetrei nas profundezas destas regiões. Não é um assunto agradável, mas fui advertido de que os fatos seriam apresentados, não com a intenção de assustar as pessoas – isso não é o método nem a vontade do mundo espiritual – mas para mostrar que tais lugares existem somente em virtude de uma lei inexorável, a lei de causa e efeito, a colheita espiritual que sucede à semeadura terrena; para mostrar que sair da justiça moral no plano da terra é encontrar a justiça estrita e inexível no mundo espiritual. Conforme seguimos lentamente de nosso reino em direção a estes planos tenebrosos, vemos que uma lenta degradação acontece no campo. As ores cam raras e desnutridas, dando a impressão de batalharem pela existência. A grama é crestada e amarela, até que, com as últimas ores doentias remanescentes, nalmente desaparece, para serem substituídas pelas rochas estéreis. A luz diminui continuamente, até nos vemos numa terra cinzenta, e então vem a escuridão – profunda, negra, impenetrável escuridão; isto é, impenetrável aos que espiritualmente são cegos. Os visitantes dos planos superiores podem ver nesta escuridão sem serem vistos pelos habitantes dali, a menos que se torne vitalmente necessário indicar a presença. Nossas visitas nos levaram ao que acreditamos ser o plano mais baixo da existência humana. Começamos a descer passando por um cinturão de neblina que logo encontramos quando o solo torna-se duro e estéril. A luz rapidamente encolheu, os habitantes eram cada vez mais escassos, até não se ver mais ninguém em lugar algum. Áreas enormes de rocha semelhante a granito estendiam-se diante de nós, frias e repulsivas, e a 'estrada' que seguíamos era dura e com precipícios. Nesta hora a escuridão nos envolvia, mas ainda podíamos ver as redondezas perfeitamente bem. É uma experiência bem estranha esta, de poder ver na escuridão, e quando se vai para lá pela primeira vez, parece haver um ar de irrealidade. Mas, de fato, é bem real. Enquanto escalamos, descendo através de uma das inúmeras ssuras nas rochas, podíamos ver e sentir o lodo repugnante que cobria toda a superfície delas, verde na cor e de cheiro insuportável. Não havia, claro, risco de que caíssemos. Seria impossível para qualquer um dos habitantes destes reinos. Depois de termos descido aquilo que parecia ter sido uma grande distância, – imagino que uma milha na medida da terra, pelo menos - vimo-nos numa cratera gigantesca de muitas milhas de circunferência, cujas laterais, traiçoeiras e ameaçadoras, elevavam-se sobre nós. A totalidade desta área estava intercalada com altos maciços de pedras, como se algum enorme cataclismo ou deslizamento as tivesse rompido do alto da borda da cratera e lançado para as profundezas abaixo, para se espalharem em todas as direções, formando cavernas naturais e túneis. Nossa posição atual era sobre este mar de rochas e observávamos uma nuvem densa de vapor venenoso elevando-se dele, como se houvesse um vulcão abaixo e no ponto de erupção. Se não estivéssemos com ampla proteção, sentiríamos esta fumaça sufocante e mortal. Como estávamos, não nos fez mal algum, apesar de que podíamos perceber o grau de malignidade de todo o lugar através de nossas faculdades intuitivas. Podíamos ver vagamente através deste miasma o que poderiam ser seres humanos, rastejando como bestas sobre a superfície das rochas. Não pudemos perceber, Ruth e eu, que eram humanos, mas Edwin nos assegurou que quando estiveram na terra como humanos, comeram e dormiram, e respiraram o ar da terra, mesclados a outros homens. Mas viveram uma vida de infâmia espiritual. E na morte de seus corpos físicos, foram para sua verdadeira habitação e seu verdadeiro estado no mundo espiritual. O vapor exalado parecia amortalhá-los de nossa visão, e descemos até estarmos nivelados com o topo das rochas. Expressei minha vontade de ser levado por Edwin para onde quer que ele achasse que seria melhor para o meu propósito, e como ele sabia que poderia aguentar quaisquer visões que teria, fomos mais perto de algumas destas criaturas atrozes. Ruth estava nos acompanhando e, desnecessário dizer, nunca teria sido permitido a ela que entrasse nestes reinos nocivos se não se soubesse, sem sombra de dúvida, que ela era completamente capaz do mais alto grau de autocontrole e fortaleza. De fato, não só quei encantado com sua compostura, como também profundamente agradecido por tê-la ao meu lado.

Caminhamos para mais perto de uma daquelas formas sub-humanas que estavam deitadas nas rochas. O que ainda restava de suas roupas poderia ser dispensado, pois eram apenas trapos que ainda se conservavam unidos não se sabe como, deixando à mostra partes do corpo aparentemente necrosadas. Os membros eram mal cobertos por uma pele que mal escondia os ossos. As mãos tinham a mesma aparência das presas de aves de rapina, com unhas tão longas que se tornaram verdadeiras garras. A face deste monstro apenas lembrava um ser humano, de tão distorcida e malformada. Os olhos eram pequenos e penetrantes, mas a boca era enorme e repulsiva, com lábios grossos e salientes, colocados numa mandíbula prognata que mal ocultava os tocos de dentes. Olhamos longa e seriamente este triste destroço do que fora um dia um ser humano, imaginando quais teriam sido as contravenções terrenas que o reduziram a este estado terrível de degeneração. Edwin, que era tão experiente em tais visões, disse-nos que com o tempo ganharíamos certo conhecimento neste trabalho, o que nos permitiria ler nas faces e nas formas destas criaturas o que as teria reduzido a este estado atual. Não haveria necessidade de abordá-los para descobrir alguma coisa das histórias de suas vidas, já que ali estavam para que os experientes as lessem. Sua aparência verdadeira, também, seria um guia seguro quanto a sabermos se precisam de socorro, ou se ainda estão contentes em morar neste estado tão baixo. O objeto que agora está diante de nós, disse Edwin, merece pouca simpatia já que estava ainda imerso em sua iniquidade, e não estava, obviamente, mostrando nem o menor traço de arrependimento por sua repugnante vida terrena. Estava confuso com sua perda de energia física, e quebrando a cabeça para descobrir o que lhe acontecera. Sua face mostrava que, dada a oportunidade, continuaria com suas práticas usando cada restinho de poder que tivesse. Estava há vários séculos no mundo espiritual, o que poderia ser constatado pelos poucos farrapos de seu traje, que demonstrava ser de épocas antigas, e ele despendera a maior parte de sua vida terrena inigindo torturas mentais e físicas os que tiveram o azar de cair em suas presas malévolas. Cada crime que cometera contra outra pessoa tinha, nalmente, revertido e caído sobre ele. Ele agora tinha, diante dele, – e fazia centenas de anos – a memória, a indelével memória de cada ato de maldade que perpetrou contra seus companheiros. Quando ele esteve na terra, atuou com falsas argumentações ao administrar justiça. Verdadeiramente, a justiça dele não foi nada mais que uma caricatura, e agora ele estava vendo exatamente o que a justiça signica. Não era somente a sua vida de maldades constantes que estava diante dele, mas os rostos de suas muitas vítimas passavam sempre por sua mente, externados pela mesma memória que está registrada infalivelmente e para sempre em seu subconsciente. Ele não poderá jamais esquecer; deverá lembrar-se, sempre. E sua condição era agravada por uma raiva semelhante à de um animal preso numa armadilha. Ficamos juntos, pequeno grupo de três, mas não pudemos sentir nenhum simples vestígio de simpatia por este monstro desumano. Ele não despertava nada em nós. Estava recebendo apenas os seus méritos – nem mais, nem menos. Ele julgou a si mesmo, e condenou a si mesmo, e agora estava sofrendo a punição que tinha, apenas e inteiramente, dado a si. Aqui não era o caso de um Deus vingador inigindo uma punição digna um pecador. O pecador estava ali, realmente, mas era a manifestação visível da lei inalterável de causa e efeito. A causa estava na sua vida terrena; o efeito estava em sua vida espiritual. Se pudéssemos detectar um mínimo lampejo de luz – é uma luz real a que vemos – que é um sinal inconfundível de atividade espiritual interna, poderíamos ter feito algo por este espírito. Da forma como ele estava, não podíamos fazer nada a não ser desejar que um dia este ser terrível clame por socorro com verdadeira seriedade e sinceridade. Seu chamado será atendido – infalivelmente. Fomos embora dali, e Edwin levou-nos por uma abertura da rocha para quase o nível do solo. Podíamos ver que esta parte da cratera era mais densamente povoada – se pudermos usar o termo 'povo' com os que vimos ali. Os habitantes estavam ocupados de forma diversa: alguns estavam sentados em pequenos pedregulhos, e tinham toda aparência de estarem conspirando juntos, mas sobre qual projeto maligno falavam, era impossível dizer. Outros estavam em pequenos grupos que torturavam, de forma que não vou descrever, os mais fracos deles que, de alguma forma, caíram nas mãos de seus torturadores. Seus gritos eram insuportáveis de se ouvir, por isso fechamos nossos ouvidos a eles, rme e efetivamente. Seus membros eram indescritivelmente destorcidos e malformados e, em alguns casos, seus rostos e cabeças involuíram até uma mera forma zombeteira de semblante humano. Observamos outros estendidos no chão, como se estivessem exaustos pelas torturas que aconteceram, ou porque gastaram suas últimas energias ao torturarem, esperando retomar, com as forças renovadas, as barbaridades. Espalhados por esta grande região terrível, havia lagos de alguma espécie de líquido. Parecia viscoso e espesso, de inexprimível sujeira. Edwin disse-nos que o fedor que vinha destas lagoas estava combinando com tudo o mais que havíamos visto por ali, e avisou-nos seriamente que nem sonhássemos experimentar aquilo. Seguimos à risca sua advertência. Ficamos horrorizados ao vermos sinais de movimento em algumas das lagoas, e adivinhamos, sem que Edwin nos contasse, que os habitantes dali escorregavam e caíam para dentro delas. Não se afogam, porque são indestrutíveis como nós. Testemunhamos todas as formas de bestialidades, brutalidades, barbaridades e crueldades que a mente quase não pode contemplar. Não é o meu propósito nem meu desejo dar a você um quadro detalhado do que vimos. Alcançamos, sem dúvida, o último degrau desta escalada, mas dei detalhes sucientes do que pode ser encontrado nestes reinos de treva. E agora você perguntará: como isso acontece? Como ou por que se permite que tais lugares existam? Talvez o assunto torne-se mais claro quando eu lhe disser que cada espírito que vive naqueles lugares horríveis viveu um dia no plano da terra. O pensamento é terrível, mas a verdade não pode ser alterada. Não pense, nem por um momento, que exagerei na minha breve descrição destas regiões. Asseguro-lhe que não o z. De fato, dei-lhe uma indicação incompleta. Todas estas regiões indignas existem em virtude da mesma lei que governa os planos de beleza e alegria. A beleza do mundo espiritual é a expressão externa e visível da evolução de seus habitantes. Quando alcançamos o direito de possuirmos coisas belas, elas nos são dadas pelo poder da criação. Neste sentido, pode ser dito que as criamos. Beleza de mente e nas ações não podem produzir nada que não seja beleza, e aqui temos ores de beleza celestial, árvores e bosques; rios, riachos e mares de águas puras, claras e cristalinas, prédios magnícos para a alegria e o benefício de todos nós, e nossas casas individuais, onde podemos nos cercar de mais belezas ainda, e gozar das delícias de uma conversa alegre com nossos companheiros.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.