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Capítulo 15 de 34
V. Salões De Aprendizado — parte 7 de 8
A Vida nos Mundos Invisíveis – Volume 1
Finalmente ele se aquietou e pareceu mais tratável, e então ele e Edwin tiveram uma conversa privada. Ao nal, o homem disse a Edwin que pensaria no assunto e que chamasse se quisesse, e que trouxesse seus amigos com ele. Observei que estava quase chegando a ser amável – mas não muito. Era como se estivesse relutante em se submeter a ser agradável. Ficou na frente da casa, observando-nos sair, até quase sumirmos de vista. Edwin parecia encantado com a nossa visita, e então deu algumas particularidades do estranho homem. Ele era espírito há algum tempo, disse ele, e em sua vida terrena tinha sido um homem de negócios de algum sucesso – sucesso, da forma como o plano terreno julga tal palavra. Não pensara em mais nada a não ser em seus negócios, e sempre considerou que qualquer meio justicaria ganhar seus lucros, tidos como legais. Era rude nas negociações com outros, e punha a eciência ao nível de um deus. Em sua casa todas as coisas – e pessoas – eram subservientes a ele. Doava generosamente para caridade, onde houvesse forma de se obter maior vantagem ou créditos. Dava suporte à sua própria igreja e à religião com vigor, regularidade e fervor. Achava que era um ornamento da igreja, e que era muito estimado por todos que o conheciam. Construiu algumas partes dela por sua conta, e uma capela ganhou seu nome depois de ter sido o doador. Mas pelo que Edwin pôde perceber de sua história, raramente praticou um ato decente e desprovido de egoísmo, em toda a sua vida. A motivação era sempre seu próprio engrandecimento, e atingira seu propósito na terra, com custo para sua vida no mundo espiritual. Agora, seu ressentimento era que, depois de ter vivido vida tão exemplar – na sua própria estimativa - foi condenado a viver em tamanha esqualidez. Recusava-se a ver que se condenara a si mesmo a isso, e que não havia outro a responsabilizar, a não ser ele próprio. Reclamava que a igreja o havia enganado o tempo todo, já que os óbolos tinham sido recebidos em tão grande estilo; ele acreditou que suas dádivas à igreja pesariam bastante a seu favor no 'além'. De novo, não conseguia enxergar que é o motivo que conta, e que um estado feliz no mundo espiritual não pode ser comprado por preço caro. Um pequeno serviço prestado a um companheiro mortal, generosamente e de boa vontade, edica mais espiritualmente, para a glória de Deus, do que grandes somas de dinheiro gastas em tijolos eclesiásticos ou cimento, erigidos para a glória do homem – com ampla ênfase sobre o doador. O estado atual deste homem era o de raiva, que era enorme, porque ele jamais negara nada enquanto estivera na terra. Jamais se acostumaria a tais circunstâncias tão degradantes como as atuais. Suas diculdades aumentavam pelo fato de não saber bem a quem culpar. Esperando altos prêmios, fora lançado às profundezas. Não havia feito amigos verdadeiros. Parecia que não havia ninguém – de sua posição social, disse ele – que poderia aconselhá-lo sobre a situação. Edwin tentara fazê-lo raciocinar, mas ele estava num estado mental irracional, e tinha estado assim por muito tempo. Tivera poucas visitas porque repelira a todas e, apesar de Edwin tê-lo visitado muitas vezes, o resultado era sempre o mesmo – um apego vigoroso ao senso de injustiça. Depois da última chamada de Edwin, em companhia de Ruth e minha, e com o amigo que encontramos no caminho, havia sintomas distintos de uma mudança acontecendo. Eles ainda não se manifestavam, mas conforme nossa visita chegou ao nal, ele mostrou sinais de abrandamento de sua atitude obstinada. E Edwin estava certo de que isso se devia mais à presença suave de Ruth do que seus próprios poderes de fazê-lo raciocinar. Estava certo, também, de que se voltássemos para lá em nosso caminho de volta, encontra-lo-íamos em um estado mental diferente. Ele não gostaria de admitir tão cedo que a culpa tinha sido só dele, mas a perseverança trabalhando fará maravilhas. Ruth estava naturalmente encantada com o que pudera ser útil, e tão rápido, apesar de que colocava de lado qualquer argumento de ter feito qualquer coisa a não ser car ali como observadora. Edwin, entretanto, apontou-lhe que, enquanto ela diz não ter feito nenhuma ação exterior, mostrara uma piedade real e pena deste infeliz. Isto explicava seus olhares frequentes a ela. Ele sentira aquela comiseração, e isso lhe tinha feito muito bem, apesar de não perceber a causa dela. E aqui Ruth me pede que acrescente que a sua pequenina parte teria sido pouco útil na evolução do caso deste homem, se não fosse pelo trabalho longo e incessante de Edwin em seu favor. Este fora nosso primeiro encontro com desafortunados das esferas inferiores e, de qualquer forma, quero dar detalhes dele. Foi direto, em muitos aspectos, em comparação com o que encontramos mais tarde, e, ao recontá-lo, tive que fazer assim porque era uma introdução ao nosso trabalho futuro. Por agora, entretanto, não era esperado que zéssemos nada a não ser nossas observações nos reinos trevosos. Nós quatro retomamos nossa jornada. Não havia caminhos para seguir, e o chão estava se tornando pedregoso. A luz estava rapidamente escurecendo, vinda de um céu que estava pesado e escuro. Não havia viva alma, nem uma casa sequer, nem um sinal de vida para ser visto. Todo distrito parecia sem cor e vazio, e devíamos estar vagando por outro plano. Mal pudemos ver adiante de nós, depois de algum tempo, algo com a aparência de uma habitação, e fomos naquela direção. O terreno agora era de pedras e nada mais, e aqui e ali podíamos ver pessoas sentadas com as cabeças abaixadas, parecendo quase sem vida, mas na realidade nas profundezas da tristeza e do desespero. Não nos perceberam enquanto passávamos por eles, e logo chegamos às habitações que avistamos de longe. IX. OS REINOS TREVOSOS Ao vermos de perto, cou claro que estas habitações nada mais eram que choupanas. Tristes de se ver, mas era innitamente mais triste encarar que eram os frutos da vida dos homens na terra. Não entramos em nenhuma destas cabanas – eram por demais repulsivas por fora, e em nada seríamos úteis agora se entrássemos. Em vez disso, Edwin deu-nos alguns detalhes. Alguns dos habitantes, disse, moram aqui, ou por aqui, ano após ano – segundo a contagem de tempo da terra. Eles não tinham o senso de tempo, e sua existência era uma indenida permanência na escuridão, por culpa unicamente deles mesmos. Muitos eram as boas almas que penetraram nestes tipos de planos para tentar efetivar uma retirada das trevas. Alguns haviam sido bem sucedidos; outros, não. O sucesso não depende tanto do socorrista, mas mais do socorrido. Se este último não apresentar nem um vislumbre de luz em sua mente, nem um desejo de dar um passo adiante na estrada espiritual, então nada, literalmente nada, pode ser feito. O desejo deve sair de dentro da alma caída. E quão baixo alguns deles caíram! Não deve se supor que aqueles que, no julgamento dos da terra, caíram espiritualmente, tenham-no feito tão baixo. Muitos nem caíram de fato, mas são, no cerne da questão, almas merecedoras cujo galardão os espera aqui. Por outro lado, há os que em suas vidas terrenas praticaram horrores espiritualmente, apesar de que, exteriormente, foram sublimes; cuja prossão religiosa outorgada por um colarinho romano foi tomada como sinônimo de espiritualidade. Zombaram de Deus em suas vidas santarronas na terra, onde viveram em vazias encenações de santidade e bondade. Aqui se encontram, revelados pelo que são. Mas o Deus a Quem zombaram por tanto tempo não pune. Eles punem-se a si mesmos!
As pessoas que moram nestes casebres pelos quais passamos não eram, necessariamente, os que na terra teriam cometido algum crime aos olhos do povo da terra. Havia muitos que, sem terem feito nenhum mal, jamais zeram um bem sequer a um simples mortal sobre a terra. Pessoas que viveram sempre para si mesmas, sem um pensamento dirigido aos outros, tais almas constantemente harpejam o refrão que jamais zeram o mal a alguém. Mas prejudicaram a si próprios. Como as esferas mais altas criaram todas as belezas daqueles reinos, aqui os habitantes destas esferas inferiores construíram as condições intimidantes de sua vida espiritual. Não havia luz nestes reinos mais baixos; nenhum calor, vegetação, nem belezas. Mas há esperança - esperança de que cada espírito dali queira evoluir. É poder de cada um, fazê-lo, e nada há em seu caminho, a não ser ele mesmo. Pode levar incontáveis milhares de anos para elevarem-se espiritualmente em uma só polegada, mas já uma polegada na direção certa. O pensamento inevitavelmente veio em minha mente, sobre a doutrina da eterna condenação, tão amada pelas religiões ortodoxas, e dos fogos do assim chamado inferno. Se o lugar em que estávamos agora pudesse ser chamado de inferno - e sem dúvida seria pelos teologistas - então certamente não havia evidências de fogo, ou calor de qualquer espécie. Ao contrário, não havia nada sem ser uma fria e escura atmosfera. Espiritualidade signica calor no mundo espiritual; falta de espiritualidade signica frio. Toda a fantástica doutrina do fogo do inferno – um fogo que arde, mas nunca se consome – é uma das mais ultrajantes doutrinas estúpidas e ignorantes que foi inventada por clérigos igualmente estúpidos e ignorantes. Quem realmente a inventou, ninguém sabe, mas é fortemente mantida como uma doutrina pela igreja. Mesmo o menor conhecimento do mundo espiritual revela a impossibilidade disso, porque é contra as verdadeiras leis da existência espiritual. Isso, no que concerne no sentido literal. Que dizer da blasfêmia chocante que isso envolve? Quando Edwin, Ruth e eu estivemos na terra, tínhamos que crer que Deus, o Pai do Universo, pune, realmente pune pessoas, condenando-as a arder em chamas do inferno pela eternidade afora. Poderia haver caricatura mais grotesca de Deus, do que aquela que a ortodoxia professa idolatrar? As igrejas – de qualquer denominação – construíram uma concepção monstruosa do Celeste Pai Eterno. Por um lado, zeram d'Ele uma montanha de corrupção à boca pequena, gastando enormes quantias de dinheiro para erigir igrejas e capelas para Sua 'glória', ngindo uma contrição submissa por tê-Lo ofendido, ao declarar que temem-No – temem Aquele que é todo Amor! Por outro lado, temos o quadro de um Deus Que, sem a menor compunção, atira pobres almas humanas numa eternidade do pior de todos os sofrimentos – queimar nas chamas que são inextinguíveis. Somos ensinados a implorar com desenvoltura pelo perdão de Deus. O Deus da igreja é um Ser de humores extraordinários. Deve ser continuamente aplacado. Não é certo que, ao termos implorado o perdão, vamos conseguilo. Ele deve ser temido – porque pode atirar sua vingança sobre nós a qualquer momento; jamais sabemos quando Ele fará isso. Ele é vingativo e jamais perdoa. Manda tantas trivialidades que estão incorporadas nas doutrinas e dogmas da igreja, que logo expõe não uma grande mente, mas pequena. Fez o portal para a 'salvação' tão estreito, que poucos, muito poucos estarão aptos a atravessá-lo. Construiu no plano terreno uma vasta organização conhecida como “a Igreja”, para ser a única depositária da verdade espiritual – uma organização que não sabe praticamente nada do modo de vida no mundo espiritual, mesmo assim ousa colocar leis aos encarnados, ousa dizer o que está na mente do Grande Pai do Universo, e ousa desacreditar Seu Nome ao conferir a Ele atributos que jamais poderia possuir. O que tais mentes bobas e insignicantes sabem do Grande e Onipotente Pai de amor? Vejam bem! – de amor. Então, relembremos todos os horrores que já enumerei. E mais uma vez. Encaremos isso: um céu com tudo que é lindo; um céu de mais belezas que a mente de um homem poderia compreender; um céu do qual tentei descrever um mínimo fragmento, onde tudo é paz, benevolência e amor entre os companheiros. Todas essas coisas são construídas pelos habitantes destes reinos, e são sustentadas pelo Pai do Céu em Seu amor pela humanidade. Que dizer dos reinos inferiores – os lugares trevosos que agora estamos visitando? É por os estarmos visitando que comecei a falar desta maneira, porque ao estar nesta escuridão conscientizei-me da única grande realidade da vida eterna, que as esferas mais altas dos céus estão ao alcance de todas as almas mortais, isto é, nascidas na terra. A potencialidade para a progressão é ilimitada, e é o direito de cada espírito. Deus não condena ninguém. O Homem condena-se a si mesmo, mas não o faz eternamente, dá um repouso, e é quando se move para adiante, espiritualmente. Todos os espíritos odeiam os planos inferiores pela tristeza que há lá, e por outra razão. E por esta razão, grandes organizações existem para ajudar cada alma que ali habita a sair de lá, em direção à luz. E este trabalho continua através dos tempos incontáveis, até que a última alma seja trazida para fora destes lugares horrendos, e nalmente tudo esteja como o Pai do Universo queria que estivesse. Temo que isso tenha sido uma longa digressão, portanto, voltemos às nossas viagens. Devem se lembrar a minha menção aos muitos perfumes e cheiros celestiais que vêm das ores e que utuam no ar. Aqui, nestes reinos inferiores, acontece justamente o contrário. Nossas narinas primeiramente foram invadidas pelos odores mais asquerosos, odores que nos lembraram o cheiro de carniça na terra. Eram nauseantes, e temi que fossem insuportáveis para Ruth – e sem dúvida para mim, mas Edwin advertiu-nos para que tratássemos isso da mesma forma com que mascaramos a baixa temperatura – simplesmente fechando nossa mente a isso – e caríamos quase sem pensar em sua existência. Apressamo-nos a fazer isso, e obtivemos sucesso perfeitamente. Não é somente a 'santidade' que tem seu odor! Em nossos passeios através de nossos reinos, podemos aproveitar todas as incontáveis delícias e belezas, juntamente com as alegres conversas de seus habitantes. Aqui, nos planos trevosos, tudo é deserto e desolado. O grau bastante baixo de luminosidade lança uma névoa por toda região. Ocasionalmente, podíamos ver de relance faces de alguns infelizes, enquanto passávamos. Alguns eram, indubitavelmente, maldosos, mostrando a vida de vícios que tiveram na terra; alguns revelavam a miséria, a avareza, a besta bruta. Havia pessoas aqui de todas as camadas sociais da vida terrena, desde os tempos atuais, até lá para os séculos passados. E aqui há uma conexão com nomes que podiam ser lidos naquelas verdadeiras histórias das nações na biblioteca que visitamos em nosso plano. Edwin e seu amigo disseram-nos que caríamos intimidados com o catálogo de nomes, bem conhecidos da história, de pessoas que estavam vivendo aqui nas profundezas, nestas regiões infestas – homens que perpetraram vilanias e atos maldosos em nome da sagrada religião, ou pela ganância desprezível por bens materiais. De muitos desses infelizes não se podia aproximar, e cariam assim – talvez por inúmeros séculos mais – até que, por sua própria vontade ou esforço, movam-se avidamente na direção da luz do progresso espiritual. Podíamos ver, conforme andávamos, bandos de almas parecendo dementes a caminho de algum intento maldoso – se pudessem achar o caminho para tanto. Seus corpos externavam as mais repulsivas e horríveis malformações e distorções, o reexo absoluto de suas mentes malvadas. Muitos deles pareciam velhos, e disseram-me que, apesar de que talvez tais espíritos estejam ali por muitos séculos, não era a passagem do tempo que mexera em suas faces, mas suas mentes doentias. Nas esferas mais elevadas, a beleza das mentes rejuvenesce as feições, tira os sinais dos problemas e sofrimentos da terra, apresentam aos olhos o estado físico do desenvolvimento físico que, no período de nossas vidas na terra, chamávamos de 'or da idade'.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.