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Capítulo 4 de 34

Ii. Passagem Para A Vida Espiritual — parte 2 de 6

A Vida nos Mundos Invisíveis – Volume 1

Fiquei assombrado pelo fato de não haver nem sinal de muros, sebes ou cercas; na verdade nada, até onde pude ver, que demarque onde começa ou termina. Disseram-me que tais coisas, como limites, não eram necessárias, porque cada pessoa sabia instintivamente, sem sombra de dúvida, exatamente onde seu jardim terminava. Não havia, portanto, nenhuma intrusão nos terrenos de outros, apesar de serem todos abertos a qualquer um que quisesse atravessá-los ou por ali car. Eu era cordialmente bem vindo onde quer que eu fosse, sem medo de estar me intrometendo na privacidade de outrem. Disseram-me que eu deveria descobrir que essa era a regra por aqui, e que não deveria agir diferentemente a respeito dos outros que passeassem em meu jardim. Eu descrevi exatamente meus sentimentos daquele instante, pois desejava, ali e naquela hora, que todos os que quisessem pudessem visitar meu jardim e apreciar suas belezas. Pessoalmente não tinha conotação de propriedade, apesar de eu saber que era meu, para ser “assumido e cuidado”. E é precisamente essa a atitude de todos aqui – possuir algo e compartilhar ao mesmo tempo. Ao observar o maravilhoso estado de preservação e todos os cuidados com os quais o jardim era mantido, perguntei ao meu amigo sobre o gênio que cuidava dele tão assiduamente e com estes resultados tão esplêndidos. Depois de responder à minha pergunta, ele sugeriu que, como eu era recém-chegado ao mundo espiritual, seria bom que eu repousasse, ou eu não conseguiria cumprir minha visitação, anal. Propôs, portanto, que eu encontrasse um local agradável – usava tais palavras em termos comparativos, porque tudo por ali era mais que agradável – onde poderíamos nos sentar e então ele me exporia uma ou duas das muitas questões que se apresentaram a mim no curto espaço de tempo desde que eu havia passado a ser espírito. Passeamos, portanto, até encontrarmos um local muito bonito, entre os ramos de uma árvore magníca, de onde visualizávamos uma boa parte da paisagem do campo, cujo verde tão rico ondulava diante de nós e se estendia para longe. Todo o cenário estava banhado de um glorioso e celestial brilho do sol, e percebi que havia muitas casas, de muitos estilos, pitorescamente situadas, como a minha, entre árvores e jardins. Deitamo-nos na relva macia, e me espreguicei profundamente, sentindo-me como se estivesse na mais na das camas. Meu amigo perguntou-se se eu estava cansado. Eu não tinha a sensação normal de cansaço terreno, mas de alguma forma ainda sentia a necessidade de um relaxamento corporal. Ele contou-me que minha última doença era a causa desta minha vontade, e que se eu quisesse poderia passar por um estado de sono completo. Absolutamente, não sentia necessidade disso naquele instante, e disse-lhe que preferia ouvi-lo falar. E ele começou. “Aquilo que o homem semear”, disse, “ele colherá”. Estas poucas palavras descrevem exatamente o grandioso processo eterno pelo qual tudo o que você vê aqui, realmente diante de você, foi concretizado. Todas as árvores, as ores, os bosques, também as casas que são os lares felizes de gente feliz – tudo é o resultado visível de “tudo que o homem semear”. Este plano, onde eu e você habitamos agora, é o plano da grande colheita, cujas sementes foram plantadas no plano terrestre. Todos os que aqui habitam conquistaram por si mesmos precisamente a habitação que receberam através de seus atos na terra. Realmente eu estava percebendo muitas coisas, a principal delas, e que me tocava mais intimamente, era a atitude adotada, totalmente errada, pela religião em relação ao mundo espiritual. O fato verdadeiro estava ali onde eu estava, constituído de uma completa refutação de tanta coisa que pensei e sustentei durante minha vida sacerdotal na terra. Eu podia ver volumes de ensinos ortodoxos, credos e doutrinas desaparecendo, porque não têm base, porque não são verdadeiras, e porque não têm uso nem no eterno mundo espiritual nem para o grande Criador e Sustentador dele. Agora podia ver claramente o que antes era nebuloso, que a ortodoxia é feita pelo homem, mas que o Universo é dádiva de Deus. Meu amigo continuou a descrever quem eu encontraria morando nas casas que podíamos ver de onde estávamos deitados, toda sorte de pessoas e condições; pessoas cujos pontos de vista religiosos também eram variados quando estavam na terra. Mas um dos grandes fatos da vida espiritual é que as almas são, no instante em que passaram para a vida espiritual, exatamente as mesmas do instante anterior. Os arrependimentos do leito de morte não contam, já que a maioria deles nada mais é do que covardia nascida do medo do que está por acontecer – um medo do inferno teologicamente erigido, arma útil no arsenal eclesiástico e que talvez tem causado mais sofrimento por sua vez que muitas outras doutrinas errôneas. Os credos, então, não fazem parte do mundo dos espíritos, mas porque as pessoas levam com elas todas as suas próprias características ao mundo espiritual, os partidários fervorosos de alguma religião continuarão a praticá-la no mundo espiritual até o tempo em que suas mentes tornem-se espiritualmente iluminadas. Temos aqui, como amigos me informaram, - encontrei muitos deles por aqui – comunidades inteiras ainda praticando sua antiga religião terrena. O fanatismo e os preconceitos estão ali, religiosamente falando. Eles não prejudicam, exceto a si mesmos, desde que mantenham tais assuntos entre si. Não há coisas como fazer adeptos, por aqui. Se fosse o caso, então, suponho que nossa própria religião estivesse bem representada aqui. Realmente, estava! As mesmas cerimônias, o mesmo ritual, as mesmas velhas crenças, tudo é levado adiante com o mesmo zelo desperdiçado – em igrejas erigidas a propósito. Os membros destas comunidades sabem que desencarnaram, e pensam que parte de suas recompensas celestiais é continuar com suas formas de adoração feitas por homens. Assim continuarão até que venha o tempo de um despertar espiritual. Nunca haverá pressão sobre essas almas; sua ressurreição mental deverá vir por si mesmos. Quando acontece, experimentarão pela primeira vez o signicado real de liberdade. Meu amigo prometeu que, se eu quisesse, poderíamos visitar algumas corporações religiosas mais tarde, mas, sugeriu, haveria muito tempo e seria melhor que, antes de mais nada, eu me acostumasse à nova vida. Ele havia deixado sem resposta, até então, minha pergunta sobre quem seria a alma gentil que cuidava tão bem de meu jardim, mas leu meu pensamento não pronunciado, e voltou ao tema. Tanto a casa como o jardim, disse-me, eram a colheita que z por mim mesmo durante minha vida na terra. Tendo ganhado o direito de possuí-los, eu os construí com a ajuda de almas generosas que usam suas vidas no mundo espiritual em atos de bondade, servindo aos outros. Não somente era seu trabalho, mas ao mesmo tempo era-lhes verdadeiro prazer. Frequentemente tal serviço é assumido e cumprido por aqueles que, na terra, eram especialistas nisso, que amavam o que faziam. Aqui podem continuar com sua ocupação sob certas condições que apenas o mundo espiritual pode oferecer. Tais tarefas trazem-lhes recompensas espirituais, apesar de que o pensar em recompensas não está nas mentes de quem as cumpre. O desejo de servir aos outros sempre se sobrepõe. O homem que ajudou a tornar realidade este lindo jardim era um amante da jardinagem no plano terrestre, e, como pude ver por mim mesmo, também era um expert. Mas uma vez que o jardim era criado, não havia a necessidade da labuta incessante para mantê-lo, como nos grandes jardins da terra. É a constante deterioração, as pressões das

tempestades e dos ventos, e várias outras causas que demandam trabalho na terra. Aqui nada deteriora, e tudo o que cresce o faz sob as mesmas condições nas quais existimos. Contaram-me que o jardim praticamente não requeria atenções, como as que conhecemos, e que nosso amigo jardineiro ainda o manteria sob seus cuidados se eu assim o desejasse. Longe de apenas querer isso, expressei meu desejo de que ele realmente o zesse. Expressei minha gratidão pelo seu lindo trabalho e desejei poder encontrá-lo para transmitir-lhe meus sinceros agradecimentos e apreciações. Meu amigo explicou que isso era simples, e a razão por que eu ainda não o tinha encontrado era o fato de ser recente a minha chegada e ele não se intrometeria até que eu me sentisse em casa. Minha mente voltou-se novamente à minha ocupação enquanto estive na terra, a condução do serviço diário e todas as outras obrigações de um pastor da Igreja. Como tais ocupações, no que me concernia, não eram mais necessárias, confundia-me imaginar que futuro imediato estaria reservado para mim. Fui novamente relembrado de que teria tempo suciente para ponderar sobre tal tema, e meu amigo sugeriu que eu descansasse e o acompanhasse em algumas visitas de inspeção – havia muito o que ver e muita coisa que eu consideraria mais que surpreendente. Havia também inúmeros amigos que esperavam encontrar-me depois de longa separação. Ele acabou com minha ânsia de começar ao pedir que descansasse primeiro, e para tal propósito, que melhor lugar, se não a minha própria casa? Segui seu conselho, portanto, e voltamos para casa. III. PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS Já mencionei que logo que me apresentaram a minha casa espiritual observei que era a minha mesma casa terrena, mas com uma diferença. Assim que adentrei a porta, logo percebi que aconteceram várias mudanças. Estas mudanças eram na maioria estruturais, e eram exatamente da mesma forma que eu sempre quis fazer em minha casa terrena, mas que, por razões arquiteturais e outras, nunca pude fazê-las. Aqui, as necessidades da terra não existem, por isso eu encontrei minha casa espiritual, numa disposição geral, exatamente como sempre desejei que fosse. Os requisitos essenciais indispensáveis associados a uma casa da terra eram, claro, completamente supéruos aqui; por exemplo, o tema severamente mundano de se prover os corpos com comida. Este é um exemplo da diferença. E assim com outros, é bem fácil imaginar. Enquanto atravessamos vários aposentos juntos, podia ver muitos exemplos de consideração e bondade daqueles que trabalharam tão energicamente para ajudar-me a reconstruir minha velha casa em sua nova vizinhança. Enquanto dentro de suas paredes, atentei ao estar lá comparando com a que tinha deixado para trás. Mas era uma estadia que eu sabia que poderia terminar; permanente apenas enquanto eu desejasse que assim fosse. Era mais que uma mera casa; era um porto espiritual, moradia da paz, onde os cuidados e responsabilidades domésticos eram totalmente ausentes. A mobília que continha consistia em sua maioria naquela que eu tinha no original terreno, não particularmente porque fosse bela, mas porque eu a achava útil e confortável, e adequadamente ajustada aos meus parcos requisitos. A maioria dos pequenos adornos podia ser vista nos mesmos locais costumeiros, e toda a casa em geral apresentava um inconfundível ar de ocupação. Eu realmente havia “chegado em casa”. Na sala que antes era meu escritório percebi algumas prateleiras cheias de livros. Primeiramente quei surpreso ao ver essas coisas, mas pensando melhor, não pude achar razão por que, se casas assim podem existir com todas as suas variações, não haveria lugar para livros no projeto. Eu estava interessado em ver de que tipo eram os livros, por isso z um exame mais acurado. Vi que muitos deles eram meus próprios trabalhos. À medida que quei diante deles, tive a clara percepção da razão, a verdadeira razão, por estarem ali. Muitos destes livros continham aquelas narrativas de que falei antes, nas quais discorri sobre minhas experiências psíquicas, depois de dar a elas um necessário cunho religioso. Um livro em particular parecia aparecer em minha mente mais do que outros, e cheguei à completa percepção de que agora desejava nunca tê-lo escrito. Era uma narrativa distorcida, onde os fatos, como eu realmente os conhecia, receberam um tratamento injusto, e onde a verdade fora suprimida. Eu me sentia cheio de remorsos e, pela primeira vez desde a chegada a este plano, de arrependimento. Não era arrependimento de ver que tinha, nalmente, chegado ao mundo espiritual, mas era pena por, com a verdade diante de mim, deliberadamente tê-la deixado de lado e ter colocado em seu lugar falsidade e má interpretação. Eu sabia que enquanto meu nome existisse, isto é, tanto tempo quanto tivesse valor comercial, aquele livro continuaria ser reproduzido, circularia e seria lido – e tido como verdade absoluta. Eu tinha o desagradável conhecimento de que jamais poderia destruir o que z daquela forma Não havia, de forma alguma, nenhum senso e condenação sobre isso. Pelo contrário, eu podia sentir uma atmosfera distinta de uma imensa simpatia. De onde vinha, eu não sabia, mas, não obstante, era real e concreta. Vireime para meu amigo que, durante a minha inspeção e a descoberta, cou ali discretamente e, compreensivelmente, a uma pequena distância, e pedi a sua ajuda. Ele veio instantaneamente, explicou-me que sabia exatamente o que acontecia em mim, com referência a este livro, mas eximiu-se de fazer qualquer comentário em relação a ele antes que eu o descobrisse por mim mesmo. Depois que o z, e depois de meu subsequente apelo por ajuda, estava apto a vir em meu auxílio. Minha primeira questão era perguntar-lhe como poderia consertar este tema. Ele respondeu-me que havia várias formas pelas quais eu poderia fazer isso, algumas mais difíceis – mas mais ecazes – que outras. Sugeri que poderíamos voltar ao plano da terra e contar aos outros sobre esta nova vida e a verdade sobre a comunicação entre os dois mundos. Muitas, muitas pessoas, disse ele, tinham tentado, e ainda estavam tentando, fazer isso, e quantos acreditavam neles? Eu estaria pensando que teria melhor sorte? Certamente nenhum destes que leram meus livros chegaria perto de receber ou acreditar em alguma comunicação vinda de mim. E eu percebi, também, que se eu precisasse me apresentar a tais pessoas, elas logo me chamariam de 'diabo', se não o próprio Príncipe das Trevas! 'Deixe-me colocar', disse ele, 'algumas considerações antes que considere sobre comunicar-se com o mundo encarnado. Você bem sabe que isso é possível, mas tem alguma ideia das diculdades que envolvem? 'Vamos presumir que você tenha encontrado os meios para se comunicar. A primeira coisa a que você será solicitado será deixar bem clara e denida a sua identicação. Bem provavelmente, depois de sua primeira declaração sobre quem é, haverá certa hesitação em aceitarem seu nome simplesmente porque ele tinha peso quando você estava encarnado. Por mais importantes ou famosos que tenhamos sido quando estivemos no plano da terra, assim que saímos para o plano espiritual, referem-se a nós no pretérito! Qualquer trabalho literário que tenhamos deixado para trás passam a ter maior importância que os de outros autores, pois para o mundo terrestre estamos 'mortos'.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.