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Capítulo 14 de 34

V. Salões De Aprendizado — parte 6 de 8

A Vida nos Mundos Invisíveis – Volume 1

Os que assim zeram descobriram que têm a pagar um preço bastante caro pelo seu breve período de prosperidade na terra. Nem foi intenção que os dois mundos, o seu e o meu, devessem ser como agora – tão apartados em pensamento ou contato. Certamente dia chegará em que os dois mundos serão intimamente inter-relacionados, quando a comunicação entre os dois será uma coisa cotidiana da vida, e quando a grande riqueza de recursos do mundo espiritual será aberta ao mundo da terra, para acarretar benefício para toda a raça humana. A visão de tanta atividade por parte de meus companheiros habitantes deste reino fez pôr minha cabeça a pensar a respeito de meu próprio trabalho e de que forma seria. Eu não tinha ideia denida sobre isso, então mencionei meu problema a Edwin. Parecia que Ruth também estava com problema semelhante, portanto, nós dois estávamos tendo, pela primeira vez desde a nossa chegada, um pequeno sinal de desassossego. Nosso velho amigo não estava nem um pouco surpreso; estaria surpreso, disse ele, se nos sentíssemos diferente. Era uma sensação comum a todos, mais cedo ou mais tarde, de querer fazer algo útil pelo bem dos outros. Não era que nós estávamos cansados de ver o nosso próprio plano, mas que sentíamos uma consciência maior de nós mesmos. Edwin nos assegurou que continuaria com nossos passeios indenidamente, se assim desejássemos, e ninguém nos criticaria ou comentaria as nossas ações. Seria tomado como um assunto de que apenas a nós concernia. Entretanto, nós dois decidíramos que gostaríamos de colocar a questão sobre nosso futuro trabalho, e apelamos de comum acordo pela orientação de nosso bom amigo. Edwin logo sugeriu que poderíamos ir aos limites dos reinos superiores onde, recordem, ele disse que cedo poderíamos tratar desse assunto. E assim saímos do hall de ciências, e mais uma vez nos achamos nas fronteiras de nosso reino. Fomos levados a uma casa muito linda que, pela aparência e situação, era claramente de alguém de um grau mais elevado do que aquelas mais para o interior. A atmosfera era mais rarefeita e, tanto quanto pude observar, estávamos aproximadamente no mesmo lugar da primeira visita àquele limiar. Edwin levou-nos para dentro da casa com toda a liberdade do mundo, dando-nos as boas vindas. Assim que entramos, eu soube instintivamente que ele estava nos levando à sua própria casa. Estranho dizer, mas nunca havíamos perguntado sobre sua casa, ou onde estaria situada. Ele disse que, de propósito, havia tirado esse assunto de nossas mentes, mas era por sua natural timidez. Ruth estava encantada com tudo o que via, e ralhou com ele por não ter nos contado mais cedo. A casa era construída em pedra e, apesar de que ao olhar poderia parecer despojada, a amizade emanava de cada canto. Os aposentos não eram muito amplos, mas de tamanho médio, e adaptados aos propósitos de Edwin. Havia muitas cadeiras confortáveis e muitas prateleiras de livros bem alinhados. Mas era a sensação geral de calma e paz que invadia toda aquela habitação que nos impressionou mais fortemente. Edwin convidou-nos a sentar e que nos sentíssemos em casa. Não havia necessidade de termos pressa, poderíamos discutir nosso problema in extenso. Logo admiti francamente que não tinha nenhuma ideia em particular sobre o que poderia fazer. Enquanto estive na terra, fui afortunado por poder seguir minhas próprias inclinações e tive, consequentemente, uma vida ocupada. Mas meu trabalho terminara – pelo menos a esse respeito – quando terminou minha vida terrena. Então Edwin propôs que talvez eu gostasse de me juntar a ele em seu trabalho, que principalmente concernia em pegar pelas mãos os recém-chegados cujas crenças religiosas fossem da mesma que tivéramos na terra, mas que, como nós mesmos, eram incapazes de perceber a verdadeira mudança que haviam feito, e a irrealidade de sua religião. Por mais que tivesse gostado da proposta de meu amigo, não me sentia competente de conduzir tal trabalho, mas Edwin deixou de lado minha objeção. Eu trabalharia, disse ele, ao lado dele no princípio. Quando me acostumasse à tarefa, poderia continuar independentemente, se desejasse. Falando pela experiência, Edwin disse que duas ou mais pessoas – e aqui, olhou para Ruth – frequentemente ajudavam mais que apenas uma, trabalhando completamente sozinha. A quantidade de pessoas parecia ter um poder maior de convencimento sobre alguém particularmente obstinado em manter suas antigas ideias religiosas da terra. Já que Edwin sentiu que eu seria realmente ser útil a ele, quei muito feliz em aceitar sua oferta de somar às suas forças. E aqui Ruth veio colocar-se como outra candidata para servi-lo, sujeita, é claro, à sua aprovação. Não só foi instantaneamente bem-vinda, como também sua oferta foi gratamente aceita. Havia mais, disse ele, que a jovem poderia fazer, e nós três, trabalhando com esta harmonia e amizade, poderíamos cumprir juntos tarefas graticantes. Fiquei mais do que feliz por Ruth participar, já que, desta forma, nossa amizade não se desfaria. Entretanto, havia um assunto em minha mente, e era sobre aquele livro em particular que eu desejaria não ter escrito quando estive na terra. Não estava deprimido pelo pensamento xo nisso, mas queria car livre dele; sem dúvida, meu novo trabalho eventualmente me traria aquela paz de espírito completa, entretanto sentia que queria lidar com isso de maneira mais direta. Edwin descobriu o que me aigia, e relembrou-me o que já havia dito sobre as diculdades de comunicação com o mundo terreno. Mas também havia mencionado que deveríamos buscar orientação dos superiores. Se eu ainda queria tentar me comunicar, então devíamos apelar por aquela orientação e aconselhamento agora, e assim poderíamos deixar determinadas todas as questões do meu futuro trabalho. Edwin, então, deixou-nos e foi para outra sala. Mal tinha começado a conversar um momento com Ruth sobre nossa nova ocupação, quando nosso amigo retornou trazendo consigo um homem muito notável que, logo percebi, tinha vindo de uma esfera superior em resposta ao chamado de Edwin. Não parecia ser um de nossos compatriotas, e minha observação estava correta, pois ele era Egípcio, como Edwin explicou mais tarde. Falava nossa língua perfeitamente. Edwin nos apresentou e explicou meus desejos e as possíveis diculdades de seus cumprimentos. Nosso visitante tinha uma personalidade forte, e impressionou-nos pela calma e placidez. Pode imaginar que sempre esteja perfeitamente sereno. Sentamo-nos confortavelmente, e Edwin deu a conhecer toda a extensão de meu conhecimento concernente à comunicação com o mundo terreno. O Egípcio colocou-me algumas de suas considerações. Se, disse nosso visitante, eu estivesse convencido de que, pelo retorno ao plano da terra para falar, eu corrigiria a situação que estava me causando remorso, então ele faria qualquer coisa para me assistir, a m de que eu alcançasse meu propósito. Não seria possível fazer o que eu queria, entretanto, por alguns anos. Mas, neste meio tempo, eu deveria aceitar sua armativa de que eventualmente poderia me comunicar, e fez a promessa que levaria a efeito. Se eu tivesse paciência, tudo sairia como eu desejava. Eu deveria deixar tudo nas mãos dos que eram delegados para esses assuntos, e tudo estaria bem. O tempo – usando uma expressão terrena – passaria logo, e a ocorrência de certos eventos, enquanto isso, faria iluminar o caminho e proveria a oportunidade requisitada.

É de se lembrar que o que eu estava pedindo não era meramente retornar ao plano da terra para tentar registrar o fato de que ainda estava vivo! O que eu queria era tentar desfazer algo que gostaria de jamais ter feito. E era uma tarefa, podia ver, que não poderia se cumprir em um momento. O que eu escrevera jamais poderia destruir, mas poderia aliviar minha mente falando a verdade, como agora a conheço, aos que ainda estavam no plano da terra. O gentil Egípcio, então, levantou-se e cumprimentou-nos. Congratulou-nos pela forma com que nos acostumamos às nossas novas condições de vida, desejou-nos alegria em nosso futuro trabalho, independentemente de quando começasse e, nalmente, repetiu a promessa de que meus desejos particulares teriam seu cumprimento. Tentei expressar minha gratidão por toda essa ajuda, mas ele não quis nem ouvir; e, com um aceno, foi embora. Ficamos mais um pouco discutindo nossos planos – eu ansiava por começar meu trabalho. Que não se pense que nós fazíamos parte de uma campanha para converter pessoas, no sentido religioso em que esta palavra é usada na terra. Longe disso. Não interferimos nas crenças das pessoas, nem em seus pontos de vista; apenas prestamos nossos serviços quando somos requisitados em tais assuntos, ou quando vemos que, ao fazê-lo, podemos chegar a um propósito efetivamente útil. Não gastamos nosso tempo evangelizando pessoas, mas quando chega o chamado pedindo ajuda, então instantaneamente respondemos. Mas chega uma hora em que o desassossego espiritual acontecerá, e esse é o ponto de virada na vida de muitos espíritos que se apartaram e se restringiram pelas convicções erradas, tanto religiosas quanto em outros campos. A religião não é responsável por todas as ideias errôneas! É surpreendente o número de pessoas que não percebem que passaram da terra para cá, pela morte do corpo físico. Resolutamente, não acreditarão que estão aquilo que na terra chamam de 'mortos'. Percebem levemente que alguma mudança ocorreu, mas qual é a mudança, não estão preparados para dizer. Alguns, depois de uma pequena explanação, ou mesmo demonstração – conseguem atinar com o que realmente lhes aconteceu; outros são teimosos, somente serão convencidos depois de prolongada discussão. No último caso, várias vezes somos obrigados a deixar esses espíritos sozinhos por momentos, para permitir que uma contemplação silenciosa funcione. Sabemos que buscamos o instante em que esse espírito perceba a força de nossa razão. Em muitos aspectos, é um trabalho desgastante, apesar de que uso o termo 'desgastante' estritamente no sentido limitado do mundo espiritual. Ruth e eu estávamos mais do que agradecidos a Edwin por sua ajuda generosa em nossos trabalhos, e eu, particularmente, estava grato tanto a ele quanto ao Egípcio, pela excelente perspectiva de comunicação com mundo terreno. Por causa de nossas decisões de cooperar com Edwin em seu trabalho, ele sugeriu que, como tínhamos visto um pouco – mas muito pouco - de nossos reinos, poderíamos agora fazer uma visita proveitosa aos reinos trevosos. Ruth e eu concordamos, acrescentando que tínhamos agora a auto-conança para testemunhar qualquer coisa tenebrosa que pudesse acontecer diante de nós. Estaríamos, claro, sob a guarda e a proteção imediata de nosso velho amigo. Desnecessário dizer que, sem isso, não desejaríamos seguir, mesmo com permissão. Deixamos a linda casa de Edwin, atravessamos rapidamente nosso reino, e novamente estávamos nas fronteiras dos planos inferiores. Edwin nos advertiu que sentiríamos a sensação de resfriamento que já experimentáramos antes, mas com um esforço de vontade tudo seria superado. Ele se colocou no meio de nós dois, Ruth e eu segurando cada um de seus braços. Ele se virou e olhou para nós, e estava aparentemente satisfeito com o que viu. Olhei para Ruth e percebi que sua roupagem, assim como a de Edwin, tomou uma coloração esmaecida, quase aproximada ao cinza. Olhando para mim, descobri que minha roupa também tinha mudado de forma semelhante. Isso nos deixou perplexos, mas nosso amigo explicou que esta troca de cores acontecia por uma lei natural posta em prática, e não signicava que havíamos perdido o já ganho. A aplicação prática de tal lei signicava que não chamaríamos à atenção em terreno que não era nosso, nem levaríamos a luz de nosso reino para aqueles locais trevosos, para cegar a visão dos que ali habitam. Estávamos caminhando em uma grande extensão de solo árido. O chão era duro sob os pés; o verde das árvores e grama desapareceu. O céu estava cinzento e deprimente, e a temperatura baixara consideravelmente, mas podíamos sentir um calor interno que reagia. Diante de nós, não víamos nada a não ser uma cortina de neblina que se adensava à medida que avançávamos, até que nalmente fomos envolvidos por ela. Ondulava em torno, em nuvens pesadas e viscosas, parecendo haver um peso em nós. Repentinamente, uma gura assomou para fora da neblina e veio em nossa direção. Era a primeira pessoa que encontramos até então, e, reconhecendo Edwin, cumprimentou-o amistosamente. Edwin apresentou-nos e contou de nossas intenções. Respondeu que gostaria de se ajuntar a nós, pois talvez poderia ser útil de alguma forma; aceitamos rapidamente a sua oferta generosa. Reassumimos nossa jornada, e depois de andarmos pela névoa, vimos que começara a clarear um pouco, até que se extinguiu. Agora podíamos ver as cercanias perfeitamente. A paisagem era deserta ao extremo, aqui e ali havia uma habitação das mais miseráveis. Aproximamo-nos de uma, para podermos examinar melhor. Era uma casa pequena e baixa, quadrada, sem ornamentos, e, olhando-se bem, desanimadora. Era uma visão sinistra, apesar de sua simplicidade; parecia nos repelir à medida que nos aproximávamos dela. Não havia sinal de vida nas janelas ou em torno. Não tinha jardim; apenas estava lá, solitária e deprimente. Edwin e nosso novo amigo evidentemente conheciam bastante bem, tanto a casa quanto seu morador, pois indo para a porta da frente, Edwin bateu e, sem esperar pela resposta, abriu-a e entrou, chamando-nos a segui-lo. Entramos e nos vimos na mais pobre espécie de casa. Havia pouca mobília, o mínimo, e ao primeiro olhar de olhos terrenos, diríamos que pobreza morava ali, e qualquer um sentiria pena e vontade de ajudar, oferecendo o que pudesse. Mas, aos olhos do espírito, a pobreza vinha da alma, esquálido era o espírito, e, apesar de ter a nossa piedade, era piedade de outro tipo, onde a ajuda material não vale de nada. O frio parecia maior dentro dali, e nos disseram que vinha do dono da casa. Passamos para o quarto dos fundos e encontramos o ocupante solitário sentado numa cadeira. Não fez menção de se levantar, nem deu qualquer sinal de boas vindas. Ruth e eu camos mais atrás, enquanto os outros dois foram falar como o nosso 'antrião' nada caloroso. Era um homem de meia idade. Tinha um certo quê de prosperidade decadente e as roupas que usava eram obviamente negligenciadas, se pela indiferença ou por outras causas, à luz de minhas lembranças terrenas, não saberia dizer. Esbravejou contra nós quando Edwin nos colocou à frente, apresentando-nos como novos visitantes. Passaram momentos antes que falasse, e então gritou incoerentemente, mas pudemos perceber que explicava estar sofrendo uma injustiça. Edwin explicou em termos bem francos que o que dizia não fazia sentido, porque a injustiça não existia no mundo espiritual. Segui-se uma acalorada argumentação; acalorada, pode-se dizer, da parte de nosso antrião, porque Edwin estava calmo e contido, e, na verdade, maravilhosamente bondoso. Muitas vezes deu uma olhada em Ruth, cuja face gentil parecia fazer brilhar todo o lugar obscuro. Eu também olhei para Ruth, que segurava minha mão, para ver como estava sendo afetada por este homem estranho, mas ela estava imperturbável.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.