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Capítulo 9 de 38

Parte 9 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

A serva ainda o acompanhou com a vista por alguns instantes, entre assustada e compungida, recolhendo-se a passos cambaleantes. Ambos não sabiam que os olhos de um caluniador são piores que os braços de um ladrão e que esses olhos os espreitavam na solidão da noite. Era Sulpício que, por coincidência, se recolhia tarde naquela noite, surpreendendo a cena palidamente iluminada pelos raios da Lua. Observando, de longe, que um homem e uma mulher, trajados à romana, se encontravam na estrada em hora tão imprópria, amorteceu os passos de felino, entre as árvores, com o fim de identificá-los mais de perto. A cena fora, todavia, muito rápida, chegando-lhe tão somente aos ouvidos as últimas palavras "nosso segredo", proferidas por André, na sua promessa odiosa e ameaçadora.

Em seguida, observou que a mulher, com a retirada do cavaleiro, regressava ao interior a passos vacilantes, como que presa de incoercível abatimento. Estugou então os passos para surpreendê-la, reparando-lhe o vulto a poucos metros de distância. Mas, não se atreveu a aproximar-se, apenas identificando as características da vestimenta, à luz fraca da noite. Aquela túnica era-lhe conhecida. Aquela mulher, a seu ver, era Lívia, a única que podia trajar de tal modo, naquelas cercanias.

Num instante, suas idéias rápidas de homem experimentado nas piores ações do mundo, associaram fatos, personalidades e coisas. Lembrou, em seus íntimos pormenores, a cena que tivera ocasião de presenciar no jardim de Pilatos, crendo que a esposa de Públio se fizera amada pelo governador, cujo coração ela avassalara em poucos minutos, em virtude da sua peregrina beleza; recordou, por último, a estada do procurador da Judéia, em Nazaré, e concluiu, monologando: Um governador, na sua alta posição, não deixará, por isso, de ser um homem, e um homem é muito capaz de cobrir toda a noite, em boa montaria, uma distância como a que vai de Cafarnaum a Nazaré, para se encontrar com a mulher amada... Ora esta!... Temos agora de prosseguir, observando um casal de apaixonados... O único acontecimento estranhável é a facilidade com que essa mulher, aparentemente tão austera, se deixou dominar dessa maneira!

Mas, como tenho os meus interesses com Fúlvia, vamos examinar o melhor modo de cientificar esse pobre homem que, senador, tão jovem e tão rico, é um marido tão desventurado!... E depois de assim monologar cautelosamente, Sulpício recolheu-se intimamente satisfeito, por se ver dono da situação, já antegozando o instante em que faria Públio conhecedor do seu segredo, a fim de exigir mais tarde, em Jerusalém, o preço ignominioso da sua perversidade, segundo as promessas de Fúlvia. O dia imediato constituiu dolorosa surpresa para o senador e sua mulher, aturdidos com o inopinado acontecimento. Ninguém conhecia as circunstâncias em que se verificara o rapto da criança, no silêncio da noite. Como louco, Públio Lentulus tomou todas as providências possíveis, junto às autoridades de Cafarnaum, sem lograr resultado favorável.

Numerosos servos de sua confiança foram expedidos a fim de bater os arredores, improficuamente, e, enquanto o marido se multiplicava em ordens e providências, Lívia recolhia-se ao leito, tomada de indefinível angústia. Sêmele, que fingia a mais profunda consternação, auxiliava os desvelos de Ana, junto da senhora, sucumbida de dor. Naquela mesma tarde, Públio ordenou a Comênio, então com as honras de capataz de todos os trabalhos da herdade, a reunião geral dos servos da casa, a fim de que aprendessem no castigo severo, infligido aos escravos incumbidos do serviço noturno de vigilância, e, durante todas as horas do crepúsculo, trabalhou o açoite na carne de três homens robustos, que debalde imploravam clemência e misericórdia, protestando a sua inocência. Somente diante daquelas criaturas injustamente castigadas, considerou Sêmele a extensão do seu procedimento, mas, intimamente apavorada com as conseqüências que poderiam advir do delito, cobrou ânimo para ocultar, ainda mais, a culpa e o terrível segredo. Prosseguiam as ações punitivas, até que Lívia, atormentada por aqueles gritos lancinantes e comovedores, se levantou com extrema dificuldade e, chamando o esposo a um canto da varanda, de onde ele assistia impassível ao horrível sacrifício daquelas míseras criaturas, falou-lhe súplice: – Públio, basta de castigo para esses homens fracos e infelizes!...

Não seria um excesso de rigor da nossa parte para com os nossos servos a causa de tão dolorosa punição dos deuses para conosco? Esses escravos não são também filhos de criaturas que muitos os amaram neste mundo? Na minha angústia materna, considero que ainda possuímos direitos e recursos para manter junto de nós os filhinhos idolatrados; mas, como será torturante o martírio da mãe de um desventurado, e que o vê arrebatado de seus braços carinhosos para ser vendido por ignóbeis mercadores de consciências humanas!... – Lívia, o sofrimento sugeriu-te singulares desvarios do coração – exclamou o senador, com serena energia. Como poderias pensar numa igualdade absurda de direitos, entre a cidadã romana e a serva miserável?

Não vês que entre ti e a mãe de um cativo existem consideráveis diferenças de sentimento? – Penso que te enganas – revidou a esposa, com intraduzível amargura –, porque os próprios animais possuem os mais elevados instintos, em se tratando de maternidade... E ainda assim, querido, mesmo que eu não tivesse nenhuma razão, manda o raciocínio que examinemos a nossa posição de pais, para considerarmos que ninguém, mais que nós próprios, é passível de culpa pelo acontecido, visto que os filhos são um depósito sagrado dos deuses, que no-los confiam ao coração, impondo-nos como dever de cada minuto a multiplicação do carinho e vigilância necessários; se sofro amargamente, é por considerar o amor sublime que nos une aos filhos, sem poder atinar com a causa deste crime misterioso, sem poder imputar aos nossos servos a culpa desse tenebroso acontecimento... A voz de Lívia, porém, extinguia-se rapidamente. Um delíquio foi o resultado de suas palavras veementes, ao findar daquele dia de tantas e tão amarguradas emoções.

Amparada pelas mãos carinhosas e desveladas de Ana, a pobre senhora recolheu-se ao leito com febre alta. Quanto a Públio, este, porque sentia que as verdades amargas da mulher lhe doíam fundo no coração, mandou cessar imediatamente o castigo, com alívio geral, recolhendo-se ao gabinete para meditar a situação. Naquela mesma noite, recebeu a visita de Sulpício, que lhe veio trazer o infrutífero resultado de suas indagações, na pista do pequeno Marcus. Ao despedir-se, exclamou o lictor, com grande surpresa de Públio, que lhe observara o tom enigmático das palavras: – Senador, eu não posso decifrar esse doloroso enigma do desaparecimento do vosso filhinho, mas talvez possa orientar-vos nalguma pista segura, com as minhas observações pessoais, relativas ao assunto. – Mas, se tens semelhantes elementos, abre-te sem receios – exclamou Públio, com o máximo interesse.

– Meus elementos de observação não são pontos de aclaramento positivo, e, como existem alguns remédios que em vez de curarem uma ferida produzem outras úlceras incuráveis, acho melhor adiar para amanhã à noite as minhas impressões individuais sobre os fatos. Gozando com a atitude de estupefação do interlocutor profundamente impressionado com as suas insinuações criminosas, Sulpício rematou as despedidas, acrescentando intencionalmente: – Amanhã aqui estarei a estas mesmas horas e, se hoje não vos satisfaço ao desejo, aqui permanecendo até mais tarde, é que me esperam alguns afazeres no meu gabinete de trabalho, em vista de alguns pedidos de informações das nossas autoridades administrativas. Dominado pelas expressões daquele enigma, Públio Lentulus apresentou-lhe as despedidas da noite, tendo forças para murmurar: – Então, até amanhã. Esperarei o cumprimento da tua promessa, de modo a aliviarem-se-me os receios do coração. Ficando a sós, o senador submergiu-se no mar profundo de suas inquietações e receios. Justamente quando contava regressar a Roma, eis que surge o inesperado, com piores características que a própria moléstia da filha, tantos anos suportada com serenidade e resignação, porque, agora, era o rapto inexplicável de uma criança, envolvendo sérias questões da moralidade de sua casa, e a própria honra da família.

No íntimo, sentia-se como um homem sem inimigos na Palestina, porquanto, com exceção do jovem Saul, filho de André, que, a seu ver, deveria estar tranqüilo no lar paterno, nunca humilhara os brios de nenhum israelita, visto que a todos dispensava o máximo de sua pessoal atenção. Onde a causa daquele crime misterioso? Em suas reminiscências aflorou a palavra segura de Flamínio Severus, quando lhe aconselhou muita prudência e valor individual, na Palestina, em razão de certos malfeitores que infestavam a região; mas, por outro lado, recordava o sonho simbólico e, com os olhos da imaginação, parecia lobrigar o vulto venerando daquele juiz austero e incorrupto, que lhe profetizara existência fértil de amarguras, dado o seu desprezo e indiferença pelas verdades salvadoras de Jesus de Nazaré. Trabalhado pela dor de angustiados pensamentos, debruçou-se à mesa de trabalho e deixou que o orgulho ferido chorasse copiosamente, considerando a sua impotência para conjurar as forças ocultas e impiedosas que conspiravam contra a sua ventura, nos caminhos ensombrados do seu doloroso destino. Alta noite, procurou desabafar o coração, junto à carinhosa solicitude da esposa, trocando ambos as suas lamentações e as suas lágrimas.

– Públio – exclamava ela, com a ternura característica do seu coração –, procuremos reanimar nossas energias em favor de nós mesmos... Nem tudo está perdido!... Com os direitos que nos competem, podemos determinar todas as providências precisas, em busca do nosso anjinho. Adiaremos o regresso a Roma, indefinidamente, se tanto for necessário, e o resto os deuses farão por nós, reconhecendo nossa angústia e abnegação. O que não é justo é que nos entreguemos, irremediavelmente, ao nosso desespero, inutilizando as derradeiras forças para a luta.

A pobre senhora mobilizava os últimos recursos de suas energias maternas no proferir aquelas palavras de esperança e consolação. Sabia Deus, porém, das suas inenarráveis torturas íntimas, naqueles momentos angustiosos, e apenas o seu sentimento acrisolado, de renúncia e de amor, transformaria em forças as fragilidades da mulher, para poder confortar o coração angustiado do esposo, em tão penosas conjunturas. – Sim, minha querida, farei tudo que estiver ao meu alcance para esperar a providência dos deuses disse o senador, mais ou menos reanimado em face do valor de que lhe dava ela testemunho. O dia seguinte decorreu nas mesmas expectativas angustiosas, com os mesmos movimentos incertos de buscas infrutíferas. À noite, segundo prometera, lá estava Sulpício Tarquinius esperando o seu momento decisivo. Após o jantar, a que Lívia não pôde comparecer, em virtude do seu profundo abatimento físico, Públio recebeu o lictor com toda a intimidade, ali mesmo no triclínio, em cujos leitos macios ambos se estiraram para a palestra costumeira.

– Então, ainda ontem – exclamou o senador, dirigindo-se ao suposto amigo –, despertaste o meu paternal interesse, falando-me de tuas observações pessoais, que somentehoje me poderias transmitir... – Ah! Sim – redargüiu o lictor, com fingida surpresa –, é bem verdade que desejaria solicitar vossa atenção para as ocorrências misteriosas destes últimos dias. Tendes algum inimigo, aqui na Palestina, interessado na continuidade de vossa permanência em regiões pouco adaptáveis aos hábitos de um patrício romano? – De modo algum –revidou o senador, eminentemente surpreendido.

– Suponho encontrar-me num ambiente de amizades sinceras, em se tratando das nossas autoridades administrativas, e acredito que ninguém haja interessado na minha ausência de Roma. Ficaria muito satisfeito se esclarecesses melhor as tuas observações. – É que na Judéia, há alguns anos, houve um caso idêntico ao vosso. Conta-se que um dos antecessores do governador atual se deixou apaixonar perdidamente pela esposa de um patrício romano, que teve a pouca sorte de se fixar em Jerusalém e, conquistados seus objetivos, tudo fez por obstar o regresso de suas vítimas à sede do Império. E quando notou que de nada valiam os empecilhos de sua autoridade, cometeu o crime de seqüestrar um filhinho do casal, fazendo acompanhar o feito de outras atrocidades, que ficaram impunes, dado o seu prestígio político perante o Senado.

Públio ouviu essas observações com o pensamento em brasa. Em razão da sua intensidade emotiva, o sangue afluiu-lhe ao cérebro, parecendo represar-se em largas correntes junto ao dique das têmporas. Uma palidez de cera cobriu, em seguida, o seu rosto, numa facies cadavérica, sem poder definir a emoção que lhe assaltava o íntimo, em face de tais insinuações contra a sua dignidade pessoal e contra as honrosas tradições da família. Num instante, reviveu todas as acusações de Fúlvia e, julgando os seus semelhantes pelo estalão dos próprios sentimentos, não podia admitir no espírito de Sulpício uma ferocidade de tal quilate. Enquanto mergulhava o pensamento em cismas atrozes, sem responder ao lictor, que o observava gozando o efeito de suas tenebrosas revelações, prosseguiu o caluniador, com fingida humildade: – Bem reconheço o alcance de minhas palavras, para as quais, aliás, suplico a benevolência de vossa discrição, mas eu não abriria o coração neste sentido, senão tocado pelo profundo interesse que a vossa amizade conseguiu inspirar à minh’alma dedicada e sincera.

Francamente, não desejava constituir-me delator de quem quer que seja, perante o vosso espírito justo e generoso; todavia, passarei a narrar-vos o que vi com os próprios olhos, de modo a orientar com mais segurança o esforço de vossas pesquisas em busca do menino. E Sulpício Tarquinius, com a falsa modéstia de suas palavras venenosas, desfiou um rosário longo de calúnias, entremeando os argumentos de consecutivos goles de vinho, o que exaltava ainda mais a fonte prodigiosa das suas fantasias. Contou ao seu interlocutor, que o ouvia atônito. pela coincidência de suas observações com as denúncias de Fúlvia, os mais íntimos pormenores da cena do jardim em casa de Pilatos, e, em seguida, narrou o que observara na noite do rapto, salientando a coincidência da estada do governador em Nazaré. O senador ouvia-lhe a narrativa, ocultando, a muito custo, o seu espanto doloroso. A prevaricação da esposa, segundo aquela denúncia espontânea, era um fato indubitável. Entretanto, ele queria acreditar o contrário.

Durante todo o tempo da vida conjugal, Lívia manifestara o mais pronunciado retraimento dos ambientes sociais, vivendo tão somente para ele e para os filhinhos idolatrados. Era na sua palavra criteriosa e sincera que o seu espírito ia buscar as necessárias inspirações para o êxito nas lutas da vida; mas aquela denúncia lhe atordoava o coração e anulava todos os fatores da antiga confiança. Além disso, penosas coincidências vinham ferir o seu raciocínio, despertando-lhe amarguradas suspeitas no íntimo d’alma. Não fora ela que intercedera a favor dos escravos, no momento do castigo, súplice, como se a culpa do acontecido também lhe pesasse no coração? Ainda na véspera, sugerira a continuidade da permanência de ambos na Palestina, demonstrando um valor pouco vulgar.

Não seria isso um gesto de suposta consolação para o marido ultrajado, obedecendo a intuitos inconfessáveis? Um turbilhão de idéias antagônicas entrechocava-se no mar de suas meditações dolorosas. Por outro lado, considerou, num relance, a sua posição de homem de Estado, as responsabilidades austeras que lhe competiam no organismo social. O cargo proeminente, as severas obrigações a que se consagrara no mecanismo das relações de cada dia, o orgulho do nome e as tradições de família, amalgamaram a energia precisa para o domínio das emoções do momento, e, escondendo o homem sentimental que era por natureza, para tão somente revelar o homem público, teve forças para exclamar: Sulpício, agradeço o teu interesse, desde que as tuas palavras sejam reflexo da tua generosidade sincera, mas devo considerar, perante o conceito que acabas de expender sobre minha mulher, que não aceito nenhum argumento que lhe fira a dignidade e austera nobreza, predicados esses que ninguém, mais que eu, deve conhecer. A entrevista no jardim de Pilatos, a que te referes, foi por mim autorizada, e as tuas observações na noite do rapto não estão bem definidas, dado o caráter positivo que se requer das nossas investigações.

Assim, pois, agradeço-te a dedicação em meu favor, mas a tua opinião abre entre nós, doravante, uma linha divisória que a minha confiança não mais ousará transpor. Ficas, assim, dispensado do serviço que te retinha junto de minha família, mesmo porque a perspectiva da minha volta a Roma se desvaneceu com o desaparecimento do pequeno. Não poderemos regressar à sede do Império, enquanto não lograrmos o seu reaparecimento ou a certeza dolorosa da sua morte. Deste modo, eu seria imprudente exigindo a continuidade dos teus préstimos em Cafarnaum, sacrificando decisões de teus superiores hierárquicos, razão por que serás demitido de minha casa sem escândalos que prejudiquem a tua carreira profissional. Aguardarei o ensejo de me comunicar com o governador, a teu respeito, quando então serás desligado oficialmente do meu serviço, sem nenhum prejuízo para o teu nome. Vês, assim, que, como homem de Estado, agradeço o teu interesse e sei apreciar a tua dedicação, mas, como amigo, não me é mais possível depositar em ti o mesmo grau de confiança.

O lictor, que não esperava semelhante resposta, ficou lívido no seu indisfarçável desapontamento, mas atreveu-se ainda a revidar, fingidamente: – Senhor senador, chegará o instante em que havereis de valorizar o meu zelo não só como servidor de vossa casa, mas também como amigo desvelado e sincero. E já que não tendes outra recompensa melhor que o desprezo injusto para corresponder ao meu impulso de amizade, é com prazer que me sinto desligado das obrigações que me prendiam junto de vossa autoridade. Em seguida, Sulpício pronunciou algumas palavras de despedida, a que Públio respondeu secamente, atormentado pelos mais profundos desgostos. No silêncio do seu gabinete, examinou o quanto de energia as circunstâncias haviam exigido do seu coração em tão penosas conjunturas. Bem reconhecia que adotara para com o lictor a atitude mais conveniente e consentânea com a situação, mas, no íntimo, guardava angustiosa incerteza, acerca da conduta de Lívia.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.