[user_registration_my_account]
Capítulo 5 de 38
Parte 5 de 38
Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel
– Muito bem – atalhou Cláudia, com bondade, enquanto Fúlvia mal dissimulava venenoso despeito –, ficarei incumbida de adaptar a nossa boa Lívia à vida campestre, onde a gente se sente tão bem em contacto direto com a Natureza. – Desde que se não transformem em judias... – disse o senador, bem humorado, enquanto todos sorriam alegremente. Neste comenos, ouvido sobre os detalhes dos serviços que lhe seriam confiados em dias próximos, Sulpício Tarquinius, homem da confiança do governador, sentiu-se com a liberdade de intervir no assunto, exclamando, com surpresa para quantos o ouviam: – E por falar de Nazaré, já ouvistes falar do seu profeta? – Sim – continuou –, Nazaré possui agora um profeta que vem realizando grandes coisas.
– Que é isso, Sulpício? – perguntou Pilatos, ironicamente – pois não sabes que dos judeus nascem profetas todos os dias? Acaso as lutas no templo de Jerusalém se verificam por outra coisa? Todos os doutores da Lei se consideram inspirados pelo Céu e cada qual é dono de uma nova revelação. – Mas, esse, senhor, é bem diferente.
– Estarás, acaso, convertido a uma nova fé? – De modo algum, mesmo porque compreendo o fanatismo e a obcecação dessas miseráveis criaturas; mas fiquei realmente intrigado com a figura impressionante de um Galileu ainda moço, quando passava, há alguns dias, por Cafarnaum. Ao centro de uma praça, acomodada em bancos improvisados, feitos de pedra e de areia, vi considerável multidão que lhe ouvia a palavra, em êxtase de admiração e comoção... Eu também, como se fora tocado de força misteriosa e invisível, sentei-me para ouvi-lo. De sua personalidade, extraordinária de beleza simples, vinha um "não sei quê", dominando a turba que se aquietava, de leve, ouvindo-lhe as promessas de um eterno reinado...
Seus cabelos esvoaçavam às brisas da tarde mansa, como se fossem fios de luz desconhecida nas claridades serenas do crepúsculo; e de seus olhos compassivos parecia nascer uma onda de piedade e comiseração infinitas. Descalço e pobre, notava-se-lhe a limpeza da túnica, cuja brancura se casava à leveza dos seus traços delicados. Sua palavra era como um cântico de esperança para todos os sofredores do mundo, suspenso entre o céu e a terra, renovando os pensamentos de quantos o escutavam... Falava de nossas grandezas e conquistas como se fossem coisas bem miseráveis, fazia amargas afirmativas acerca das obras monumentais de Herodes, em Sebasto, asseverando que acima de César está um Deus Todo Poderoso, providência de todos os desesperados e de todos os aflitos... No seu ensinamento de humildade e amor, considera todos os homens como irmãos bemamados, filhos desse Pai de misericórdia e justiça, que nós não conhecemos... A voz de Sulpício estava saturada do tom emocional característico dos sentimentos filhos da verdade.
O auditório se contagiara da comoção de sua narrativa, escutando-lhe a palavra com o maior interesse. Pilatos, todavia, sem perder o fio de suas vaidades de governador, interrompeu-o, exclamando: – Todos irmãos! Isso é um absurdo. A doutrina de um Deus único não é novidade para nós outros, nesta terra de ignorantes; mas, não podemos concordar com esse conceito de fraternidade irrestrita. E os escravos?
E os vassalos do Império? Onde ficam as prerrogativas do patriciado? O que mais me admira, porém – exclamou com ênfase, dirigindo-se particularmente ao narrador –, é que, sendo tu um homem prático e decidido, te tenhas deixado levar pelas palavras loucas desse novo profeta, misturando-te com a turba para ouvi-lo. Não sabes que a anuência de um lictor pode significar enorme prestígio para as idéias desse homem? – Senhor – respondeu Sulpício, desapontado –, eu próprio não saberia explicar a razão de minhas observações daquela tarde.
Considerei, igualmente, de pronto, que as doutrinas por ele pregadas são subversivas e perigosas, por igualarem os servos aos senhores, mas observei, também, as suas penosas condições de pobreza, consideradas por seus discípulos e seguidores como um estado alegre e feliz. o que, de algum modo, não constitui motivo de receio para as autoridades provinciais. Além disso, essas pregações não prejudicam os camponeses, porque são feitas geralmente nas horas de ócio e descanso, no intervalo dos trabalhos de cada dia, notando-se igualmente que os seus companheiros prediletos são os pescadores mais ignorantes e mais humildes do lago. – Mas, como te deixaste empolgar assim por esse homem? – retornou Pilatos, com energia. – Enganais-vos, quanto a isso – respondeu o lictor, mais senhor de si – não me sinto impressionado, como supondes, tanto assim que, notando-lhe a originalidade simples e formosa, não lhe reconheço privilégios sobrenaturais e acredito que a ciência do Império elucidará o fato que vou narrar, respondendo à vossa argüição do momento.
Não sei se conheceis Copônio, velho centurião destacado na cidade a que me referi, mas cumpre-me cientificar-vos do fato por mim observado. Depois que a voz do profeta de Nazaré havia deixado uma doce quietude na paisagem, o meu conhecido apresentou-lhe o filhinho moribundo, implorando caridade para a criança que agonizava. Vi-o elevar os olhos radiosos para o firmamento, como se obsecrasse a bênção dos nossos deuses e, depois, notei que suas mãos tocavam o menino, que, por sua vez, parecia haver experimentado um fluxo de vida nova, levantando-se de súbito, a chorar e buscando o carinho paterno, após descansar no profeta os olhinhos enternecidos... – Mas, até centuriões já se metem com os judeus nas suas perlengas? Preciso comunicar-me com as autoridades de Tiberíades, sobre esses fatos exclamou o governador, visivelmente contrariado.
– O caso é curioso – disse Públio Lentulus, intrigado com a narrativa. – A verdade, contudo, meu amigo – objetou Pilatos, dirigindo-se a ele –, é que nestas paragens nascem religiões todos os dias. Este povo é muito diverso do nosso, reconhecendo-se-lhe visível deficiência de raciocínio e senso prático. Um governador, aqui, não pode deixar-se empolgar pelas figuras e sim manter rígidos os princípios, no sentido de salvaguardar a soberania inviolável do Estado. É por esse motivo que, atendendo às sábias determinações da sede do governo, não me detenho nos casos isolados, para tão somente ponderar as razões dos sacerdotes do Sinédrio, que representam o órgão do poder legítimo, apto a harmonizar conosco a solução de todos os problemas de ordem política e social. Públio dava-se por satisfeito com o argumento, mas as senhoras presentes, com exceção de Fúlvia, pareciam fundamente impressionadas com a descrição de Sulpício, inclusive a pequenina Flávia, que lhe bebera as palavras com o máximo de curiosidade infantil.
Um véu de preocupações obscurecera a facécia de todos os presentes, mas o governador não se resignou com a atitude geral, exclamando: – Ora esta! Um lictor que, em vez de fazer a justiça a nosso bem, age contra nós próprios, obscurecendo o nosso ambiente alegre, merece severa punição por suas narrativas inoportunas!... Um riso geral seguiu-lhe a palavra ruidosa e leve, enquanto rematava: – Desçamos ao jardim para ouvir nova música, desanuviando o coração desses aborrecimentos imprevistos. A idéia foi aceita com geral agrado. A pequena Flávia foi instalada pela dona da casa em apartamento confortável, e, em poucos minutos, os presentes se dividiam em três grupos distintos, através das alamedas do jardim, aclarado de tochas brilhantes, ao som de músicas caprichosas e lascivas.
Públio e Cláudia falavam da paisagem e da natureza; Pilatos multiplicava gentilezas junto de Lívia, enquanto Sulpício se colocava ao lado de Fúlvia, tendo o pretor Lentulus resolvido permanecer no arquivo, examinando algumas obras de arte. Distanciando-se propositadamente dos demais grupos, o governador notava a palidez da companheira que, naquela noite, se lhe figurava mais sedutora e mais bela. O respeito que a sua formosura discreta lhe infundia n’alma, parecia aumentar, naquela hora, o ardor do coração apaixonado. – Nobre Lívia – exclamou com emoção –, não posso guardar por mais tempo os sentimentos que as vossas virtudes cheias de beleza me inspiraram. Sei da natural repulsa de vossa alma digna, em face de minhas palavras, mas lamento não me compreendais o coração tocado dessa admiração que me avassala!...
– Também eu – revidou a pobre senhora, com dignidade e energia espontâneas – lastimo haver inspirado ao vosso espírito semelhante paixão. Vossas palavras me surpreendem amargamente, não só porque partem de um patrício revestido das elevadas responsabilidades de procurador do Estado, como por considerar a amizade confiante e nobre que vos consagra o meu esposo. – Mas, em assuntos do coração – atalhou ele, solícito –não podem prevalecer as formalidades da convenção política, mesmo as mais elevadas. Tenho dos meus deveres a mais alta compreensão e sei encarar a solução de todos os problemas do meu cargo, mas não me recordo onde vos teria visto antes!... a realidade é que, há uma semana, tenho o coração dilacerado e oprimido... Encontrando-vos, parecia deparar-se-me esta imagem adorada e inesquecida.
Tudo fiz por evitar esta cena desagradável e penosa, mas, confesso que uma força invencível me confunde o coração!... – Enganais-vos, senhor! Entre nós não pode existir outro laço, além do inspirado pelo respeito à identidade de nossas condições sociais. Se tendes em tão alta conta as vossas obrigações de ordem política, não deveis olvidar que o homem público deve cultivar as virtudes da vida privada, incentivando, em si mesmo, a veneração e a incorruptibilidade da própria consciência. – Mas, a vossa personalidade me faz esquecer todos esses imperativos.
Onde vos teria visto, afinal, para que me sentisse empolgado desta maneira? – Calai-vos, pelos deuses! – murmurou Lívia, assustada e empalidecida. – Nunca vos vi, antes de nossa chegada a Jerusalém, e apelo para o vosso cavalheirismo de homem, a fim de me poupardes estas referências que me amarguram!... Tenho razões para crer na vossa ventura conjugal, junto de uma mulher digna e pura, tal como a vejo, reputando uma loucura as propostas que vossas palavras me deixam entrever...
Pilatos ia prosseguir na sua argumentação, quando a pobre senhora, amargamente surpreendida, sentiu-se desfalecer. Debalde mobilizou ela as suas energias vitais, com o fim de evitar o delíquio. Presa de singular abatimento, encostou-se a uma árvore do jardim, onde se desenrolava a palestra que acabamos de ouvir. Receando as conseqüências, o governador tomou-lhe a mão delicada e mimosa, torturado pelos seus inconfessáveis pensamentos, mas, ao seu contacto ligeiro, a natureza orgânica de Lívia parecia reagir com decisão e inquebrantável firmeza. Recobrando as forças, fez com a cabeça um leve sinal de agradecimento, enquanto Públio e Cláudia se acercavam de ambos, renovando-se a palestra geral, com a satisfação de todos.
Todavia, a cena provocada pelas extravasões de afeto do governador não ficou circunscrita apenas aos dois atores que a viveram intensamente. Fúlvia e Sulpício acompanharam-na em seus mínimos detalhes, através dos claros abertos na ramagem sombria. – Ora esta! – exclamou o lictor para a companheira, observando as minudências da palestra que acabamos de descrever. –Então, já perdeste as boas graças do procurador da Judéia?
A essa pergunta, Fúlvia, que por sua vez não tirava os olhos da cena, estremeceu convulsivamente, dando guarida aos mais largos sentimentos de ciúme e despeito. – Não respondes? – continuava Sulpício, gozando o espetáculo. – Porque me recusas tantas vezes, se tenho para oferecer-te um sentimento profundo de dedicação e lealdade? A interpelada continuou em silêncio, no seu posto de observação, rugindo de cólera íntima, quando viu que o governador guardava, entre as suas, a mão exânime da companheira, pronunciando palavras que seus ouvidos não escutavam, mas os seus sentimentos inferiores presumiam adivinhar naquele colóquio inesperado.
Tão logo, porém, Cláudia e Públio figuraram no cenário, Fúlvia voltou-se para o companheiro, murmurando com voz cava: – Acederei a todos os teus desejos, se me auxiliares num cometimento. – Qual? – O de levarmos ao senador, em tempo oportuno, o conhecimento da infidelidade de sua mulher. – Mas, como? – Primeiramente, evitarás a instalação de Públio em Nazaré, para levá-la mais distante, de modo a dificultar as relações entre Lívia e o governador, por ocasião de sua ausência de Jerusalém, porque estou adivinhando que ela desejará transferir-se para Nazaré, em breves dias.
Em seguida, procurarei interferir, pessoalmente, de maneira que sejas designado para proteger o senador na sua estação de repouso e, investido nesse cargo, encaminharás os acontecimentos para consecução de nossos planos. Isso feito, saberei recompensar teus esforços e bons serviços de sempre, com a minha dedicação absoluta. O lictor ouviu a proposta, silenciando, indeciso. Mas a interlocutora, como se estivesse ansiosa por selar a aliança sinistra, interrogou em voz firme: – Tudo combinado? – De pleno acordo!...
– respondeu Sulpício, já resoluto. E as duas personificações do despeito e da lascívia reuniram-se à caravana fraterna, com a máscara das alegrias aparentes, depois de concluído o pacto tenebroso. As últimas horas foram consagradas às despedidas, com a afabilidade exterior do convencionalismo social. Lívia absteve-se de relatar ao esposo a cena penosa do jardim, considerando não somente a sua necessidade de repouso íntimo, como também a importância social das personalidades em jogo, prometendo a si mesma evitar, a todo transe, qualquer expressão menos digna no terreno do escândalo pelas palavras. IV Na Galiléia No dia imediato a esses acontecimentos, às primeiras horas da manhã, Públio Lentulus foi procurado, na intimidade do seu gabinete particular, por Fúlvia, que se lhe dirigiu, criminosamente, nestes termos: – Senador, o ascendente de nossas ligações familiares obriga-me a procurar-vos para tratar de um assunto desagradável e doloroso, mas, nas minhas experiências de mulher, cumpre-me aconselhá-lo a resguardar sua esposa da insídia dos próprios amigos, pois que, ainda ontem, tive oportunidade de surpreendê-la em íntimo colóquio com o governador... O interpelado estranhou aquela atitude insólita, grosseira, contrária a todos os seus métodos de homem de bem.
Repeliu dignamente a investida, encarecendo a nobreza moral de sua esposa, passando Fúlvia a relatar-lhe, com os mais exaltados floreios de sua imaginação doentia, a cena da véspera, nas suas mínimas minudências. O senador ficou pensativo, mas sentiu-se com a precisa coragem moral para repelir a insinuação caluniosa. – Pois bem – disse ela, terminando a denúncia –, muito longe levais a vossa confiança e boa fé. Um homem nunca perde por ouvir os conselhos da experiência feminina. A prova de que Lívia caminha na estrada larga da prevaricação tê-la-eis muito breve, porquanto ela há de preferir a partida imediata para Nazaré, onde o governador buscará encontrá-la.
E, dizendo-o, retirou-se apressadamente, deixando o senador algo desalentado e compungido, pensando nos corações mesquinhos que o rodeavam, porque, no tribunal da consciência, não se sentia disposto a aceitar idéia que viesse conspurcar a valorosa nobreza de sua mulher. Imenso véu de sombras cobriu-lhe o espírito sensível e afetuoso. Sentiu que, em Jerusalém, conspiravam contra ele todas as forças tenebrosas do seu destino, experimentando vasto deserto no coração. Ali, não encontraria a palavra prudente e generosa de um amigo como Flamínio, com quem pudesse desabafar as suas profundas mágoas. Absorto nessas meditações angustiosas, não viu que as pétalas das horas rodopiavam incessantes, nos torvelinhos do tempo.
Só muito depois percebeu o vozerio de um dos serviçais de confiança, vindo a saber que Sulpício Tarquinius lhe solicitava o obséquio de uma entrevista particular, pedido a que atendeu com o máximo de atenção. Admitido ao interior do gabinete, o lictor referiu-se, sem preâmbulos, aos fins da visita, explicando com desembaraço: – Senador, honrado com a vossa confiança no caso de vossa transferência para uma estação de repouso, venho sugerir-vos o arrendamento de rica propriedade pertencente a um nosso compatrício, nos arredores de Cafarnaum, encantadora cidade da Galiléia, situada no caminho de Damasco. É verdade que já escolhestes Nazaré, mas, ao longo da planície de Esdrelon, as casas confortáveis são muito raras, acrescendo que seríeis obrigado a enormes dispêndios em serviços de remodelação e benfeitorias. Em Cafarnaum, porém, o caso é diferente. Tenho ali um amigo, Caio Gratus, decidido a arrendar por tempo ir determinado a sua esplêndida vila, que é uma herdade provida de todo o conforto, com pomares preciosos, num ambiente de absoluto sossego.
O senador ouvia o preposto de Pilatos como se o espírito lhe pairasse noutra parte; mas, como se tivesse a atenção subitamente despertada, exclamou, na atitude de quem argumenta consigo mesmo: – De Jerusalém a Nazaré, temos setenta milhas... Onde fica Cafarnaum?... – Muito distante de Nazaré – obtemperou o lictor, com segunda intenção. – Está bem, Sulpício – respondeu Públio, com ares de quem tomou uma resolução íntima –, estou muito agradecido pela tua gentileza, que não esquecerei de recompensar em tempo oportuno. Aceito a tua sugestão que reputo sensata, mesmo porque, de fato, não me pode interessar a aquisição definitiva de qualquer imóvel na Galiléia, atenta a necessidade de regressar a Roma, dentro em breve.
Ficas autorizado a concluir o negócio, porquanto me louvo nas tuas informações, descansando, confiadamente, no teu conhecimento do assunto. Secreta satisfação transpareceu nos olhos de Sulpício, que se despediu com fingido reconhecimento. Públio Lentulus descansou novamente os cotovelos na mesa de trabalho, submerso em profundas cismas. Aquela sugestão de Sulpício chegava no instante psicológico de suas angustiosas cogitações, porque, em face dessa nova providência, conseguiria instalar a família longe de qualquer influência da casa do procurador da Judéia, salvando, assim, a sua reputação dos salpicos ignominiosos da maledicência. A denúncia de Fúlvia, todavia, desdobrava sucessivas preocupações no seu íntimo.
Fosse pelo inopinado da calúnia, ou pelo espírito de perversidade com que a mesmafora urdida, seu pensamento mergulhou em ansiosas expectativas. À noite daquele mesmo dia, após o jantar, vamos encontrá-lo a sós com Lívia, no terraço da residência do pretor, que, por sua vez, se ausentara de casa por algumas horas, em companhia dos seus familiares, para atender a imperativos de certas pragmáticas. Notando-lhe no rosto os sinais evidentes de profunda contrariedade, rompeu a esposa com a encantadora intimidade do seu coração feminino: – Querido, pesa-me ver-te assim, dobrado ao jugo de tamanhos desgostos, quando esta longa viagem deveria restituir-nos a tranqüilidade necessária ao desenvolvimento dos teus encargos... Ouso pedir que apresses a nossa mudança de Jerusalém para um ambiente mais calmo, onde nos sintamos mais a sós, fora deste círculo de criaturas cujos hábitos não são os nossos, e cujos sentimentos desconhecemos. Quando partiremos para Nazaré?...
– Para Nazaré? – repetiu o senador, com voz irritada e sombria, como se o tocasse o espírito venenoso do ciúme, lembrando, involuntariamente, as acusações infundadas de Fúlvia. – Sim – prosseguiu Lívia, súplice e carinhosa –, pois não foram essas as providências ontem aventadas? – É verdade, querida! – exclamou Públio, já pesaroso, voltando a si dos maus pensamentos que havia abrigado por um instante mas resolvi depois instalarmo-nos em Cafarnaum, contrariando as últimas decisões...
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.