[user_registration_my_account]
Capítulo 23 de 38
Parte 23 de 38
Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel
– Sim, revelam-me os signos do destino que essa criatura é também desejada pelo irmão do marido. Saul fez um gesto de enfado, como quem se sentia amargamente atormentado pelos mais acerbos ciúmes, murmurando entre dentes: – Ah! Sim... Agora entendo melhor a viagem precipitada de Agripa, em busca de Avênio!... E, elevando a voz como quem estivesse jogando a derradeira cartada da sua ambição, falou com ansiedade: – Araxes, peço-te ainda uma vez!...
Faze tudo!... Pagar-te-ei regiamente!... A fronte do mago curvou-se de novo, em atitude de profunda meditação, como se o espírito buscasse, no invisível, alguma força tenebrosa, propícia aos seus sinistros desígnios. Ao cabo de alguns minutos, tornou a dizer em tom benevolente e amigo: – Parece que haverá uma oportunidade para a sua afeição, daqui a algum tempo!... O moço judeu ouvia-o com angustiosa expectativa, enquanto as afirmações continuavam: – Dizem os signos do destino que os dois cônjuges, para consolidação de sua profunda afeição, de sua confiança recíproca e progresso espiritual, estão destinados a dolorosas provas daqui a alguns anos! Dar-se-á alguma coisa que os separará dentro do próprio lar, sem que eu possa precisar o que seja.
Sei, tão somente, que cumpre a ambos um grande período de ascetismo e dolorosa abnegação, no instituto sagrado da família... Nessa ocasião, talvez, quem sabe? poderá o meu amigo tentar essa afeição ardentemente cobiçada!... – Dar-se-á, então, alguma coisa? – perguntou Saul, curioso e aflito, nas suas perquirições do assunto transcendente – mas que poderá acontecer que os separe no ambiente doméstico? – Eu mesmo não saberia dizê-lo...
– E cada qual será obrigado a um ascetismo fiel e a uma dedicação inquebrantável? – Manda o determinismo do destino que assim seja, mas não só o esposo, como a companheira, podem interferir nessas provas, contraindo novo débito moral, ou resgatando o passado doloroso com o preciso valor moral nos sofrimentos, empregando, no determinismo das provações purificadoras, sua boa ou má vontade... Saiba que as tendências humanas são mais fortes para o mal, tornando-se possível que as suas pretensões sejam satisfeitas nessa época. – E quanto tempo deverei esperar para que isso aconteça? perguntou o liberto, fundamente preocupado. – Alguns anos.
– E será inútil tentar qualquer esforço antes disso? – Perfeitamente inútil. Sei que o nobre cliente tem numerosos interesses numa cidade distante e é justo que, neste intervalo, cuide dos seus negócios materiais. Saul fixou detidamente aquele homem que parecia conhecer os mais recônditos segredos da sua vida, passando as suas observações pelo crivo da consciência. Deu-lhe a bolsa recheada, agradecendo a atenção e prometendo voltar em tempo oportuno.
Daí a alguns dias, o moço judeu, nas vésperas da despedida, aproveitando alguns minutos de pura e simples intimidade com a jovem Flávia, dirigia-lhe a palavra nestes termos: – Nobre senhora – começou em voz quase tímida, mas com o mesmo clarão estranho de sentimentos inferiores a lhe irradiar dos olhos –, ignoro a razão do fato íntimo que vos vou revelar, mas a realidade é que vou partir para Massília, guardando a vossa imagem no mais recôndito escaninho do meu pensamento!... – Senhor – disse-lhe Flávia Lentúlia, corando, acabrunhada –, devo viver tão só no pensamento daquele com quem os deuses iluminaram o meu destino!... – Nobre Flávia – revidou o judeu arguto, percebendo que o golpe era prematuro e inoportuno –, minha admiração não se prende a qualquer sentimento menos digno. Para mim, sois duplamente respeitável, não somente pela vossa alta condição de patrícia, como também pela circunstância de serdes a companheira de um dos maiores benfeitores de minha vida.
Ficai tranqüila quanto às minhas palavras, porque em meu coração só existe o mais leal interesse pela vossa felicidade pessoal, junto do digno esposo que escolhestes. Sinto por vós o que um escravo deve sentir por uma benfeitora de sua existência, já que, na minha triste condição de liberto, não posso apresentar-me à vossa generosidade com as credenciais de irmão que muito vos venera e estima.
– Está bem, senhor Saul – disse a jovem, mais aliviada –, meu marido vos considera como irmão muito caro e eu me honro de associar-me aos seus sentimentos. – Muito vos agradeço – exclamou Saul, fingidamente –, e já que me entendeis tão bem o pensamento fraterno, é com o interesse de irmão que me dirijo à vossa alma generosa para prevenir-vos de um perigo... – Um perigo?... – perguntou Flávia, aflita. – Sim.
Falo-vos confidencialmente, solicitando que guardeis o máximo segredo desta confidência fraternal. E, enquanto a jovem o escutava com a maior atenção, Saul continuou com as suas pérfidas insinuações. – Sabeis que Plínio foi quase noivo da filha do pretor Sálvio Lentulus, vosso tio, hoje casada com Emiliano Lúcios? – Sim... – replicou a pobre senhora, de alma oprimida.
– Pois devo avisar, como irmão, que vossa prima Aurélia, a despeito dos seus austeros compromissos matrimoniais, não renunciou ao homem de suas antigas preferências; hoje fui cientificado, por um amigo, de que ela tem recorrido a diversos feiticeiros de Roma, com o fim de reaver o seu afeto de outrora, a qualquer preço!... Ouvindo essas pérfidas palavras, Flávia Lentúlia experimentou o primeiro espinho da sua vida conjugal, sentindo-se intimamente torturada pelo mais acerbo ciúme. Plínio resumia todo o seu idealismo e toda a sua felicidade de mulher jovem. Depositara no seu coração todos os sonhos femininos, todas as suas melhores e mais florentes esperanças. Assaltada pela primeira contrariedade da sua vida social, na grande cidade de seus pais, sentia, naquele instante, a sede devoradora de um esclarecimento amigo, de uma palavra carinhosa que viesse restabelecer o equilíbrio do coração, agora turbado pelos primeiros dissabores.
Faltava-lhe alguma coisa que pudesse completar as nobres qualidades do seu coração de mulher, alguma coisa que devia ser a atuação materna na sua educação, porque Públio Lentulus, na sua cegueira espiritual, lhe moldara o caráter no orgulho da estirpe, nas tradições vaidosas dos antepassados, sem desenvolver as suas qualidades de ponderação, que a influência de Lívia criaria, certo, para notáveis florações do sentimento. A jovem patrícia sentiu o coração despedaçado por um ciúme quase feroz; mas, compreendendo os deveres que lhe competiam em tais conjunturas, recobrou a precisa energia moral para reagir naquele primeiro embate de provas, respondendo ao moço judeu e fazendo o possível por afetar o máximo de severa e tranqüila nobreza: – Agradeço, penhorada, o interesse de vossa comunicação; todavia, nada me autoriza a suspeitar da consciência retilínea de meu esposo, mesmo porque Plínio resume todos os meus ideais de esposa e de mulher! – Senhora – revidou o judeu, mordendo os lábios –, o espírito feminino, na sua fertilidade de imaginação, alheio à vida prática, pode enganar-se muitas vezes, pelas aparências...
Folgo de ouvir-vos e louvo a vossa ilimitada confiança; porém, quero fiqueis convencida de que, a qualquer tempo, encontrareis em mim um sincero defensor da vossa felicidade e das vossas virtudes!... Isso dizendo, Saul de Gioras apresentou atenciosas despedidas, deixando a pobre moça com as suas impressões de surpresa e amargura.
Os primeiros infortúnios haviam atingido a vida conjugal de Flávia Lentúlia, sem que ela soubesse conjurar o perigo que ameaçava a sua ventura para sempre. Nessa noite, Plínio Severus não encontrou em casa a criatura mimosa e adorável da sua dedicação e do seu amor profundo. Na intimidade da alcova, encontrou a companheira cheia de recriminações descabidas e importunas, tocada de tristezas amarguradas e incompreensíveis, verificando-se entre ambos os primeiros atritos que podem arruinar para sempre, no curso de uma vida, a felicidade de um casal, quando seus corações não se encontram suficientemente preparados para a compreensão espiritual, no instituto das provas remissoras, embora a estrada divina de suas almas gêmeas seja um caminho glorioso para os mais elevados destinos. Em breves dias, Saul regressava a Massília, esperançoso de concretizar algumas realizações de ordem material, de modo a regressar a Roma no menor espaço de tempo. E a vida das nossas personagens continuava, na Capital do Império, quase com a mesma fisionomia de sempre.
O senador Lentulus prosseguia engolfado nas suas cogitações de ordem política, procurando, sempre que possível, a residência da filha, onde mantinha as mais longas palestras com Calpúrnia, sobre o passado e as necessidades do presente. Quanto a Lívia, afastada compulsoriamente da filha, pela força das circunstâncias; longe de sua melhor amiga de outros tempos, pela incompreensão, e prosseguindo distante do esposo no ambiente dos seus afetos mais íntimos, refugiara-se na dedicada amizade de Ana, nas preces mais fervorosas e sinceras. Diariamente, ambas procuravam orar, em dolorosa soledade, ao pé daquela mesma cruz grosseira que lhes dera Simeão no instante extremo. Muitas vezes, ambas, em êxtase, notavam que o pequenino madeiro se toucava de luz tenuíssima, ao mesmo tempo em que lhes parecia ouvir longe, no santuário do coração e dos pensamentos, exortações singulares e maravilhosas. Afigurava-se-lhes que a voz branda e amiga do apóstolo da Samaria voltava do Reino de Jesus para ensinar-lhes a fé, o cumprimento do dever de caridade fraterna, a resignação e a piedade.
Ambas choravam, então, como se nas suas almas sensíveis e carinhosas vibrassem as harmonias de um divino prelúdio da vida celeste. Nessa época, instruída por alguns cristãos mais humildes, Ana cientificou a senhora das reuniões nas catacumbas. Somente ali podiam reunir-se os adeptos do Cristianismo nascente, porquanto, desde os seus primeiros eventos na sociedade romana, foram as suas idéias consideradas subversivas e perversoras. O Império fundado com Augusto, que significou a maior expressão de um Estado forte em todas as épocas do mundo, depois das conquistas democráticas da República, não tolerava nenhum agrupamento partidário, em matéria de doutrinas sociais e políticas. Verificava-se em Roma o mesmo que hoje com as nações modernas, a oscilarem entre as mais variadas formas governamentais, ao longo do eixo dos extremismos e dentro da ignorância do homem, que teima em não compreender que a reforma das instituições tem que começar no íntimo das criaturas. As únicas associações admitidas eram, então, as cooperativas funerárias, em vista de seus programas de piedade e proteção aos que já não podiam perturbar os poderes temporais do César.
Perseguidos pelas leis, que lhes não toleravam as idéias renovadoras; encarados com aversão pelas forças poderosas das tradições antigas, os adeptos de Jesus não ignoravam a sua futura posição de angústia e sofrimento. Alguns editos mais rigorosos os compeliam a ocultar a manifestação de crença, embora o governo de Cláudio procurasse, sempre, o máximo de ordem e equilíbrio, sem grandes excessos na execução dos seus desígnios. Alguns companheiros mais esclarecidos na fé advogavam publicamente as suas teses, em epístolas ao sabor da época; mas, muito antes dos crimes tenebrosos de Domício Nero, a atmosfera dos cristãos primitivos era já de aflição, angústia e trabalhos penosos. Desse modo, as reuniões das catacumbas efetuavam-se periodicamente, nada obstante o seu caráter absolutamente secreto. Grande número de apóstolos da Palestina passavam em Roma, trazendo aos irmãos da metrópole as prédicas mais edificantes e consoladoras.
Ali, no silêncio dos grandes maciços de pedra, em cavernas desprezadas pelo tempo, ouviam-se vozes profundas e moralizantes, que comentavam o Evangelho do Senhor ou encareciam as sublimidades do seu Reino, acima de todos os precários poderes da perversidade humana. Tochas brilhantes iluminavam esses desvãos subterrâneos, que as heras protegiam, enquanto suas portas empedradas davam a impressão de angústia, tristeza e supremo abandono. Sempre que um peregrino mais dedicado aportava à cidade, havia um aviso comum a todos os conversos. O sinal da cruz, feito de qualquer forma, era a senha silenciosa entre os irmãos de crença, e, feito desse ou daquele modo especial, significava um aviso, cujo sentido era imediatamente compreendido. Através dessas comunicações incessantes, Ana conhecia todo o movimento das catacumbas, colocando sua senhora a par de todos os fatos que se desenrolavam em Roma, sobre a redentora doutrina do Crucificado.
Assim é que, quando se anunciava a chegada de algum apóstolo da Galiléia ou das regiões que lhe são fronteiriças, Lívia fazia questão de comparecer, fazendo-se acompanhar pela serva desvelada e fiel, atravessando os caminhos a pé, embora trajasse agora a sua indumentária patrícia, de conformidade com a autorização do marido, para professar livremente as suas crenças. Ela estava ciente de que, perante a sociedade, sua atitude representava grave perigo, mas o sacrifício de Simeão fora um marco de luz assinalando os seus destinos na Terra. Adquirira coragem, serenidade, resignação e conhecimento de si mesma, para nunca tergiversar em detrimento da sua fé ardente e pura.
Se as suas antigas relações de amizade, em Roma, atribuíam suas modificações interiores à demência; se o marido não a compreendia e Calpúrnia e Plínio cavavam, ainda mais, o grande abismo que Públio havia aberto entre ela e a filha, possuía o seu espírito, na crença, um caminho divino para fugir de todas as terrenas amarguras, sentindo que o Divino Mestre de Nazaré lhe dulcificava as úlceras da alma, compadecendo-se do seu coração retalhado de angústias. Era-lhe a fé como um archote luminoso clareando a estrada dolorosa, e do qual se irradiavam os clarões da confiança humana na Providência Divina, que transforma as provações penosas da Terra em antegozo das eternas alegrias do Infinito. IV Tragédias e esperanças A vida real sempre é prosaica, sem fantasia nem sonhos.
Assim decorre a existência das personagens deste livro, na tela viva das realidades nuas e dolorosas do ambiente terrestre. Os que atingem determinadas posições sociais, bem como os que se aproximam do crepúsculo da vida fragmentária da Terra, poucas novidades têm a contar, com respeito ao curso de cada dia. Há um período na existência do homem, em que lhe parece não mais haver a precisa pressão psíquica do coração, a fim de que se lhe renovem os sonhos e as aspirações primeiras, figurando-se a sua situação espiritual cristalizada ou estacionaria. No íntimo, não há mais espaço para novas ilusões ou reflorescimento de velhas esperanças, e a alma, como que em doloroso período de expectação e forçado silêncio, queda-se no caminho, contemplando os que passam, presa aos cordéis da rotina, das semanas uniformes e indiferentes. Estamos vivendo, agora, o ano 57, e a vida dos atores deste drama doloroso apresenta-se quase invariável no desdobramento infindo dos seus episódios comuns e angustiosos.
Apenas uma grande modificação se fizera na residência de Calpúrnia. Plínio Severus, nas suas radiosas expressões de vitalidade física, já havia recebido as maiores distinções por parte das organizações militares que garantiam a estabilidade do Império. Longas e periódicas permanências nas Gálias e na Espanha lhe haviam angariado honrosíssimas condecorações, mas, no seu íntimo, a vaidade e o orgulho haviam proliferado intensamente, não obstante a generosidade do seu coração. Os primeiros ciúmes ásperos da esposa fizeram-se acompanhar de conseqüências nefastas e dolorosas. Aos criminosos propósitos de Saul juntaram-se as pérfidas confidências das amigas mentirosas, e Flávia Lentúlia, longe de gozar a ventura conjugal a que tinha direito pelos seus elevados dotes de coração, descera, sem sentir, dados os seus ciúmes desmesurados, aos tenebrosos abismos do sofrimento e da provação. Para um homem da condição de Plínio, era muito fácil a substituição do ambiente doméstico pelas festividades ruidosas do circo, na companhia de mulheres alegres, que não faltavam em todos os lugares da metrópole do pecado.
Em breve, o carinho da esposa foi substituído pelo falso amor de numerosas amantes. Debalde procurou Calpúrnia interpor seus bons ofícios e carinhosos conselhos, e, em vão, prosseguia a jovem esposa do oficial romano no seu martírio imperturbável e silencioso. As raras queixas de Flávia eram guardadas pelo coração generoso da mãe do seu marido, ou, então, confiadas ao espírito do pai, em confidências amarguradas e penosas. Públio Lentulus, compreendendo a importância da cooperação feminina na regeneração dos costumes e no reerguimento do lar e da família, incitava a filha ao máximo de resignação e tolerância, fazendo-lhe sentir que a esposa de um homem é a honra do seu nome e o alimento da sua vida e que, enquanto um marido se perverte no torvelinho das paixões desenfreadas, escarnecendo de todos os bens da vida, basta, às vezes, uma lágrima da mulher para que a paz conjugal volte a brilhar no céu sem nuvens do afeto puro e recíproco. Para o espírito de Flávia, a palavra paterna tinha foros de realidade insofismável e ela buscava amparar-se nas suas promessas e nos seus conselhos, julgados preciosos, esperando que o esposo voltasse, um dia, ao seu amor, entre as bênçãos do caminho.
Enquanto isso, Plínio Severus dissipava no jogo e nas folganças uma verdadeira fortuna. Sua prodigalidade com as mulheres tornara-se proverbial nos centros mais elegantes da cidade, e poucas vezes buscava o ambiente familiar, onde, aliás, todos os afetos se conjugavam para esclarecer-lhe docemente o espírito desviado do bom caminho. A morte do velho pretor Sálvio Lentulus, antes do ano 50, obrigara a família de Públio e os remanescentes de Flamínio aos protocolos sociais junto de Fúlvia e da filha, por ocasião das homenagens prestadas às cinzas do morto que, envolto no mistério da sua passividade resignada e incompreensível, havia passado pelo mundo. Bastou esse ensejo para que Aurélia retomasse a oportunidade perdida. Um olhar, um encontro, uma palavra e o filho mais moço de Flamínio, enamorado das belezas pecaminosas, restabeleceu o laço afetivo que um amor santificado e puro havia destruído anteriormente.
Em breve, ambos eram vistos com olhares significativos pelos teatros, pelos circos ou pelas grandes reuniões esportivas da época. De todas essas dores, fizera Flávia Lentúlia o seu calvário de agonias silenciosas, dentro do lar que a sua fidelidade dignificava. Nas suas meditações silenciosas, muitas vezes deplorou os antigos desabafos de ciúme injustificável, que constituíram a primeira porta para que o marido se desviasse dos sagrados deveres em família; mas, no seu orgulho de patrícia, ponderava que era muito tarde para qualquer arrependimento dela, considerando, intimamente, que o único recurso era aguardar a volta do esposo ao seu coração fiel e dedicado, com o máximo de humildade e paciência. Nos seus instantes de contristação, escrevia páginas amarguradas e luminosas, pelos elevados conceitos que traduziam, ora implorando a piedade dos deuses, em súplicas fervorosas, ora estereotipando as íntimas angústias em versos comovedores, lidos tão somente pelos olhos de seu genitor que, a chorar de emoção, considerava, muitas vezes, se a desventura conjugal da pobre filha não era igualmente uma herança singular e dolorosa. Por volta do ano 53, desaparecia em trágicas circunstâncias, nos escuros braços da morte, uma das figuras mais fortes desta história.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.