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Capítulo 22 de 38
Parte 22 de 38
Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel
E humilde, meiga, inteligente e generosa, como sempre, mas parece menosprezar todas as nossas tradições familiares e as nossas crenças mais caras. Em nossas discussões e palestras íntimas, não me revela mais aquela timidez encantadora que lhe conheci noutros tempos, demonstrando, pelo contrário, demasiada desenvoltura de opinião a respeito dos problemas sociais, que ela julga haver resolvido ao contacto duma nova fé. Suas idéias me escandalizam com as mais injustificáveis concepções de igualdade; não hesita em classificar nossos deuses como ilusões nocivas da sociedade, para a qual tem, em todas as palavras, as mais severas recriminações, revelando singulares modificações em pensamento, indo ao extremo de confraternizar com as próprias servas de sua casa, como se fora uma simples plebéia... Seria uma perturbação mental, depois de alguma queda em que a sua dignidade individual fosse chamada a uma rígida reação? Seriam, talvez, influências do meio ou mesmo das escravas com quem se habituou a conviver nessa prolongada ausência de Roma?
Não sei... A realidade é que, em consciência, não posso manifestar-me, por enquanto, em definitivo, sobre as tuas amarguras conjugais, aconselhando-te a esperar melhor as demonstrações do tempo. Depois de ligeira pausa, terminou a velha matrona as suas observações, inquirindo, com interesse: – Porque permitiste o ingresso de Lívia nessas idéias novas, deixando-a à mercê desse reformador judeu, conhecido como Jesus de Nazaré? – Tens razão – murmurou Públio Lentulus, extremamente desalentado –, mas, o motivo baseou-se em circunstâncias imperiosas, porque Lívia acreditou que o profeta Nazareno nos havia curado a filhinha!... – Foste ingênuo, porque não podias admitir essa hipótese, em face da evolução dos nossos conhecimentos, salvando, dessas perigosas influências espirituais, o espírito maleável de tua mulher.
Está comprovado que esse novo credo preconiza atitudes mentais humilhantes, subvertendo as mais íntimas disposições das criaturas que o aceitam. Homens ricos e de ciência, que se submetem a esses odiosos princípios dentro do Império, em favor de um reino imaginário, parecem tresvariados por terrível narcótico, que os faz esquecer e desprezar a fortuna, o nome, as tradições e a própria família!... Colaborarei contigo, afastando Flávia desses prejuízos morais, levando-a para a minha companhia, tão logo se realize o casamento de nossos queridos filhos, porque a verdade é que, quanto a Lívia, tudo já fiz para convencê-la, inutilmente. – Entretanto, minha boa amiga – murmurou o senador, sensibilizado, como a defender-se perante a nobre patrícia, observo que Lívia continua a ser uma criatura simples e modesta, sem exigir de mim coisa alguma que atinja o terreno do exorbitante ou do supérfluo. Nestes quase dezessete anos de íntima separação dentro do lar, somente me solicitou a licença precisa para prosseguir em suas práticas cristãs junto de uma antiga serva de nossa casa, permissão essa que fui obrigado a conceder, considerando a continuidade de sua renúncia silenciosa e triste, no ambiente familiar.
– Também considero que é pedir muito pouco, mormente agora que todas as mulheres da cidade, segundo o costume, exigem dos maridos as maiores extravagâncias em luxo do Oriente; contudo, cumpre-me aconselhar-te, a ti que conservas intactas as nossas tradições mais queridas, esperares mais algum tempo antes de esqueceres as eventualidades dolorosas do passado, de modo a observarmos se Lívia virá a beneficiar-se com a continuidade de nossas atitudes, voltando, finalmente, ao seio de nossas tradições e de nossas crenças!... Doloroso silêncio se fez então sentir, entre ambos, após essas palavras. Calpúrnia supôs haver cumprido o seu dever e Públio recolheu-se, naquela noite, desalentado como nunca. Em breves dias, conseguidos seus intentos, partia Agripa em demanda do Avênio, não obstante as rogativas do irmão e de Flávia para que esperasse as solenidades do matrimônio. Sua resolução era, porém, inabalável e o filho mais velho de FIamínio, enfraquecido sob o peso das suas desilusões, ia ausentar-se de Roma, por espaço de alguns anos, prolongados e dolorosos.
Passavam-se os dias celeremente e, como somos obrigados a caminhar em nossa história na companhia de todas as personagens, devemos registrar que, em se vendo completamente abandonada pelo homem de suas preferências, Aurélia, ralada de venenoso despeito, resolvera aceitar a mão abnegada e afetuosa que o jovem Emiliano Lúcios lhe oferecia. Fúlvia, que acompanhara a luta silenciosa, intoxicada pelos seus sentimentos inferiores, deliberou aguardar o tempo, para exercer as suas sinistras represálias. E, em tempo breve, o casamento de Plínio e Flávia realizava-se com suntuosidade discreta, no palácio do Aventino. O noivo, cheio de galardões militares e títulos honoríficos, bem como a futura companheira, tocada de formosura indefinível e de adorável simplicidade, sentiam-se venturosos como se a felicidade perfeita se resumisse tão somente na eterna fusão de seus corações e de suas almas. Aquele dia, indubitavelmente, assinalava a hora mais sagrada e mais formosa dos seus destinos.
Na assistência reduzidíssima, que se compunha de relações da maior intimidade, notava-se a presença de um homem ainda jovem, que representava uma figura saliente naquele quadro, caracterizado, essencialmente, de acordo com a época. Seus olhos impetuosos e ardentes haviam pousado sobre a noiva com misterioso e estranho interesse. Esse homem era Saul de Gioras, que, abandonando o sobrenome paterno, exibia agora uma nova denominação romana, segundo antiga autorização de Flamínio, de modo a valorizar, cada vez mais, a expressão social da sua fortuna. Debalde, o senador fez o possível para identificar aquele judeu, que se lhe figurava um velho conhecido pessoal. Saul, porém, reconhecera o seu verdugo de outrora; reconheceu e guardou silêncio, serenando as grandes emoções do seu foro íntimo, porque, qual o pai, tinha o coração mergulhado nos propósitos tenebrosos de uma vindita cruel. II Planos da treva Depois das solenidades do casamento de Plínio, contrariamente ao que se podia esperar, o liberto judeu não regressou a Massília, pretextando numerosos negócios que o retinham na Capital do Império.
Instalado no palacete dos Severus, para onde se haviam transferido os jovens nubentes, junto de Calpúrnia, Saul teve oportunidades numerosas de se avistar com o senador Públio Lentulus, mantendo ambos várias palestras sobre a Judeia e as suas regiões importantes. Intrigado com aquele olhar ardente e aqueles traços fisionômicos, que lhe não eram totalmente estranhos, e lembrando-se perfeitamente daquele pai que o procurara ansioso e aflito, em Jerusalém, acompanhemos o senador em uma de suas palestras íntimas com o interessante desconhecido, na qual o abordou com esta pergunta inesperada: – Senhor Saul, já que sois filho das cercanias de Jerusalém, vosso pai, porventura, não se chamaria André de Gioras? O liberto mordeu os lábios, diante daquele ataque direto ao assunto mais delicado da sua existência, respondendo dissimuladamente: – Não, senador. Meu pai não tem esse nome. Ao tempo em que fui escravizado por mãos impiedosas e cruéis, porquanto eu não era senão uma criança mal educada e irresponsável – acentuou com profunda ironia – , meu pai era um agricultor miserável que não possuía outra coisa além dos seus braços para o trabalho de cada dia...
Tive, contudo, a felicidade de encontrar as mãos generosas de Flamínio Severus, que me guiaram para a liberdade e para a fortuna e, hoje, o meu genitor, com o pouco que lhe forneci, aumentou as suas possibilidades de trabalho, desfrutando não somente certa importância social em Jerusalém, como também funções superiores no Templo. – Mas, porque mo perguntais? O senador franziu o sobrolho, em face de tanta desenvoltura na resposta, mas, sentindo-se aliviado, por lhe parecer que não se tratava, de fato, do Saul de suas penosas lembranças, respondeu com mais desafogo de consciência: – É que eu conheci, ligeiramente, um agricultor israelita, por nome André de Gioras, cujos traços fisionômicos não eram muito diversos dos vossos... E a conversação seguia o ritmo normal das conversações sem importância nos ambientes de convencionalismo da vida social. Saul, entretanto, deixava transparecer fulgor estranho no olhar, como quem se encontrava extremamente satisfeito com o destino, à espera de um ensejo para executar seus tenebrosos planos de vingança. Um móvel oculto e inconfessável o retinha em Roma, quando numerosas operações comerciais requeriam sua presença em Massília, onde seu nome se radicara a grandes interesses de ordem financeira e material.
Esse móvel era o intenso desejo de se fazer notado pela jovem esposa de Plínio, cujo olhar parecia atraí-lo para um abismo de amor violento e irreprimível. Desde o instante em que a vira com os adornos do noivado, no dia venturoso de seu enlace, parecia haver lobrigado a criatura ideal dos seus sonhos mais íntimos e remotos. Na realidade, os filhos de seus antigos senhores mereciam o seu respeito e o maior acatamento; todavia, uma força maior que todos os seus sentimentos de gratidão o levava a desejar a posse de Flávia Lentúlia, a qualquer preço, ainda que fosse o da própria vida. Aqueles olhos formosos e cismadores, a graça amorosa e espontânea, a inteligência lúcida e delicada, todos os seus predicados físicos e espirituais, que observara agudamente, nos poucos dias de permanência na cidade, o autorizavam a crer que aquela mulher era bem o tipo das suas idealizações. E foi engolfado nesse turbilhão de pensamentos sombrios que dois meses se passaram, de expectativas inconfessáveis e angustiosas, sem que perdesse a mais ligeira oportunidade para demonstrar a Flávia o grau do seu afeto, da sua admiração e estima, sob as vistas amigas e confiantes de Plínio.
Na soledade de suas preocupações íntimas, considerava Saul que, se ela o amasse, se correspondesse à afeição violenta do seu espírito impetuoso e egoísta, jamais se lembraria de exercer a planejada vingança sobre o coração de seu pai, indo buscar o jovem Marcus Lentulus para o lar paterno e liquidando o pretérito de visões tenebrosas; contudo, se acontecesse o contrário, executaria os seus diabólicos projetos, deixando-se embriagar pelo vinho odiento da morte. Nessa época, corria já o ano de 47, e sem nos esquecermos de Fúlvia e sua filha, vamos encontrá-las, de novo, sob o domínio dos mesmos sentimentos cruéis e tenebrosos. Em vão desposara Aurélia a Emiliano Lúcios, que, para ela, não representava de modo algum o tipo do homem que o seu temperamento supunha haver encontrado no filho mais moço de Flamínio.
E foi assim que, depois dos primeiros desencantos e atritos no ambiente doméstico, a conselho da mãe e na sua própria companhia, procurou recorrer às ciências estranhas de Araxes, célebre feiticeiro egípcio, que tinha uma loja de mercadorias exóticas nas proximidades do Esquilino. Araxes, cujo comércio criminoso todos conheciam como fonte inesgotável de filtros milagrosos do amor, da enfermidade e da morte, era um iniciado do antigo Egito, desviado, porém, da missão sacrossanta da caridade e da paz, na sua violenta paixão pelo dinheiro da numerosa clientela romana, então em pletora de vícios clamorosos e na dissolução dos mais belos costumes do sagrado instituto da família. Explorando-lhe as paixões inferiores e os hábitos viciosos, o mago egípcio empregava quase toda a sua ciência espiritual na execução de todos os malefícios e crimes, motivando enormes danos com as suas drogas venenosas e seus estranhos conselhos.
Procurado, discretamente, por Fúlvia e a filha, inteirou-se dos fins da visita e ali mesmo, entre grandes retortas e pacotes de plantas e substâncias diversas. mergulhou a cabeça nas mãos, como se o seu espírito estivesse devassando os menores segredos do mundo invisível, ante uma trípode e outros petrechos de ciências ocultas, com que ele, psicólogo profundo, buscava impressionar a mente sugestionável dos consulentes numerosos que lhe solicitavam a solução dos problemas da vida. Ao cabo de longos minutos de concentração, com os olhos a brilhar estranhamente, o mago egípcio dirigiu-se a Aurélia, afirmando-lhe em palavras impressionantes: – Senhora, vejo à minha frente dolorosos quadros da sua vida espiritual, no passado longínquo!... Vejo Delfos, nos dias gloriosos do seu oráculo e contemplo a sua personalidade buscando seduzir um homem que lhe não pertencia... Esse homem é o mesmo da atualidade... As mesmas almas perambulam agora em outros corpos e a senhora deve pensar na realidade dos dias que se passam, conformando-se com a nítida separação das linhas do destino!...
Aurélia ouvia, entre surpresa e assombrada, enquanto a alma arguta de sua mãe acompanhava a palestra, tocada de impressão indefinível. – Que me dizeis? – replicou a jovem senhora, no auge da sua sensibilidade ferida. Outras vidas? Um homem que não me pertencia?... Que vem a ser tudo isso?
– Sim, nosso espírito, neste mundo – redargüiu o feiticeiro, com imperturbável serenidade, tem longa série de existências, que enriquecem o nosso íntimo com o máximo de conhecimento sobre os deveres que nos competem na vida! A senhora já viveu em Atenas e em Delfos, numa grande fase de profundas irreflexões em matéria de amor, e, sentindo-se hoje próxima do objeto de suas ardentes e pecaminosas paixões de outrora, julga-se com as mesmas possibilidades de satisfazer seus desejos violentos e indignos!... Por aqui, hão passado inúmeras criaturas. A muitas aconselhei perseverança nos propósitos, por vezes injustificáveis e inferiores; mas, para o seu caso, há uma voz que fala mais alto à minha consciência. Se a sua irreflexão for ao ponto de provocar esse homem, em consciência honesto até agora, é possível que o seu coração também inquieto venha a corresponder aos seus caprichos; contudo, busque não se entregar ao desvario dessa provocação, porque o destino o reuniu, agora, à alma gêmea da sua e um caminho áspero de provações amargas os espera no futuro, para a consolidação da sua confiança mútua, da sua afeição e da sua grandeza espiritual!...
Não se interponha no caminho dessa mulher considerada pelo seu espírito como poderosa rival!... Interpor-se entre ela e o esposo seria agravar a senhora as suas próprias penas, porque a verdade é que o seu coração não se encontra preparado para as grandes renúncias santificantes, e aquilo que supõe ser profundo e sublimado amor, nada mais é que capricho prejudicial do seu coração de mulher voluntariosa e pouco disposta a sacrificar-se pelo carinho de companheiro amoroso e leal, mas, sim, a multiplicar os amantes pelo número de suas vontades artificiais... Aurélia estava lívida, ouvindo essas palavras, que considerava atrevidas e injuriosas. Desejava defender-se, mas uma força poderosa parecia comprimir-lhe a garganta, anulando-lhe o esforço das cordas vocais. Fúlvia, porém, tomada de rancor pelas expressões insultuosas daquele homem, tomou a defesa da filha, argüindo-o com energia: – Araxes, feiticeiro impudico, que queres dizer com estas palavras?
Insultas-nos? Poderemos fazer cair sobre tua cabeça o peso da justiça do Império, conduzindo-te ao cárcere e revelando à sociedade os teus sinistros segredos!. – E porventura não os tereis também, nobre senhora? – revidou ele imperturbavelmente –; estaríeis, assim, tão sem culpa, para não vacilar em condenarme? Fúlvia mordeu os lábios, tremendo de ódio e exclamando com fúria: – Cala-te, infame!
Não sabes que tens diante dos olhos a esposa de um pretor? – Não me parece – murmurou o feiticeiro, com serena ironia –, pois as nobres matronas dessa estirpe não viriam a esta casa solicitar minha cooperação para um crime... E, ao demais, que diriam em Roma de uma patrícia, que descesse ao extremo de procurar, na intimidade, um velho feiticeiro do Esquilino? É verdade que muitos males tenho praticado na minha vida, mas, sabem-no todos que assim procedo e não busco a sombra das boas situações sociais para acobertar a hediondez da minha miserável existência!... Ainda assim, quero salvar a mocidade de tua filha do lôbrego caminho de tuas perversidades, porque na hipótese de seguir-te ela os coleios de víbora, na senda de esposa criminosa e infiel, seu único fim será a prostituição e o infortúnio, rematados com a morte ignominiosa na ponta de uma espada...
Fúlvia desejou revidar energicamente aos insultos de Araxes, repelindo aquelas expressões injuriosas, recebidas como atrevimento supremo, mas Aurélia, receosa de novas complicações e compreendendo a culpabilidade de sua mãe, tomou-lhe do braço, retirando-se ambas silenciosamente, sob o olhar zombeteiro do velho egípcio, que voltara a empilhar pacotes de plantas entre numerosos vasos de substâncias estranhas. Pouco tempo, contudo, pôde ele empregar na sua faina solitária e silenciosa. Dentro de duas horas, nova personagem lhe batia à porta. Araxes surpreendeu-se à vista daquele judeu insinuante que o procurava. O brilho dos olhos, o nariz característico, a harmonia dos traços israelitas, faziam daquele homem, ainda jovem, uma figura singular e sugestiva.
Era Saul, que recorria aos mesmos processos misteriosos, na ânsia de possuir, a qualquer preço, a esposa de Plínio, buscando o talismã ou o elixir miraculoso do feiticeiro, a serviço de suas pretensões descabidas. Recebido nas mesmas circunstâncias em que o foram as duas personagens do nosso penoso drama, Saul expunha ao adivinho as suas torturas amorosas, junto daquela mulher honesta e digna. Após a habitual concentração, já do nosso conhecimento, junto da trípode em que fazia as orações costumeiras, Araxes esboçou leve e discreto sorriso, como quem havia encontrado mais uma estranha coincidência nos seus amplos estudos da psicologia humana. Sua hesitação, todavia, durou poucos instantes, porque, em breve, se fazia ouvir com voz pausada e soturna: – Judeu! – disse ele austeramente – louva o Deus de tuas crenças, porque tua face foi erguida do pó pelas mãos do homem que hoje te empenhas em trair... Mandam as leis severas da tua pátria que não venhas a desejar, nem mesmo por pensamentos, a mulher do teu próximo e muito menos a companheira devotada e fiel de um dos teus maiores benfeitores.
Dá um passo atrás no teu triste e malaventurado caminho! Houve tempo em que teu Espírito viveu no corpo de um sacerdote de Apolo, no templo glorioso de Delfos... Perseguiste uma jovem mulher dos misteres sagrados, conduzindo-a à miséria e à morte, com os teus desvarios nefandos e dolorosos. Não ouses, agora, arrancá-la dos braços destinados ao seu amparo e proteção, à face deste mundo!... Não te intrometas no destino de duas criaturas que as forças do céu talharam uma para a outra!...
O moço judeu, todavia, apesar de impressionado com aquela exortação incisiva, não seguia a orientação violenta das duas mulheres que o precederam na misteriosa visita. Arrancando uma bolsa de moedas, acariciou-a nas mãos como a excitar a concupiscência do adivinho, exclamando com voz quase súplice: – Araxes, eu tenho ouro... muito ouro, e dar-te-ei o que quiseres, pelo valioso auxílio da tua ciência... Pelo amor de teus deuses, consegue-me a simpatia dessa mulher e recompensar-te-ei generosamente a preciosidade dos esforços despendidos... Os olhos do mago egípcio faiscaram ao clarão de sentimento estranho, contemplando a bolsa em forma de cornucópia, reluzente de ouro, como se a desejasse intensamente, murmurando com mais delicadeza: – Meu amigo, essa mulher não é cobiçada tão somente por ti e suponho que deverias contribuir para que ela não se afastasse da companhia do esposo!... – Mas, existe, então, ainda outro homem?
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