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Capítulo 32 de 38
Parte 32 de 38
Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel
Falo-te, nesta hora grave dos nossos destinos, invocando a memória irrepreensível de nossos pais e o nosso passado de sinceridade e confiança fraterna... O impetuoso oficial quase se imobilizara, como um leão ferido, ouvindo essas ponderações superiores e calmas, enquanto Agripa continuava a externar suas impressões mais íntimas e mais sinceras: – E agora –prosseguia com serenidade –, já que reclamas um direito que nunca cultivaste, em vista da sucessão interminável dos teus desatinos na vida social, devo afirmar-te que adorei tua mulher acima de tudo, em toda a vida!... Quando gastavas a tua mocidade junto do espírito turbulento de Aurélia, vimos Flávia, na sua juventude, pela primeira vez, logo após o seu regresso da Palestina e descobri nos seus olhos a claridade afetuosa e terna que deveria iluminar a placidez do lar que eu idealizei nos dias que se foram!... Mas, descobriste, simultaneamente, a mesma luz e eu não hesitei em reconhecer os direitos que te cabiam no coração, porque ela correspondeu à intensidade do teu afeto, parecendo-me unida a ti pelos laços indefiníveis de santificado mistério!. . . Flávia te amava, como sempre te amou, e a mim só competia esquecer, buscando ocultar as minhas ansiedades torturantes e angustiosas!...
Ao ensejo do teu casamento, não resisti vê-la partir nos teus braços e, depois de ouvir a palavra materna, amorosa e sábia, demandei outras terras com o coração esfacelado! Por dez anos amargurosos e tristes, peregrinei entre Massília e a nossa propriedade de Avênio, em aventuras loucas e criminosas. Nunca mais pude acarinhar a idéia da constituição de uma família, atormentado constantemente pelas recordações da minha desventura silenciosa e irremediável. Ultimamente, voltei a Roma com os derradeiros resquícios da minha ilusão dolorosa e malograda... Encontrei-te no abismo das afeições ilícitas e não te exprobrei os deslizes injustificáveis.
Sei que gastaste três quartas partes dos nossos bens comuns, satisfazendo a louca prodigalidade de tuas aventuras infelizes e degradantes, e não te censurei o procedimento insólito. E aqui, nesta casa, sob este teto que constitui para nós ambos o prolongamento carinhoso do teto paternal, não tenho sido para a tua nobre mulher senão um irmão dedicado e amigo!... Vendo-se acusado, claramente, por suas faltas e sentindo-se ferido nas suas vaidades de homem, Plínio Severus reagiu com mais ferocidade, exclamando exaltadamente na sua desesperação: – Infame, é inútil aparentares esta superioridade inacreditável! Somos iguais, nos mesmos sentimentos, e não creio na tua dedicação desinteressada nesta casa. Há muito tempo vives com Flávia, ostensivamente, em aventuras criminosas, mas resolveremos, agora, toda a nossa questão pela espada, porque um de nós deve desaparecer!... E, arrancando a arma de que fora munido para qualquer eventualidade, avançou decididamente para o irmão, que cruzou os braços, serenamente, esperandolhe o golpe implacável.
– Então, onde se encontram os teus brios de homem? – exclamou Plínio, exasperado. Esta serenidade expressa bem a tua covardia... Coloca-te em defesa da vida, porque, quando dois irmãos disputam a mesma mulher, um deles deve morrer! Agripa Severus, porém, sorriu tristemente, retorquindo: – Não retardes muito a consumação dos teus propósitos, porque me prestarás o bem supremo da sepultura, já que a minha vida, com as suas torturas de cada instante, nada mais representa que um caminho escabroso e longo para a morte. Reconhecendo-lhe a nobreza e o heroísmo, mas acreditando na infidelidade da mulher, Plínio guardou novamente a espada, exclamando: – Está bem!
Eu podia eliminar-te, mas não o faço, em consideração à memória de nossos pais inesquecíveis; todavia, continuando a acreditar na tua infâmia, partirei daqui para sempre, levando no íntimo a certeza de que tenho em teu espírito de traidor o meu maior e pior inimigo. Sem mais palavra, Plínio retirou-se a passos largos, enquanto o irmão, caminhando até à porta, lançava-lhe um derradeiro apelo afetuoso, para que não se fosse. Alguém, todavia, acompanhara a cena, detalhe por detalhe. Esse alguém era Saul que, saindo do seu esconderijo e apagando inopinadamente a luz do quarto, alcançou Agripa num salto certeiro, pelas costas, vibrando-lhe violento golpe. O pobre rapaz caiu redondamente numa poça enorme de sangue, sem que lhe fosse possível articular uma palavra.
Em seguida ao ato criminoso, fugiu o liberto, afetando despreocupação, sem que ninguém pudesse atinar com a dolorosa ocorrência. No seu quarto, porém, Flávia Lentúlia se surpreendia com a demora da solução de um caso em que se via envolvida e também considerado, por ela, à primeira vista, como um acontecimento sem importância. Levantou-se, depois de considerável esforço, dirigindo-se à porta que comunicava os apartamentos de Agripa com o peristilo, mas, surpreendida com a escuridão e silêncio reinantes, apenas escutou, vindo do interior, um leve rumor, semelhante aos sons roucos de uma respiração fatigada e opressa. Dominada por dolorosos pressentimentos, a desventurada criatura sentiu bater-lhe o coração descompassadamente. A ausência de luz, aquele ruído de respiração estertorosa e, sobretudo, o profundo e pavoroso silêncio, fizeram-na recuar, buscando o socorro e a experiência de Ana, que lhe conquistara igualmente o coração, pela dedicação e pela humildade, em todos os dias daquele amargurado período da sua existência.
Gozando do respeito e da estima de todos, a velha criada de Lívia era, agora, quase a governanta da casa, a quem, por determinação dos senhores, todas as escravas do palácio do Aventino deviam obediência. Chamada por Flávia aos seus aposentos particulares, a velha servidora dos Lentulus, depois de ouvir a apressada confidência da senhora, compartilhando-lhe os receios, acompanhou-a ao quarto de Agripa, em cuja porta de entrada também parou, pensativa, embora já não mais se ouvisse a respiração opressa, observada minutos antes pela esposa de Plínio. – Senhora – disse afetuosa –, estais abatida e ainda necessitais de repouso. Voltai ao quarto; se algo houver que justifique os vossos receios, procurarei resolver o assunto junto de vosso pai. a quem cientificarei do que houver, lá no seu gabinete particular. – Agradecida, Ana – respondeu a senhora, visivelmente emocionada – , concordo contigo, mas esperarei aqui no peristilo o resultado de tuas providências.
Com uma prece, a antiga criada penetrou no aposento, fazendo uni pouco de luz e parando o olhar, quase estarrecida. No tapete, o cadáver de Agripa Severus, caído de borco, descansava numa poça de sangue, que ainda corria do profundo ferimento aberto pela arma homicida de Saul. Ana precisou mobilizar todas as reservas de serenidade da sua fé, para não gritar escandalosamente, alarmando a casa inteira. Ela, porém, que tantos padecimentos havia já experimentado em todo o curso da vida, não tinha grande dificuldade em juntar mais uma nota angustiosa ao concerto de suas amarguras, sofridas sempre com resignação e serenidade. Todavia, sem poder dissimular a angústia e a profunda palidez, voltou novamente ao peristilo, exclamando algo inquieta, para Flávia Lentúlia, que lhe observava os mínimos gestos, ansiosamente.
– Senhora, não vos assusteis, mas o senhor Agripa está ferido... E aos primeiros movimentos de curiosidade angustiosa da filha do senador, a qual se lembrava da profunda desesperação do esposo, momentos antes, Ana acalmou-a com estas palavras: – Não temos tempo a perder! Procuremos o senador, para as primeiras providências; contudo, suponho que devo cuidar sozinha dessa tarefa, aconselhandovos a buscar a tranqüilidade do vosso quarto. Mas, silenciosas e inquietas, dirigiram-se as duas apressadamente ao gabinete de Públio, absorvido em numerosos processos políticos, no seio tranqüilo da noite. – Agripa, ferido?!
–perguntou altamente surpreendido o senador, depois de se inteirar da ocorrência pela palavra de Ana. – Mas, quem teria sido o autor de semelhante atentado nesta casa? – Meu pai – respondeu Flávia, entre lágrimas –, ainda há pouco, Plínio e Agripa tiveram séria altercação no interior dos meus aposentos!... Públio Lentulus percebeu o perigo das palavras confidenciais da filha, em tais circunstâncias, e, como não podia acreditar que os filhos de Flamínio, sempre tão unidos e generosos, fossem ao extremo das armas, acentuou decisivamente: – Minha filha, não acredito que Plínio e Agripa se abalançassem a tais extremos. E como estivessem na presença de Ana, que por mais conceituada que fosse, agora, na sua confiança pessoal, não podia modificar a estrutura de suas rígidas tradições familiares, acrescentou, como se quisesse prevenir o espírito da filha contra qualquer revelação inconveniente que pudesse envolver o seu nome em escândalos sociais irremediáveis: – Além disso, não me pareces muito certa em tuas lembranças, porque Plínio se despediu de manhã, seguindo viagem para Massília. Não podemos esquecer esta circunstância.
Não se viu algum desconhecido nesta casa? – Senhor – respondeu Ana, com humildade –, há alguns minutos vi que o senhor Saul se retirava apressado lá do quarto do ferido. De acordo com as minhas observações e atenta à sua familiaridade com os vossos amigos, suponho-o pessoa indicada para nos dar qualquer esclarecimento. Os olhos do velho senador brilharam estranhamente, como se houvesse encontrado a chave do enigma. Nesse instante, porém, enquanto organizava os seus papéis, apressadamente, a fim de prestar os primeiros socorros ao ferido, Flávia Lentúlia, corno se as observações de Ana lhe suscitassem novas explicações, rompeu soluçante.
– Meu pai, meu pai, só agora me recordo de que vos deveria cientificar de coisas muito graves!... – Filha – acudiu com decisão –, estás doente e fatigada. Recolhe-te ao quarto, procurarei a tudo remediar!... É muito tarde para qualquer ponderação. As coisas graves são sempre más e o mal que não se corta pela raiz, com o esclarecimento oportuno, é sempre uma semente de calamidade guardada em nosso coração, para rebentar em lágrimas de amarguras, nas horas inesperadas da vida!...
Falaremos, pois, mais tarde. Cumpre, agora, providenciar o que seja mais urgente e necessário. Retirando-se apressado, com a serva, em demanda dos apartamentos do rapaz, notou que Flávia obedecia, sem discussão, às suas determinações, recolhendo-se ao quarto. Penetrando nos aposentos de Agripa, em companhia da velha serva, Públio Lentulus conseguiu medir toda a extensão da tragédia ali desenrolada, sob o seu teto respeitável. Fechando a porta de acesso, o senador verificou que o filho mais velho do seu inesquecível Flamínio estava morto, restando saber os íntimos detalhes daquele drama doloroso, cujo fim sangrento era a única cena que ali se deparava.
Ajoelhando-se ao lado do cadáver, no que foi acompanhado pela serva e amiga leal, falou compungidamente: – Ana, é muito tarde!... O meu pobre Agripa já não vive, nem haveria possibilidade de socorro para um ferimento desta natureza!... Parece haver expirado há poucos momentos!... Alçando ao Alto o olhar marejado de lágrimas, exclamou amarguradamente: – Ó manes de meu desventurado filho, acolhei as nossas súplicas pelo descanso perpétuo de sua alma!... Todavia, aquela prece morrera-lhe no íntimo.
A voz tornara-se-lhe frouxa e oprimida. Aquele espetáculo hediondo abalara-o profundamente. Queria falar, sem o conseguir, porquanto tinha a garganta como que dilacerada e rebelde, sob a força dos singultos do coração, que lhe morriam latentes na soledade da imperiosa fortaleza espiritual. Ana o contemplou aflita, porque seus olhos nunca o haviam observado em atitudes tão íntimas, em todo o longo tempo de serviço naquela casa. Públio Lentulus, aos seus olhos, era sempre o homem frio e impiedoso, em cujo peito pulsava um coração de ferro, que não podia vibrar senão para as loucas vaidades mundanas.
Naquele instante, contudo, entre assustada e comovida, observava que também o senador tinha lágrimas para chorar. De seus olhos sempre altivos, caíam lágrimas ardentes, que rolavam, silenciosas e tristes, sobre a cabeça inerte do rapaz, também considerado por ele um filho, como se nada mais lhe restasse, além do consolo supremo de abraçar carinhosamente os seus despojos, através do véu escuro de suas dúvidas angustiosas. Ana, profundamente tocada pela amargura daquela cena íntima, exclamou com humildade, desejosa de confortar a dor imensa daquele mal sem remédio: – Senhor, tenhamos coragem e serenidade. Nas minhas orações obscuras, sempre peço ao profeta de Nazaré que vos ampare do céu, confortando-vos o coração sofredor e desalentado! O pensamento do senador vagava no dédalo das dúvidas tenebrosas.
Cotejando as observações da filha e as palavras de Ana, buscava descobrir no íntimo, a intuição sobre a culpabilidade do delito. A qual dos dois, Plínio ou Saul, deveria imputar a autoria do atentado nefando? Ele, que decidira tantos processos difíceis na sua vida, ele, que era senador e não perdia também ensejo de participar dos esforços da edilidade romana, sentia agora a dor suprema de exercer a justiça em sua própria casa, na perspectiva da destruição de toda a ventura dos seus filhos muito amados!... Ouvindo, porém, as expressões consoladoras da serva, recordou a figura extraordinária de Jesus Nazareno, cuja doutrina de piedade e misericórdia a tantos fortalecia para afrontar as situações mais ríspidas da vida, ou para morrer, heroicamente, como sua própria mulher. Dirigindo-se, então, à criada, com intimidade imprevista, em gesto comovedor de simplicidade generosa, qual a serva jamais lhe observara, em qualquer circunstância da vida doméstica, disse: – Ana – nunca deixei de ser um homem enérgico, em toda a vida, mas chega sempre um momento em que o nosso coração se sente acabrunhado diante da rudeza das lutas que o mundo nos oferece com as suas desilusões amargas e dolorosas!
Se és tão somente uma serva, eu sei hoje apreciar-te o coração, embora tardiamente!... Uma lágrima espontânea embargava-lhe a voz, porém o velho patrício continuava: – Em toda a minha existência, tenho julgado uma imensidade de processos de várias naturezas, relativos à justiça do mundo; mas, de tempos a esta parte, parece-me que estou sendo julgado pela força incoercível de uma justiça suprema, cujos tribunais não se encontram na Terra!... Desde a morte de Lívia, sinto o coração modificado, a caminho de uma sensibilidade, para mim, até então desconhecida. A aproximação da velhice parece um prenúncio da morte de todos os nossos sonhos e esperanças!... Diante deste cadáver, que, certamente, vai aumentar a sombra dos nossos segredos de família, sinto quão dolorosa é a tarefa de justificar os nossos entes amados; e, já que te referes ao Mestre de Nazaré, cuja doutrina de paz e fraternidade a tantos tem ensinado a morrer com resignação e heroísmo supremos, pela vitória da cruz dos seus martírios terrestres, como procederia ele num caso destes, cm que as mais tremendas dúvidas me pairam no coração, quanto à culpabilidade de uni filho muito amado?
– Senhor – respondeu Ana, com humildade, fundamente comovida ante aquela prova de consideração e afeto –muitas vezes Jesus nos ensinou que jamais devemos julgar, para não sermos também julgados. O senador se surpreendia, ao receber, de uma criatura tão simples e tão inculta aos seus olhos, essa maravilhosa síntese da filosofia humana, repassando, no espírito, o seu doloroso pretérito. – Mas – aventou, como se quisesse justificar-se a si mesmo dos erros profundos do seu passado de homem público – os que não julgam perdoam e esquecem; e, se mandam as leis da vida que sejamos agradecidos ao bem que se nos faça, não podemos perdoar ao mal que se nos atira no caminho!... Ana, porém, não perdeu o ensejo de consolidar o ensinamento evangélico, acrescentando com doçura: – Mesmo na minha terra, a Lei antiga mandava que se cobrasse olho por olho e dente por dente, mas Jesus de Nazaré, sem destruir a essência dos ensinos do Templo, esclareceu que os que mais erram no mundo são os mais infelizes e mais necessitados do nosso amparo espiritual, recomendando, na sua doutrina de amor e caridade, não perdoássemos uma vez só, mas setenta vezes sete vezes. Públio Lentulus admirava-se de aprender aqueles generosos conceitos da sua criada, dentro dos princípios do perdão irrestrito.
Perdoar? Nunca o fizera em suas porfiadas lutas no mundo. Sua educação não admitia piedade ou comiseração para os inimigos, porque todo perdão e toda humildade significavam, para os de sua classe, traição ou covardia. Lembrava-se, porém, agora, de que em numerosos processos políticos poderia haver perdoado e que, em muitas circunstâncias da sua vida, poderia ter fechado os olhos da sua severidade com amoroso esquecimento. Sem saber a razão, como se uma energia ignorada lhe reconduzisse o pensamento aos tempos idos, suas lembranças se transportaram ao período remoto de sua viagem à Judéia, revendo com os olhos da imaginação a cena em que, com o seu rigorismo, escravizara impiedosamente um mísero rapaz.
Sim, também aquele jovem se chamava Saul e ele trazia agora o cérebro ralado por dúvidas atrozes, entre aquele Saul, liberto dos seus amigos, e a figura de Plínio, sempre guardada no seu conceito num halo de amor e generosidade. Perdoar? E o pensamento do senador se quedava em meditações amargas e penosíssimas, naqueles minutos angustiados e longos. Era, talvez, uma das poucas vezes na vida, em que o seu cérebro duvidava, receoso de fazer cair a austeridade do julgamento sobre a fronte de um filho muito querido. Mas, saindo dessa apatia de alguns minutos, exclamou com resolução: – Ana, o profeta Nazareno devia ser, de fato, uma figura divina aqui na Terra!...
Eu, porém, sou humano e careço de forças novas para viver uma existência fora de minha época... Quero perdoar e não posso... Quero julgar neste caso e não sei como fazê-lo. .. Mas, hei de saber decidir, quanto à solução deste terrível problema! Farei o possível por observar os preceitos do teu mestre, guardando uma atitude de silêncio, até que venha a conhecer o verdadeiro culpado, quando, então, buscarei não julgar como os homens, mas pedir a essa justiça divina que se manifeste, amparando meus pensamentos e esclarecendo os meus atos...
E como se retomasse a sua energia usual para as lutas da vida, o velho patrício sentenciou: – Agora, tratemos da vida nas suas realidades dolorosas. Colocou o cadáver de Agripa no leito, e, recomendando à serva que preparasse o espírito da filha, amparando-lhe o coração no angustioso transe, abriu as portas do aposento, requisitou a presença de todos os fâmulos da casa, levando a ocorrência ao conhecimento das autoridades e procedendo, simultaneamente, a rigoroso inquérito, a fim de apurar a procedência do crime, embora um episódio daquela natureza fosse considerado vulgaríssimo nos dias atribulados da Roma de Domício Nero. Alguns criados alegavam ter visto Plínio Severus com o irmão, durante a noite; mas a palavra do senador anulava-lhes as informações, com a afirmativa de que o irmão da vítima havia partido, durante o dia, em demanda do porto de Massília. Saul era, desse modo, a pessoa naturalmente indicada para prestar declarações e, antes mesmo que se realizassem as cerimônias fúnebres, o senador, interrogando-o particularmente, supunha ter razões para crer na sua culpa, observando-lhe as evasivas e alusões descabidas, que não satisfaziam às exigências da sua perquirição psicológica. Suas afirmações e indiretas não coincidiam com asseverações incisivas de Ana, cuja retidão de palavra ele bem conhecia.
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