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Capítulo 20 de 38

Parte 20 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

Não encontrarás dificuldade para catalogar, convenientemente, todos os papéis a que me refiro... – Mas, Flamínio – replicou Públio, com enérgica serenidade –, acredito que teremos muito tempo para cuidar disso. Nesse momento, Lívia e a filha, Calpúrnia e os rapazes, acercaram-se do nobre enfermo, trazendo-lhe sorriso amigo e palavras consoladoras. O doente deu mostras de ânimo e alegria para cada um deles, encarecendo o abatimento de Lívia e a beleza exuberante de Flávia, com palavras meigas e quentes. Ficando a sós, novamente, o generoso senador que a moléstia desfigurara, entre os linhos claros do leito, exclamou com bondade: – Eis, meu amigo, as borboletas risonhas do amor e da mocidade, que o tempo faz desaparecer, célere, no seu torvelinho de impiedades.

E baixando a voz, como se quisesse transmitir ao amigo uma delicada confidência dalma, continuou a falar pausadamente: – Levo comigo, para o túmulo, numerosas preocupações pelos meus pobres filhos. Dei-lhes tudo que me era possível, em matéria educativa, e, embora reconhecendo que ambos possuem sentimentos generosos e sinceros, noto que os seus corações são vítimas das penosas transições dos tempos que passam, nos quais temos o desgosto de observar os mais aviltantes rebaixamentos da dignidade do lar e da família. Agripa vem fazendo o possível por se adaptar aos meus conselhos, entregando-se aos labores do Estado; mas Plínio teve a pouca sorte de se deixar seduzir por amigos pérfidos e desleais, que não desejam senão a sua ruína e o arrastam aos maiores desregramentos, nos ambientes suspeitos de nossas mais altas camadas sociais, levando muito longe o seu espírito de aventuras. Ambos me proporcionam os maiores dissabores com os atos que praticam, testemunhando reduzidas noções de responsabilidade individual. Esbanjando grande parte da nossa fortuna própria, não sei que futuro será o da minha pobre Calpúrnia se os deuses não me permitirem a graça de buscá-la, em breve, no exílio de sua saudade e da sua amargura, depois da minha morte!...

– Mas a mim – respondeu com interesse o interpelado – eles se me afiguram dignos do pai que os deuses lhes concederam, com a sua gentileza generosa e com a fidalguia de suas atitudes. – Em todo caso, meu amigo, não podes esquecer que tua ausência de Roma foi muito longa e que muitas inovações se processaram nesse período. Parecemos caminhar vertiginosamente para um nível de absoluta decadência dos nossos costumes familiares, bem como os nossos processos educativos, a meu ver, desmantelados em dolorosa falência!... E como se desejasse trazer de novo a conversação para os assuntos de ordem imediata, da vida prática, acentuou – Agora que vejo tua filha esplendente de mocidade e de energia, renovo, intimamente, meus antigos projetos de trazê-la para o círculo da nossa comunidade familiar. Era meu desejo que Plínio a desposasse, mas meu filho mais moço parece inclinado a comprometer-se com a filha de Sálvio, não obstante a oposição de Calpúrnia a esse projeto; não por teu tio, sempre digno e respeitável aos nossos olhos, mas por sua mulher que não parece disposta a abandonar as antigas idéias e iniciativas do passado. Devo, porém, considerar que me resta ainda Agripa, a fim de concretizarmos as minhas futurosas esperanças.

Se puderes, algum dia, não te esqueças desta minha recomendação in extremis!... Está bem, Flamínio, mas não te canses. Dá tempo ao tempo, porque não faltará ocasião para discutir o assunto – replicou Públio Lentulus, comovido. Neste comenos, Agripa entrou na alcova, dirigindo-se ao pai, afetuosamente: 4 – Meu pai, o mensageiro enviado a Massília acaba de chegar, trazendo as desejadas informações a respeito de Saul. – E ele nada nos manda dizer sobre a sua vinda? – perguntou o enfermo, com bondoso interesse.

– Não. O portador apenas comunica que Saul partiu para a Palestina, logo depois de alcançar a consolidação da sua fortuna com os últimos lucros comerciais, acrescentando haver deliberado ir à Judéia, para rever o pai que reside nas cercanias de Jerusalém. – Pois sim – disse o enfermo, resignado –, a vista disso, recompensa o mensageiro e não te preocupes mais com os meus anteriores desejos. Ao ouvi-los, Públio deu tratos ao cérebro para se recordar de alguma coisa que não podia definir com precisão. O nome de Saul não lhe era estranho.

Com a circunstância de se localizar a residência do pai nas proximidades de Jerusalém, lembrou-se, finalmente, das personagens de suas recordações, com fidelidade absoluta. Rememorou o incidente em que fora obrigado a castigar um jovem judeu desse nome, nas cercanias da cidade, remetendo-o às galeras como punição do seu ato irrefletido, e recordando, igualmente, o instante em que um agricultor israelita fora reclamar a liberdade do prisioneiro, dando-o como seu filho. Experimentando um anseio vago no coração, exclamou intencionalmente: – Saul? Não é um nome característico da Judéia? – Sim – respondeu Flamínio com serenidade –, trata-se de um escravo liberto de minha casa.

Era um cativo judeu, ainda jovem, adquirido por Valério, no mercado, para as bigas dos meninos, ao ínfimo preço de quatro mil sestércios. Tão bem se houve, entretanto, nos afazeres que lhe eram comumente designados, que, 4 Atualmente, Marselha (Nota da Editora) após levantar vários prêmios com as suas proezas no Campo de Marte, destinados aos meus filhos, resolvi conceder-lhe a liberdade, dotando-o com os recursos necessários para viver e promover empreendimentos de sua própria conta. E parece que a mão dos deuses o abençoou no momento preciso, porque Saul é hoje senhor de uma fortuna sólida, como resultado do seu esforço e trabalho. Públio Lentulus silenciou, intimamente aliviado, pois o seu prisioneiro, segundo notícias recebidas pelos prepostos do governo provincial, se havia evadido para o lar paterno, fugindo, desse modo, à escravidão humilhante. As horas da noite iam já avançadas.

O visitante lembrou-se, então, de que esperava avistar-se com Flamínio para uma palestra substanciosa e longa, a respeito de múltiplos assuntos, como, por exemplo, a sua penosa situação conjugal, o desaparecimento misterioso do filhinho, o seu encontro com Jesus de Nazaré. Mas, observava que Flamínio estava exausto, sendo justo e necessário adiar suas confidências amargas e penosas. Foi então que se retirou do aposento para aguardar o dia seguinte, cheio de esperanças consoladoras. Os dois amigos trocaram longo e significativo olhar no instante daquelas despedidas, que agora pareciam comuns, como as afetuosas saudações diárias doutros tempos. Confortadoras exortações e promessas amigas foram trocadas, entre expressões de fraternidade e carinho, antes que Calpúrnia reconduzisse as visitas ao vestíbulo, com a sua bondade generosa e acolhedora.

Todavia, nas primeiras horas da manhã seguinte, um mensageiro apressado parava à porta do palacete dos Lentulus, com a notícia alarmante e dolorosa. Flamínio Sevérus piorava inesperadamente, sem que os médicos dessem aos seus familiares a menor esperança. Todas as melhoras fictícias haviam desaparecido. Uma força inexplicável lhe desequilibrara a harmonia orgânica, sem que remédio algum lhe paralisasse as aflições angustiosas. Dentro de poucas horas, Públio Lentulus e os seus se encontravam de novo na vivenda confortável dos amigos.

Enquanto penetra ele, ansioso, no quarto do velho companheiro de lutas terrestres, Lívia, na intimidade de um apartamento, dirige-se a Calpúrnia nestes termos: – Minha amiga, já ouviste falar em Jesus de Nazaré? A orgulhosa matrona, que não perdia a linha de suas vaidades em família, ainda nos momentos das mais angustiosas preocupações, arregalou os olhos, exclamando: – Porque mo perguntas? – Porque Jesus – respondeu Lívia, humildemente – é a misericórdia de todos os que sofrem e não posso esquecer-me da sua bondade, agora que nos vemos em provações tão ásperas e tão dolorosas. – Suponho, querida Lívia – redargüiu Calpúrnia, gravemente –, que esqueceste todas as recomendações que te fiz antes de partires para a Palestina, porque, pelas tuas advertências, estou deduzindo que aceitaste de boa fé as teorias absurdas da igualdade e da humildade, incompatíveis com as nossas tradições mais vulgares, deixando-te levar nas águas enganosas das crenças errôneas dos escravos. – Mas, não é isso. Refiro-me à fé cristã, que nos anima nas lutas da existência e consola o coração atormentado nas provações mais ríspidas e mais amargosas...

– Essa crença está chegando agora à sede do Império e por sinal tem encontrado a repulsa geral dos nossos homens mais sensatos e ilustres. – Eu, porém, conheci Jesus de perto e a sua doutrina é de amor, de fraternidade e de perdão... Conhecendo os teus justos receios por Flamínio, lembreime de apelar para o profeta de Nazaré, que, na Galiléia, era a providência de todos os aflitos e de todos os sofredores! – Ora, minha filha, sabes que a fraternidade e o perdão das faltas não se compadecem, de modo algum, com as nossas idéias de honra, de pátria e de família, e o que mais me admira é a facilidade com que Públio te permitiu tão íntimo contacto com as concepções errôneas da Judéia, a ponto de modificares tua personalidade moral, segundo me deixas entrever. Todavia... Ia Lívia esclarecer, da melhor maneira, os seus pontos de vista, com respeito ao assunto, quando Agripa entrou inopinadamente no gabinete, exclamando com a mais forte emoção: Minha mãe, venha depressa, muito depressa!...

Meu pai parece agonizante!... Num átimo, ambas penetraram no aposento do moribundo, que tinha os olhos parados como se fora acometido, inesperadamente, de um delíquio irrefreável. Públio Lentulus guardava, entre as suas, as mãos do moribundo, mirandolhe ansiosamente o fundo das pupilas. Aos poucos, porém, o tórax de Flamínio parecia mover-se de novo aos impulsos de uma respiração profunda e dolorosa. Em seguida, os olhos revelaram forte clarão de vida e consciência, como se a lâmpada do cérebro se houvesse reacendido num movimento derradeiro.

Contemplou, em torno, os familiares e amigos bem-amados, que se debruçavam sobre ele, inquietos e ansiosos. Um médico muito amigo, que o assistia invariavelmente, compreendendo a gravidade do momento, retirara-se para o átrio, enquanto em volta do agonizante somente se ouvia a respiração opressa dos nossos conhecidos destas páginas. Flamínio passeou o olhar brilhante e indefinível por todos os rostos, como se procurasse, mais detidamente, a esposa e os filhos, exclamando em frases entrecortadas: – Calpúrnia, estou... na hora extrema... e dou graças aos deuses... por sentir a consciência... desanuviada e tranqüila... Esperar-te-ei na eternidade... um dia... quando Júpiter... houver por bem... chamar-te para meu lado... A veneranda senhora ocultou o rosto nas mãos, dando expansão às lágrimas, sem conseguir articular palavra.

–Não chores... – continuou ele, como a aproveitar os momentos derradeiros – A morte... é uma solução... quando a vida... já não tem mais remédio... para as nossas dores... E olhando ambos os filhos, que o contemplavam com ansiedade, de olhos lacrimejantes, tomou a mão do mais moço, murmurando: – Desejaria... meu Plínio... ver-te feliz... muito feliz... É intenção tua... desposares a filha de Sálvio?... Plínio compreendeu as alusões paternas naquele momento grave e decisivo, fazendo um leve sinal negativo com a cabeça, ao mesmo tempo que fixava os olhos grandes e ardentes em Flávia Lentúlia, como a indicar ao pai a sua preferência. O moribundo, por sua vez, com a profunda lucidez espiritual dos que se aproximam da morte, com plena consciência da situação e dos seus deveres, entendeu a atitude silenciosa do filho estremecido e, tomando a mão da jovem, que se inclinava afetuosamente sobre o seu peito, apertou as mãos de ambos de encontro ao coração, murmurando com íntima alegria: – Isso é mais... uma razão... para que eu parta... tranqüilo...

Tu, Agripa... hás-de ser também... muito feliz... e tu... meu caro... Públio... junto de Lívia... haverás de viver... Todavia, um soluço mais forte escapara-se-lhe inopinadamente e a sucessão dos singultos violentos e dolorosos obrigou-o a calar-se, enquanto Calpúrnia se ajoelhava e lhe cobria as mãos de beijos... Lívia, também genuflexa, olhava para o alto como se desejasse descobrir os seus arcanos. A seus olhos, apresentava-se aquela câmara mortuária repleta de vultos luminosos e de outras sombras indefiníveis, que deslizavam tranqüilamente em torno do moribundo.

Orou no imo dalma, rogando a Jesus força e paz, luz e misericórdia para o grande amigo que partia. Nesse instante, lobrigou a radiosa figura de Simeão, rodeada de claridade azulina e resplandecente. Flamínio agonizava... À medida que transcorriam os minutos, os olhos se lhe tornavam vítreos e descoloridos. Todo o corpo transudava um suor abundante, que alagava o linho alvíssimo das cobertas.

Lívia notou que todas as sombras presentes se haviam também ajoelhado e somente o vulto imponente de Simeão ficara de pé, como se fôra uma sentinela divina, colocando as mãos radiosas na fronte abatida do moribundo. Notou, então, que seus lábios se entreabriam para a oração, ao mesmo tempo que doces palavras lhe chegavam, nítidas, aos ouvidos espirituais: – Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino de misericórdia e seja feita a vossa vontade, assim na Terra como nos céus!... Nesse instante, Flamínio Severus deixava escapar o último suspiro. Marmórea palidez lhe cobriu os traços fisionômicos, ao mesmo tempo que uma infinita serenidade se estampava na sua máscara cadavérica, como se a alma generosa houvesse partido para a mansão dos bem-aventurados e dos justos. Somente Lívia, com a sua crença e a sua fé, pôde conservar-se de ânimo sereno, entre quantos a rodeavam no doloroso transe.

Públio Lentulus, entre lágrimas comovedoras, certificava-se de haver perdido o melhor e o maior dos amigos. Nunca mais a voz de Flamínio lhe falaria das mais belas equações filosóficas, sobre os problemas grandiosos do destino e da dor, nas correntes intermináveis da vida. E, enquanto se abriam as portas do palácio para as homenagens da sociedade romana; e enquanto se celebravam solenes exéquias implorando a proteção dos manes do morto, seu coração de amigo considerava a realidade dolorosa de se haver rasgado, para sempre, uma das mais belas páginas afetivas, no livro da sua vida, dentro da escuridão espessa e impenetrável dos segredos de um túmulo. II Sombras e núpcias Às exéquias de Flamínio compareceram numerosos afeiçoados do extinto, além das muitas representações sociais e políticas de todas as organizações a que radicara o seu nome digno e ilustre.

Entre tantos elementos, não podia faltar a figura do pretor Sálvio Lentulus que, nas homenagens póstumas, se fez acompanhar da mulher e da filha, que fizeram o possível por bem representar a comédia de suas fingidas mágoas pela morte do grande senador, junto de Calpúrnia que se debulhava nas lágrimas dos seus mais dolorosos sentimentos. Ali mesmo, no palácio dos Severus, encontraram-se os membros da família Lentulus, com a evidente aversão de Públio pela presença da esposa do tio, enquanto as senhoras trocavam impressões dolorosas, na afetada etiqueta das trivialidades sociais.

Fúlvia e Aurélia notaram, com profundo desagrado, a expressão carinhosa de Plínio Severus para com Flávia Lentúlia, a quem distinguia com especial atenção, nas solenidades fúnebres, como a demonstrar as preferências do seu coração. Eis porque, daí a algum tempo, vamos encontrar mãe e filha em palestra animada sobre o assunto, na intimidade do lar, dando a entender a mesquinhez de seus sentimentos, embora os cabelos brancos infundissem veneração na fronte materna, que, apesar disso, não se deixava vencer pelos argumentos da experiência e da idade. – Eu também – exclamava Fúlvia, maliciosamente, respondendo a uma interpelação da filha – muito me surpreendi com as atitudes de Plínio, por julgá-lo um rapaz cioso do cumprimento de seus deveres; mas não me interessei pelos modos de Flávia, porquanto sempre achei que os filhos têm de herdar fatalmente as qualidades dos pais e, mais particularmente no caso presente, quando a herança é materna, com mais bases de certeza irrefutável para o nosso julgamento. – Oh! Mãe, queres dizer, então, que conheces a conduta de Lívia a esse ponto?

– perguntou Aurélia, com bastante interesse. – Nem duvides que seja de outra forma... E a imaginação caluniosa de Fúlvia passou a satisfazer a curiosidade da filha, com os fatos mais inverossímeis e terríveis, sobre a esposa do senador, quando de sua permanência na Palestina, glosados pelas expressões de ironia e desprezo da jovem, dominada pelos mais acerbos ciúmes, terminando a narrativa nestes termos: – Somente tua tia Cláudia poderia contar-te, literalmente, o que sofremos, em face do perjúrio dessa mulher que hoje vemos tão simples e tão retraída, como se não conhecesse as experiências mais fortes deste mundo. Não podemos esquecer que nos encontramos diante de pessoas tão poderosas na política, como na astúcia. O sobrinho de teu pai, além de marido profundamente infeliz, é um homem público orgulhoso e malvado!...

Não me consta houvesse ele corrigido a esposa descriteriosa e infiel, depois de haver verificado, com os próprios olhos, a sua traição conjugal; mas, bastou que ela o fizesse sofrer com as suas deslealdades para que todos nós, os romanos que nos encontrávamos na Judeia, pagássemos o fato com os mais horríveis tributos de sofrimentos... Possuíamos um grande amigo na pessoa do lictor Sulpício Tarquinius, que foi assassinado barbaramente em Samaria, em trágicas circunstâncias, sem que alguém, até hoje, pudesse identificar seus matadores, para o merecido castigo... Nossa família, que tinha interesses vultosos em Jerusalém, foi obrigada a voltar precipitadamente para Roma, com graves prejuízos financeiros de teu pai e, por último – prosseguia a palavra venenosa da caluniadora –, o grande coração do meu cunhado Pôncio sucumbiu sob as provações mais injuriosas e mais rudes... Destituído do governo provincial e atormentado pelas mais duras humilhações, foi banido para as Gálias, suicidando-se em Viena, em penosas circunstâncias, acarretando-nos inextinguível desgosto!... Em face dos martírios suportados por Cláudia, em virtude da nefasta influência dessa mulher, não me surpreendo, portanto, com as atitudes da filha, procurando roubar-te o noivo futuroso!...

– Urge trabalharmos para que tal não aconteça, minha mãe – replicou a moça sob a forte impressão dos seus nervos vibráteis. – Já não posso viver sem ele, sem a sua companhia... Seus beijos me ajudam a viver no torvelinho das nossas preocupações de cada dia... Fúlvia ergueu, então, os olhos, como a examinar melhor a ansiedade que se estampara na fisionomia da filha, redargüindo com ar inteligente e malicioso: – Mas tu te vens entregando a Plínio, dessa maneira? A jovem, todavia, tremendo de cólera, recebeu a indireta dentro dos infelizes princípios educativos a que obedecia desde o berço, exclamando em fúria: – Que pensas, então, que fazemos indo às festas e aos circos?

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.