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Capítulo 2 de 38

Parte 2 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

Recolhi-me cedo e, quando parecia divisar junto de mim a imagem de Têmis, que guardamos no altar doméstico, considerando as singulares obrigações de quem exerce as funções da justiça, senti que uma força extraordinária me selava as pálpebras cansadas e doloridas. No entanto, via outros lugares, reconhecendo paisagens familiares ao meu espírito, das quais me havia esquecido inteiramente. Realidade ou sonho, não o sei dizer, mas vi-me revestido das insígnias de cônsul, ao tempo da República. Parecia-me haver retrocedido à época de Lúcio Sergius Catilina, pois o via a meu lado, bem como a Cícero, que se me figuravam duas personificações, do mal e do bem. Sentia-me ligado ao primeiro por laços fortes e indestrutíveis, como se estivesse vivendo a época tenebrosa da sua conspiração contra o Senado, e participando, com ele, da trama ignominiosa que visava à mais intima organização da República.

Prestigiava-lhe as intenções criminosas, aderindo a todos os seus projetos com a minha autoridade administrativa, assumindo a direção de reuniões secretas, onde decretei assassínios nefandos... Num relâmpago, revivi toda a tragédia, sentindo que minhas mãos estavam nodoadas do sangue e das lágrimas dos inocentes. Contemplei, atemorizado, como se estivesse regressando involuntariamente a um pretérito obscuro e doloroso, a rede de infâmias perpetradas com a revolução, em boa hora esmagada pela influência de Cícero; e o detalhe mais terrível é que eu havia assumido um dos papéis mais importantes e salientes na ignomínia... Todos os quadros hediondos do tempo passaram, então, à frente dos meus olhos espantados... Todavia, o que mais me humilhava nessas visões do passado culposo, como se a minha personalidade atual se envergonhasse de semelhantes reminiscências, é que me prevalecia da autoridade e do poder para, aproveitando a situação, exercer as mais acerbas vinganças contra inimigos pessoais, contra quem expedia ordens de prisão, sob as mais terríveis acusações.

E ao meu coração desalmado não bastava o recolhimento dos inimigos aos calabouços infectos, com a conseqüente separação dos afetos mais caros e mais doces, da família. Ordenei a execução de muitos, na escuridão da noite, acrescendo a circunstância de que a muitos adversários políticos mandei arrancar os olhos, na minha presença, contemplando-lhes os tormentos com a frieza brutal das vinditas cruéis!... Ai de mim que espalhava a desolação e a desventura em tantas almas, porque, um dia, se lembraram de eliminar o verdugo cruel! Depois de toda a série de escândalos que me afastaram do Consulado, senti o término dos meus atos infames e misérrimos, diante de carrascos inflexíveis que me condenaram ao terrível suplício do estrangulamento, experimentando, então, todos os tormentos e angústias da morte. O mais interessante, porém, é que revi o inenarrável instante da minha passagem pelas águas escuras do Aqueronte, quando me parecia haver descido aos lugares sombrios do Averno, onde não penetram as claridades dos deuses. A grande multidão de vítimas acercou-se, então, de minh’alma angustiada e sofredora, reclamando justiça e reparação e rebentando em clamores e soluços, que me pereciam no recôndito do coração.

Por quanto tempo estive, assim, prisioneiro desse martírio indefinível? Não sei dizê-lo. Apenas me recordo de haver lobrigado a figura celeste de Lívia, que, no meio desse vórtice de pavores, estendia-me as mãos fúlgidas e carinhosas. Afigurava-se-me que minha esposa me era familiar de épocas remotíssimas, porque não hesitei um instante em lhe tomar as mãos suaves, que me conduziram a um tribunal, onde se alinhavam figuras estranhas e venerandas. Cãs respeitáveis aureolavam o semblante sereno desses juízes do Céu, emissários dos deuses para julgamento dos homens da Terra.

A atmosfera caracterizava-se por estranha leveza, cheia de luzes cariciosas que iluminavam, perante todos os presentes, os meus pensamentos mais secretos. Lívia devia ser o meu anjo-tutelar nesse conselho de magistrados intangíveis, porque sua destra pairava sobre minha cabeça, como a impor-me resignação e serenidade, a fim de ouvir as sentenças supremas. Desnecessário será dizer-te do meu espanto e do meu receio, diante desse tribunal que eu desconhecia, quando a figura daquele que me pareceu a sua autoridade central me dirigiu a palavra, exclamando: – Públio Lentulus, a justiça dos deuses, na sua misericórdia, determina tua volta ao turbilhão das lutas do mundo, para que laves as nódoas de tuas culpas nos prantos remissores. Viverás numa época de maravilhosos fulgores espirituais, lutando com todas as situações e dificuldades, não obstante o berço de ouro que te receberá ao renasceres, a fim de que edifiques tua consciência denegrida, nas dores que purificam e regeneram!... Feliz de ti se bem souberes aproveitar a oportunidade bendita da reabilitação pela renúncia e pela humildade...

Determinou-se que sejas poderoso e rico, a fim de que, com o teu desprendimento dos caminhos humanos, no instante preciso, possas ser elemento valioso para os teus mentores espirituais. Terás a inteligência e a saúde, a fortuna e a autoridade, como ensanchas à regeneração integral de tua alma, porque chegará um momento em que serás compelido a desprezar todas as riquezas e todos os valores sociais, se bem souberes preparar o coração para a nova senda de amor e humildade, de tolerância e perdão, que será rasgada, em breves anos, à face escura da Terra!... A vida é um jogo de circunstâncias que todo espírito deve entrosar para o bem, no mecanismo do seu destino. Aproveita, pois, essas possibilidades que a misericórdia dos deuses coloca ao serviço da tua redenção. Não desprezes o chamamento da verdade, quando soar a hora do testemunho e das renúncias santificadoras...

Lívia seguirá contigo pela via dolorosa do aperfeiçoamento, e nela encontrarás o braço amigo e protetor para os dias de provações ríspidas e acerbas. O essencial é a tua firmeza de ânimo no caminho escabroso, purificando tua fé e tuas obras, na reparação do passado delituoso e obscuro!... A essa altura, a voz altiva do patrício ia-se tornando angustiada e dolorosa. Amargas comoções íntimas represavam-se-lhe no coração, atormentado por incoercível desalento. Flamínio Severus ouvia-o com interesse e atenção, rebuscando o meio mais fácil de lhe desvanecer impressões tão penosas. Sentia ímpetos de desviar-lhe o curso dos pensamentos, arrancando-lhe o espírito daquele mundo de emoções impróprias da sua formação intelectual, apelando para sua educação e para o seu orgulho; mas, ao mesmo tempo, não conseguia sopitar as próprias dúvidas íntimas, em face daquele sonho, cuja nitidez e aspecto de realidade o deixavam aturdido.

Compreendia que era necessário primeiro restabelecer sua própria fortaleza de ânimo, entendendo que a lógica da brandura deveria ser o escudo de suas palavras, para esclarecimento do amigo que ele mais considerava irmão. Foi assim que, pousando a mão esguia e branca nos seus ombros, perguntou com amável doçura: –E depois, que mais viste? Públio Lentulus, sentindo-se compreendido, recobrou energias novas e continuou: – Depois das exortações daquele juiz severo e venerando, não mais lobriguei o vulto de Lívia a meu lado, mas outras criaturas graciosas, envolvidas em peplos que me pareciam de neve translúcida, confortavam-me o coração com os seus sorrisos acolhedores e bondosos. Atendendo-lhes ao apelo carinhoso, senti que meu Espírito regressava à Terra. Observei Roma, que já não era bem a cidade do meu tempo; um sopro de beleza estava reconstituindo a sua parte antiga, porque notei a existência de novos circos, teatros suntuosos, termas elegantes e palácios encantadores, que meus olhos não haviam conhecido antes.

Tive ocasião de ver meu pai entre os seus papiros e pergaminhos, estudando os processos do Senado, tal qual se verifica hoje conosco, e, depois de implorar a bênção dos deuses, no altar doméstico de nossa casa, experimentei uma sensação de angústia no recesso de minh’alma. Pareceu-me haver sofrido dolorosa comoção cerebral e fiquei adormentado numa vertigem indefinível... Não sei descrever literalmente o que se passou, mas despertei com febre alta, como se aquela digressão do pensamento, pelos mundos de Morfeu, me houvesse trazido ao corpo dolorosa sensação de cansaço. Ignoro o teu julgamento, em face desta confidência amargurada e penosa, mas desejaria me explicasses algo a respeito. – Explicar-te?

– obtemperou Flamínio, tentando imprimir à voz uma tonalidade de convicção enérgica. – Bem sabes do respeito que me inspiram os áugures do templo, mas, afinal, o que te ocorreu não pode passar, simplesmente, de um sonho, e tu não ignoras como devemos temer a imaginação dentro de nossas perspectivas de homens práticos. Por sonharem excessivamente, os atenienses ilustres transformaram-se em escravos misérrimos, constituindo obrigação de nossa parte o reconhecimento da bondade dos deuses que nos concederam o senso da realidade, necessário às nossas conquistas e triunfos. Seria lícito renunciasses ao amor de ti mesmo e à posição de tua família, tão somente levado pela fantasia? Públio deixou que o amigo discorresse abundantemente sobre o assunto, recebendo-lhe as exortações e conselhos, mas, depois, tomando-lhe as mãos generosas, exclamou angustiado: – Meu amigo, eu seria indigno da magnanimidade dos deuses se me deixasse conduzir ao sabor dos acontecimentos. Um simples sonho não me daria margem a tão dolorosas conjeturas, mas a verdade é que ainda te não disse tudo.

Flamínio Severus franziu o sobrolho, rematando: – Ainda não disseste tudo? Que significam estas afirmativas? No seu íntimo generoso, angustiosa dúvida fora já implantada com a descrição minuciosa daquele sonho impressionante e doloroso, e era com grande esforço que o seu coração fraternal trabalhava por ocultar ao amigo as penosas emoções que intimamente o atormentavam. Públio, mudo, tomou-lhe do braço, conduzindo-o às galerias do tablino localizado a um canto do peristilo, nas proximidades do altar doméstico, onde oficiavam os mais puros e mais santos afetos da família. Os dois amigos penetraram o escritório e a sala do arquivo com profundo sinal de respeitoso recolhimento.

A um canto, dispunham-se em ordem numerosos pergaminhos e papiros, enquanto, nas galerias, avultavam retratos de cera, de antepassados e avoengos da família. Públio Lentulus tinha os olhos úmidos e a voz trêmula, como se profundas emoções o dominassem naquelas circunstâncias. Aproximando-se de uma imagem de cera, entre as muitas que ali se enfileiravam, chamou a atenção de Flamínio, com uma simples palavra: – Reconheces? – Sim – respondeu o amigo, estremecendo, reconheço esta efígie. Tratase de Públio Lentulus Sura, teu bisavó paterno, estrangulado há quase um século, na revolução de Catilina.

– Faz precisamente noventa e quatro anos que o pai de meu avô foi eliminado nessas tremendas circunstâncias – exclamou Públio, com ênfase, como quem está de posse de toda a verdade. – Repara bem os traços desta figura, para verificares a semelhança perfeita que existe entre mim e esse longínquo antepassado. Não estaria aqui a chave do meu sonho doloroso? O nobre patrício observou a notável identidade de traços fisionômicos daquela efígie morta com o semblante do amigo presente. Suas vacilações atingiram o auge, em face daquelas demonstrações alucinantes.

Ia elucidar o assunto, encarecendo a questão da linhagem e da hereditariedade, mas o interlocutor, como se adivinhasse os mínimos detalhes de suas dúvidas, antecipou o julgamento, exclamando: – Eu também participei de todas as hesitações que ferem o teu raciocínio, lutando contra a razão, antes de aceitar a tese de nossas conversações desta noite. A semelhança pela imagem, ainda a mais extrema, é natural e é possível; isto, porém, não me satisfaz plenamente. Expedi, nestes últimos dias, um dos servos de nossa casa, a Taormina, em cujas adjacências possuímos antiga habitação, onde se guardava o arquivo do extinto, que fiz transportar para aqui. E, num movimento de quem estava certo de todos os seus conceitos, revirava nas mãos nervosas vários documentos, exclamando: – Repara estes papiros! São notas de meu bisavô, acerca dos seus projetos no Consulado. Encontrei neste acervo de pergaminhos diversas minutas de sentenças de morte, as quais já havia observado nas minhas digressões do sonho inexplicável...

Confronta estas letras! Não se parecem com as minhas? Que desejaríamos mais, além destas provas caligráficas? Há muitos dias, vivo este obscuro dilema no íntimo docoração... Serei eu Públio Lentulus Sura, reencarnado?

Flamínio Severus deixou pender a fronte, com indisfarçável inquietação e indizível amargura. Numerosas haviam sido as provas da lucidez e da lógica do amigo. Tudo conspirava para que o seu castelo de explicações desmoronasse, fragorosamente, diante dos fatos consumados, mas procuraria novas forças, a fim de salvaguardar o patrimônio das crenças e tradições dos seus maiores, tentando esclarecer o espírito do companheiro de tantos anos. – Meu amigo – murmurou, abraçando-o, concordo contigo, em face destes acontecimentos alucinantes. O fato é dos que empolgam o espírito mais frio, mas não podemos arriscar nossas responsabilidades no rumo incerto das primeiras impressões.

Se ele nos parece a realidade, existem as realidades imediatas e positivas, aguardando o nosso concurso ativo. Considerando as tuas ponderações e acreditando mesmo na veracidade do fenômeno, não acredito devamos mergulhar o raciocínio nestes assuntos misteriosos e transcendentes. Sou avesso a essas perquirições, certamente em virtude das minhas experiências da vida prática. Concordando, de modo geral, com o teu ponto de vista, recomendo-te não estendê-lo além do círculo de nossa intimidade fraternal, mesmo porque, não obstante a propriedade de conceitos com que me dás testemunho da tua lucidez, sinto-te cansado e abatido nesse torvelinho de trabalhos do ambiente doméstico e social. Fez uma pausa nas suas observações comovidas, como quem raciocinasse procurando recurso eficaz para remediar a situação, e sugeriu com doçura: – Poderias descansar um pouco na Palestina, levando a família para essa estação de repouso.

Existem ali regiões de clima adorável, que operariam, talvez, a cura de tua filhinha, restabelecendo simultaneamente as tuas forças orgânicas. Quem sabe? Esquecerias o tumulto da cidade, regressando mais tarde ao nosso meio, com energias novas. O atual Procurador da Judéia é nosso amigo. Poderíamos harmonizar vários problemas do nosso interesse e de nossas funções, porquanto não me seria difícil obter do Imperador dispensa dos teus trabalhos no Senado, de modo a que continuasses recebendo os subsídios do Estado, enquanto permanecesses na Judéia.

Que julgas a respeito? Poderias partir tranqüilo, pois eu tomaria a meu cargo a direção de todos os teus negócios em Roma, zelando pelos teus interesses e pelas tuas propriedades. Públio deixou transparecer no olhar uma chama de esperança, e, como quem estivesse examinando, intimamente, todas as razões favoráveis ou contrárias à execução do projeto, ponderou: – A idéia é providencial e generosa, mas a saúde de Lívia não me autoriza a tomar uma resolução pronta e definitiva. – Porquê? – Esperamos, para breve, o segundo rebento do nosso lar. – E quando esperas esse advento?

– Dentro de seis meses. – Interessa-te a viagem depois do inverno próximo? – Sim. – Pois bem: estarás, então, na Judéia, precisamente daqui a um ano. Os dois amigos reconheceram que a palestra havia sido longa.

Cessara o aguaceiro. O firmamento esplendia de constelações lavadas e límpidas. Iniciara-se já o tráfego das carroças barulhentas, com os gritos pouco amáveis dos condutores, porque na Roma imperial as horas do dia eram reservadas, de modo absoluto, ao tráfego dos palanquins patrícios e ao movimento dos pedestres. Flamínio despediu-se comovidamente do amigo, retomando a liteira suntuosa, com o auxilio dos seus escravos prestos e hercúleos. Públio Lentulus, tão logo se viu só, encaminhou-se ao terraço, onde corriam céleres as brisas da noite alta.

À claridade do luar opulento, contemplou o casario romano espalhado pelas colinas sagradas da cidade gloriosa. Espraiou os olhos na paisagem noturna, considerando os problemas profundos da vida e da alma, deixando pender a fronte, entristecido. Incoercível tristeza dominava-lhe o ânimo voluntarioso e sensível, enquanto uma onda de amor-próprio e de orgulho lhe sopitava as lágrimas íntimas do coração atormentado por angustiosos pensamentos. II Um escravo Desde os primeiros tempos do Império, a mulher romana havia-se entregado à dissipação e ao luxo excessivo, em detrimento das obrigações santificadoras do lar e da família. A facilidade na aquisição de escravos empregados nos serviços mais grosseiros, como nos mais elevados misteres de ordem doméstica, inclusive os da própria educação e instrução, havia determinado grande queda moral no equilíbrio das famílias patrícias, porquanto a disseminação dos artigos de luxo, vindos do Oriente, aliada à ociosidade, amolecera as fibras de energia e de trabalho das matronas romanas, encaminhando-as para as frivolidades da indumenta, para as intrigas amorosas, a preludiar a mais completa desorganização da família, no esquecimento de suas tradições mais apreciáveis. Contudo, algumas casas haviam resistido heroicamente a essa invasão de forças perversoras e criminosas.

Mulheres havia, ao tempo, que se orgulhavam do padrão das antigas virtudes familiares, de quantas as tinham antecedido no labor construtivo das gerações de tantas almas sensíveis e nobres. As esposas de Públio e Flamínio eram desse número. Criaturas inteligentes e valorosas, ambas fugiam da onda corruptora da época, representando dois símbolos de bom-senso e simplicidade. As últimas expressões do inverno já haviam desaparecido, no ano de 32, entornando pela terra, primaveril e alegre, uma taça imensa de flores e perfumes... Num dia claro e ensolarado, vamos encontrar Lívia e Calpúrnia, na residência da primeira, em amável palestra, enquanto dois rapazinhos desenham, distraidamente, a um canto da sala.

As duas senhoras organizam aprestos de viagem, corrigindo defeitos de algumas peças de lã e trocando impressões íntimas, à meia voz, em tom amigo e discreto. Em dado momento, os dois meninos alcançam um dos quartos contíguos, enquanto Lívia chama a atenção da amiga, nestes termos: – Teus pequenos não têm hoje os exercícios habituais? – Não, minha boa Lívia – respondeu Calpúrnia, com delicadeza fraternal, adivinhando-lhe as intenções –, não só Plínio, mas, também, Agripa, consagraram o dia de hoje à doentinha. Adivinho as suas vacilações e escrúpulos maternos, considerando a boa saúde dos nossos filhinhos; mas, os teus receios são infundados... – Sabem os deuses, todavia, como tenho vivido nestes últimos tempos, desde que ouvi a opinião franca e sincera do médico de Tibur. Bem sabes que para ele o caso de minha filha é mal doloroso e sem cura.

Desde então, toda a minha vida tem sido uma série de preocupações e martírios. Tomei todas as providências para que a pequena fosse isolada do círculo de nossas relações, atendendo aos imperativos da higiene e à necessidade de circunscrever, com o nosso próprio esforço, a moléstia terrível. – Mas, quem te diz que o mal é incurável? Acaso semelhante opinião provejo da palavra infalível dos deuses? Não sabes quanto é enganosa a ciência dos homens?

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.