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Capítulo 26 de 38

Parte 26 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

Daí a minutos, a voz harmoniosa calava, como se fora obrigada a um divino estacato. O senador retirou-se, então, com os olhos marejados de lágrimas, refletindo consigo mesmo: "Sim, Lívia, de hoje a dois dias hei de provar-te que foste sempre a luz da minha vida inteira... Beijarei teus pés com a minha humildade agradecida e saberei entornar no teu coração o perfume do meu arrependimento..." Penetrando no aposento de Lívia, vamos encontrá-la genuflexa, depois de haver deposto, sobre um móvel predileto, a lira das suas recordações. Ajoelha-se, como sempre, diante da cruz de Simeão que, nesse dia, mostrava a seus olhos espirituais uma claridade mais intensa. No curso de suas preces, ouviu a palavra do amigo invisível, cuja tonalidade profunda parecia gravar-se, para sempre, no imo da sua consciência: "Filha – exclamava a voz amiga, do plano espiritual –, regozija-te no Senhor, porque são chegadas as vésperas da tua ventura eterna e imorredoura!

Eleva o pensamento humilde a Jesus, porque não está longe o instante ditoso da tua gloriosa entrada no seu Reino!..." Lívia deixou transparecer no olhar uma atitude de alegria e surpresa, mas, cheia de confiança e fé na providência divina, guardou, nos refolhos mais íntimos do coração, o conforto daquelas palavras sacrossantas. V Nas catacumbas da fé e no circo do martírio No dia imediato à cena que acabamos de descrever, vamos encontrar, juntas, as duas grandes amigas que, longe de serem a senhora e a serva, eram duas almas unidas pelos mesmos ideais, ligadas pelos elos mais santos do coração. Ana acabava de chegar a casa, depois de cumprir algumas obrigações no 5 Fórum Olitorium, quando, encontrando Lívia mais a sós, lhe disse confidencialmente: Senhora, hoje à noite uma nova voz se levantará no santuário das catacumbas, para as pregações da nossa fé. Amigos nossos me avisaram, esta manhã, que, já há alguns dias, se encontra na cidade um emissário da igreja de Antioquia, chamado João de Cleofas, portador de significativas revelações para nós outros, os cristãos desta cidade... Lívia deixou transparecer um clarão de íntimo contentamento nos olhos, exclamando: – Ah! Sim...

Havemos de ir hoje às catacumbas. Tenho necessidade de comungar com os nossos irmãos de crença, nas mesmas vibrações da nossa fé! Além disso, preciso agradecer ao Senhor a misericórdia das suas graças imensas... E elevando um pouco a voz, como se desejasse comunicar à amiga o santo júbilo de suas esperanças mais íntimas, exclamou com terno sorriso a lhe irradiar no semblante calmo: – Ana, desde a morte de Calpúrnia, noto que Públio está mais sereno e mais esclarecido... Nestes últimos dias, tem-me dirigido a palavra com a ternura de outros tempos, havendo-me afirmado, ainda ontem, que seu coração me reserva doce surpresa para amanhã, depois da sua vitória suprema na vida pública.

Sinto que é muito tarde para que seja novamente feliz neste mundo, mas, em suma, estou intimamente satisfeita, porque nunca desejei morrer em desarmonia com o companheiro que Deus me concedeu para as lutas e alegrias da vida. Acredito que nunca me perdoará o crime de infidelidade que julga haver eu praticado há vinte e cinco anos, mas choro de contentamento ao reconhecer que Públio me sente redimida, ante a severidade de seus olhos!... 5 Mercado de legumes. (Nota de Emmanuel) E chorava, comovida, enquanto a velha criada lhe afiançava com ternura: – Sim, minha senhora, talvez tenha ele reconhecido as suas abnegações santificantes no lar, nestes longos anos de sacrifícios abençoados. – Agradeço a Jesus tamanha misericórdia – revidou Lívia, sensibilizada. – Suponho mesmo que não estou longe de partir para o mundo das realidades celestes, onde todos os sofredores hão de ser consolados... E depois de ligeira pausa, continuou: – Ainda ontem, quando orava junto à cruz singela, lá no quarto, ouvi uma voz que me anunciava o Reino de Jesus para muito breve.

Ouvindo-a, Ana lembrou-se subitamente de Simeão e das horas que antecederam os seus sacrifícios, mergulhando-se em dolorosas cismas. Suas recordações remontavam ao passado longínquo, quando a voz de Lívia novamente a despertou nestes termos: – Ana – dizia com as heróicas decisões da sua fé –, não sei como serei chamada pelo Messias, mas, na hipótese da minha breve partida, peço-te continuares nesta casa, no teu apostolado de trabalho e sacrifícios, porque Jesus há de abençoar-te os labores santificantes. A antiga serva dos Lentulus queria dar novo rumo à conversação pungente e exclamou com a serenidade criteriosa que lhe conhecemos: – Senhora, sabe Deus qual de nós partirá primeiro. Esqueçamos, hoje, este assunto para pensar tão somente nas suas santificadas alegrias. E, como para encerrar a angustiada impressão daquela palestra íntima, rematou perguntando, confidencialmente: – Então, iremos hoje, de fato, às catacumbas?

– Sim. Fica combinado. À noitinha, partiremos para as nossas orações e carinhosas lembranças do Messias Nazareno. Tenho necessidade desse desafogo espiritual, após os longos meses que estive retida junto da minha nobre Calpúrnia; além disso, desejo pedir aos nossos irmãos que orem comigo por ela, testemunhando ao mesmotempo, ao Senhor, meu sincero agradecimento pelas suas graças divinas... Ao partirmos, peço-te me atives a memória, pois quero levar ao novo apóstolo uma espórtula destinada à igreja de Antioquia.

Se, amanhã, Públio vai receber o supremo galardão do homem do mundo, quero rogar a Jesus não lhe abandone o coração intrépido e generoso, para que as vaidades da Terra não o inibam de buscar, algum dia, o reino maravilhoso do céu! Assim entendidas, separaram-se na azáfama dos misteres domésticos. E enquanto o senador, durante todo o dia, tomava providências numerosas para que nada faltasse ao brilho pessoal do seu grande triunfo no dia imediato, Lívia passava as horas, de alma voltada para o Cristo, em preces fervorosas. À noitinha, consoante combinaram, lá se foram à secreta reunião das práticas primitivas do Cristianismo. Todos os servos graduados do palácio viram-nas sair, sem preocupação nem surpresa.

Em todo o longo período da moléstia de Calpúrnia, Lívia e Ana nunca mais haviam fixado a sua presença no interior do lar e não seria de estranhar que ambas houvessem deliberado buscar a residência dos Severus, naquela noite, de onde, possivelmente, não voltariam senão no dia seguinte, depois de confortarem o espírito abatido de Flávia, no desdobramento de seus fadigosos encargos domésticos. Foi assim que as horas passaram, tranqüilas e descuidadas; e quando o senador se aproximou dos aposentos da esposa, antegozando as profundas alegrias esperadas para o dia seguinte, presumiu, no pesado silêncio ali reinante, a significação do seu calmo repouso, nas asas leves e cariciosas do sono. Imaginando que Lívia descansava na paz soberana da noite, Públio Lentulus recolheu-se ao seu gabinete particular, com o cérebro referto de radiosas esperanças, no propósito de se penitenciar de todos os seus erros do passado. Lívia, porém, em companhia de Ana, aproveitara-se das primeiras sombras da noite para atingir as catacumbas. Passava das dezenove horas, quando ambas se ocultavam entre as pedras abandonadas que davam acesso aos subterrâneos, onde se amontoava a velha poeira dos mortos.

Num vasto espaço abobadado, que servira outrora às assembléias das cooperativas funerárias, reunia-se grande número de pessoas em torno da figura simpática e generosa do culto pregador, que chegara da Síria distante. A um canto, erguia-se improvisada tribuna, para onde, dai a minutos, subia João de Cleofas, dentro do halo de doçura que lhe aureolava a singular individualidade. O apóstolo de Antioquia trazia à cabeça os primeiros cabelos brancos e toda a sua figura estava saturada de forte magnetismo pessoal, que ligava intimamente a sua personalidade a quantos se lhe aproximavam, levados pela doce afinidade da crença e dos sentimentos profundos. Todos os presentes pareciam empolgados por sua palavra sedutora e impressionante, que se fez ouvir por quase duas horas sucessivas, caindo no coração do auditório como orvalho sublime da eloqüência celeste. Conceitos elevados e proféticas observações ressoavam pelas arcadas silenciosas e sombrias, fracamente iluminadas pela claridade de algumas tochas.

De fato, a assembléia tinha razão de se eletrizar com aquele doloroso e sublime profetismo, porque João de Cleofas pronunciava profunda alocução, mais ou menos nestes termos: – Irmãos, seja convosco a paz do Cordeiro de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, na intimidade da vossa consciência e no santuário do vosso coração!... O santo patriarca de Antioquia, nas suas preces e meditações de cada dia, recebeu numerosas revelações do Messias, ordenando a vinda de um mensageiro ao ambiente de vossos trabalhos na capital do mundo, a fim de anunciar-vos grandes coisas... Pelas revelações do Espírito Santo, os cristãos desta cidade impiedosa foram escolhidos pelo Cordeiro para o grande sacrifício. E eu vos venho anunciar nossa breve entrada no Reino de Jesus, em nome dos seus apóstolos bem-amados!... Sim, porque aqui, onde todas as glórias divinas foram escarnecidas e humilhadas pela impenitência das criaturas, se hão de travar os primeiros grandes embates das forças do bem e do mal, preludiando o estabelecimento definitivo, no mundo, da divina e eterna mensagem do Evangelho do Senhor!

Na última reunião geral dos crentes de Antioquia, manifestaram-se as vozes do céu, em línguas de fogo, como aconteceu nos dias gloriosos do cenáculo dos apóstolos, depois da divina ressurreição do nosso Salvador; e o vosso servo, aqui presente, foi escolhido para emissário dessas noticias confortadoras, porque as vozes celestes nos prometem o Reino do Senhor, em breves dias... Amados, acredito que estamos em vésperas dos mais atrozes testemunhos da nossa fé, pelos sofrimentos remissores, mas a cruz do Calvário deverá iluminar a penosa noite dos nossos padecimentos... Eu também tive a felicidade de ouvir a palavra do Senhor, nas horas derradeiras da sua dolorosa agonia, à face deste mundo. E que pedia ele, meus queridos, senão o perdão infinito do Pai para os algozes implacáveis que o atormentavam? Sim, não duvidemos das revelações do céu...

Verdugos inflexíveis rondam nossos passos e eu vos trago a mensagem do amor e da fortaleza em Nosso Senhor Jesus Cristo! Roma batizará sua nova fé com o sangue dos justos e dos inocentes; mas, também importa considerar que o Cordeiro imáculo de Deus Todo-Poderoso se imolou no madeiro infamante, para resgatar os pecados e aviltamentos do mundo!... Andaremos, talvez, nestas vias suntuosas, como em novas ruas de uma Jerusalém apodrecida, cheia de desolação e de amargura... Clamam as vozes celestes que, aqui, seremos desprezados, humilhados, vilipendiados e vencidos; mas, a vitória suprema do Senhor nos espera além das palmas espinhosas do martírio, nas claridades doces do seu reino, inacessível ao sofrimento e à morte!... Lavaremos com o nosso sangue e as nossas lágrimas a iniqüidade destes mármores preciosos, mas, um dia, irmãos meus, toda esta Babilônia de inquietação e de pecado ruirá, fragorosamente, ao peso de suas misérias ignóbeis...

Um furacão destruidor derrubará os falsos ídolos e confundirá as pretensiosas mentiras dos seus altares... Tormentas dolorosas do extermínio e do tempo farão chover sobre este Império poderoso as ruínas da pobreza e do mais triste esquecimento... Os circos da impiedade hão de desaparecer sob um punhado de cinzas, o Fórum e o Senado dos impenitentes hão de ser confundidos pela suprema justiça divina, e os guerreiros orgulhosos desta cidade pecadora rastejarão um dia, como vermes, pelas margens do mesmo Tibre que lhes carreia a iniqüidade!... Então, novos Jeremias hão de chorar sobre os mármores, à piedosa luz da noite... os suntuosos palácios destas colinas soberbas e donosas cairão em penoso torvelinho de assombros e, sobre os seus monumentos de orgulho, de egoísmo e vaidade, gemerão os ventos tristes das noites silenciosas e desertas... Felizes todos aqueles que chorarem agora, por amor ao Divino Mestre; venturosos todos os que derramarem seu sangue pelas sublimes verdades do Cordeiro, porque no céu existem as moradas divinas para os bem-aventurados de Jesus...

Falava a voz suave e terrível do emissário da igreja de Antioquia e suas palavras ressoavam no profundo silêncio das abóbadas ermas. Cerca de duas centenas de pessoas ali se encontravam, ouvindo-o atentamente. Quase todos os cristãos presentes choravam, embevecidos. No íntimo das almas pairava uma exaltação suave e mística, fazendo-lhes sentir as doces emoções de todos aqueles apóstolos anônimos, que tombaram nas arenas ignominiosas dos circos, para cimentar com sangue e lágrima a edificação da nova fé. Depois das profecias singulares e dolorosas, que encheram todos os olhares de clarões indefiníveis de alegria interior, na antevisão do glorioso Reino de Jesus, João foi consultado por numerosos confrades a respeito de vários assuntos de interesse geral para a marcha e desenvolvimento da nova doutrina, tal como acontecia nas primitivas assembléias do Cristianismo nascente, e a todos atendia com as mais francas expressões de bondade fraterna.

Interpelado, por um dos presentes, quanto ao motivo de sua alegria radiosa, quando as revelações do Espírito Santo anunciavam tão grandes provações e tantos padecimentos, o generoso emissário respondeu com sublimado otimismo: – Sim, meus amigos, não podemos esperar senão o sagrado cumprimento das profecias anunciadas, mas devemos considerar com júbilo que se Jesus permite aos ímpios a realização de monumentos maravilhosos, como os desta cidade suntuosa e apodrecida, que não reservará ele, na sua infinita misericórdia, aos homens bons e justos, nas claridades do seu Reino?

Aquelas respostas consoladoras caiam na alma da numerosa assembléia, como bálsamo dulcificante. Palavras de amor e saudações afetuosas eram trocadas entre todos, com as mais doces demonstrações de júbilo e fraternidade. Lívia e Ana tinham um clarão de alegria íntima a lhes brilhar nos olhos calmos. Ao fim da reunião, todos se levantaram para as preces singelas e espontâneas das primitivas lições do Cristianismo, em fontes puras. A voz do emissário de Antioquia, ainda uma vez, se fez ouvir, brilhante e clara: – Pai Nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso Reino de misericórdia, seja feita a vossa vontade, assim na Terra, como nos Céus...

Todavia, nesse instante, a palavra meiga e comovedora foi abafada por sinistro tinir de armaduras. – É aqui, Luculo!... – gritava a voz estentórica do centurião Clódio Varrus, que avançava, com os seus numerosos pretorianos, para a massa atônita dos cristãos indefesos, constituída, na sua maioria, de mulheres. Alguns crentes mais inflamados começaram então a apagar as tochas, provocando as trevas para a confusão e o tumulto, mas João de Cleofas descera da tribuna com a sua figura radiosa e impressionante. – Irmãos – gritou com voz estranha e vibrante no seu apelo, como que saturado de extraordinário magnetismo –, recomendou o Senhor que jamais colocássemos a luz sob o alqueire!

Não apagueis a claridade que deve iluminar o nosso exemplo de coragem e de fé!... A esse tempo, os dois centuriões presentes já haviam articulado as suas forças, em comum, organizando os cinqüenta homens que tinham vindo, sob suas ordens, para a hipótese de uma resistência. Viu-se, então, o apóstolo de Antioquia caminhar com desassombro, sob o pasmo silencioso dos presentes, dirigindo-se a Luculo Quintilius, estendendo-lhe os braços pacificamente e solicitando com empenho: – Centurião, cumpre a tua tarefa sem receio, porque eu não vim a Roma senão para as glórias do sacrifício. O preposto do Império não se comoveu com essas palavras e, depois de brandir ao rosto do missionário os copos de sua espada, em dois tempos amarrou-lhe os braços, impossibilitando-lhe os movimentos. Dois jovens crentes, dando largas ao seu temperamento ardoroso e sincero, revoltados com a crueldade, desembainharam as armas, que reluziram à claridade pálida daquele interior de penumbra, avançando para os soldados num gesto supremo de defesa e resistência, mas João de Cleofas advertiu ainda uma vez, com a sua palavra magnética e profunda: – Meus filhos, não repitais neste recinto a cena dolorosa da prisão do Messias.

Lembrai-vos de Malcus e guardai a vossa espada na bainha, porque os que ferem com o ferro, com o ferro serão feridos... Houve, então, na assembléia, um movimento de quietude e de assombro. A coragem serena do apóstolo contagiara todos os corações. Nos grandes movimentos da vida, há sempre uma vibração espiritual que flui doutros mundos, para conforto dos míseros viajores da jornada terrestre. Observou-se, desse modo, o inaudito e inesperado.

Todos os presentes imitaram o apóstolo valoroso, entregando os braços inermes para o sacrifício. No seu doloroso momento, Lívia enchera-se de uma coragem que nunca havia possuído. Diante da sua figura nobre e da sua indumentária de patrícia detiveram-se, longamente, os olhares significativos dos verdugos. Naquela assembléia, era ela a única mulher que ostentava as insígnias do patriciado romano. Clódio Varrus cumpria sua tarefa algo respeitoso e, daí a minutos, a pesada caravana estava a caminho da prisão, dentro das sombras espessas da meia-noite.

O cárcere onde os cristãos iam passar tantas horas ao relento, em angustiosa promiscuidade, que.. de algum modo, representava para eles suave consolo, ficava anexo ao grande circo, sobre cujas proporções gigantescas somos obrigados a deter nossas vistas, dando ao leitor uma fraca idéia da sua grandeza. O Circo Máximo ficava situado justamente no vale que separa o Palatino do Aventino, erguendo-se, ali, como uma das mais belas maravilhas da cidade invicta. Edificado nos primórdios da organização romana, suas proporções grandiosas se haviam desenvolvido com a cidade e, ao tempo de Domício Nero, tal era a sua extensão, que ocupava 2190 pés de comprimento, por 960 de largura, terminando em semicírculo, com capacidade para trezentos mil espectadores comodamente instalados. De ambos os lados, corriam duas ordens de pórticos, superpostos, ornados de colunas preciosas e coroadas de terraços confortáveis. Naquele luxo de construções e demasia de ornamentos, viam-se tascas numerosas e inúmeros lugares de devassidão, a cuja sombra dormiam os miseráveis e repousava a maioria do povo, embriagado e amolecido nos prazeres mais hediondos.

Seis torres quadradas, denotando as mais avançadas expressões de bom gosto da arquitetura da época, dominavam os terraços, servindo de camarotes luxuosos às personalidades mais distintas, nos espetáculos de grande gala. Largos bancos de pedra, dispostos em anfiteatro, corriam por três lados, localizando-se, em seguida, em linha reta, o espaço ocupado pelos cárceres, de onde saíam os cavalos e carros, bem como escravos e prisioneiros, feras e gladiadores, para os divertimentos preferidos da sociedade romana. Sobre os cárceres, erguia-se o suntuoso pavilhão do Imperador, de onde as mais altas autoridades e áulicos acompanhavam o César nos seus entretenimentos. A arena era dividida longitudinalmente por uma muralha de seis pés de altura, por doze de largura, erguendo-se sobre ela altares e estátuas preciosas, que ostentavam bronzes finos e dourados. Bem no centro dessa muralha, imprimindo um traço majestoso de grandeza ao ambiente, levantava-se, à altura de cento e vinte pés, o famoso obelisco de Augusto, dominando a arena colorida de vermelho e de verde, dando a impressão de relva deliciosa que se tingisse subitamente de flores de sangue.

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