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Capítulo 24 de 38

Parte 24 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

Referimo-nos a Fúlvia que, dois anos após o falecimento do companheiro, acusava as mais sérias perturbações mentais, além de inquietantes fenômenos orgânicos, provenientes de passados desvarios. Feridas cancerosas devoravam-lhe os centros vitais e, por dois anos a fio, o corpo emagrecido era forçado às mais penosas e incômodas posições de repouso, enquanto os olhos inquietos e arregalados dançavam nas órbitas, como se nas suas alucinações fosse compelida à vidência dos quadros mais sinistros e tenebrosos. Nessas ocasiões, não encontrava a dedicação da filha, que não soubera educar, sempre atarefada nos seus constantes compromissos de festas, encontros e representações sociais numerosas. Mas a misericórdia divina, que não abandona os seres mais desditosos, dera-lhe um filho carinhoso e compassivo para as dores expiatórias. Emiliano Lúcios, o marido de Aurélia, era desses homens dignos e valorosos, raros na paciência e nas mais elevadas virtudes domésticas.

Noites e noites sucessivas, velava pela velhinha infeliz, que as dores físicas castigavam impiedosamente com o azorrague de suplícios atrozes. Nos seus últimos dias, vamos ouvir-lhe as palavras desconexas e dolorosas. Noite alta, quando as próprias escravas descansavam, subjugadas pela fadiga e pelo sono, parecia que seus ouvidos de louca se aguçavam, espantosamente, para ouvir os ruídos do invisível, dirigindo impropérios às suas antigas vitimas, que voltavam das mais baixas esferas espirituais para rodear-lhe o leito de sofrimento e morte. Olhos desmesuradamente abertos, como se fixassem visões fatídicas e horrorosas, exclamava a pobre velhinha abraçando-se ao genro, no auge das suas freqüentes crises de medo e desesperação inconsciente: – Emiliano!... – exclamava em atitudes de pavor supremo.

– Este quarto está cheio de seres tenebrosos!... Não percebes? Ouve bem... Ouço-lhes os impropérios rijos e as sinistras gargalhadas!... Conheceste Sulpício Tarquinius, o grande lictor de Pilatos?...

Ei-lo que chega com os seus legionários mascarados de treva!... Falam-me da morte, falam-me da morte!... Socorre-me, filho meu!... Sulpício Tarquinius tem um corpo de dragão que me apavora!... Crises de soluço e lágrimas sucediam-se a essas observações angustiosas.

– Acalma-te, mãe! –exclamava o militar, consternado até às lágrimas. – Tenhamos confiança na bondade infinita dos deuses!... – Ah!... Os deuses!

– gritava agora a infeliz, em histéricas gargalhadas – os deuses... – onde estariam os deuses desta casa infame? Emiliano, Emiliano, nós é que criamos os deuses para justificar os desvarios de nossa vida! O Olimpo de Júpiter é uma mentira necessária ao Estado... Somos uma caveira enfeitada na Terra com um punhado de pó!...

O único lugar que deve existir, de fato, é o inferno, onde se conservam os demônios com os seus tridentes no braseiro!... Ei-los que chegam em falanges escuras!... E, apegando-se fortemente ao peito do oficial, gritava disparatadamente, como se buscasse ocultar o rosto, de sombras ameaçadoras: – Nunca me levareis, malditos!... Para trás, canalhas!... Tenho um filho que me defende de vossas investidas tenebrosas!...

Emiliano Lúcios acariciava bondosamente os cabelos brancos da desventurada senhora, incitando-a a implorar a misericórdia dos deuses, de modo a balsamizarem-se-lhe os rudes padecimentos. De outras vezes, Fúlvia Prócula, como se tivesse a consciência despertada por um raio divino, dizia, mais calma, ao filho que o destino lhe havia dado: – Emiliano, estou aproximando-me da morte e preciso confessar-te as minhas faltas e grandes deslizes! Perdoa-me, filho, se tamanhos trabalhos te hei proporcionado! Minha existência misérrima foi uma longa esteira de crimes, cujas manchas horrorosas não poderão ser lavadas pelas próprias lágrimas da enfermidade que ora me conduz aos impenetráveis segredos da outra vida! Nunca, porém, consegui ponderar as amarguras terríveis que me esperavam.

Hoje, nas pesadas sombras d’alma, sinto que minha consciência se tisna do carvão apagado do fogo das paixões nefastas que me devoraram o penoso destino!... Fui esposa desleal, impiedosa, e mãe desnaturada... Quem se apiedará de mim, se houver uma claridade espiritual após as cinzas do túmulo? Deste leito de loucura e agonia desesperada, vejo o desfile incessante de fantasmas hediondos, que parecem esperar-me no pórtico do sepulcro!... Todos profligam meus crimes passados e mostram-se jubilosos com os padecimentos que me arrastam à sepultura!

Sem uma crença sincera, sinto-me entregue a esses dragões do imponderável, que me fazem evocar o passado criminoso e sombrio!... Uma torrente de lágrimas de compunção e arrependimento seguia-se a esses instantes vertiginosos, de raciocínio e lucidez. Emiliano Lúcios afagava-lhe, com carinho, a face rugosa, imergindo-se ele mesmo em cismas dolorosas. Aquele quadro lancinante era bem o fim tempestuoso de uma existência de deslizes clamorosos. Sim...

Ele tudo compreendia agora. A rebeldia da esposa, a sua incompreensão, os atritos domésticos, aquela sede insaciável de festas ruidosas em companhia de afetos que não eram os dele, deviam ser os frutos amargos de educação viciada e deficiente. Mas, seu coração estava cheio de generosidade sem limites. Espírito valoroso, compreendia a situação, e quem compreende perdoa sempre. Uma noite em que a doente manifestava crises acentuadas e profundas, o bondoso oficial ordenou que as servas se recolhessem.

A pobre louca falava sempre, como se fora tocada de energia inesgotável e incompreensível. Copioso suor inundava-lhe a fronte, tomada de febre alta e constante. – Emiliano –gritava ela desesperadamente –, onde está Aurélia, que não busca velar à minha cabeceira nas vésperas da morte? Como as falsas amizades de minha vida, terá ela também horror do meu corpo? – Aurélia – explicou generosamente o oficial – precisava desobrigar-se hoje de um compromisso com as amigas, na organização de alguns serviços sociais! – Ah!

– exclamou a demente, em sinistras gargalhadas – Os serviços sociais... Os serviços sociais!... Como pudeste crer nisso, filho meu? Tua mulher, a estas horas, deve estar ao lado de Plínio Severus, seu antigo amante, em algum lugar suspeito desta cidade miserável!... Emiliano Lúcios fez o possível para que a infeliz dementada não prosseguisse em suas revelações terríveis e impressionantes; mas Fúlvia continuava o libelo tremendo e doloroso: – Não, não me prives de continuar...

– prosseguia desesperadamente – Ouve-me ainda! Todas as minhas acusações representam a criminosa realidade... Muitas vezes, a verdade está com aqueles que enlouqueceram!... Fui eu própria que induzi minha infeliz filha aos desvios conjugais... Plínio Severus era o inimigo que ela precisava vencer, na qualidade de mulher...

Facilitei-lhe o adultério, que se consumou sob este teto!... Certifica-te, filho meu, da enormidade das minhas faltas!... Horroriza-te, mas perdoa!... E vigia tua mulher para que não continue a trair-te com as suas perfídias torpes, e não venha um dia a apodrecer, lamentavelmente, como eu, num leito de sedas perfumosas!... O generoso militar acompanhava, boquiaberto e aflito, aquelas revelações assombrosas.

Então a esposa, além de não o compreender no seu idealismo, ainda o traia vergonhosamente, no próprio ambiente sacrossanto do lar? Emoções dolorosas represavam-se-lhe no coração, mas, possivelmente, todas aquelas palavras não passavam de simples delírio febril, na demência incurável. Uma dúvida horrível e impiedosa aninhara-se-lhe no coração angustiado. Algumas lágrimas umedeceramlhe os grandes olhos tristes, enquanto a enferma dava uma trégua às penosas revelações. Dai a minutos, porém, com voz estentórica, continuava: – E Aurélia?

Que é feito de Aurélia que não vem? Por onde andará minha pobre filha criminosa e infiel? Amanhã, meu filho, hei de confiar-te os infames segredos da nossa existência desventurada. Alguém, todavia, penetrara no aposento contíguo, cautelosa e silenciosamente. Era Aurélia, que voltava de uma festividade ruidosa, onde o vinho e os prazeres haviam jorrado em abundância.

Depois de atravessar a porta próxima, ainda ouviu as últimas palavras da mãe, no auge da febre e da desesperação doentia. Ela, que ouvira as tristes revelações de pouco antes, considerou que a doente, no dia imediato, haveria de cumprir a terrível promessa e, num relance, examinou todas as probabilidades de execução da idéia tenebrosa que lhe passara pela mente criminosa e infeliz. Seus olhos pareciam vidrados de cólera, sob o azorrague de um pensamento mórbido, que lhe aflorara repentinamente no coração frio e impiedoso. Despiu os trajes da festa, reintegrando-se nos aspectos interiores do lar, e abriu uma nova porta, dirigindo-se ao leito materno, onde acariciou a mãe fingidamente, enquanto o esposo incompreendido a contemplava, de cérebro fervilhante e dolorido, sob o domínio das dúvidas mais acerbas. – Mãe, que é isso?

– perguntou, afetando uma preocupação imaginária. – Estás cansada... precisas repousar um pouco. Fúlvia fitou-a profundamente, como se um clarão de lucidez lhe houvesse clareado repentinamente o espírito abatido. A presença da filha tranqüilizava de algum modo o seu coração dorido e a consciência dilacerada. Sentou-se com esforço, no leito, afagou os cabelos da filha, como sempre costumava fazer na intimidade, deitando-se em seguida e parecendo com boa disposição de repousar.

Emiliano Lúcios retirou-se da cena, considerando que sua presença já não era necessária. Mas Aurélia continuava a falar com o seu fingido carinho: – Queres, mãe, uma dose do calmante para o repouso preciso? A pobre louca, na sua inconsciência espiritual, fez um sinal afirmativo com a cabeça. A jovem encaminhou-se ao seu aposento privado e, retirando minúsculo tubo de um dos móveis prediletos, deixou pingar algumas gotas numa pequena taça de sedativo, monologando: "Sim!... um segredo é sempre um segredo... e só a morte pode guardá-lo convenientemente!..." Caminhou, sem hesitação, para o leito materno, onde, por mais de dois anos, jazia a infeliz, devorada pelo câncer e atormentada pelas visões mais sinistras e tenebrosas. Num relance, o horrível envenenamento estava consumado.

Ministrada a poção corrosiva e violenta, Aurélia determinou, então, que duas escravas velassem o sono da enferma, como de costume, ao regressar das noitadas ruidosas, esperando o resultado da ação criminosa e injustificável. Em duas horas, a enferma apresentava os mais evidentes sinais de sufocação sob a ação do corrosivo, que constituía mais um daqueles filtros misteriosos e homicidas da época. Ao chamamento aflito das servas, todas as pessoas da casa se colocaram a postos, dado o penoso estado da enferma. Emiliano Lúcios contemplou-lhe os olhos, que se iam apagando no véu da morte, e debalde procurou fazer que a agonizante lhe dissesse ainda uma palavra. Seus membros frios foram-se enrijando devagarinho e da boca começou a escaparlhe espuma rósea.

Em vão foram chamados os entendidos da medicina, naqueles derradeiros instantes. Naquela época, nem os esculápios conheciam os segredos anatômicos do organismo, nem havia polícia técnica para averiguar as causas profundas das mortes misteriosas. O envenenamento de Fúlvia correu por conta das moléstias incompreensíveis que, durante muitos meses, lhe haviam minado todos os centros de vitalidade. Contudo, aquela agonia rápida não passou despercebida a Emiliano, que juntou mais uma dúvida penosa aos amargos pensamentos que lhe negrejavam o foro íntimo. Aurélia buscou representar, do melhor modo, a comédia da sentimentalidade em tais circunstâncias, e depois das cerimônias simplificadas e rápidas, em vista da imediata decomposição cadavérica, que forçou a incineração em breves horas, o antigo lar do pretor Sálvio Lentulus tornou-se o abrigo de dois corações que se odiavam mutuamente.

Se a esposa infiel, logo após os primeiros dias de luto, retornava à sua existência de regalados prazeres, Emiliano Lúcios nunca pôde esquecer as revelações de Fúlvia, nas vésperas do seu desprendimento, envolvendo-se, então, num véu de tristeza que lhe cobriu o coração por mais de dois anos. Em 54, subia Domício Nero ao poder, fazendo-se acompanhar de uma depravada corte de áulicos perversos e de concubinas tão numerosas quão desalmadas. Muito tarde, reconheceu Agripina a inconveniência de sua atitude maternal obrigando o imperador Cláudio a anuir ao casamento de sua filha Otávia com aquele que, mais tarde, iria eliminar-lhe a própria vida com os maiores requintes de perversidade. O Fórum e o Senado receberam, tremendo, a sombria notícia da proclamação do novo César pelas legiões pretorianas, não tanto por ele, mas porque sabiam, de antemão, que aquele príncipe ignorante e cruel ia tornar-se um fácil joguete dos espíritos mais ambiciosos e mais perversos da corte romana. Ninguém, todavia, ousou protestar, tal a série de crimes tenebrosos, perpetrados impunentemente, para que Domício Nero atingisse os bastidores do supremo poder.

No ano 56, o envenenamento do jovem Britanicus punha arrepios de terror em todos os patrícios. Medidas ignominiosas foram postas em prática para humilhar os senadores do Império, que não conseguiram efetivar os seus protestos formais. Todas as famílias mais importantes da cidade conheciam que, diante de si, tinham os filtros venenosos de uma Locusta, a tirania e a perversidade de um Tigelinus, ou o punhal de um Aniceto. A morte inesperada de Britanicus, porém, provocara certo descontentamento, dando azo a que se manifestassem alguns espíritos mais valorosos. Entre esses, encontrava-se Emíliano Lúcios, que se viu logo em sérias perspectivas de banimento, tornando-se vigiado pelos inúmeros esbirros do Imperador.

O generoso oficial buscou recolher-se o mais que lhe era possível, evitando a possibilidade de conflitos. Recrudesceram as suas angústias íntimas e as suas meditações tornaram-se mais profundas e dolorosas... E, assim, certa vez, às primeiras horas de uma noite tranqüila, quando se recolhia ao lar, contrariamente aos seus hábitos mais antigos, notou que o aposento da esposa estava cheio de vozes animadas e alegres. Observou que Aurélia e Plínio se embriagavam no vinho de seus venenosos prazeres e, olhos traduzindo incoercível espanto, viu que a esposa o traía no próprio tálamo conjugal. Emiliano Lúcios sentiu que espinho mais agudo lhe penetrava o coração sensível e generoso, ao verificar, por si mesmo, aquela realidade cruel.

Teve ímpetos de chamar o amante ao campo da honra para morrer ou eliminar-lhe a vida, mas considerou, simultaneamente, que Aurélia não merecia tal sacrifício. Enojado de tudo que se referia à sua época e sentindo-se vencido nas desventuras do seu penoso destino, o nobre oficial retirou-se para o antigo gabinete do pretor Sálvio, onde estabelecera a sede de seus trabalhos diurnos e, tomado de sinistra e dolorosa resolução, abriu velho armário onde se alinhavam pequenos frascos, retirando um deles, de configuração especial, a fim de satisfazer os amargos propósitos do seu espírito exausto. Diante da taça de cicuta, o cérebro dorido perdeu-se, por minutos, em pungentes conjeturas, mas, estudando intimamente todas as suas probabilidades de ventura, ponderou, no auge do desespero, que, à traição da mulher, às ameaças de proscrição e de banimento ou à possibilidade de um ataque nas sombras, era preferível o que ele considerava o consolo derradeiro da morte.

Num instante, sem que os amigos espirituais pudessem demovê-lo do intento terrível, tal a subitaneidade do gesto desesperado e irrefletido, sorveu o conteúdo de pequena taça, descansando depois a jovem cabeça sobre os braços, estirado num leito próprio do triclínio, mas adaptado ao seu gabinete antigo, abarrotado de mármores e pergaminhos preciosos. A morte horrível não se fez esperar muito, e, no círculo numeroso de suas relações de amizade, enquanto Aurélia representava nova farsa de pesares imaginários, comentava-se o suicídio de Emiliano, não como conseqüência direta de suas profundas desilusões domésticas, mas como fruto da tirania política do novo imperador, sob cujo reinado tantos crimes foram cometidos, diariamente, nas sombras. Sozinha, agora, no seu campo de ação, Aurélia entregou-se livremente aos seus desvarios, amplificando as suas inclinações nocivas e procurando reter, cada vez mais, junto de si o homem de suas preferências, objeto de suas desenfreadas ambições.

Em casa dos Lentulus e dos Severus, a vida continuava a desfiar o rosário das desventuras. Havia mais de cinco anos, em 57, que Saul de Gioras se encontrava definitivamente instalado em Roma, sem haver desistido dos seus desejos e propósitos a respeito da esposa do amigo e benfeitor. Consolidada a sua fortuna no comércio de peles do Oriente, não perdia ele as mínimas oportunidades para evidenciar a excelência de sua situação material à mulher cobiçada de longos anos; Flávia Lentúlia, porém, fizera da existência um calvário de resignação, comovedora e silenciosa. A vida pública do marido era, para o seu espírito, um prolongado e doloroso suplício moral. Sobre o assunto, fazia Saul, de vez em quando, referências indiretas, no intuito de chamar-lhe a atenção para o seu afeto, mas a pobre senhora nele não via outra individualidade, além de um amigo, ou irmão.

Debalde, o moço judeu testemunhava-lhe sua admiração pessoal, em gestos de extrema gentileza, buscando oferecer-lhe a sua companhia; mas, a verdade é que os apelos de sua alma impetuosa e apaixonada não encontravam. ressonância no coração daquela mulher, que enfeitava com a dor a dignidade do matrimônio. Tocado pelas expressões do seu dinheiro, Araxes animava-lhe as esperanças sem o deixar esmorecer nos seus perigosos instintos. Plínio Severus só vinha ao lar de vez em quando, alegando serviços ou viagens numerosas para justificar a continuidade de sua ausência. Mal se precatava ele de que as despesas astronômicas lhe arruinavam, pouco a pouco, as possibilidades financeiras, conduzindo igualmente os seus familiares ao esgotamento de todos os recursos. Algumas vezes, mantinha colóquios afetuosos com a esposa, a quem se sentia preso pelos laços de afeição eterna e profunda, mas as seduções do mundo eram já muito fortes no seu coração, para serem extirpadas.

No íntimo, desejava voltar à calma do lar, à vida carinhosa e tranqüila; mas, o vinho, as mulheres e os ambientes ostentosos eram a permanente obsessão do seu espírito combalido; outras vezes, embora amando a esposa ternamente, não lhe perdoava a circunstância da sua superioridade moral, irritando-se contra a própria humildade que ela testemunhava em face dos seus desatinos, e regressava novamente aos braços de Aurélia, como vítima indecisa entre as forças do bem e do mal.

No ano 57, a saúde de Calpúrnia, abalada em extremo, obrigara a família a reunir-se em torno do leito da matrona generosa. Pela primeira vez, após o casamento do irmão, voltou Agripa Severus de suas longas aventuras em Massília e em Avênio, para junto de sua mãe enferma e abatida, atendendo-lhe os sentidos apelos. Reencontrar Flávia Lentúlia e participar com ela das claridades do ambiente doméstico, foi o mesmo que reavivar velho vulcão adormecido. A um golpe de vista, compreendeu a situação conjugal de Plínio, procurando substituir-lhe o afeto junto da esposa desvelada e meiga. Desejava confessar-lhe todo o seu amor ardente e infeliz, mas guardava no coração sublime respeito fraternal por aquela mulher, que confiava nele como irmão muito amado.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.