[user_registration_my_account]
Capítulo 11 de 38
Parte 11 de 38
Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel
É a primeira vez que noto uma patrícia usando tais artifícios para consolar o coração. Vai a tanto, assim, o seu menosprezo pelas nossas mais sagradas tradições familiares? – Supus não me ficasse bem fazer-me notada na multidão das pessoas pobres e infelizes que procuram a Jesus nas margens do lago, e, identificando-me com os sofredores, não presumi desacatar nossos costumes familiares, mas, sim, acreditei agir em favor do nosso nome, considerando a circunstância de ocupares, no momento, nesta província, a mais alta expressão política do Império. – A menos que esteja disfarçando algum outro sentimento, como dissimula a posição social com a indumentária, muito errou procurando o Messias nesses trajes, porque, afinal, estou investido de poderes para requisitar a presença de qualquer pessoa da região em minha casa! – Mas Jesus – revidou Lívia, corajosamente – deve estar para nós muito acima dos poderes humanos, que sabemos tão precários, por vezes.
Acho que a cura da nossa filhinha, diante da qual todos os nossos recursos foram impotentes, é o bastante para fazê-lo credor da nossa gratidão imperecível. – Ignorava que a sua organização mental fosse tão frágil em face dos sucessos do Mestre de Nazaré, aqui em Cafarnaum – continuou o senador, asperamente. A cura de nossa filha? Como assegurar uma coisa que a sua argumentação pessoal não pode provar com dados positivos? E ainda que esse homem, revestido de forças divinas para o espírito simples e ignorante dos pescadores galileus, tivesse operado essa cura com a sua intervenção sobrenatural, vindo a este mundo da parte dos deuses, poderíamos chamar-lhe impiedoso e cruel, sarando uma menina enferma de tantos anos e permitindo que os gênios do mal e da perversidade nos arrebatassem o filhinho sadio e carinhoso, em cuja fronte colocava a minha ternura de pai todo um futuro brilhante e promissor! – Cala-te, Públio!
– revidou ela, tomada de uma força superior que lhe conservava toda a serenidade do coração. – Recorda-te que os deuses podem humilhar-nos, com dureza, a vaidade e o orgulho absurdos... Se Jesus de Nazaré nos curou a filhinha bem-amada, que apertávamos nos braços frágeis contra os poderes imensos da morte, podia permitir que fôssemos tocados no mais sagrado sentimento de nossa alma, com o incompreensível desaparecimento do nosso Marcus, para que nos sentíssemos inclinados à piedade e à comiseração pelos nossos semelhantes!... – A senhora se compromete com essa demasiada tolerância, que vai ao absurdo da fraternização com os escravos disse Públio, com rispidez e austera severidade. Tal atitude de sua parte me fez pensar, seriamente, que a sua personalidade mudou no decurso deste ano, porque as suas idéias, longe do nível social da sede do Império, baixaram ao terreno dos sentimentos mais relaxados, em face da compostura que se exige da mulher de um senador, ou da matrona romana.
Lívia ouvira, angustiadamente, as palavras injustificáveis do marido. Nunca o vira tão irritado, em todo o transcurso da vida conjugal; mas, verificara, em si própria, uma renovação singular, como se o pão rústico, abençoado pelo Mestre, lhe transfigurasse as mais recônditas fibras da consciência. Seus olhos se enchiam de lágrimas, não por um orgulho ferido ou pela ingratidão que aquelas admoestações injustas revelavam, mas com profunda com paixão do esposo, que não a compreendia, e adivinhando a dolorosa tempestade que lhe fustigava o coração generoso, porém arbitrário, no plano de suas resoluções. Serena e silenciosa, não se justificou perante as severas reprimendas. Foi quando, então, compreendendo que aquele atrito não deveria prosseguir, dirigiu-se o senador para a porta de saída do apartamento, abrindo-a com estrépito, a exclamar: – Jamais fiz uma viagem tão penosa e tão infeliz!
Gênios malditos parecem presidir ás minhas atividades na Palestina, porque, se curei uma filha, perdi um filhinho no desconhecido e começo a perder a mulher no abismo das irreflexões e da incoerência; e acabarei, também, perdendo-me para sempre. Dizendo-o, bateu a porta com toda a força dos seus movimentos instintivos, encaminhando-se ao gabinete, enquanto a esposa, de coração genuflexo, dirigia o pensamento para aquele Jesus carinhoso e terno, que viera ao mundo para salvar todos os pecadores. Lágrimas dolorosas fluíam-lhe dos olhos, fixos ainda na paisagem do lago de Genesaré, aonde parecia haver regressado em espírito, novamente. Lá estava o Mestre, em atitudes doces de prece, cravando nas estrelas do céu os olhos fulgurantes. Figurou-se-lhe que Jesus também lhe notara a presença naquela hora sombria da noite, porque desviara o olhar fúlgido do firmamento constelado e estendia-lhe os braços compassivos e misericordiosos, exclamando com infinita doçura: – Filha, deixa que chorem os teus olhos as imperfeições da alma que o Nosso Pai destinou para gêmea da tua!...
Não esperes deste mundo mais que lágrimas e padecimentos, porque é na dor que os corações se lucificam para o céu... Um momento chegará em que te sentirás no acume das aflições, mas não duvides da minha misericórdia, porque no momento oportuno, quando todos te desprezarem, eu te chamarei ao meu reino de divinas esperanças, onde poderás aguardar teu esposo, no curso incessante dos séculos!... Pareceu-lhe que o Mestre continuaria a embalar-lhe o coração com suaves e carinhosas promessas de bem-aventurança, mas um ruído qualquer a separara daquela visão de luz e de felicidade indefiníveis. Quebrara-se o quadro da sua preocupação espiritual, como se feito de tenuíssimas filigranas. Todavia, a esposa do senador compreendeu que não fora vítima de uma perturbação alucinatória, e guardou, com amor, no âmago do coração, as doces palavras do Messias.
E, enquanto despia os trajes galileus, a fim de retomar o curso de suas obrigações domésticas, de alma límpida e consolada, parecia, ainda, lobrigar o vulto sereno e amado do Senhor, nas eminências verdejantes das margens do Tiberíades, através da neblina suave, que lhe embaciava os olhos úmidos de pranto. VIII No grande dia do Calvário Desde a sua altercação com a esposa, fechara-se Públio Lentulus na mais penosa taciturnidade. Dolorosas suspeitas lhe vergastavam o coração impulsivo, acerca do procedimento daquela que o destino algemara ao seu espírito, para sempre, no instituto da vida conjugal. Não pudera compreender o disfarce de que Lívia se utilizara para o encontro com o profeta de Nazaré, pois seu temperamento orgulhoso rebelava-se contra aquela atitude da mulher, considerando a sua posição social um penhor da veneração e do respeito de todos e dando guarida, assim, às mais penosas desconfianças, intoxicado pelas calúnias de Fúlvia e Sulpício.
Algum tempo decorrera e, enquanto ele se enclausurava no seu mutismo e na sua melancolia, Lívia abroquelava-se na fé, nas palavras carinhosas e persuasivas do Nazareno. Nunca mais voltara ela a Cafarnaum, com o fim de ouvir as consoladoras prédicas do Messias; mas, por intermédio de Ana, que lá comparecia pontualmente, procurou auxiliar, sempre que possível, os pobres que buscavam a palavra de Jesus, na medida dos seus recursos materiais.
Profunda tristeza lhe invadia o coração sensível e generoso, ao observar as atitudes incompreensíveis do companheiro; mas, a verdade é que já não colocava suas esperanças em qualquer realização do orbe terrestre, volvendo as mais ardentes aspirações para aquele reino de Deus, maravilhoso e sublime, onde tudo devia transpirar amor, ventura e paz, no seio farto de soberanas consolações celestes. Aproximava-se a Páscoa no ano 33. Numerosos amigos de Públio haviam aconselhado a sua volta temporária a Jerusalém, a fim de intensificar os serviços da procura do filhinho, no curso das festividades que concentravam, na época, as maiores multidões da Palestina, estabelecendo possibilidades mais amplas ao reencontro do desaparecido. Peregrinos incontáveis, de todas as regiões da província, dirigiam-se para Jerusalém, a participar dos grandes festejos, oferecendo, simultaneamente, os tributos de sua fé, no suntuoso templo. A nobreza indígena também se fazia notar ali, em tais circunstâncias, através de seus elementos mais representativos.
Todos os partidos políticos se arregimentavam para os serviços extraordinários das solenidades que reuniam as maiores massas do judaísmo, encaminhando-se para lá os homens mais importantes do tempo. As autoridades romanas, por sua vez, concentravam-se, igualmente, em Jerusalém, na mesma ocasião, reunindo-se na cidade quase todos os centuriões e legionários, destacados a serviço do Império, nas paragens mais remotas da província. Públio Lentulus não desdenhou o alvitre e, antes que a cidade se enchesse de romeiros e exploradores, já ali se encontrava com a família, fornecendo instruções aos servos de confiança, conhecedores do pequenino Marcus, de maneira a estabelecer um cordão de investigadores atentos e permanentes, enquanto perdurassem os festejos. Em Jerusalém, o convencionalismo social não se modificara, notando-se apenas a circunstância de Públio haver dispensado a residência do tio Sálvio, adquirindo uma vila confortável e graciosa em plena rua movimentada, de onde pudesse observar, igualmente, as manifestações populares. As vésperas da Páscoa chegaram com a volumosa preamar de peregrinos de todas as classes e de todas as localidades provinciais.
Interessante observar-se, naqueles blocos heterogêneos de povo, os hábitos mais dispares entre si. Caravanas sem conto, revelando os mais esquisitos costumes, atravessavam as portas da cidade, patrulhadas por numerosos soldados pretorianos. E enquanto o senador fazia comparações de ordem econômica, social e política, observando as massas de povo que afluíam às ruas movimentadas, vamos encontrar Lívia em palestra íntima com a serva de sua amizade e confiança. – Sabeis, senhora, que também o Messias chegou ontem à cidade? – exclamava Ana, com um raio de alegria nos grandes olhos.
– Verdade? perguntou Lívia, surpresa. – Sim, desde ontem chegou Jesus a Jerusalém, saudado por grandes manifestações populares. A ressurreição de Lázaro, em Betânia, confirmou suas divinas virtudes de Filho de Deus, entre os homens mais descrentes desta cidade, e acabo de saber que sua chegada foi objeto de imensas alegrias da parte do povo. Todas as janelas se enfeitaram de flores para a sua passagem triunfal, as crianças espalharam palmas verdes e perfumadas no caminho, em homenagem a ele e aos seus discípulos!... Muita gente acompanhou o Mestre desde as margens do lago de Genesaré, seguindo-o até aqui, através de todas as localidades.
Quem me trouxe a notícia foi um conhecido pessoal, portador do tio Simeão, que também veio a Jerusalém, nessa grande caminhada, apesar da sua idade avançada... – Ana, essa notícia é muito confortadora disse-lhe a senhora, com bondade e se eu pudesse iria ouvir a palavra do Mestre, onde quer que fosse; mas, bem sabes as dificuldades para a consecução deste intento. Entretanto, ficas livre de tuas obrigações e trabalhos, durante a permanência de Jesus em Jerusalém, de modo a bem aproveitares as festas da Páscoa, ouvindo, ao mesmo tempo, as prédicas do Messias, que tanto bem nos fazem ao coração. E, entregando à criada o indispensável auxílio pecuniário, observava que Ana partia satisfeita em demanda das cercanias do Monte das Oliveiras, onde estacionavam massas compactas de peregrinos, entre os quais se notava a presença do velho Simeão, de Samaria, romeiro desassombrado que não trepidara, apesar da idade avançada, em aderir ao movimento das peregrinações pelos mais escabrosos e longos caminhos. Em casa de Lentulus não havia tanto interesse pelas grandes festividades do judaísmo.
Um único motivo justificava a presença do senador em Jerusalém, naqueles dias turbulentos: o da busca incessante do filho, que parecia perdido para sempre. Diariamente ouvia os servos de confiança, após as diligências empreendidas e, de instante a instante, sentia-se mais acabrunhado por acerbas desilusões, considerando a luta inútil naquelas pesquisas exaustivas e infrutíferas. Na vivenda clara e ajardinada, as horas passavam vagarosas e tristes. Embalde se movimentavam as ruas, patrulhadas por soldados e cheias de criaturas de todos os matizes sociais. O vozerio das ruidosas manifestações populares transpunha aquelas portas quase silenciosas, como ecos apagados de rumores longínquos.
A penosa situação conjugal, em que se colocara, separava o senador da mulher, como se estivessem irremediavelmente distantes um do outro e destruídos os laços sagrados do coração. Foi a esse retiro de calma aparente que Ana voltou, certa manhã, passados alguns dias, a fim de cientificar a senhora da inesperada prisão do Messias. Com a simplicidade espontânea e sincera da alma popular, que ela encarnava, a serva humilde historiou, com os mais íntimos pormenores, a cena provocada pela ingratidão de um dos discípulos, em virtude do despeito e da ambição dos sacerdotes e fariseus do templo da grande cidade israelita. Amargamente compungida em face do acontecimento, Lívia considerou que, se fosse noutro tempo, recorreria imediatamente à proteção política do marido, de modo a evitar ao profeta de Nazaré os ataques das ambições desmesuradas. Agora, porém, reconhecia não lhe ser possível socorrer-se do prestigio do companheiro, em tais circunstâncias.
Mesmo assim, procurou aproximar-se dele, por todos os modos, embora improficuamente. De uma sala contígua ao seu gabinete, notou que Públio atendia a numerosas pessoas que o procuravam particularmente, em atitude discreta; e o interessante é que, segundo as suas observações, todos expunham ao senador o mesmo assunto, isto é, a prisão inesperada de Jesus Nazareno-acontecimento que desviara todas as atenções das festividades da Páscoa, tal o interesse despertado pelos feitos do Mestre, em todos os espíritos. Alguns solicitavam a sua intervenção no processo do acusado; outros, da parte dos fariseus ligados aos sacerdotes do Sinédrio, encareciam aos seus olhos o perigo das pregações de Jesus, apresentado por muitos como revolucionário inconsciente, contra os poderes políticos do Império. Debalde esperou Lívia que o marido lhe concedesse dois minutos de atenção, no compartimento próximo do seu gabinete privado. Sua ansiedade tocava o apogeu, quando lobrigou a figura de Sulpício Tarquinius, que vinha da parte de Pilatos solicitar ao senador o obséquio da sua presença, imediatamente, no palácio do governo provincial, a fim de resolver um caso de consciência.
Públio Lentulus não se fez rogado. Ponderando os deveres de homem de Estado, concluiu que deveria esquecer quaisquer prevenções da sua vida particular e privada, marchando ao encontro das obrigações que devia ao Império. Lívia perdeu, então, toda a esperança de implorar-lhe auxílio para o Mestre, naquele dia. Sem saber porque, intensa amargura invadia-lhe o mundo íntimo. E foi com a alma envolta em sombras que elevou ao Pai Celestial as suas preces fervorosas e sinceras, por aquele que seu coração considerava lúcido emissário dos céus, suplicando, a todas as forças do bem, livrassem o Filho de Deus da perseguição e da perfídia dos homens. Ao chegar à corte provincial romana, naquele dia inesquecível de Jerusalém, Públio Lentulus foi tomado de extraordinária surpresa.
Ondas compactas de povo se adensavam na praça extensa, em gritaria ensurdecedora. Pilatos recebeu-o com deferência e solicitude, conduzindo-o a um gabinete amplo, onde se reunia pequeno número de patrícios, escolhidos a dedo em Jerusalém. O pretor Sálvio, funcionários de destaque, militares graduados e alguns poucos romanos civis, de nomeada, que passavam eventualmente pela cidade, ali se aglomeravam, convocados pelo governador, que se dirigiu a Públio Lentulus, nestes termos: – Senador, não sei se tivestes ensejo de conhecer, na Galiléia, um homem extraordinário que o povo se habituou a chamar Jesus Nazareno. Esse homem foi agora preso, em virtude da condenação dos membros do Sinédrio, e a massa popular que o havia recebido, nesta cidade, com palmas e flores, pede agora, nesta praça, o seu imediato julgamento por parte das autoridades provinciais, em confirmação da sentença proferida pelos sacerdotes de Jerusalém. Eu, francamente, não lhe vejo culpa alguma, senão a de ardente visionário de coisas que não posso ou não sei compreender, surpreendendo-me amargamente o seu penoso estado de pobreza.
Neste comenos, penetraram na sala as duas irmãs, Cláudia e Fúlvia, que tomaram assento nesse conselho íntimo de patrícios. – Ainda esta noite – continuou Pilatos, apontando para a esposa –, parece que os augúrios dos deuses se manifestaram para a minha orientação, pois Cláudia sonhou que uma voz lhe recomendava que eu não deveria arriscar minha responsabilidade no julgamento desse homem justo. Resolvi, portanto, agir em consciência, aqui reunindo todos os patrícios e romanos notáveis de Jerusalém, para examinarmos o assunto, de modo que o meu ato não prejudique os interesses do Império, nem colida com o meu ideal de justiça. Que dizeis, pois, dos meus escrúpulos, na qualidade de representante direto do Senado e do Imperador, entre nós, neste momento? – Vossa atitude – obtemperou o senador, compenetrado de suas responsabilidades – revela o máximo critério nas questões administrativas.
E, recordando, no íntimo, os bens que havia recebido do profeta com a cura da filhinha, embora as dúvidas levantadas por seu orgulho e vaidade, continuou: – Conheci de perto o profeta de Nazaré, em Cafarnaum, onde ninguém o tinha na conta de conspirador ou revolucionário. Suas ações, ali, eram as de um homem superior, caridoso e justo, e jamais tive conhecimento de que sua palavra se erguesse contra qualquer instituto social ou político, do Império. Certamente, alguém o toma aqui como pretendendo a autoridade política da Judéia, cevando-se no seu nome as ambições e o despeito dos sacerdotes do templo. Mas, já que guardais no coração os melhores escrúpulos, porque não enviais o prisioneiro ao julgamento de Antipas, a quem, com mais propriedade, deve interessar a solução de semelhante assunto? Representando, nestes dias, o governo da Galiléia aqui em Jerusalém, acho que ninguém, melhor que Herodes, pode resolver em sã consciência um caso como este, considerando-se a circunstância de que julgará um compatrício seu, já que não vos supondes de posse de todos os elementos para proferir sentença definitiva nesse processo insólito.
A idéia foi unanimemente aceita, sendo o acusado conduzido à presença de Herodes Antipas, por alguns centuriões, obedecendo-se, rigorosamente, as determinações de Pilatos nesse sentido. Todavia, no palácio do Tetrarca da Galiléia, foi Jesus de Nazaré recebido com profundo sarcasmo. Apelidado pela gente simples como "Rei dos Judeus" e simbolizando a esperança de certas reivindicações políticas para numerosos de seus seguidores, entre os quais se incluía o famoso discípulo de Kerioth, o mestre de Nazaré foi tratado pelo príncipe de Tiberíades como vulgar conspirador, humilhado e vencido. Antipas, porém, para fazer sentir ao Procurador da Judéia a conta de ridículo em que tomava os seus escrúpulos, mandou que se tratasse o prisioneiro com o máximo de ironia. Vestiu-lhe uma túnica alva, igual à indumentária dos príncipes do tempo, colocando-lhe nos braços uma cana imunda à guisa de cetro, e coroou-lhe a fronte abatida com uma auréola de venenosos espinhos, devolvendo-o à sanção de Pilatos, no turbilhão de gritarias da populaça exacerbada.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.