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Capítulo 12 de 38
Parte 12 de 38
Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel
Muitos soldados romanos cercavam o acusado, protegendo-o das investidas da massa furiosa e inconsciente. Jesus, trajando, por irrisão, a túnica da realeza, coroado de espinhos e empunhando uma cana como símbolo do seu reinado no mundo, deixava transparecer, nos olhos profundos, indefinível melancolia. Cientificado de que o prisioneiro era devolvido por Antipas ao seu julgamento, o governador dirigiu-se novamente aos seus conterrâneos, exclamando: – Meus amigos, não obstante nossos esforços, Herodes apela também para nós outros, a fim de se confirmar a peça condenatória do profeta Nazareno, recambiando-o com a sua situação penosamente agravada perante o povo, porquanto, como suprema autoridade em Tiberíades, tratou o prisioneiro com revoltante sarcasmo, dando-nos a entender o desprezo com que supõe deva ele ser encarado pela nossa justiça e administração. Tão amarga situação contrista-me bastante, porque o coração me diz que esse homem é um justo; mas, que fazermos em semelhante conjuntura? Da câmara isolada, onde se reunia o apressado e reduzido conselho de patrícios, podiam observar-se os ecos rumorosos da turba amotinada, em espantosa gritaria.
Um ajudante de ordens do governador, de nome Polibius, homem sensato e honesto, penetrou no recinto, pálido e quase trêmulo, dirigindo-se a Pilatos: – Senhor Governador, a multidão enfurecida ameaça invadir a casa, se não confirmardes a sentença condenatória de Jesus Nazareno, dentro do menor prazo possível... – Mas, isso é um absurdo –retrucou Pilatos, emocionado. – E, afinal, que diz o profeta, em tais circunstâncias? Sofre tudo sem uma palavra de recriminação e sem um apelo oficial aos tribunais de justiça? – Senhor – replicou Polibius, igualmente impressionado –, o prisioneiro é extraordinário na serenidade e na resignação.
Deixa-se conduzir pelos algozes com a docilidade de um cordeiro e nada reclama, nem mesmo o supremo abandono em que o deixaram quase todos os diletos discípulos da sua doutrina! Comovido com os seus padecimentos, fui falar-lhe pessoalmente e, inquirindo-o sobre os seus martírios, afirmou que poderia invocar as legiões de seus anjos e pulverizar toda a Jerusalém dentro de um minuto, mas que isso não estava nos desígnios divinos e, sim, a sua humilhação infamante, para que se cumprissem as determinações das Escrituras. Fiz-lhe ver, então, que poderia recorrer à vossa magnanimidade, a fim de se ordenar um processo dentro de nossos dispositivos judiciários, de maneira a comprovar sua inocência e, todavia, recusou semelhante recurso, alegando que prescinde de toda proteção política dos homens, para confiar tão somente numa justiça que diz ser a de seu Pai que está nos céus! – Homem extraordinário!... – revidou Pilatos, enquanto os presentes o acompanhavam estupefatos.
– Polibius – continuou ele –, que poderíamos fazer para evitar-lhe a morte nefanda, nas mãos criminosas da massa inconsciente? – Senhor, em vista da necessidade de resolução rápida, sugiro a pena dos açoites na praça pública, por ver se assim conseguimos amainar as iras populares, evitando ao prisioneiro a morte ignominiosa nas mãos de celerados sem consciência... – Mas, os açoites?! – diz Públio Lentulus, admirado, antevendo as torturas do horrível suplício. – Sim, meu amigo – redargüiu o governador, dirigindo-lhe a palavra com atenção respeitosa –, a idéia de Polibius é bem lembrada.
Para evitarmos ao acusado a morte ignominiosa, temos de lançar mão deste recurso. Vivendo na Judéia há quase sete anos, conheço este povo e sei de suas temíveis atitudes, quando as suas paixões se desencadeiam. O suplício foi, então, ordenado, no pressuposto de evitar maiores males. Diante de todos, foi Jesus açoitado, de maneira impiedosa, aos berros estridentes da multidão amotinada. Nesse instante doloroso, Públio e alguns romanos se ausentaram por momentos da câmara privada onde se reuniam, a fim de observarem os movimentos instintivos da massa fanática e ignorante.
Não parecia que os peregrinos de Jerusalém haviam acorrido à cidade para as comemorações alegres da Páscoa, mas, tão somente, para procederem à condenação do humilde Messias de Nazaré. De quando em quando, fazia-se mister o concurso decidido de centuriões desassombrados, que dispersavam certos grupos mais exaltados, a golpes de chanfalho. O senador fez questão de aproximar-se do supliciado, na suas provações dolorosas e extremas. Aquele rosto enérgico e meigo, em que os seus olhos haviam divisado uma auréola de luz suave e misericordiosa, nas margens do Tiberíades, estava agora banhado de suor sangrento a manar-lhe da fronte dilacerada pelos espinhos perfurantes, misturando-se de lágrimas dolorosas; seus delicados traços fisionômicos pareciam invadidos de palidez angustiada e indescritível; os cabelos caíam-lhe na mesma disposição encantadora sobre os ombros seminus e, todavia, estavam agora desalinhados pela imposição da coroa ignominiosa; o corpo vacilava, trêmulo, a cada vergastada mais forte, mas o olhar profundo saturava-se da mesma beleza inexprimível e misteriosa, revelando amargurada e indefinível melancolia.
Por um momento, seus olhos encontraram os do senador, que baixou a fronte, tocado pela imorredoura impressão daquela sobre-humana majestade. Públio Lentulus voltou intimamente compungido ao interior do palácio, onde, daí a poucos minutos, retornava Polibius, cientificando o governador de que a pena do açoite não havia saciado, infelizmente, as iras da população enfurecida, que reclamava a crucificação do condenado.
Penosamente surpreendido, exclamou o senador, dirigindo-se a Pilatos, com intimidade: – Não tendes, porventura, algum prisioneiro com processo consumado, que possa substituir o profeta em tão horrorosas penas? As massas possuem alma caprichosa e versátil e é bem possível que a de hoje se satisfaça com a crucificação de algum criminoso, em lugar desse homem, que pode ser um mago ou visionário, mas é um coração caridoso e justo. O governador da Judéia concentrou-se por momentos, recorrendo à memória, com o fim de encontrar a desejada solução. Lembrou-se então de Barrabás, personalidade temível, que se encontrava no cárcere aguardando a última pena, conhecido e odiado de todos pelo seu comprovado espírito de perversidade, respondendo afinal: – Muito bem!... Temos aqui um celerado, no cárcere, para alívio de todos, e que poderia, com efeito, substituir o profeta na morte infamante!...
E mandando fazer o possível silêncio, de uma das eminências do edifício, ordenou que o povo escolhesse entre o bandido e Jesus. Mas, com grande surpresa de todos os presentes, a multidão bradava com sinistro alarido, numa torrente de impropérios: – Jesus!... Jesus!... Absolvemos Barrabás!... Condenamos a Jesus!...
Crucificai-o!... Crucificai-o!... Todos os romanos se aproximaram das janelas, observando a inconsciência da massa criminosa, no ímpeto de seus instintos desencadeados. – Que fazer diante de tal quadro? – perguntou Pilatos, emocionado, ao senador que o ouvia atentamente.
– Meu amigo respondeu Públio, com energia, se a decisão dependesse tão somente de mim, fundamentá-la-ia em nossos códigos judiciários, cuja evolução não comporta mais uma condenação tão sumária como esta, e mandava dispersar a multidão inconsciente à pata de cavalo; mas, considero que as minhas atribuições transitórias, junto ao vosso governo, não me outorgam direito a tais desmandos e, além disso, tendes aqui uma experiência de sete anos consecutivos. De minha parte, suponho que tudo foi feito para que as decisões não fossem precipitadas. Antes de tudo, o prisioneiro foi enviado ao julgamento de Antipas, que complicou a situação, diante da populaça irresponsável, dentro das suas infelizes noções da tarefa de um governo, deixando-vos a responsabilidade da última palavra sobre o assunto; em seguida, determinastes o suplício do açoite para satisfazer ao povo amotinado, e, agora, acabais de indicar outro criminoso para a crucificação, em lugar do acusado. Tudo inutilmente.
Como homem, estou contra este povo inconsciente e infeliz e tudo faria por salvar o inocente; mas, como romano, acho que uma província, como esta, não passa de uma unidade econômica do Império, não nos competindo, a nós outros, o direito de interferência nos seus grandes problemas morais e presumindo, desse modo, que a responsabilidade desta morte nefanda deve caber agora, exclusivamente, a essa turba ignorante e desesperada, e aos sacerdotes ambiciosos e egoístas que a dirigem.
Pilatos enterrou a fronte nas mãos, como a refletir maduramente naquelas ponderações; mas, antes que pudesse externar sua opinião, eis que Polibius aparece aflito, exclamando em atitude discreta: – Senhor governador, é preciso apressar vossa decisão. Espíritos maldizentes começam a duvidar da vossa fidelidade aos poderes de César, compelidos pela intriga dos sacerdotes do templo, colocando a vossa dignidade em terreno equívoco para todos... Além disso, a populaça tenta invadir a casa, tornandose necessário assumirdes atitude decisiva, sem perda de um minuto. Pilatos ficou rubro de cólera, diante de semelhantes injunções, exclamando irritado, como se estivesse sob o jugo do mais singular dos determinismos: – Está bem! Lavarei as mãos deste ignominioso delito!
O povo de Jerusalém será satisfeito... E, procedendo a esse ato que o celebrizaria para sempre, dirigiu algumas palavras ao condenado, mandando, em seguida, recolhê-lo a uma cela, onde pudesse permanecer alguns minutos, sem as grosseiras investidas da turba impetuosa, antes que a multidão o conduzisse ao Gólgota, que, na linguagem usual, deverá ser traduzido por Lugar da Caveira. Um sol abrasador tornara sufocante e insuportável a atmosfera. Saciada, afinal, a fúria da multidão nos seus desvairamentos infelizes, numerosos soldados seguiram o prisioneiro, que demandava o monte da crucificação, a passos vacilantes sob o madeiro da ignomínia, que a justiça da época destinava aos bandidos e aos ladrões. Até o momento de sua saída sob a cruz, ninguém se interessara por ele, junto à autoridade ([o governador da Judéia.
Depreendia daí o senador que, quantos seguiam o Mestre de Nazaré nas margens do lago, em Cafarnaum, o haviam abandonado inteiramente. De uma das janelas do palácio, considerou, penalizado, o desprezo infligido àquele homem que, um dia, o dominara com a força magnética da sua personalidade incompreensível, observando a ondulação da turba enfurecida, ao sair o inesquecível cortejo. Ao lado do Mestre não se via mais a carinhosa assistência dos discípulos e seus numerosos seguidores. Apenas algumas mulheres – entre as quais se destacava o vulto impressionante e agoniado de sua mãe – o amparavam afetuosamente, no doloroso e derradeiro transe. Aos poucos, a praça extensa aquietou-se ao calor sufocante da tarde que se avizinhava.
À distância, ouvia-se ainda a vozearia da plebe, aliada ao relinchar dos cavalos e ao tinir das armaduras. Impressionados com o espetáculo que, aliás, não era incomum na Palestina, reuniram-se os romanos em uma das salas amplas do palácio governamental, em animada palestra, comentando os instintos e paixões ferozes da plebe enfurecida. Daí a minutos, Cláudia mandava servir doces, vinhos e frutas, e, enquanto a conversação timbrava os problemas da província e as intrigas da corte de Tibério, mal imaginava aquele punhado de criaturas que, na cruz grosseira e humilde do Gólgota, ia acender-se uma gloriosa luz para todos os séculos terrestres. IX A calúnia vitoriosa Se Jesus de Nazaré havia sido abandonado por seus discípulos e seguidores mais diretos, o mesmo não se verificara quanto ao grande número de criaturas humildes que o acompanhavam com devoção purificada e sincera.
É verdade que essas almas, raras, não revelaram francamente as suas simpatias perante a turba desvairada, temendo-lhe as sanhas destruidoras, mas, muitos espíritos piedosos, como Ana e Simeão, contemplaram de perto os martírios do Senhor sob o açoite infamante, cheios de lágrimas angustiosas e esperando que, a cada momento, se pudesse manifestar a justiça de Deus contra a perversidade dos homens, a favor do Messias. Contudo, esvaeceram-se-lhes as derradeiras esperanças, quando, sob o peso da cruz, o supliciado caminhou a passos cambaleantes, para o monte da última injúria, depois de confirmada a ignóbil sentença.
Foi assim que Ana e seu tio, reconhecendo inevitável o martírio da crucificação, deliberaram seguir para a residência de Públio, para suplicar o patrocínio de Lívia, junto ao governador. Enquanto o cortejo sinistro e impressionante se punha em marcha nos seus movimentos vagarosos, ambos se desviaram da massa, encaminhando-se por uma viela ensolarada, em busca do almejado socorro. Penetrando na residência, enquanto Simeão a esperava, pacientemente, numa calçada próxima, dirige-se Ana à esposa do senador, que a recebeu surpresa e angustiada. – Senhora – diz, mal ocultando as lágrimas –, o profeta de Nazaré já está a caminho da morte ignominiosa na cruz, entre os ladrões!... Uma emoção mais forte embargara-lhe a voz, sufocada de pranto.
– Como?–respondeu Lívia, penosamente surpreendida – se a prisão data de tão poucas horas? – Mas é a verdade... – revidou a serva, compungida. – E em nome daqueles mesmos sofredores que vistes consolados pela sua palavra carinhosa e amiga, Junto às águas do Tiberíades, eu e meu tio Simeão vimos implorar o vosso auxílio pessoal perante o governador, a fim de fazermos um esforço derradeiro pelo Messias!... – Mas, uma condenação como essa, sem estudo, sem exame, é lá possível? Vive, então, aqui este povo sem outra lei que não a da barbaria?
– exclamou a senhora, visivelmente revoltada com a inopinada notícia. Como se desejasse arrancá-la a qualquer divagação incompatível com o momento, a serva insistiu com decisão e amargura: – Entretanto, senhora, não podemos perder um minuto. – Antes de tudo, porém, eu precisava consultar meu marido sobre o assunto... – monologou a esposa do senador, recordando-se, repentinamente, dos seus deveres conjugais. Onde estaria Públio naquele instante?
Desde a manhã, não regressara a casa, após o chamado insistente de Pilatos. Teria colaborado na condenação do Messias? Num relance, a pobre senhora examinou toda a situação nos seus mínimos detalhes, recordando, igualmente, os bens infinitos que o seu coração havia recebido das mãos caridosas e complacentes do Mestre Nazareno, e, como se estivesse iluminada por uma força superior que lhe fazia esquecer todas as questões transitórias da Terra, exclamou com heróica resolução: – Está bem, Ana, irei em tua companhia pedir a proteção de Pilatos para o profeta. Esperar-me-ás um momento, enquanto vou retomar aqueles trajes galileus que me serviram naquela tarde de Cafarnaum, dirigindo-me, deste modo, ao governador, sem provocar a atenção da turbamulta desenfreada. Em poucos minutos, sem refletir nas conseqüências da sua desesperada atitude, Lívia estava na rua, novamente enfiada nos trajes simples da gente pobre da Galiléia, trocando amarguradas impressões com o ancião de Samaria e sua sobrinha, acerca dos dolorosos acontecimentos.
Aproximando-se da sede do governo provincial, seu coração palpitou com mais força, obrigando-a a mais demorados pensamentos. Não seria uma temeridade da sua parte procurar o governador, sem prévio conhecimento do marido? Mas, tudo não fizera ela, em vão, para aproximar-se do esposo arredio e irritado, de maneira a reerguer sua antiga confiança? E Pilatos? Na sua imaginação, guardava ainda os pormenores das amargas comoções daquela noite em que lhe fora ele mais franco, quanto aos sentimentos inconfessáveis que a sua figura de mulher lhe havia inspirado.
Lívia hesitou ao penetrar num dos ângulos da grande praça, agora adormecida por um sol causticante, de brasas vivas. Seu raciocínio contrariava a atitude que assumira aos apelos da serva, que representava, aos seus olhos, a súplica angustiada de inúmeros espíritos desvalidos; seu coração, porém, sancionava plenamente aquele derradeiro esforço em favor do emissário celeste que lhe havia curado as chagas da filhinha, enchendo de tranqüilidade inalterável o seu coração atormentado de esposa e mãe, tantas vezes incompreendido. Além disso, nesse conflito interior da razão e do sentimento, este último lhe fazia lembrar que Jesus, nas margens do lago, lhe falara de amargurados sacrifícios pela sua grande causa, e não seria aquela a hora sagrada da gratidão de sua fé ardente e do seu testemunho de reconhecimento? Aliviada pela íntima satisfação do cumprimento do seu carinhoso dever, avançou então, desassombradamente, deixando os dois companheiros à sua espera, num dos largos recantos da praça, enquanto procurava ganhar as adjacências do edifício, com ligeiro desembaraço. Batia-lhe o coração descompassadamente.
Como encontrar o governador da Judéia àquela hora? Um sol ardente concentrava, em tudo, calor intolerável e sufocante. O cortejo, em demanda do Gólgota, partira havia quase uma hora e o palácio parecia agora mergulhado numa atmosfera de silêncio e de sono, após as penosas confusões daquele dia. Apenas alguns centuriões montavam guarda ao edifício e, quando Lívia alcançou menor distância das portas principais de acesso ao interior, eis que se lhe depara a figura de Sulpício, a quem se dirigiu com o máximo de confiança e de inocência, pedindo-lhe o obséquio de solicitar uma audiência privada e imediata ao governador, em seu nome. a fim de falar-lhe quanto à dolorosa situação de Jesus de Nazaré. O lictor mirou-a de alto a baixo com o olhar de lascívia e cupidez que lhe eram características e, crendo piamente nas relações ilícitas daquela mulher com o Procurador da Judéia, em virtude de suas observações pessoais, por coincidências que se lhe figuravam a realidade perfeita daquela suposta prevaricação, presumiu, naquele ato insólito, não o motivo apresentado, que lhe pareceu ótimo pretexto para afastar quaisquer desconfianças, mas o objetivo de se encontrar com o homem de suas preferências.
Criatura ignóbil, de que se utilizava o governador para instrumento de suas paixões malignas, entendeu que semelhante entrevista deveria ser levada a efeito na maior intimidade, e, sabendo que Públio Lentulus ainda lá se encontrava em animada palestra com os companheiros, conduziu Lívia a um gabinete perfumado, onde se alinhavam preciosos vasos de aromas do Oriente, saturados de fluidos sutis e entontecedores, e onde Pilatos recebia, por vezes, a visita furtiva das mulheres de conduta equívoca, convidadas a participar dos seus licenciosos prazeres. Ignorando, por completo, o mecanismo de circunstâncias que a conduziam a uma penosíssima situação, Lívia acompanhou o lictor ao gabinete aludido, onde, embora estranhando a suntuosidade extravagante do ambiente, se demorou alguns minutos, a sós, aguardando ansiosamente o instante de implorar, de viva voz, ao procurador da Judéia a sua prestigiosa interferência a favor do generoso Messias de Nazaré. Nem ela, nem Sulpício, todavia, chegaram a perceber que uns olhos perscrutadores os acompanharam com profundo interesse, desde o exterior do edifício ao gabinete privado a que nos referimos.
Era Fúlvia, que, conhecendo semelhante apartamento do palácio, surpreendera a esposa do senador, sob o disfarce daquela túnica humilde, da vida rural, enchendo-se-lhe o coração de pavorosos ciúmes, ao verificar aquela visita inesperada. Enquanto Sulpício Tarquinius fazia um sinal familiar ao governador, a que este atendeu de pronto, indo imediatamente ao seu encontro num vasto corredor, onde murmuraram ambos algumas palavras em tom discreto, cientificando-se Pilatos da almejada entrevista em particular, aquela maliciosa criatura demandava alcovas do seu íntimo conhecimento, de maneira a certificar-se, positivamente, através dos reposteiros, da presença de Lívia na câmara privada do governador, destinada às suas expansões licenciosas.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.