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Capítulo 21 de 38

Parte 21 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

Porventura, serei eu diferente das outras moças do meu tempo? E, alteando a voz como alguém que necessitasse defender-se pronunciando um libelo contra o acusador, desatou em considerações inconvenientes, através de termos asquerosos, rematando: – E tu, mãe, não tens igualmente... Fúlvia, porém, de um salto, colou-se ao corpo da filha numa atitude acrimoniosa e severa, exclamando com fria serenidade: – Cala-te! Nem mais uma palavra, pois que não era meu propósito acalentar uma víbora no próprio seio!... Compreendendo, porém, que a situação podia tornar-se mais penosa em virtude das suas grandes culpas, como mãe, como esposa e na qualidade de mulher, exclamou com voz quase melíflua, como a dar uma triste lição à própria filha: – Ora esta, Aurélia! Não te aborreças!...

Se falei desse modo foi para te insinuar que não podemos cativar um homem, para as nossas garantias femininas no matrimônio, dando-lhe tudo de uma só vez. Um homem nervoso e galanteador, qual o filho de Flamínio, conquista-se por etapas, fazendo-lhe poucas concessões e muitos carinhos. Bem sabes que o primeiro problema da vida de uma mulher da nossa época se resume, antes de tudo, na obtenção de um marido, porque os tempos são maus e não podemos dispensar a sombra de uma árvore que nos abrigue de surpresas penosas, entre as asperezas do caminho... – É verdade, mãe – respondeu a jovem totalmente modificada, mercê daquelas astuciosas ponderações –; o que me dizes é a realidade e já que são tão grandes as tuas experiências, que me sugeres para a realização dos meus desejos? – Antes de tudo – retornou Fúlvia, perversamente – devemos recorrer aos argumentos do ciúme, que são sempre mais fortes, quando existe um interesse mais ou menos sincero, de conseguir alguma coisa em assuntos de amor.

E já que te entregaste tanto ao filho de Flamínio, vê se aproveitas as primeiras festas do circo, provocando-lhe impulsos de inveja e despeito. Não tens sido cortejada pelo protegido do questor Britanicus? – Emiliano? – perguntou a moça, interessada. – Sim, Emiliano.

Trata-se igualmente de um bom partido, pois o seu futuro nas classes militares parece de ótimas perspectivas. Procura seduzir-lhe a atenção, diante de Plínio, de modo a fazermos todo o possível por conseguir-te o descendente dos Severus, que, afinal, é o partido mais vantajoso de quantos apareçam. – Mas se o plano falhar, para nosso desgosto? – Resta-nos recorrer às ciências de Araxes, com os seus ungüentos e artes mágicas... Pesado silêncio fizera-se entre ambas, no exame daquela perspectiva de recorrer, mais tarde, às forças tenebrosas de um dos mais célebres feiticeiros da sociedade de então.

Dias se passaram sobre dias, porém o filho mais moço de Flamínio não voltou a cortejar a filha do pretor Sálvio Lentulus, e quando, daí a algum tempo, voltou a freqüentar os circos festivos e ruidosos, não teve grande surpresa encontrando, na intimidade de Emiliano, aquela a quem se sentia ligado tão somente pelos laços frágeis e artificiais da lascívia e dos hábitos viciosos do tempo. Aurélia, todavia, não se conformava, intimamente, com o abandono a que fôra votada, planejando a melhor maneira de exercer, oportunamente, sua vingança, porque Plínio, ante as vibrações cariciosas do amor de Flávia Lentúlia, parecia um homem inteiramente modificado. Afastara-se espontaneamente das bacanais comuns da época, fugindo, igualmente, dos companheiros antigos que o arrastavam no torvelinho de todos os vícios e leviandades. Parecia, mesmo, que uma força nova o guiava agora para a vida, talhando-lhe de novo o coração para os ambientes caridosos e lúcidos da família.

No palácio dos Lentulus, a vida transcorria com relativa tranqüilidade. Calpúrnia passava ali os primeiros meses, depois do falecimento do marido, em companhia dos filhos, enquanto Plínio e Flávia teciam o seu romance de esperança e de amor, nas luzes da mocidade, sob a bênção dos deuses, de quem não se esqueciam, na culminância radiosa da sua doce afeição.

Alheando-se das inquietações da época, Plínio recolhia-se, sempre que possível, aos seus aposentos no palácio do Aventino, entregando-se à pintura, ou à escultura, em que era exímio, modelando em preciosos mármores belos exemplares de Vênus e de Apolo, que eram dados a Flávia como recordação do seu intenso amor. Ela, por sua vez, compunha delicadas jóias poéticas. musicadas na lira por suas próprias mãos, oferecendo as flores d’alma ao noivo idolatrado, em cujo espírito generoso colocara os mais belos sonhos do coração. Apenas uma pessoa não tolerava aquele formoso encontro de duas almas gêmeas. Essa pessoa era Agripa. Desde o instante em que vira a filha do senador, no porto de Óstia, pensou haver encontrado a futura esposa.

Supunha-se o único candidato ao coração daquela jovem romana, enigmática e inteligente, em cujas faces coradas brincava sempre um sorriso de bondade superior, como se a Palestina lhe houvesse imposto uma beleza nova, cheia de misteriosos e singulares atrativos. Mas, à vista dos projetos de casamento do irmão com Flávia, seus planos haviam fracassado totalmente. Debalde, presumira haver encontrado a mulher dos seus sonhos, porque a ternura, os caprichos dela pertenciam ao irmão, unicamente. Foi por esse motivo que, de par com o retraimento de Plínio Severus, dentro do lar, para a organização de seus projetos futuros, Agripa se desviara para uma longa série de atos impensados, acentuando, cada vez mais, a feição extravagante da sua personalidade, preferindo as companhias mais nocivas e os ambientes mais viciosos. No curso dos seus desvios numerosos, adoecera gravemente, inspirando cuidados à sua mãe, que se desvelava pelos filhos com o mesmo carinho de sempre.

Vamos encontrá-lo, desse modo, por uma bela tarde romana, no mesmo terraço onde vimos Públio Lentulus em amargas meditações, nas primeiras páginas deste livro. Virações caridosas refrescavam o crepúsculo, ainda saturado dos clarões de sol formoso e quente. A seu lado, Calpúrnia examina algumas peças de lã, deitando-lhe olhares afetuosos. Em dado momento, a veneranda senhora dirige-lhe a palavra neste termos: – Então, meu filho, rendamos graças aos deuses, porque agora te vejo muito melhor e a caminho do mais franco restabelecimento. – Sim, mãe – murmurou o moço convalescente –, estou bem melhor e mais forte; todavia, espero que nos transfiramos para nossa casa dentro de dois dias, a fim de poder consolidar minha cura, procurando esquecer...

– Esquecer o quê? – perguntou Calpúrnia, surpreendida. – Minha mãe – respondeu o jovem, enigmaticamente –, a saúde não pode voltar ao corpo quando o espírito contínua enfermo!... – Ora, filho, deves abrir-me o coração com mais sinceridade e mais franqueza. Confia-me as tuas mágoas mais íntimas, pois é possível que te possa dar algum consolo!...

– Não, mãe, não devo fazê-lo! E, assim falando, Agripa Severus, fosse pelo estado de abatimento em que ainda se encontrava, fosse pela necessidade de um desabafo mais intenso, desatou em pranto, surpreendendo amargamente o coração materno com a sua inesperada atitude. – Mas que é isso, filho? Que se passa em teu íntimo, para sofreres dessa forma? – perguntou-lhe Calpúrnia, extremamente penalizada, enlaçando-o nos braços carinhosos. – Dize-me tudo!...

– prosseguiu aflita. – Não me ocultes tuas mágoas, Agripa, porque eu saberei remediar a situação de qualquer modo! – Mãe, minha mãe!... – disse ele, então, num longo desabafo – eu sofro desde o dia em que Plínio me arrebatou a mulher desejada... Sinto nalma uma atração misteriosa por Flávia e não posso conformar-me com a dolorosa realidade desse casamento que se aproxima.

Acredito que, se meu pai ainda vivesse, procuraria salvar minha situação, conquistando para mim esse matrimônio, com as resoluções providenciais que lhe conhecíamos... Esperei sempre, através de todas as venturas da mocidade, que me surgisse no caminho a criatura idealizada em meus sonhos, para organizar um lar e constituir uma família e, quando aparece a mulher de minhas aspirações, eis que ma arrebatam, e quem?!... Porque a verdade é que, se Plínio não fora meu irmão, não vacilaria em usar e abusar dos mais violentos processos para atingir a consecução dos meus desejos!... Calpúrnia ouvia-o em silêncio, compartilhando das suas angústias e das suas lágrimas. Ignorava aquele duelo silencioso de sentimentos e somente agora podia compreender a moléstia indefinida que lhe devorava o filho mais velho, avassaladoramente.

Seu coração possuía, porém, bastante experiência da vida e dos costumes do tempo, para ajuizar com o máximo acerto a situação e, transformando a sensibilidade feminina e os receios maternais em rígida fortaleza, respondeu-lhe comovida, acariciando-lhe os cabelos numa doce atitude: – Meu Agripa, eu te compreendo o coração e sei avaliar a intensidade dos teus padecimentos morais; precisas, porém, compreender que há na vida fatalidades dolorosas, cujos problemas angustiantes devemos resolver com o máximo de coragem e paciência... Nem foi para outra coisa que os deuses nos colocaram nas culminâncias sociais, de modo a ensinarmos aos mais ignorantes e mais fracos as tradições da nossa superioridade espiritual, em face de todas as penosas eventualidades da vida e do destino. Sufoca no teu íntimo essa paixão injustificável, mesmo porque, sinto que Flávia e teu irmão nasceram neste mundo com os seus destinos entrelaçados... Plínio ainda era uma criança de colo, quando teu pai já projetava esse matrimônio, agora prestes a consumar-se. – Sê forte – continuava a nobre matrona enxugando-lhe as lágrimas silenciosas e tristes –, porque a existência exige de nós, algumas vezes, esses gestos de renúncia ilimitada!...

Ergamos, todavia, nossas súplicas aos deuses! De Júpiter há de chegar, para a tua alma ulcerada, o necessário conforto. Agripa, depois de ouvir a voz materna, sentia-se mais ou menos aliviado, como se o seu íntimo houvesse serenado após uma tempestade dos mais antagônicos sentimentos. Considerou que as ponderações maternas representavam a verdade e preparava-se, intimamente, ainda com a penosa impressão psíquica que o atormentava, para se resignar, infinitamente, com a situação dolorosa e irremediável. Calpúrnia deixou passar alguns minutos, antes de lhe dirigir a palavra novamente, como se aguardasse o efeito salutar das suas primeiras ponderações, continuando: – Não te interessaria, agora, uma viagem à nossa propriedade do Avênio? Bem sei que, pela força da tua vocação e pelo imperativo das circunstâncias, teu lugar é aqui, como sucessor de teu pai; mas, essa viagem representaria a solução de vários problemas urgentes, inclusive o teu caso íntimo.

Agripa ouviu a sugestão com o máximo interesse, replicando afinal: – Minha mãe, tuas palavras carinhosas me confortaram e aceito a sugestão, a ver se consigo encontrar o maravilhoso elixir do esquecimento; contudo, desejava partir com atribuições de Estado, porque, desse modo, poderia demorar-me em Massília, lá permanecendo com a autoridade que me será necessária em tais circunstâncias... – E não poderias conseguir facilmente esse propósito? – Acredito que não. Para demandar essa viagem com atribuições oficiais, apenas conseguiria os meus intentos, em caráter militar. – E porque não movimentarmos nossas prestigiosas relações de amizade para obter o que desejas?

Bem sabes que, com o auxílio de Públio e do senador Cornélio Docus, Plínio aguarda promoção a oficial em breves dias, com amplas perspectivas de progresso e novas realizações futuras, no quadro das nossas classes armadas. Dizem mesmo que o Imperador Cláudio, consolidando a centralização de poderes com a nova administração, se mostra satisfeito quando transforma as regalias políticas em regalias militares. A mim só me causaria orgulho e satisfação oferecer meus dois filhos ao Império, para a consolidação de suas conquistas soberanas. – Assim o farei – replicou Agripa, já de olhos enxutos, como se as sugestões maternas constituíssem brando remédio para as suas penosas preocupações. Aos poucos, escoavam-se no horizonte os derradeiros clarões rubros da tarde, que davam lugar a uma formosa noite cheia de estrelas.

Amparado pelos braços maternos, o moço patrício recolheu-se mais confortado aos aposentos, esperando o ensejo de providenciar quanto aos seus novos planos. Após acomodá-lo convenientemente, voltou Calpúrnia ao terraço, onde procurou repousar das intensas fadigas morais. Suplicando a piedade dos deuses, fixou nos céus constelados os olhos lacrimosos. Parecia que o coração lhe havia parado no peito para assistir ao desfile das recordações mais cariciosas e mais doces, embora com a mente torturada por pensamentos amargos e dolorosos. Mais de seis meses haviam decorrido após a morte do esposo e a nobre matrona sentia-se já completamente estranha na sociedade e no mundo.

Fazia prodígios mentais para enfrentar dignamente a sua situação social, porquanto sentia, na sua velhice resignada, que o curso do tempo vai insulando determinadas criaturas à margem do rio infinito da vida. Sentia, no ambiente e nos corações que a rodeavam, uma diferença singular, como se faltasse uma peça do mecanismo do seu raciocínio, para completar um preciso julgamento das coisas e dos acontecimentos. Essa peça era a presença do esposo, que a morte arrebatara; era a sua palavra ponderada e amorosa, meiga e sábia. Desde os primeiros dias de permanência na casa dos amigos, recebera de Lívia e Públio, em separado, as mais dolorosas confidências sobre os fatos da Palestina, que lhes comprometeram para sempre a ventura e tranqüilidade conjugal. Mobilizando, porém, todas as suas faculdades de observação e análise, não conseguira pronunciar-se em definitivo quanto aos acontecimentos em favor da inocência da sua bondosa e leal amiga.

Se, aos seus olhos, Públio Lentulus era o mesmo homem integrado no conhecimento de seus nobilíssimos deveres junto do Estado e das mais caras tradições da família patrícia, Lívia pareceu-lhe excessivamente modificada nos seus modos de crer e de sentir. Na sua concepção de orgulho e vaidade raciais, não podia admitir aqueles princípios de humildade, aquela fraternidade e aquela fé ativa de que Lívia dava pleno testemunho junto dos próprios escravos, dentro dos postulados da nova doutrina que invadia todos os departamentos da sociedade. Quanto desejava ela ter ainda o esposo a seu lado, de modo a poder submeter-lhe aqueles assuntos íntimos, a fim de lhe adotar a opinião sempre cheia de ponderações e sabedoria... Mas, agora, estava sozinha para raciocinar e agir, com plena emancipação de consciência, e por mais que buscasse no íntimo uma solução para o doloroso problema conjugal dos amigos, nada podia dizer, nas suas observações e no exame das tradições familiares, cultivadas, pelo seu espírito, com o máximo deorgulho e de cuidado. No céu brilhavam miríades de constelações, dentro da noite, acentuando o mistério de suas penosas divagações, quando a seus ouvidos chegaram alguns rumores de passos que se aproximavam.

Era Públio que, terminada a refeição, vinha igualmente ao terraço, descansar o pensamento. – Por aqui? –perguntou a matrona com bondade. – Sim, minha amiga, apraz-me voltar, em espírito, aos dias que já se foram... Por vezes, aprecio o repouso neste terraço, a fim de contemplar o céu.

Para mim, é de lá, dessa cúpula imensa e estrelada, que recebemos luz e vida; é lá que deve estar o nosso inesquecível Flamínio, embalado pelo carinho dos deuses generosos!... E, de fato, nobre Calpúrnia – prosseguiu o senador, atencioso –, era este um dos lugares prediletos de nossas palestras e divagações, quando o sempre lembrado amigo me dava a honra de suas visitas a esta casa. Foi ainda aqui que, muitas vezes, trocamos idéias e impressões sobre a minha partida para a Judeia, nas vésperas de minha prolongada ausência de Roma, há mais de dezesseis anos!... Longa pausa sobreveio, parecendo que os dois aproveitavam as claridades suaves da noite, com idêntica vibração espiritual, para descerem ao túmulo do coração, exumando as lembranças mais queridas, em resignado e doloroso silêncio. Após alguns minutos, como se desejasse modificar o curso de suas recordações, exclamou a veneranda matrona: – Lembrando-nos de tua viagem, no passado, preciso avisar-te de que Agripa deve partir para Avênio, tão logo se sinta restabelecido.

– Mas, que motiva essa novidade? – perguntou Públio, com grande interesse. Há muitos dias venho refletindo na necessidade de examinarmos, ali, os numerosos interesses de nossas propriedades, mesmo porque, antes de morrer, era intenção do meu morto cuidar pessoalmente deste assunto. – A solução do problema, porém, é tão urgente assim? E o casamento de Plínio? Agripa não estará presente, porventura?

– Acredito que não; todavia, na hipótese de sua ausência, ele será representado por Saul, antigo liberto de nossa casa, que já nos mandou um mensageiro de Massília, comunicando sua presença às cerimônias. – É pena!... – murmurou o senador, sensibilizado. – Devo dizer-te, ainda mais – continuou a matrona, com serenidade –, que espero o prestigioso favor da tua amizade, junto de Cornélio Docus, a fim de que consigas do Imperador Cláudio uma boa situação para o nosso viajante, que deseja partir com atribuições oficiais, necessitando para tanto que sejam transformados em regalias militares os direitos políticos que lhe competem pelo nascimento. – Não será difícil consegui-lo.

A atual administração interessa-se muito mais pela valorização das classes armadas. Novo silêncio verificou-se na conversação, voltando o senador a exclamar, depois de longa pausa, como se desejasse aproveitar a oportunidade para a solução decisiva do seu amargo problema: – Calpúrnia – disse ansiosamente –, ao falar de minha excursão no passado, informaste-me da viagem forçada do nosso Agripa, no presente. E eu continuo a relembrar minha ventura desfeita, a felicidade perdida, que nunca mais voltou!... O senador observava todas as atitudes psicológicas da sua venerável amiga, ansioso por surpreender-lhe um gesto de conforto supremo. Desejava que ela, como conselheira de Lívia, quase como a própria mãe desta, pelos laços eternos e sacrossantos do espírito, lhe dissipasse todas as dúvidas, falasse da inocência da esposa, proporcionando-lhe uma certeza de que o seu coração caprichoso e egoísta de homem estava enganado; mas, em vão aguardou essa defesa espontânea, que não apareceu no instante necessário e decisivo.

A respeitável viúva de Flamínio deixara no ar o mesmo ponto de dolorosa interrogação, murmurando com voz triste, enquanto uma réstia de luar lhe coroava os cabelos brancos: – Sim, meu amigo, os deuses podem dar-nos a felicidade e podem retomá-la... Somos duas almas chorando sobre o sepulcro dos sonhos mais gratos do coração!... Aquelas palavras desalentadoras penetravam no peito sensível e orgulhoso do senador, como sabre afiado que o rasgasse vagarosamente. – Mas, afinal, minha nobre amiga – exclamou ele quase enérgico, como se esperasse resposta decisiva para a angustiosa indecisão da sua alma, que pensas atualmente de Lívia? – Públio – respondeu Calpúrnia com serenidade –, não sei se a franqueza seria um mal em certas circunstâncias, mas prefiro ser sincera. Desde as penosas confidências que me fizeste, sobre os fatos que se desenrolaram na Palestina, venho observando nossa amiga de modo a poder advogar a causa da sua inocência perante o teu coração, mas, infelizmente, noto em Lívia as mais singulares e imprevistas diferenças de ordem espiritual.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.