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Capítulo 8 de 38

Parte 8 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

Idéias martirizantes povoavam-lhe o cérebro exausto de tantas lutas interiores e, depois de uma invocação aos gênios protetores da família, no altar doméstico, buscou repousar das amargas fadigas íntimas. Naquela noite, todavia, sua alma experimentava as mesmas recordações da existência pregressa, nas asas embaladoras do sonho. Viu-se vestido com as mesmas insígnias de Cônsul ao tempo de Cícero, reviu as atrocidades praticadas por Públio Lentulus Sura, sua expulsão do Consulado, as reuniões secretas de Lúcio Sergius Catilina, as perversidades revolucionárias, sentindo-se de novo levado à presença daquele mesmo tribunal de juízes austeros e venerandos, que no sonho anterior lhe haviam notificado o seu renascimento na Terra, em época de grandes claridades espirituais. Diante daqueles magistrados veneráveis, ostentando togas alvas de neve, experimentou amarga sensação de angústia, batendo-lhe descompassadamente o coração. O mesmo juiz respeitável levantou-se, no ambiente sublimado de luzes espirituais, exclamando: – Públio Lentulus, porque desprezaste o minuto glorioso, com o qual poderias ter comprado a hora interminável e radiosa da tua redenção na eternidade?

Estiveste, esta noite, entre dois caminhos – o do servo de Jesus e o do servo do mundo. No primeiro, o jugo seria suave e o fardo leve; mas, escolheste o segundo, no qual não existe amor bastante para lavar toda a iniqüidade... Prepara-te, pois, para trilhá-lo com destemor, porque preferiste o caminho mais escabroso, em que faltam as flores da humildade, para atenuar o rigor dos espinhos venenosos!... Sofrerás muito, porque nessa estrada o jugo é inflexível e o fardo pesadíssimo; mas agiste com liberdade de consciência, no jogo amplo das circunstâncias de tua vida... Conduzido a uma oportunidade maravilhosa, perseveraste no propósito de percorrer a via amarga e dolorosa das provações mais ríspidas e mais agudas.

Não te condenamos, para tão somente lamentar o endurecimento do teu espírito em face da verdade e da luz! Retempera todas as fibras do teu "eu", pois enorme há de ser, doravante, a tua luta!... Ouvia, atento, aquelas exortações comovedoras, mas, nesse instante, despertou para a sensações da vida material, experimentando singular abatimento psíquico, a par de tristeza indefinível. Ainda cedo, sua atenção foi reclamada por Lívia, que lhe apresentava a pequena Flávia, convalescente e feliz. A epiderme como que se alisara, submetida a processo terapêutico desconhecido e maravilhoso, desaparecendo os tons violáceos que, anteriormente, precediam as rosas de chaga viva.

O senador recuperou alguma coisa da sua serenidade íntima, com o verificar as melhoras positivas da filhinha, que apertou amorosamente de encontro ao coração, exclamando mais tranqüilo: – Lívia, é bem verdade que ontem, à noite, estive com o chamado mestre de Nazaré, mas, com a lógica da minha educação e dos meus conhecimentos, não posso admitir seja ele o autor do restabelecimento de nossa filha. E, de seguida, passou a relatar de modo superficial os acontecimentos que já conhecemos, sem referir, todavia, os pormenores que mais o impressionaram. Lívia ouviu atenciosamente a narrativa, mas, notando-lhe as íntimas disposições para com o profeta, que ela considerava criatura superior e venerável, não quis externar seu pensamento em torno do assunto, receosa de um atrito de opiniões, inoportuno e injustificável. No seu coração, agradecia àquele Jesus carinhoso e compassivo, que lhe atendera às angustiosas súplicas maternais e, no imo d’alma, acariciava a esperança de beijar-lhe a fímbria da túnica, com humildade, em testemunho do seu sincero reconhecimento, antes de regressar a Roma. Quatro dias decorridos, a enferma apresentava sinais evidentes de seguro restabelecimento físico, dando motivo ao mais amplo júbilo de todos os corações.

Em radiosa manhã, vamos encontrar a jovem Lívia acalentando o filhinho, prestes a completar um ano, e instruindo a criada de nome Sêmele, de origem judia, designada para velar pela criancinha, tal o interesse que demonstrara pelo pequenino Marcus, desde o instante de sua admissão ao serviço. Em dado momento, exclama a serva, apontando para o largo caminho empedrado: – Senhora, lá vêm dois cavaleiros desconhecidos, a todo galope. Ouvindo-lhe a observação, Lívia pôde vê-los, igualmente, ao longo da estrada ampla, e logo se foi para o interior, a fim de prevenir o marido. Efetivamente, daí a minutos estacavam à porta dois cavalos suados e ofegantes. Um homem trajado à romana, em companhia de um guia judeu, apeava rápido e bem disposto.

Tratava-se de Quirilius, liberto de confiança de Flamínio Severus, que vinha, em nome do patrão, trazer a Públio e família algumas noticias e numerosas lembranças. Essa surpresa amável encheu o dia de gratas recordações e sadios prazeres, motivando horas das mais inefáveis alegrias. O nobre patrício não esquecera os amigos distantes, e, entre as notícias confortadoras e considerável remessa de dinheiro, vieram doces lembranças de Calpúrnia, endereçadas a Lívia e aos dois fílhinhos. Naquele dia, Públio Lentulus ocupou-se tão somente de encher numerosos rolos de pergaminho, para mandar ao companheiro de luta notícias minuciosas de todas as ocorrências. Entre elas estava a boa-nova do restabelecimento da filhinha, atribuído ao clima adorável da Galiléia.

Mas, como possuía naquele valoroso descendente dos Severus uma alma de irmão dedicado e fiel, a cujo coração jamais deixara de confiar as mais recônditas emoções do seu espírito, escreveu-lhe longa carta, em suplemento. com vistas ao Senado Romano, sobre a personalidade de Jesus Cristo, encarando-a serenamente, sob o estrito ponto de vista humano sem nenhum arrebatamento sentimental. E, por fim, Públio e Lívia anunciavam alegremente, aos seus amigos distantes, que retornariam a Roma possivelmente dentro de um mês, dado o perfeito restabelecimento da pequena Flávia. Terminado o longo expediente, já era tarde; mas, nesse mesmo dia, ao cair da noite, quando os dois esposos se entretinham no triclínio a reler as doces palavras dos queridos ausentes, tecendo as esperanças risonhas do breve regresso, eis que Sulpício se faz anunciar em companhia de um mensageiro de Pilatos. Atendendo-os no gabinete particular, o senador recebe a visita do emissário, que se lhe dirige, respeitosamente, nestes termos: – Ilustríssimo, o senhor governador da Judéia participa-vos haver chegado à sua residência dos arredores de Nazaré, onde espera o grato prazer de vossas ordens e notícias. – Agradecido!

– replicou Públio, bem humorado, acrescentando: – Ainda bem que o senhor procurador não está distante, ensejando-me pouca demora em Jerusalém, no meu regresso a Roma em breves dias!... Algumas expressões protocolares foram trocadas, mas Públio Lentulus não reparou nas atitudes de Sulpício, que lhe deitava olhares significativos. VI O rapto Ao tempo do Cristo, a Galiléia era um vasto celeiro que abastecia quase toda a Palestina. Nessa época, o formoso lago de Genesaré não apresentava nível tão baixo, como na atualidade. Todo o terreno circunvizinho era de regadio, em vista das fontes numerosas, dos canais e do serviço das noras que elevavam as águas, dando origem a uma vegetação luxuriante que enfeitava de frutos e enchia de perfumes aquelas paisagens paradisíacas. O trigo, a cevada, as abóboras, as lentilhas, os figos e as uvas eram elementos de semeadura e colheita em todo o ano, dando à vida satisfação e abundância.

Nas eminências da terra, misturando-se aos extensos vinhedos e olivais, elevavam-se palmeiras e tamareiras preciosas, cujos frutos eram os mais ricos da Palestina. Em Cafarnaum, além dessas riquezas, prosperava a indústria da pesca, dada a abundância do peixe no então chamado "Mar da Galiléia", o que resumia uma vida simples e tranqüila. Dentre todos os outros povos dos centros galileus, o de Cafarnaum se distinguia por sua beleza espiritual, despretensiosa e singela. Consciencioso e crente, aceitava a Lei de Moisés, mas estava muito longe das manifestações hipócritas do farisaísmo de Jerusalém. Foi em virtude dessa simplicidade natural e dessa fé espontânea e sincera que a paisagem de Cafarnaum serviu de palco às primeiras lições inesquecíveis e imortais do Cristianismo, em sua primitiva pureza.

Ali encontrou Jesus o carinho de corações devotados e valorosos, e foi ali que o mundo espiritual encontrou os melhores elementos para a formação da escola inolvidável, onde o Divino Mestre exemplificaria os seus ensinos. Em todas as cidades da região havia sinagogas, para que as lições da Lei fossem ministradas aos sábados, dia que todos os indivíduos deveriam dedicar exclusivamente ao descanso do corpo e às atividades do espírito. Nessas pequenas sinagogas, franqueava-se a palavra a quantos desejassem utilizá-la, mas Jesus preferia o templo suave da Natureza para a difusão dos seus ensinos. Todas as classes humildes acorriam às suas prédicas ao ar livre, cuja extraordinária beleza seduzia os corações mais empedernidos. Antiga convenção, entre os senhores, determinava o repouso dos servos no dia consagrado aos estudos da Lei, e os próprios romanos procuravam cultivar aquelas tradições regionais, buscando a simpatia do povo conquistado. Nessa época, grande era a afluência dos escravos às pregações consoladoras do Messias de Nazaré.

Uma semana havia decorrido após o recebimento das notícias de Roma e, nesse sábado, às primeiras horas da tarde, vamos encontrar Lívia e Ana em conversação íntima e carinhosa. – Sim – dizia a jovem patrícia à serva, que se encontrava em trajes de sair – , se te for possível, hoje, agradecerás de viva voz ao profeta, em meu nome, já que me sinto tão feliz, graças à sua infinita bondade. E dize-lhe que, se eu puder, nas vésperas de partir para Roma procurarei conhecê-lo, a fim de lhe beijar as mãos generosas, em testemunho do meu reconhecimento!... – Não esquecerei vossas ordens e espero que possais ir até a casa de Simão para visitá-lo, antes de vos retirardes destes lugares... Ainda hoje – prosseguiu em tom confidencial – devo encontrar na cidade o velho tio Simeão, que veio de Samaria especialmente para receber a sua bênção e os seus ensinos.

Não sei se a senhora sabe que entre os samaritanos e os galileus há rixas muito antigas; mas o Mestre, muitas vezes, nas suas lições de amor e fraternidade, tem louvado os primeiros pela sua caridade leal e sincera. Numerosos milagres já foram efetuados por ele, na Samaria, e meu tio é um desses beneficiados que hoje virá receber a bênção de suas mãos consoladoras!... Uma doce e comovente fé ungia a alma daquela mulher do povo, intensificando em Lívia o desejo de conhecer aquele homem extraordinário que sabia iluminar, com as suas graças, os corações mais ignorantes e mais singelos. – Ana, espera um pouco – disse, sensibilizada, dirigindo-se aos seus aposentos. E voltando com a fisionomia radiante, satisfeita por começar ali mesmo a sua fraternização cristã, deu à empregada algumas moedas, exclamando com a maior alegria: – Leva este dinheiro ao tio Simeão, em meu nome...

Ele veio de longe para ver o Messias e tem necessidade de recursos! Ana recebeu a importância, que era de alguns denários, agradeceu, radiante, aquela dádiva considerada como verdadeira fortuna e, daí a minutos, com Sêmele e outras companheiras dirigiu-se pela estrada de Cafarnaum, em demanda do lago, onde aguardariam o cair da tarde, quando a barca de Simão Barjona trouxesse o Messias para as pregações costumeiras. Na cidade, seu primeiro cuidado foi correr a uma choupana pobre e antiga, onde o velho Simeão a estreitou carinhosamente nos braços, chorando de alegria. Grande júbilo alvoroçou em seguida aqueles corações desprotegidos da sorte, em face da generosa oferta de Lívia, a qual significava para eles um pequeno tesouro. Deixando as companheiras no local do costume, em virtude daquela circunstância, Ana não pôde reparar que, logo após a sua ausência, Sêmele se retirou apressadamente em demanda de uma casa oculta entre oliveiras numerosas, ao fim de uma viela quase completamente abandonada.

Algumas pancadas na porta e uma senhora de boa aparência veio atendê-la, solícita. – Chegou o nosso amigo? – perguntou a empregada, fingindo despreocupação. – Sim, o senhor André aqui está desde ontem. à sua espera. Faça o favor de esperar um pouco. Daí a minutos, uma personagem de nosso conhecimento vinha ter com Sêmele, num dos ângulos da sala, abraçando-a com efusão, corno se fosse pessoa de sua profunda estima.

Era André de Gioras, que vinha a Cafarnaum para o golpe de represália, favorecido por uma aliada que a sua sede de vindita conseguira colocar, em Jerusalém, na casa de Públio Lentulus, através de uma sagacidade cruel – Depois de longa palestra em voz muito baixa, ouçamos a serva do senador, que lhe fala nestes termos: – Não há dúvida... Já consegui captar toda a confiança dos patrões e a simpatia do pequeno. Pode, pois, ficar tranqüilo, porque o momento é oportuno, visto que o senador pretende voltar para Roma em breves dias! – Infame! – exclamou André, cheio de cólera – já pensa, então, no regresso?

Muito bem!... Aquele maldito romano conseguiu escravizar para sempre o meu pobre filho, desatendendo às minhas súplicas paternas, mas há de pagar muito caro a sua ousadia de conquistador, porque seu filho há de ser um servo da minha casa! Um dia, hei de mostrar-lhe a minha desforra, provando-lhe que também sou umhomem!. Estas palavras ele as disse entre dentes, em voz soturna, de olhos parados e brilhantes, como que se apostrofasse seres invisíveis. – Então, tudo pronto?

Perguntou a Sêmele, denunciando uma resolução definitiva. – Perfeitamente – respondeu a serva, com a maior serenidade. – Pois bem; de hoje a três dias irei até lá, a cavalo, nas primeiras horas da madrugada. E entregando-lhe um frasco minúsculo, que ela ocultou cuidadosamente nas próprias vestes, continuou em voz abafada: – Bastam vinte gotas para que a criança adormeça e não desperte senão ao fim de doze horas... Quando for noite alta, aplique-lhe a beberagem num pouco de água levemente misturada de vinho fraco e espere o meu sinal.

Estarei nas proximidades da casa, que desde ontem fiquei conhecendo, a aguardar a preciosa carga. Abrigará você a criança adormecida, de tal maneira que o volume não denuncie o conteúdo, visto a alguma distância, e, como em assuntos dessa natureza há de contar com a possibilidade do testemunho de olhos estranhos, irei trajado à romana, esperando que você consiga vestir uma das túnicas da patroa, de modo a evitarmos que a culpa deste rapto venha a recair sobre alguém da nossa raça, caso surja alguma testemunha inoportuna e imprevista... Dado o sinal de minha presença na estrada que margina o pomar, virá você ter comigo, entregando-me o precioso fardo. E, de olhos perdidos na visão antecipada da sua vingança, André de Gioras exclamou, cerrando os punhos: – Se os malditos romanos nos escravizam os filhos, sem piedade, podemos também escravizar os seus desgraçados descendentes!... Os homens nasceram com iguais direitos neste mundo...

Ouvindo-lhe as palavras, atenciosamente, objetou Sêmele, algo amedrontada: – Mas, e eu? Não acompanharei o pequenino Marcus na mesma noite? – Seria grande imprudência. Você deverá ficar em Cafarnaum todo o tempo necessário, até que se percam todas as pistas do futuro senador, que não passará, aliás, de futuro escravo. Sua fuga seria indício seguro, agora ou mais tarde, e nós precisamos obstruir esse caminho certo.

Como sabe, tenho parentes afortunados na Judéia, e não é demais esperar que um golpe da sorte me conceda o lugar preeminente a que aspiro, no templo de Jerusalém. Não podemos, portanto, manter complicações com a justiça, podendo você ficar tranqüila, pois, mais tarde, o seu esforço de hoje será largamente recompensado. A serva suspirou resignada, acedendo a todas as sugestões daquele espírito vingativo. Daí a horas, ao cair da noite, voltavam à herdade os servos de Públio, em palestra animada e alegre, comentando os pequeninos incidentes e preocupações do dia. Sêmele não parecia preocupada, mesmo porque, havia muito, vinha sendo instruída pacientemente por André, de modo a colaborar decididamente naquele plano de vingança.

Numerosos laços ligavam-na à família de Gioras, e, cooperando naquela trama sinistra em favor da desforra, mais não fazia, segundo supunha, que resgatar numerosas dívidas de ordem material. Afinal, pensava ela consigo, liquidando o caso do pequenino, regressaria a Jerusalém quando muito bem lhe aprouvesse, consciente de haver cumprido um dever, obedecendo às tremendas exigências de André. No dia seguinte, calculou todas as possibilidades de êxito do cometimento, e, na data aprazada, tomou todas as providências precisas. A obtenção de uma túnica do uso particular de Lívia não lhe era difícil. A senhora as possuía em grande número e quase que diariamente Ana se incumbia de preparar as que se encontravam fora de seus apartamentos privados, para o necessário serviço de higiene; e foi assim que, burlando a dedicação e vigilância da colega, conseguiu Sêmele uma túnica elegante e discreta, da senhora, de modo a observar, integralmente, as advertências daquele de quem se fizera cúmplice.

Em casa, nunca o senador e sua mulher haviam vivido momentos de tanta paz e tantas esperanças, desde que chegaram à Palestina. A cura da filha era a doce felicidade de cada instante, ensejando os mais carinhosos planos de ventura para os dias do porvir. Lívia já organizava todos os seus apetrechos de viagem, considerando que em poucos dias estariam no antigo porto de Jope, deregresso à metrópole querida. Uma serenidade, que parecia imperturbável, descansava agora sobre o casal, fazendo-lhe os corações tranqüilos e ditosos. Públio havia esquecido totalmente as advertências do sonho, que considerava tão somente resultado da sua palestra impressionante com o profeta de Nazaré, e o coração se lhe desanuviara, ponderando o valor dos poderes humanos, dentro da vaidade orgulhosa que lhe abafava todas as preocupações de ordem espiritual.

Um pensamento único lhe dominava o coração – voltar a Roma, dentro de poucos dias. Nessa noite, porém, iam desmoronar-se todas as suas esperanças e modificar-se, para sempre, as linhas do seu destino na Terra. Quem conhecesse a trama urdida na sombra pelo espírito vingativo de André, depois da meia-noite poderia ouvir um longo silvo que se repetiu por três vezes, no soturno silêncio do arvoredo. Um homem trajado à romana apeara de fogoso corcel, a alguns metros da casa, no largo caminho que separava a vegetação do campo das árvores frutíferas. Em seguida, uma porta abriu-se furtivamente e uma mulher trajada à moda patrícia veio ter com o cavaleiro que a esperava ansioso, depondo-lhe nas mãos, com o máximo cuidado, um embrulho volumoso.

– Sêmele – exclamou ele baixinho –, esta hora é decisiva em nossos destinos! A serva de Lentulus nada pôde responder, sentindo o peito opresso. Nesse instante, os atores de cena não observaram a aproximação de um homem que estacara, à distância de alguns passos, na espessura das ramagens sombrias. – Agora – tornou a dizer o cavaleiro, antes de partir em desabalada carreira não se esqueça que o silêncio é ouro e que, se algum dia você for ingrata, pode pagar com a vida a descoberta do nosso segredo!... Dito isso, André de Gioras partiu precipitadamente, a largo trote, pelos caminhos ensombrados, levando consigo o volume para ele tão precioso.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.