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Capítulo 19 de 38

Parte 19 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

A educação intelectual de uma jovem romana, nessa época, era sem dúvida secundária e deficiente. Os espetáculos empolgantes dos anfiteatros, bem como a ausência de uma ocupação séria, para as mulheres do tempo, em face da incessante multiplicação e barateamento dos escravos, prejudicaram sensivelmente a cultura da mulher romana, no fastígio do Império, quando o espírito feminino rastejava no escândalo, na depravação moral e na vida dissoluta. O senador, porém, fazia questão de ser um homem antigo. Não perdera de vista as virtudes heróicas e sublimadas das matronas inesquecíveis, das suas tradições familiares, e foi por isso que, fugindo à época, buscou aparelhar a filha para a vida social, com a cultura mais aprimorada possível, embora lhe enchesse igualmente o coração de orgulho e vaidade, com todos os preconceitos do tempo. A jovem amava a mãe com extrema ternura, mas à vista das ordens do pai, que a conservava invariavelmente junto dele, nos seus gabinetes de estudo ou nas pequenas viagens costumeiras. não fazia mistério da sua predileção pelo espírito paterno, de quem presumia haver herdado as qualidades mais fulgurantes e mais nobres, sem conseguir entender a doce humildade e a resignação heróica da mãe, tão digna e tão desventurada.

O senador buscara desenvolver-lhe as tendências literárias, possibilitandolhe as melhores aquisições de ordem intelectual, admirando-lhe a facilidade de expressão, principalmente na arte poética, tão exaltada naquela época. O tempo transcorria com relativa calma para todos os corações. De vez em quando, falava-se na possibilidade de regressar a Roma, plano esse cuja realização era sempre procrastinada, em vista da esperança de reencontrar o desaparecido. Num dia suave do mês de março, quando as árvores frondosas se cobriam de flores, vamos encontrar na casa do senador um mensageiro que chegava de Roma a toda pressa. Tratava-se de um emissário de Flamínio Severus, que em longa carta comunicava ao amigo o seu precário estado de saúde, acrescentando que desejava abraçá-lo antes de morrer.

Comovedores apelos constavam desse documento privado, suscitando ao espírito de Públio as mais acurada ponderações. Todavia, a leitura de uma carta assinada por Calpúrnia, que viera em separado, era decisiva. Nesse desabafo, a veneranda senhora o informou do estado de saúde do marido, que, a seu ver, era precaríssimo, acentuando os penosos dissabores e angustiosas preocupações que ambos experimentavam acerca dos filhos, que, em plena mocidade, se entregavam às maiores dissipações, seguindo a corrente de desvarios sociais da época. Terminava a carta comovedora, pedindo ao amigo que voltasse, que os assistisse naquele transe, de modo que a sua amizade e paternal interesse representassem uma força moderadora junto de Plínio e de Agripa, que, homens feitos, se deixavam levar no turbilhão dos prazeres mais nefastos. Públio Lentulus não hesitou um instante. Mostrou à filha os documentos recebidos e, depois de examinarem, juntos, os pormenores do seu conteúdo, comunicou a Lívia o seu propósito de voltar a Roma na primeira oportunidade.

A nobre senhora lembrou-se, então, de quão diversa lhe seria a vida na grande cidade dos césares, com as idéias que agora possuía, e pediu a Jesus não lhe faltasse a coragem necessária para vencer em todos os embates que houvesse de sustentar na sociedade romana, para conservar íntegra a sua fé. A volta a Roma não reclamou, desse modo, grande demora. O mesmo emissário levou as instruções do senador para os seus amigos da Capital do Império e, daí a pouco, uma galera os esperava em Cesaréia, reconduzindo a família Lentulus, de regresso, depois da permanência de quinze anos na Palestina. Desnecessário dizer dos pequeninos incidentes do retorno, tal a vulgaridade das viagens antigas, com a sua monotonia, aliada às vagarosas perspectivas e ao doloroso espetáculo do martírio dos escravos. Cumpre-nos, entretanto, acrescentar que, nas vésperas da chegada, o senador chamou a filha e a mulher, dirigindo-lhes a palavra em tom discreto: – Antes de aportarmos, convém lhes explique a minha resolução a respeito do nosso pobre Marcus.

Há muitos anos, guardo o maior silêncio em torno do assunto, para com os meus afeiçoados de Roma e não desejo ser considerado mau pai, em nosso ambiente social. Somente uma circunstância, como a que nos impõe esta viagem, me levaria a regressar, porquanto não se justifica que um pai abandone o filho em tais paragens, ainda mesmo torturado pela incerteza da continuidade de sua existência. Assim, resolvi comunicar, a quantos mo perguntem, que o filho está morto há mais de dez anos, como, de fato, deverá estar para nós outros, visto a impossibilidade de o reconhecermos, na hipótese do seu reaparecimento. Se soubessem de nossas mágoas, não faltariam embusteiros que desejassem ludibriar nossa boa fé, explorando o sentimentalismo familiar. Ambas assentiram na decisão, que lhes parecia a mais acertada, e, dai a minutos, o porto de Óstia estava à vista, agora lindamente aparelhado pelo zelo do Imperador Cláudio, que ali mandara executar obras interessantes e monumentais.

Nessa hora, não se observava o contentamento, natural em tais circunstâncias. A partida, quinze anos antes, havia sido um cântico de esperança nas expectativas suaves do futuro, mas o regresso estava cheio do silêncio amargo das mais penosas realidades. Além do desencanto da vida conjugal, Públio e Lívia não viam ali, entre os rostos amigos que os esperavam, as silhuetas de Flamínio e Calpúrnia, que consideravam irmãos muito amados. Contudo, dois rapazes simpáticos e fortes, de gestos desembaraçados, nas suas togas irrepreensíveis, dirigiram-se a eles imediatamente, em escaleres confortáveis, mal a embarcação havia ancorado, rapazes esses que o senador e esposa reconheceram de pronto, num afetuoso e comovido abraço. Tratava-se de Plínio e seu irmão que, incumbidos pelos pais, vinham receber os queridos ausentes. Apresentados a Flávia, ambos fizeram um movimento instintivo de admiração, recordando o dia da partida, quando a haviam acomodado no beliche, entre os seus gemidos e caretas de criança doente.

A jovem impressionara-se, também, com a figura de ambos, de quem possuía apagadas reminiscências, entre as recordações remotas da sua infância. Principalmente Plínio Severus, o mais moço, a havia impressionado profundamente, com os seus vinte seis anos completos, do mesmo porte elegante e distinto com que ela havia idealizado o herói da sua imaginação feminina. Notava-se, igualmente, num relance, que o rapaz não ficara indiferente àquelas mesmas emoções, porque, trocadas as primeiras impressões da viagem e examinada a situação da saúde de FIamínio Severus, considerada pelos filhos como excessivamente grave, Plínio ofereceu o braço à jovem, enquanto Agripa lhe observava num leve tom de ciúme: – Mas que é isso, Plínio? Flávia pode suscetibilizar-se com a tua intimidade excessiva!... – Ora, Agripa – respondeu ele, com um franco sorriso –, estás muito prejudicado pelos formalismos da vida pública.

Flávia não pode estranhar os nossos costumes, na sua condição de patrícia pelo nascimento e, ao demais, não nasci para as disciplinas do Estado, tão do teu gosto!... A essas palavras, ditas com visível bom humor, acrescentou Públio Lentulus, confortado pelo ambiente da sua predileção: – Vamos, meus filhos! E dando o braço à esposa, para desempenhar a comédia da sua felicidade conjugal na vida comum da grande cidade, seguido de Plínio, que amparava a jovem no seu braço forte e conquistador em assuntos do coração, desembarcaram junto de Agripa, a fim de descansarem um pouco, antes de seguirem diretamente para Roma, e, para o que, todas as providências haviam sido tomadas pelos irmãos Severus, com o máximo de carinho e espontânea dedicação. Lívia não se esqueceu de Ana, providenciando para o seu conforto junto aos demais servos da casa, em todo o percurso de caminho que os separava da residência. Em direção à cidade, pensou então o senador que, finalmente, ia rever o amigo muito amado.

Há longos anos acariciava a idéia de confessar-lhe, de viva voz, todos os seus desgostos na vida conjugal, expondo lhe com franqueza e sinceridade as suas preocupações, acerca dos fatos que o separavam da esposa, na intimidade do lar. Tinha sede de suas palavras afetuosas e de explicações consoladoras, porque sentia que amava a mulher acima de tudo, apesar de todos os dissabores experimentados. Não crendo sinceramente na sua queda, apenas seu orgulho de homem o afastava de uma reconciliação que cada dia se tornava mais imperiosa e necessária. Em breve defrontavam a antiga residência, lindamente ornamentada para recebê-los. Numerosos servos se movimentavam, enquanto os recém-vindos faziam o reconhecimento dos lugares mais íntimos e mais familiares.

Havia quinze anos que o palácio do Aventino aguardava os donos, sob o carinho de escravos dedicados e dignos. Logose servia uma refeição frugal no triclínio enquanto os irmãos Severus, que participavam desse ligeiro repasto, esperavam os seus amigos, a fim de seguirem todos juntos para a residência de Flamínio, onde o enfermo os aguardava ansiosamente. Plínio, em dado instante, como quem traz à baila uma notícia interessante e agradável, exclamou, dirigindo-se ao senador: – Há bem tempo, ficamos conhecendo vosso tio Sálvio Lentulus e sua família, que residem perto do Fórum. – Meu tio? – perguntou Públio, impressionado, como se as lembranças de Fúlvia lhe trouxessem ao íntimo uma aluvião de fantasmas. Mas, ao mesmo tempo, como se estivesse fazendo o possível por adormentar as próprias mágoas, acentuou com suposta serenidade: – Ah!

É verdade! Faz mais de doze anos que ele regressou da Palestina... Foi neste comenos que Agripa interveio como a vingar-se da atitude do irmão, quando ainda não havia desembarcado, exclamando intencionalmente: – E por sinal que Plínio parece inclinado a desposar-lhe a filha, de nome Aurélia, com quem mantém as melhores relações afetivas, de muito tempo. Ao ouvir essas palavras, Flávia Lentulus fitou o interpelado, como se entre o seu coração e o filho mais moço de Flamínio já houvesse os mais fortes laços de compromissos sentimentais, dentro das leis misteriosas das afinidades psíquicas. Enquanto se passava esse duelo de emoções, Plínio fitou o irmão quase com ódio, dando a entender a impulsividade do seu espírito e respondendo com ênfase, como a defender-se de uma acusação injustificável, perante a mulher das suas preferências: – Ainda desta vez, Agripa, estás enganado.

Minhas relações com Aurélia não têm outro fundamento, além do da pura amizade recíproca, mesmo porque considero muito remota qualquer possibilidade de casamento, na fase atual da minha vida. Agripa esboçou um sorriso brejeiro, enquanto o senador, compreendendo a situação, acalmava os ânimos, exclamando com bondade: – Está bem, filhos; mas falaremos depois sobre meu tio. Sinto-me ansioso por abraçar o querido enfermo e não temos tempo a perder. Em breves minutos um grupo de liteiras encaminhava-se para a nobre residência dos Severus, onde Flamínio aguardava o amigo, ansiosamente. Sua fisionomia não acusava mais aquela mobilidade antiga e a empolgante expressão de energia que a caracterizava, mas, em compensação, grande placidez se lhe irradiava dos olhos, sensibilizando a quantos o visitavam nos seus derradeiros dias de lutas terrestres.

A expressão do semblante era a do lutador derribado e abatido, exausto de combater as forças misteriosas da morte. Os médicos não tinham a menor esperança de cura, considerando o profundo desequilíbrio físico, aliado a mui forte desorganização do sistema cardíaco. As menores emoções determinavam alterações no seu estado, ensejando as mais amplas apreensões da família. De vez em quando, os olhos serenos e tranqüilos se fixavam detidamente na porta de entrada, como se esperassem alguém com o máximo interesse, até que rumores mais fortes, vindos do vestíbulo, anunciaram ao seu coração que ia cessar uma ausência de quinze anos consecutivos, entre ele e os amigos sempre lembrados. Calpúrnia, igualmente muito abatida, abraçou Lívia e Públio, derramada em lágrimas e apertando Flávia nos braços, como se recebesse uma filha. Ali mesmo, no vestíbulo, trocaram impressões e falaram das suas saudades intensas e das preocupações numerosas, até que Públio deliberou deixar as duas amigas em franca expansão afetiva e se encaminhou com Agripa a um dos compartimentos próximos do tablino, onde abraçou o grande amigo, com lágrimas de alegria.

Flamínio Severus estava magríssimo e suas palavras, por vezes, eram cortadas pela dispnéia impressionante, dando a perceber que muito pouco tempo lhe restava de vida. Sabendo da satisfação do pai na companhia íntima do leal amigo, Agripa retirou-se do vasto aposento, onde as sombras do crepúsculo começavam a penetrar caprichosamente, como se o fizessem no silêncio sagrado das naves religiosas. Públio Lentulus se surpreendeu, encontrando o velho companheiro em tal estado. Não supunha revê-lo tão depauperado. Agora, certificava-se de que era a ele, sim, que competia auxiliá-lo com os seus conselhos, levantando-lhe as forças orgânicas e espirituais, com as suas exortações amigas e carinhosas.

Uma vez a sós, contemplou o amigo e mentor, como se estivesse a mirar uma criança enferma. Flamínio, por sua vez, olhou-o face a face e, olhos rasos d’água, tomou-lhe as mãos nas suas, dando-lhe a entender que recebia ali, naquele momento, um filho muito amado. Num gesto brando e delicado, procurou sentar-se mais comodamente e, amparando-se nos ombros de Lentulus, murmurou comovidamente ao seu ouvido: – Públio, aqui já te não recebe o companheiro enérgico e resoluto doutros tempos. Sinto que apenas te esperava para poder entregar a alma aos deuses, tranqüilamente, supondo já cumprida a missão que me competia na Terra, com a minha consciência retilínea e os meus honestos pensamentos. Há mais de um ano pressinto o instante irremediável e fatal, que, agora, satisfeito o meu ardente desejo, deve estar avizinhando-se com a velocidade do relâmpago.

Não desejava, pois, partir sem te apertar em meus braços, fazendo-te as últimas confidências neste leito de morte... – Mas, Flamínio – respondeu-lhe o amigo, com serenidade dolorosa –, tudo me autoriza a crer nas tuas melhoras imediatas, e todos nós aguardamos a bênção dos deuses, de maneira que possamos contar com a tua companhia indispensável, por muito tempo ainda, neste mundo. – Não, meu bom amigo, não te iludas com essas suposições e pensamentos. Nossa alma jámais se engana quando se avizinha das sombras do sepulcro... Não me demorarei em penetrar o mistério da grande noite, mas acredito, firmemente, que os deuses me saudarão com as luzes de suas auroras!...

E, deixando o olhar, profundo e sereno, divagar pelo aposento, como se as paredes marmorizadas se dilatassem ao infinito, Flamínio Severus concentrou-se um minuto em meditações íntimas, continuando a falar, como se desejasse imprimir à conversação um novo rumo: – Lembras-te daquela noite em que me confiaste os pormenores de um sonho misterioso, no auge da tua emotividade dolorosa? Oh! Se me lembro!... – revidou Públio Lentulus recordando, de modo inexplicável, não só a palestra remota que resolvera a viagem à Palestina, mas também outro sonho, no qual testemunhara os mesmos fenômenos intraduzíveis, na noite do seu encontro com Jesus de Nazaré. Ao lembrar-se daquela personalidade maravilhosa, estremeceu-lhe o coração, mas tudo fez por evitar ao amigo uma impressão mais forte e dolorosa, acrescentando com aparente serenidade: – Mas, a que vem tua pergunta, se hoje estou mais que convicto, de acordo contigo mesmo, que tudo aquilo não passava de simples impressões de uma fantasia sem importância? – Fantasia?

– replicou Flamínio, como se houvesse encontrado uma nova fórmula da verdade. – Já modifiquei por completo as minhas idéias. A enfermidade tem, igualmente, os seus belos e grandiosos beneficios. Retido no leito há muitos meses, habituei-me a invocar a proteção de Têmis, de modo que não chegasse a ver nos meus padecimentos mais que o resultado penoso dos meus próprios méritos, perante a incorruptível justiça dos deuses, até que uma noite tive impressões iguais às tuas. Não me recordo de haver guardado qualquer preocupação com a tua narrativa, mas o certo é que, há cerca de dois meses, me senti levado em sonho à mesma época da revolução de Catilina, e observei a veracidade de todos os fatos que me relataste há dezesseis anos, chegando a ver o teu próprio ascendente, Públio Lentulus Sura, que era como que o teu retrato, tal a sua profunda semelhança contigo, mormente agora que te encontras nos teus quarenta e quatro anos, em plena fixação de traços fisionômicos.

Interessante é que me encontrava a teu lado, caminhando contigo na mesma estrada de clamorosas iniqüidades. Lembro-me de nos vermos assinando sentenças iníquas e impiedosas, determinando o suplício de muitos dos nossos semelhantes... Todavia, o que mais me atormentava era observar-te a terrível atitude, determinando a cegueira de muitos dos nossos adversários políticos e assistindo, pessoalmente, ao desenrolar das flagelações do ferro em brasa, queimando numerosas pupilas para todo o sempre, aos gritos dolorosos das vitimas indefesas!... Públio Lentulus arregalou os olhos, de espanto, participando, igualmente, daquelas recordações que dormitavam fundo na sua alma ensombrada, e replicou, por fim: – Meu bom amigo, tranqüiliza o coração... Semelhantes impressões parecem reflexos de alguma emoção mais forte que perdurasse no âmago da tua memória, por minhas narrativas naquela noite de há tantos anos!...

Flamínio Severus esboçou, porém, um leve sorriso, como quem compreendia a intenção generosa e consoladora, redargüindo com serena bondade: – Devo dizer-te, Públio, que esses quadros não me apavoraram e apenas te falo desse complexo de emoções, porque tenho a certeza de que vou partir desta vida e ainda ficarás, talvez por muito tempo, na crosta deste mundo. É possível que as recordações do teu espírito aflorem novamente e, então, quero que aceites a verdade religiosa dos gregos e dos egípcios. Acredito, agora, que temos vidas numerosas, através de corpos diversos. Sinto que meu pobre organismo está prestes a desfazer-se; entretanto, meu pensamento está vivaz como nunca e só em tais circunstâncias presumo entender o grande mistério de nossas existências. Pesa-me, no íntimo, haver praticado o mal no pretérito tenebroso, embora haja decorrido mais de um século sobre os tristes acontecimentos de nossas visões espirituais; todavia, aqui estou diante dos deuses, com a consciência tranqüila.

Públio ouvia-o atentamente, entre penalizado e comovido. Procurava dirigir-lhe palavras confortadoras, mas a voz parecia morrer-lhe na garganta, embargada pelas emoções daquele doloroso momento. Flamínio, porém, apertou-o de encontro ao coração, com os olhos rasos de pranto, sussurrando-lhe ao ouvido: – Meu amigo, não tenhas dúvidas sobre as minhas palavras... Quero crer que estas horas sejam as últimas... No meu escritório estão todos os teus documentos e o memorial dos negócios de ordem material que movimentei em teu nome, na tua ausência e no concernente aos nossos problemas de ordem política e financeira.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.