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Capítulo 25 de 38

Parte 25 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

Foi assim que, nas alternativas de melhora da velha enferma, Flávia lhe aceitou a companhia para distrair-se nalguns espetáculos da rumorosa cidade da época. Tanto bastou para que Saul envenenasse os acontecimentos, supondo nessas expansões inocentes uma ligação menos digna, que lhe enchia de pavorosos ciúmes o coração violento e irascível. Na primeira oportunidade, insinuou a Plínio Severus todas as suas cavilosas suspeitas, arquitetando, com a sua imaginação doentia, situações e acontecimentos que jamais se verificaram. O esposo de Flávia era desses homens caprichosos, que, organizando um circulo de liberdade ilimitada para si próprio, nada concedem à mulher, nem mesmo no terreno das afeições desinteressadas e puras. Dessa forma, Plínio Severus começou a acatar a palavra de Saul, concedendo-lhe aos conceitos insensatos o mais largo crédito, no seu foro íntimo.

Ele, que deixara a companheira afetuosa ao abandono e que, por largos anos, dera azo às mais penosas amarguras domésticas, sentiu-se, então, ralado de ciúmes acerbos e inconcebíveis, passando a espionar os menores gestos do irmão e a desconfiar dos mais secretos pensamentos da esposa, esperando que a moléstia irremediável de sua mãe tivesse uma solução na morte, que se presumia para breve, a fim de se pronunciar com mais força na reivindicação dos seus direitos conjugais. Entrava o ano de 58, com amarguradas perspectivas para as nossas personagens. Um fato, porém, começava ferir a atenção de todas as personagens desta história real e dolorosa. A dedicação de Lívia à sua velha amiga doente era um exemplo raro de amor fraterno, de carinho e bondade indefiníveis. Oito meses a fio, sua figura franzina e silenciosa esteve a postos dia e noite, sem descanso, junto ao leito de Calpúrnia, provando-lhe com exemplos a excelência dos seus princípios religiosos.

Muitas vezes, a nobre matrona considerou, intimamente, a superioridade moral daquela doutrina generosa, que estava no mundo para levantar os caídos, confortar os enfermos e os tristes, disseminando as mais formosas esperanças com os desiludidos da sorte, em confronto com os seus velhos deuses que amavam os mais ricos e os que oferecessem os melhores sacrifícios nos templos, e aquele Jesus humilde e pobre, descalço e crucificado, de que lhe falava Lívia em suas palestras íntimas e carinhosas.

Calpúrnia estava plenamente modificada, às vésperas da morte. A convivência contínua da velha amiga renovara-lhe todos os pensamentos e crenças mais radicadas. Tratava melhor as escravas que lhe beiravam o leito e pedira a Lívia lhe ensinasse as preces do profeta crucificado em Jerusalém, o que ambas faziam de mãos postas, quando os aposentos da enferma ficavam silenciosos e desertos. Nesses instantes, a viúva de Flamínio Severus sentia que as dores abrandavam, como se bálsamo suave lhe refrescasse os centros íntimos de força; cessavam as dispnéias dolorosas e a respiração quase se normalizava, como se profundas energias do plano invisível lhe reanimassem o coração escleroso e fatigado. Ao espírito de Públio não passavam despercebidos esses sintomas de modificação moral da velha matrona, nem tampouco o nobre procedimento da esposa, que nunca mais repousou, desde o instante em que a vira inerme e exausta.

Os sofrimentos da vida haviam igualmente modificado muito a estrutura da sua organização espiritual e, como nunca, sentia o senador a necessidade de se reconciliar com a esposa, para enfrentar os invernos penosos da velhice que se aproximava. Não só ele, como Lívia, já haviam ultrapassado meio século de existência, e agora, que tão bem conhecia a vida e os seus dolorosos mecanismos de aperfeiçoamento, se sentia apto a perdoar todas as faltas da esposa, no pretérito, considerando que os seus vinte e cinco anos de martírio moral, no sacrossanto ambiente doméstico, bastavam para redimi-la das faltas que, porventura, houvesse cometido, nas ilusões da mocidade, em terra estranha, conforme supunha em suas falsas observações, filhas ainda da calúnia que lhe destruíra a ventura e a paz de uma existência inteira. Nos primeiros dias do ano 58, os padecimentos de Calpúrnia foram subitamente agravados, esperando-se a cada momento o penoso desenlace. Os filhos e os mais íntimos lhe rodeavam o leito, grandemente comovidos, embora reconhecessem a necessidade de repouso para aquele corpo doente e esgotado.

Na antevéspera da morte, a veneranda senhora pediu que a deixassem sozinha com o senador, por algumas horas, alegando a necessidade de confiar a Públio Lentulus algumas disposições "in extremis". Atendida, imediatamente, vamos encontrá-los em íntimo colóquio, como se estivessem juntos pela última vez, para decisão de assuntos importantes e supremos.

Públio, ainda em pleno vigor de sua compleição física, tinha os olhos rasos dágua, enquanto a velha matrona o contemplava, deixando transparecer um clarão de viva lucidez nos olhos calmos e profundos. – Públio – começou ela, gravemente, como se aquelas palavras fossem as suas últimas recomendações –, para os espíritos de nossa formação não pode existir o receio da morte, e é por esse motivo que deliberei falar-te nas minhas horas derradeiras... – Mas, minha boa amiga – respondeu o senador, franzindo a testa e esforçando-se por dissimular a comoção que lhe ia n’alma, lembrando-se de que, nas mesmas circunstâncias, lhe falara FIamínio pela última vez, entre as paredes daquele quarto, somente os deuses podem decidir de nossos destinos e só eles conhecem os nossos últimos instantes!... – Não duvido dessas verdades – acudiu a valorosa patrícia –, mas, tenho a certeza de que as minhas horas na Terra chegam a termo e não quero levar para o túmulo o remorso de uma falta que reconheço haver cometido há mais de dez anos... – Uma falta?

Nunca... Vossa vida, Calpúrnia, foi sempre um dos mais raros exemplos de virtude nesta época de transição e degenerescência dos nossos mais belos costumes... – Agradeço-te, meu grande amigo, mas tua gentileza não me exime da penitência perante o teu espírito, afirmando que há mais de dez anos errei num julgamento, pedindo-te hoje recebas a minha retificação, talvez tardia, mas ainda a tempo de santificarmos, com o mais justo respeito, uma vida de sacrifícios e de abnegações!... Públio Lentulus adivinhou que se tratava de sua mulher e, com voz embargada pela comoção e pelas lágrimas, deixou que a velha amiga continuasse, de olhos enxutos, manifestando o mais subido valor moral em face da morte que se aproximava. – Refiro-me a Lívia –continuou Calpúrnia, em tom comovido –, a respeito de quem tive a infelicidade de te transmitir uma suposição errônea e injusta, cortando-lhe a última possibilidade de ventura na Terra; mas, a morte renova as nossas concepções da vida e os que estão prestes a abandonar este mundo possuem uma visão mais clara de todos os problemas da existência.

Hoje, meu amigo, digo-te, de alma serena, que tua esposa é imaculada e inocente... O senador sentia que o pranto lhe brotava espontaneamente dos olhos, mas estava intimamente confortado por saber que a venerável amiga confirmava, agora, as convicções que o tempo lhe aumentara quanto à nobilíssima companheira de sua existência. – Não to digo simplesmente por uma questão de egoísmo pessoal, em penhor de agradecimento pelas supremas dedicações de Lívia para comigo no decurso desta dolorosa enfermidade – continuou ela, valorosamente. – Um espírito do nosso estofo deve estar com a verdade acima de tudo, e esta minha confissão não se verifica tão somente pelas observações da minha fraqueza toda humana. A realidade, todavia, meu amigo, é que, desde aquela noite em que me pediste opinasse sobre tua esposa e minha desvelada amiga, sinto o espinho de uma dúvida cruel no meu coração dilacerado.

Lívia foi sempre a minha melhor companheira, e contribuir para a sua desventura, injustificada mente, era aos meus olhos a suprema falta de toda a vida... Por onze anos, orei constantemente e ofereci numerosos sacrifícios nos templos, para que os deuses me inspirassem a verdade sobre o assunto e, por todo esse tempo, tenho esperado pacientemente a revelação do céu... Só hoje, porém, me foi dado obtê-la, já nos pórticos do sepulcro!... É possível que minha pobre alma, já semi-liberta, esteja participando dos incompreendidos mistérios da vida do além-túmulo e talvez seja por isso que, hoje pela manhã, vi a figura de Flamínio neste quarto!... Era muito cedo e eu estava só, com as minhas meditações e as minhas preces!...

Nesse ínterim, a palavra da enferma tornara-se entrecortada de profundas emoções que a dominavam, enquanto Públio Lentulus chorava, em doloroso silêncio. – Sim... – prosseguiu Calpúrnia, depois de longa pausa –, no meio de uma luz difusa e azulada, vi Flamínio a estender-me os braços carinhosos e compassivos... No olhar, observei-lhe a mesma expressão habitual de ternura e, na voz, o timbre familiar, inesquecível... Avisou-me que dentro de dois dias penetrarei os mistérios indevassáveis da morte, mas essa revelação do meu fim próximo não me podia surpreender... porque, para mim... que há tantos anos vivo no meu exílio de saudades e sombras... acrescido das continuadas angústias da enfermidade longa e dolorosa... a certeza da morte constitui supremo consolo...

Confortada pelas doces promessas da visão, as quais me auguravam esse brando alívio para breves horas... perguntei ao espírito de Flamínio sobre a dúvida cruel que me dilacerava há tantos anos... Bastou que a argüisse mentalmente, para que a radiosa entidade me dissesse em alta voz... meneando a cabeça num gesto delicado... como a exprimir infinita e dolorosa tristeza: "Calpúrnia, em má hora duvidaste daquela a quem deverias amar... e proteger como a filha querida e carinhosa... porque Lívia... e uma criatura imaculada e inocente..." Nesse instante... – continuou a enferma, com alguma dificuldade – Tal foi a impressão dolorosa de minh’alma... com a surpresa da resposta... que não mais lobriguei a visão carinhosa e consoladora... como se fosse repentinamente chamada às tristes realidades da vida prática. A velha matrona tinha os olhos marejados de lágrimas, enquanto o senador se entregava silenciosamente ao pranto de suas comoções penosas. Longos minutos estiveram ambos assim, na atitude de quem dava curso ao remorso e ao sofrimento...

Afinal, foi ainda a valorosa patrícia quem rompeu o pesado silêncio, tomando as mãos do amigo entre as suas mãos descarnadas e brancas, exclamando: – Públio, fala-te o coração de uma velha amiga, com as verdades serenas e tristes da morte... Acreditas piamente nas minhas dolorosas revelações?... O senador fez um esforço para enxugar as lágrimas que lhe caiam copiosamente dos olhos, e, movimentando o máximo de energias, replicou firmemente: – Sim, acredito. – E que faremos agora... para reparar nossas faltas... ante o coração generoso e justo de tua mulher?... Ele deixou transparecer um clarão de ternura nos olhos, e, passando as mãos inquietas pela fronte, como se houvera encontrado solução quase feliz, dirigiuse à doente, com uma irradiação de alegria e de tranqüilidade no semblante, dizendo confortado: – Sabeis da grande festa do Estado, que se realizará de hoje a poucos dias, na qual os senadores, com mais de vinte anos de serviço ao Império, serão coroados de mirto e rosas, como os triunfadores? – Sim – respondeu a matrona –, tanto que já pedi a meus filhos que... não obstante a minha morte próxima... te acompanhem nessa justa alegria... porque serás um dos agraciados pelas nossas autoridades supremas...

– Ó, minha grande amiga, ninguém pode esperar vossa morte, mesmo porque, não poderemos prescindir da preciosa contribuição da vossa vida; mas, já que cuidamos de reparar o meu erro grave no passado doloroso, esperarei mais uma semana para levar ao espírito de Lívia a expressão do meu reconhecimento, da minha gratidão e do meu profundo amor. Irei a essa festa, a realizar-se sob os auspícios de Sêneca, que tudo tem feito por dissimular a penosa impressão causada pela conduta cruel do Imperador, seu antigo discípulo. Depois de receber a coroa da suprema vitória de minha vida pública, trarei todas as condecorações aos pés de Lívia, como preito justo à sua angustiada existência de penosos sacrifícios domésticos... Ajoelhar-me-ei ante a sua figura santificada e, retirando da fronte a auréola do Império, deporei as flores simbólicas a seus pés, que beijarei humildemente com o meu arrependimento e as minhas lágrimas, traduzindo-lhe gratidão e amor infindos!... – Generosa idéia, meu filho – exclamou a enferma, sensibilizada –, e peço-te que a executes... no momento oportuno.

E, no instante... em que testemunhares a Lívia o teu amor supremo... dize-lhe que me perdoe... porque eu chorarei de alegria... vendo ambos felizes... lá das sombras tranqüilas do meu sepulcro. Ambos choravam, comovidos, silenciosamente. Em dado instante, a velha doente apertou as mãos do amigo, como a dizerlhe um supremo adeus. Calpúrnia fixou nele os grandes olhos claros – a desprenderem irradiações misteriosas, e, com lágrimas de emoção inexprimível, exclamou comovidamente: – Públio... peço... não te esqueças... do prometido... Ajoelha-te aos pés de Lívia... como aos de uma deusa... de renúncia e de bondade...

Não te importe... a minha partida deste mundo... Vai à festa do Senado... reparemos... nossa falta grave... e agora, meu amigo... um último pedido... Vela por meus filhos... como se fossem teus... Ensina-lhes ainda a honradez... a fortaleza... a sinceridade e o bem... Um dia... todos nos... nos reuniremos... na eternidade...

Públio Lentulus apertou-lhe as mãos, sensibilizado, ajeitando-lhe, nas sedosas almofadas, a cabeça encanecida, enquanto lágrimas de comoção lhe embargavam a voz. Havia muito que a enferma era atacada, subitamente, de periódicas e prolongadas dispnéias. O senador abriu as portas do largo aposento aonde Lívia acorreu, pressurosa, como enfermeira de todos os instantes, enquanto Flávia e algumas servas acudiam com ungüentos e outras panacéias da medicina do tempo. Calpúrnia, porém, parecia atacada pelas últimas aflições que a levariam ao túmulo. Por vinte e quatro horas consecutivas, o peito arfou sibilante, como se a caixa toráxica estivesse prestes a rebentar sob o impulso de uma força indomável e misteriosa. Ao fim de um dia e uma noite de azáfama e angústias, a doente parecia haver experimentado ligeira melhora.

A respiração fazia-se menos penosa e os olhos revelavam grande serenidade, embora todo o corpo estivesse salteado de manchas azuladas e violáceas, prenunciando a morte. Apenas a afonia continuava, mas, em dado instante, fez um gesto com a mão, chamando Lívia à cabeceira com a terna familiaridade dos antigos tempos. A esposa do senador atendeu ao apelo silencioso, ajoelhando-se, com os olhos cheios de lágrimas e compreendendo, pela intuição espiritual, que era chegado o instante doloroso da despedida. Via-se que Calpúrnia desejava falar, inutilmente. Foi então que cingiu Lívia, amorosamente, contra o peito, osculando-lhe os cabelos e a fronte num esforço supremo e, colando os lábios ao seu ouvido, balbuciou com infinita ternura: –"Lívia, perdoa-me!" Somente a interpelada escutara o brando cicio da agonizante.

Foram essas as derradeiras palavras de Calpúrnia. Dir-se-ia que sua alma valorosa necessitava, tão somente, daquele último apelo para conseguir desvencilhar-se da Terra, elevando-se ao Paraíso. Abraçada à incansável amiga, a agonizante depôs novamente a cabeça nas almofadas, para sempre. Suor abundante transbordava de todo o seu corpo, que se aquietou de leve para a suprema rigidez cadavérica e, dai a minutos, seus olhos se fecharam, como se se preparassem para um grande sono. A respiração foi-se extinguindo brandamente, enquanto uma lágrima pesada e branca lhe rolava nas faces enrugadas, como um raio divino da luz que lhe clarificava a noite do túmulo.

As portas do palácio abriram-se, então, para os tributos afetuosos da sociedade romana. As exéquias da valorosa matrona compareceu o que a cidade possuía de mais nobre e mais fino, em sua aristocracia espiritual, dado o elevado conceito em que eram tidas as peregrinas virtudes da morta. Terminadas as cerimônias da incineração e guardadas as cinzas ilustres da nobre patrícia nas sombras do jazigo familiar, Flávia Lentúlia assumiu a direção da casa, enquanto seus pais voltavam à residência do Aventino, para o necessário descanso. Faltavam somente quatro dias para a realização das grandes festas, em que mais de uma centena de senadores receberia a auréola do supremo triunfo na vida pública. Públio Lentulus, que seria dos homenageados na festa memorável, não obstante o luto da família, aguardava o grande momento, com ansiedade.

É que, recebida a expressão suprema da vitória de um homem de Estado, levá-la-ia aos pés da esposa, como símbolo perene do seu afeto e do seu reconhecimento da vida inteira. No seu íntimo, arquitetava a maneira mais doce de se dirigir novamente à companheira, no timbre caricioso e suave que a sua voz havia perdido há vinte e cinco anos, e, verificando a continuidade do seu amor, cada vez mais profundo, pela esposa, esperava ansiosamente o instante da sua reintegração na felicidade doméstica. De noite, naquelas horas longas que se passavam, enquanto o velho coração se preparava para as bênçãos da ventura conjugal, em breves dias, ia ele até às proximidades dos apartamentos da esposa, situados bem distantes do seus, naqueles prolongados anos de amarguras infindas. Na antevéspera das grandes festividades a que nos referimos, seriam vinte e três horas, quando a sua figura se postara em frente aos aposentos da companheira, antegozando o ditoso momento da penitência, que significava para ele uma alegria suprema. Enquanto o pensamento se afundava nos abismos do passado longínquo, sua atenção espiritual foi repentinamente despertada pela melodia suave de uma voz de mulher, que cantava baixinho no silêncio da noite.

O senador aproximou-se, vagarosamente, da porta, colando o ouvido à escuta... Sim! Lívia cantava em voz apagada e mansa, qual cotovia abandonada, fazendo soar levemente as cordas harmoniosas de uma lira de suas lembranças mais queridas. Públio chorava comovido, ouvindo-lhe as notas argentinas que se abafavam no ambiente restrito do quarto, como se Lívia estivesse cantando para si própria, adormentando o coração humilde e desprezado, para encher de consolo as horas tristes e desertas da noite. Era a mesma composição das musas do esposo, que lhe escapava dos lábios naquele instante em que a voz tinha tonalidades estranhas e maravilhosas, de indefinível melancolia, como se todo o seu canto fosse o lamento doloroso de rouxinol apunhalado: Alma gêmea da minh’alma, Flor de luz da minha vida, Sublime estrela caída Das belezas da amplidão!...

Quando eu errava no mundo, Triste e só, no meu caminho, Chegaste, devagarinho, E encheste-me o coração. Vinhas na bênção dos deuses, Na divina claridade, Tecer-me a felicidade Em sorrisos de esplendor!... És meu tesouro infinito, Juro-te eterna aliança, Porque sou tua esperança, Como és todo o meu amor! Alma gêmea da minh’alma, Se eu te perder, algum dia, Serei a escura agonia Da saudade nos seus véus... Se um dia me abandonares, Luz terna dos meus amores, Hei de esperar-te, entre as flores Da claridade dos céus...

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.