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Capítulo 35 de 38

Parte 35 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

– Será preciso o chicote para que me obedeças? Ítalo tomou, então, da lâmina, humildemente. Aproximou-se de leve do condenado cheio de resignação e de fortaleza interior. Antes do instante supremo, seus olhares se encontraram, trocando vibrações de simpatia recíproca. Públio Lentulus ainda lhe fixou o porte, tocado de incontestável nobreza, esfacelada em suas linhas mais características pelos trabalhos mais impiedosos e mais rudes; e tão grande foi a atração que experimentou por aquele homem, fixado pelos seus olhos em plena luz, pela vez derradeira, que chegou a se recordar, inexplicavelmente, do seu pequenino Marcus, considerando que, se ele ainda vivesse num ambiente tão hostil, deveria ter aquele porte e aquela idade. As mãos de Ítalo, trêmulas e hesitantes, aproximaram-se dos seus olhos exaustos, como se o fizessem numa doce atitude de carinho; mas o ferro incandescente, com a rapidez do relâmpago, feriu-lhe as pupilas orgulhosas e claras, mergulhando-as na treva para todo o sempre.

Nisso, observou a vítima que uma gritaria infernal reboava em toda a sala. Uma dor indefinível irradiava-se da queimadura, fazendo-lhe experimentar atrozes padecimentos. Ele nada mais divisava, além das trevas espessas que lhe cobriam o espírito, mas adivinhava que as forças vitoriosas chegavam tardiamente para libertá-lo. No meio dos ruídos ensurdecedores, André de Gioras ainda se aproximou do condenado, falando-lhe ao ouvido: – Poderia matar-te, senador infame, mas quero que vivas. Vou revelar-te, agora, quem é Ítalo, teu algoz do último instante!...

Mas um golpe violento de espada, brandida por um legionário romano, fizera o velho israelita cair ao solo sem sentidos, enquanto certeira punhalada atingia Ítalo, indeciso na sua estupefação, que caiu pesadamente junto do supliciado, abraçandolhe os pés, num gesto significativo e supremo. Vozes amigas rodearam, então, Públio Lentulus, naquele ambiente tumultuário. Desataram-lhe imediatamente os pés e as mãos, restituindo-lhe a liberdade dos movimentos, enquanto outros legionários retiravam o cadáver de Pompílio Crasso, com o peito vazio, num quadro pavoroso de selvajaria sanguinosa. Serenados os primeiros tumultos e guardando as mais penosas dúvidas sobre as palavras reticenciosas do inimigo implacável, Públio Lentulus, antes de ser levado pelo braço dos companheiros ao comando das forças em operações, onde receberia os primeiros socorros, recomendou que tratassem com o máximo respeito o cadáver de Ítalo, que jazia ao lado de um montão de despojos sangrentos, no que foi atendido, obtemperando-lhe, porém, um companheiro: – Senador, antes de tudo, não vos esqueçais do vosso estado, que está requerendo de todos nós os mais urgentes cuidados. E como se quisesse provocar uma explicação espontânea do ferido, quanto ao seu interesse pelo morto, acentuou delicadamente: – Não foi esse homem quem vos infligiu o horrendo suplício?

À vista da pergunta inopinada e necessitando justificar sua atitude perante os compatriotas que o ouviam, Públio exclamou com voz pungente: – Enganais-vos, meu amigo. Esse homem cujo cadáver agora não vejo, era nosso conterrâneo, prisioneiro de muito tempo pela sanha vingativa de um poderoso senhor de Jerusalém... Observai-lhe os traços nobres e concordareis comigo!... E enquanto se retirava amparado pelos amigos, a fim de receber socorros imediatos e imprescindíveis, supôs haver cumprido um dever, em pronunciando aquelas palavras, porque misteriosas vozes lhe falavam ao coração, acerca daquele olhar generoso que pousara em seus olhos pela última vez. Vários dias esteve Jerusalém entregue ao saque e à desordem, levados a efeito pela soldadesca do império, faminta de prazeres e envenenada no vinho sinistro do triunfo. Todos os chefes da resistência israelita foram presos, a fim de comparecerem a Roma para o último sacrifício, em homenagem às festas comemorativas da vitória.

Entre eles incluía-se André de Gioras, que, restabelecido das escoriações recebidas, representava um dos que deveriam ser exterminados para gáudio da assistência festiva na Capital do império. Depois da matança de onze mil prisioneiros feridos ou inválidos, massacrados pelas legiões vencedoras; depois dos pavorosos espetáculos da destruição e saque do templo magnífico, no qual Israel julgava contemplar a sua obra eterna e divina para todas as gerações da sua posteridade prolífica, voltou a caravana compacta dos vencidos e vencedores, cheia de riquezas ilícitas e troféus maravilhosos, de modo a exibir em Roma todos os ornamentos ilustrativos da vitória, entre vibrações tumultuárias e cânticos de triunfo. Numa galera confortável e tranqüila, viajou Públio Lentulus, resignado dentro da noite cerrada da sua cegueira, rodeado de amigos prestimosos que tudo faziam por minorar-lhe os sofrimentos morais. Antes de chegar a Roma, vezes muitas cogitou da melhor maneira de se dirigir diretamente a André, para arrancar-lhe a verdade e serenar as dúvidas íntimas, quanto à identidade do escravo de tipo romano, que o ferira para sempre, nos preciosos dons da vista.

Ele, porém, agora, estava cego, e para realizar esse desejo teria de empregar um largo processo de providências, de colaboração estranha, e, assim, não havia atinado com a melhor maneira de ouvir o judeu sem ferir as tradições de dignidade pessoal, mantida em todos os tempos da vida pública.

Foi, ainda, nesse impasse que chegou, novamente, ao palácio do Aventino, acompanhado de numerosos companheiros de labores políticos, surpreendendo amarguradamente o coração da filha com a notícia trágica e dolorosa da sua cegueira. Ana, qual anjo fraterno, valorosa irmã de todos os infortunados, sincera discípula do Cristianismo, esperou carinhosamente o seu senhor junto de Flávia que exclamava cheia de incoercível desalento: – Meu pai, meu pai, mas que desgraça!... O velho patrício, todavia, no seu otimismo, confortava-lhe o espírito, obtemperando: – Filha, não te dês ao trabalho de conjeturar a fundo os problemas do destino. Em todos os acontecimentos da vida temos de louvar os soberanos desígnios dos céus e espero que te encorajes de novo, porque somente assim viverei agora, junto de ti, em consolação afetuosa e recíproca! Foi o próprio destino que me afastou compulsoriamente das lides do Estado, a fim de viver doravante somente por ti.

Abraçaram-se então efusivamente, fundiram-se em beijos do mesmo infortúnio, vibrações de duas almas presas aos mesmos padecimentos. Públio Lentulus, porém, embora o necessário descanso, e apesar da cegueira que lhe impossibilitava as iniciativas, não perdeu a esperança de ouvir a palavra do inimigo implacável, ainda uma vez, e, para isso, aguardou o dia ansiosamente esperado pelo povo romano, das soberanas festas do triunfo. Convém acentuar que o velho senador foi conduzido à cidade imediatamente, em virtude da sua especialíssima situação; mas o vencedor e as suas legiões infindáveis entrariam em Roma com todos os faustosos protocolos dos triunfadores, de conformidade com os numerosos regulamentos da própria antiga República. No dia aprazado, toda a Capital, com a sua população de um milhão e meio de habitantes, aproximadamente, aguardava as magníficas comemorações da vitória. Desde as primeiras horas do dia, começaram a grupar-se ás portas da cidade as legiões vencedoras, desarmadas, vestindo delicadas túnicas de seda, ostentando soberbas auréolas de louro. Transpondo as portas da cidade, sob os aplausos estrondosos de multidões sem fim, foi-lhes oferecido esplêndido banquete, presidido pelo próprio imperador e seu filho.

Vespasiano e Tito, logo após as cerimônias do Senado, no Pórtico de Otávia, encaminharam-se para a Porta Triunfal. Ali, ofereceram um sacrifício aos deuses e tomaram os símbolos do triunfo nas aparatosas festividades imperiais. Realizada essa cerimônia, pôs-se em marcha o grande cortejo, ao qual Públio Lentulus não faltou, com a secreta intenção de ouvir a palavra reveladora do chefe prisioneiro, cujo cadáver, depois dos sacrifícios daquele dia, seria atirado às águas do Tibre, de acordo com as tradições vigentes. Todos os troféus das batalhas sanguinolentas e todos os vencidos, em número considerável, eram levados igualmente em procissão, na festa indescritível. À frente do cortejo imenso, seguia incalculável quantidade de obras de ouro puro, enfeitadas de cores variadas e berrantes, e, logo após, pedras preciosas em número incontável, não só em coroas de fulgurante beleza, como também em estofos que maravilhavam os espectadores pela variedade, sendo de notar que todos esses tesouros eram carregados por jovens legionários trajando túnicas de púrpura, com graciosos ornamentos dourados.

Depois da exibição dos tesouros conquistados pelo triunfador, vinham, às centenas, as estátuas dos deuses, talhadas em marfim, em ouro, em prata, de tamanhos prodigiosos. Em seguida aos deuses, todo um exército de animais, das mais variadas espécies, entre os quais se distinguiam numerosos dromedários e elefantes cobertos de magníficas pedrarias. Acompanhando os animais, a multidão compacta e acabrunhada dos prisioneiros vulgares, exibindo sua miséria e olhares tristes, procurando ocultar dos espectadores impiedosos e irreverentes os ferros pesados que os manietavam. Após os prisioneiros sucumbidos, passavam os simulacros das cidades vencidas e humilhadas, confeccionados com grande esmero, sustentados nos ombros de soldados numerosos, semelhantes aos modernos carros alegóricos das festas carnavalescas. Havia representações de todas as cidades destruídas e saqueadas, de batalhas vitoriosas, sem faltar o arrasamento dos campos, a queda de muralhas e os incêndios devastadores. Depois desses símbolos, eram os despojos riquíssimos dos povos vencidos e das cidades conquistadas, principalmente os de Jerusalém, carregados com muito desvelo pelos legionários.

Sob os aplausos gritantes e irreverentes da turba que se apinhava por toda a parte, desfilaram as estátuas representando as figuras de Abraão e Sara, bem como de todas as personalidades reais da família de David, e mais todos os objetos sagrados do famoso templo de Jerusalém, tais a mesa dos Pães de Proposição, feita de ouro maciço, as trombetas do Jubileu, o castiçal de ouro com sete braços, os paramentos de alto valor intrínseco, os véus sagrados do Templo, e, por fim, a Lei dos judeus, que seguia atrás de todos os despojos materiais, pilhados pelas forças triunfadoras. Cada objeto era carregado em andores preciosos e bem ornamentados, ao ombro dos legionários romanos coroados de louros. Após os textos da Lei, seguia Simão, o desventurado chefe supremo de todos os movimentos da resistência de Jerusalém, acompanhado dos seus três auxiliares diretos, inclusive André de Gioras. Todos esses chefes da longa e desesperada resistência vestiam de preto e caminhavam solenemente para o sacrifício, depois de exibidos em todas as comemorações festivas do triunfo. Em seguida, vinham os carros soberbos e magníficos dos triunfadores.

Após a passagem deslumbrante de Vespasiano, desfilava Tito num oceano de púrpura, de sedas e de vermelhão, simbolizando o próprio Júpiter, na embriaguez da sua vitória. No séquito de honra, passava igualmente o senador valetudinário e cego, não mais pelo prazer das homenagens, mas com o secreto desejo de ouvir a palavra de André, antes do trágico momento em que o seu corpo balançasse sobre as águas lodosas do Tibre, no instante da consumação do último suplício, sob os aplausos delirantes do povo. Após os carros imperiais dos vencedores e seus áulicos mais íntimos, vinha o exército compacto, entoando os hinos da vitória, enquanto todas as ruas e praças, foros e pórticos, terraços e janelas, se pejavam de incalculáveis multidões curiosas. O cortejo movimentou-se solenemente, desde a Porta Triunfal até ao Capitólio. Longas horas foram gastas no trajeto, através do sinuoso caminho, porquanto a festividade era consumada de molde a levar seus esplendores pelos recantos mais aristocráticos do patriciado romano.

Em dado momento, todavia, antes de se elevar à colina, todo o cortejo parou e os olhos ansiosos da multidão convergiram para Simão e seus três companheiros, auxiliares diretos da sua chefia na resistência da cidade famosa. Públio Lentulus, embora cego, mas afeito ao tradicionalismo daquelas comemorações, compreendeu que era chegado o instante supremo. Em virtude do seu caso especialíssimo e considerando a deferência que a autoridade julgava dever-lhe, o imperador preocupava-se com a sua situação no cortejo, recomendando ao filho, Domiciano, atender a quaisquer providências de que viesse a precisar em tais circunstâncias. Naquele momento, debaixo das vibrações ruidosas do delírio popular, procedia-se ao flagício de Simão, diante de toda a Roma embriagada e vitoriosa, enquanto André de Gioras e os dois companheiros eram conduzidos à Prisão Mamertina, onde aguardariam o chefe, após a flagelação, para a morte em conjunto, de maneira que os cadáveres pudessem ser arrastados através das Gemônias e, sob as vistas do povo, atirados às correntes do Tibre. De alma ansiosa, mas disposto a realizar seus desígnios, o senador chamou o príncipe a cuja assistência fora recomendado, expressando-lhe o desejo de dirigir a palavra a um dos prisioneiros, em particular e em condições secretas, no que foi imediatamente atendido.

Domiciano tomou-lhe do braço com atenção e, conduzindo-o a uma dependência da prisão sinistra, determinou a vinda de André a um cubículo isolado e secreto, conforme o desejo de Públio, aguardando o fim da entrevista numa sala próxima, juntamente com alguns guardas, tão logo penetrou o condenado para o interrogatório do antigo político do Senado. Defrontando-se, os dois inimigos tiveram estranha sensação de mal-estar. Públio Lentulus não mais podia vê-lo, mas se os seus olhos já não tinham expressão emotiva, crestadas para sempre as pupilas claras e enérgicas, seu perfil ereto manifestava as emoções que o dominavam. – Senhor André – exclamou o senador, profundamente emocionado –, contra todos os meus hábitos provoquei este encontro secreto, de modo a esclarecer minhas dúvidas sobre as palavras reticenciosas em Jerusalém, no dia em que consumastes vossas impiedosas determinações a meu respeito. Não quero, agora, entrar em pormenores sobre a vossa atitude, mas tão somente informar-vos, neste momento em que a justiça do Império vos toma à sua conta, que tudo fiz por devolver-vos o filho prisioneiro, cumprindo um dever de humanidade, ao receber as vossas súplicas.

Lamento que as minhas providências tardias não alcançassem o efeito desejado, fermentando tão violenta odiosidade no vosso coração. Agora, porém, não mais ordeno. Um cego não pode determinar providências de qualquer natureza, em face das penosas injunções da sua própria vida, mas solicito o vosso esclarecimento, sobre a personalidade do escravo que me crestou a vista para sempre!... André de Gioras estava igualmente abatidíssimo na sua decrepitude enfermiça. Comovido pela atitude daquele pai humilhado e infeliz e fazendo o íntimo retrospecto dos seus atos criminosos, naquelas horas supremas de sua vida, respondeu extremamente compungido: – Senador Lentulus, a hora da morte é diferente de todas as outras que o destino concede à nossa existência à face deste mundo...

É por isso, talvez, que sinto o meu ódio agora transformado em piedade, avaliando o vosso sofrimento amargo e rude. Desde que fui preso, venho considerando os erros da minha vida criminosa... Trabalhando no Templo e vivendo para o culto da Lei de Moisés, só agora reconheço que Deus concede liberdade de ação a todos os seus filhos, mormente aos seus sacerdotes, tocando-lhes, porém, a consciência, no momento da morte, quando nada mais resta senão a apresentação da alma falida, diante de um tribunal a que ninguém pode mentir ou subornar!... Sei que é tarde para reagir no caminho percorrido, a fim de refazer os nossos atos; mas um sentimento novo me faz falar-vos aqui com a sinceridade do coração, que, acicatado pelo julgamento divino, já não pode enganar a ninguém. Há quase quarenta anos, vossa austeridade orgulhosa determinou a prisão do meu único filho, remetendo-o impiedosamente para as galeras, e debalde implorei a vossa demência de homem público, para o meu espírito desamparado...

Das galeras, contudo, meu pobre Saul foi remetido para Roma, onde foi vendido, miseravelmente, num mercado de escravos, ao Senador Flamínio Severus... Nesse instante, o cego, que escutava atenta e eminentemente emocionado, ao identificar, naquela narrativa, o algoz da filha, interrompeu-a perguntando: – Flamínio Severus? – Sim, era também, como vós, um senador do Império. Profundamente emocionado, ao ligar os fatos dolorosos de sua família à pessoa do antigo liberto, mas necessitando de todas as energias morais para dominar-se, o senador recalcou no íntimo a sua amargura, conservando-se em atitude de expressivo silêncio, enquanto o condenado prosseguia: – Saul, todavia, foi feliz... Abraçou a liberdade e fez fortuna, voltando de vez em quando a Jerusalém, onde me ajudou a prosperar; mas, devo revelar-vos que, não obstante os textos da Lei por mim pregada muitas vezes, que nos manda desejar ao próximo o que desejaríamos para nós mesmos, não cruzei os braços ante a vossa arbitrariedade criminosa, jurando vingar-me a qualquer preço; para isto, numa noite tranqüila, roubei o vosso pequenino Marcus na vossa residência de Cafarnaum, de cumplicidade com uma de vossas servas, que mais tarde tive de envenenar, para que não viesse a revelar o segredo e tolher meus sinistros propósitos, quando a vossa ansiedade paterna instituiu, em Jerusalém, o prêmio de um Grande Sestércio a quem descobrisse o paradeiro do pequenino...

Lembrareis, por certo, da criada Sêmele, que morreu repentinamente em vossa casa... Enquanto André do Gioras se detinha na triste confissão que lhe tocava as fibras mais íntimas da alma, representando cada palavra um estilete de amargura a lhe retalhar o coração, Públio Lentulus chegava tardiamente ao conhecimento de todos os fatos, recordando os angustiosos martírios da companheira, como esposa caluniada e mãe carinhosa. Impressionado, porém, com o seu silêncio doloroso, André continuava: – Pois bem, senador; obedecendo aos meus sentimentos condenáveis, raptei vosso filhinho, que cresceu humilhado nos mais rudes trabalhos da lavoura... aniquilei-lhe a inteligência... favoreci-lhe o ingresso nos vícios mais desprezíveis, pelo prazer diabólico de humilhar um romano inimigo, até que culminei na minha vindita em nosso encontro inesperado! Mas, agora, estou diante da morte e não sei enxergar mais a nossa situação, senão como pais desventurados... Sei que vou comparecer breve no tribunal do mais íntegro dos juízes, e, se vos fosse possível, eu desejava que me désseis um pouco de paz com o vosso perdão!

O velho senador do Império não saberia explicar as suas profundas dores, ouvindo aquelas revelações angustiosas e amargas. Ouvindo André, sentia ímpetos de perguntar pelo filhinho em criança, por suas tendências, pelas suas aspirações da mocidade; desejava inteirar-se dos seus trabalhos, das suas predileções, mas cada palavra daquela confissão amargurosa era uma punhalada nos seus sentimentos mais sagrados. Qual estátua muda do infortúnio, ainda ouviu o prisioneiro repetir, quase em lágrimas, arrancando-o das suas divagações sombrias e tormentosas: – Senador – insistia ele, suplicando tristemente –, perdoai-me! Quero compreender o espírito da minha Lei, apesar do último instante!... Relevai meu crime e dai-me forças para comparecer diante da luz de Deus!... Públio ouvia-lhe a voz súplice, enquanto uma lágrima de dor indescritível rolava dos seus olhos tristes e apagados.

Perdoar? Mas, como? Não fora ele, Públio, o ofendido e a vítima de uma existência inteira? Singulares emoções abalavam-lhe o íntimo, enquanto numerosos soluços lhe morriam na garganta opressa. Diante dele estava o inimigo implacável que procurara em vão, por consecutivos e longos anos de infelicidade.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.