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Capítulo 33 de 38

Parte 33 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

Em alguns tópicos de suas informações, negou estivesse presente nos aposentos de Agripa e isso foi o bastante para que o senador verificasse que mentia. Quanto a Plínio, não fôra de fato encontrado, obtendo-se tão somente a lacônica participação da sua partida para Massília, o que realmente ocorrera na mesma noite da tragédia, depois da altercação decisiva com o irmão, no palácio do Aventino. E, assim, em companhia de Aurélia, demandava ele as Gálias, em suntuosa galera, singrando as águas calmas do antigo mar romano. O senador, porém, apenas desejava ouvir melhor as confidências da filha, para arrancar a confissão suprema do mísero liberto de Flamínio, de cuja culpabilidade não tinha mais dúvida. Procurou, dessarte, realizar com a maior discrição os funerais do filho do seu inesquecível amigo, aos quais Saul de Gioras teve a desfaçatez de assistir, com toda a serenidade venenosa do seu espírito mesquinho.

Sob o efeito pernicioso de tóxicos letais, que lhe haviam sido aplicado por Ateia, a serva traidora, paga por Aurélia, a qual, na sua inconsciência, havia envenenado todos os cosméticos de uso da sua ama, destinados ao tratamento da pele e dos cílios, Flávia Lentúlia tinha, agora, todos os padecimentos físicos singularmente agravados, além da terrível situação moral em face da penosa ocorrência e de seu acabrunhamento por força de insolúveis dúvidas.

Aquele mal da infância parecia reviver, porque o corpo novamente se abria em chagas dolorosas, enquanto os olhos pareciam seriamente atacados de moléstia implacável. Três dias depois das exéquias de Agripa, Públio Lentulus, fundamente penalizado, ouviu-lhe o depoimento íntimo e angustioso, com o máximo de atenção amorosa e interessada. Findo o relato minucioso da filha, cujas desventuras conjugais lhe tocavam o âmago do coração, o velho senador requereu novo interrogatório de Saul, com a sua presença, mas, enviando emissário à procura do liberto de Flamínio, ficara atônito com uma nova surpresa. Saul de Gioras, depois de responder às argüições particulares de Públio Lentulus, quando ainda não se haviam realizado os funerais de Agripa Severus, percebeu claramente a atitude mental daquele para consigo, concluindo que lhe não seria possível enganar o tato psicológico do velho senador. Dois dias após as cerimônias fúnebres, o liberto procurou Araxes no seu miserável refúgio do Esquilino, com o espírito exacerbado e inquieto.

Crendo sinceramente nas intervenções maravilhosas do mago, à vista das suas faculdades divinatórias, aproveitadas, aliás, por forças tenebrosas do plano invisível, ligadas às suas sinistras ambições de dinheiro, notou Saul que o adivinho o recebia com a misteriosa fleuma de sempre. Deixou bem visível a volumosa bolsa, recheada, como a demonstrar-lhe as ricas possibilidades financeiras, para aquisição dotalismã de sua ventura. O velho feiticeiro, encarquilhado pelos anos, reconhecendo-lhe as disposições generosas, desfazia-se em sorrisos de benevolência ambiciosa e enigmática, parecendo devassar-lhe o olhar assustadiço e inquieto, com seus olhos móveis e penetrantes. – Araxes – exclamou Saul, com voz quase súplice –, estou cansado de esperar o amor da mulher que adoro! Estou aflito e preocupado...

Preciso serenar minhas penosas aflições. Ouve-me! Quero de tuas mãos o talismã da felicidade para o meu amor desventurado!.. O velho adivinho guardou por minutos a cabeça entre as mãos, no gesto que lhe era peculiar e, depois, respondeu em voz quase sumida: – Senhor, dizem-me as vozes do invisível que as vossas aflições não são resultantes de um amor incompreendido e desesperado... Mas o liberto de Flamínio, que sofria o mais fundo desespero de consciência por haver eliminado um amigo e benfeitor, em plena floração de juventude, cortou-lhe a palavra, exclamando incisivamente: – Como ousas contradizer-me, feiticeiro infame?

Araxes, todavia, com um brilho estranho nos olhos buliçosos, revidou com presteza: – Julgais-me, então, um feiticeiro infame? Nem por isso, todavia, deixarei de falar a verdade, quando a verdade me convenha. – Pois repito o que disse! Mas, a que verdades misteriosas aludes em tuas vagas afirmativas? – falou o liberto, fundamente exasperado.

– A verdade, meu amigo – dizia o mago, com serenidade quase sinistra, é que se estais tão perturbado é somente porque sois um criminoso. Assassinastes, friamente, um benfeitor e um amigo, e a consciência do celerado teme a implacável ação da justiça! – Cala-te, miserável! Como o soubeste? – exclamou Saul, excitadíssimo, ao mesmo tempo que arrancava o punhal de entre as dobras do manto.

E avançando para o velho indefeso, acrescentava com voz cavernosa: – Já que as tuas ciências ocultas te proporcionam conhecimentos perniciosos à tranqüilidade alheia, deves também desaparecer!... Araxes compreendeu que o momento era decisivo. Aquele homem arrebatado era capaz de eliminá-lo de um só golpe. Medindo a situação num relance e movimentando toda a sua argúcia para conservar os bens da vida, esboçou um sorriso fingido e complacente, exclamando: – Ora, ora, se falei a verdade foi somente para poderdes avaliar os meus poderes espirituais, porquanto, se é do vosso desejo, poderei integrar-vos, imediatamente, na posse do necessário talismã. Com ele, sereis profundamente amado pela mulher de vossas preferências...

Com ele, modificareis os mais íntimos sentimentos dessa criatura que adorais e que vos fará, então, a felicidade de toda a vida. Quanto ao mais, não sois o primeiro a tirar a vida de um semelhante, porque todos os dias me aparecem fregueses nas vossas condições, batendo a estas portas. Além disso, entre nós deve existir grande confiança recíproca, porque sois meu cliente há mais de dez anos. Ouvindo-lhe as palavras benevolentes e serenas, o liberto de Flamínio guardou novamente a arma, considerando novas perspectivas de felicidade e concordando em tudo com o adivinho, que, fazendo-o sentar-se, lhe ocupou a atenção por mais de uma hora com a descrição de fatos idênticos aos que lhe ocorriam, demonstrando teoricamente a eficiência dos seus amuletos miraculosos. Ia a palestra em boa forma, quando Saul lhe solicitou a entrega imediata do talismã, porquanto desejava experimentar-lhe o efeito naquele mesmo dia, ao que Araxes respondeu pressuroso: – O vosso talismã está pronto.

Posso entregar-vos essa preciosidade agora mesmo, dependendo tão somente de vós mesmo, porque precisareis beber o filtro mágico, que vos colocará na situação espiritual requerida pelo cometimento. Saul não fez questão de submeter-se às imposições do velho egípcio, nas suas manobras estranhas e misteriosas, penetrando uma câmara, ornamentada de vários símbolos extravagantes, que lhe eram totalmente desconhecidos. Araxes levava a efeito as encenações mais sugestivas. Vestiu-lhe, sobre a toga comum, larga túnica igual à sua e, depois de fingidas posições de magia incompreensível, foi ao interior do pequeno laboratório, onde tomou de um tóxico violento, monologando intimamente de si para consigo: – "Vais receber o talismã que mais te convém neste mundo". Deitou algumas gotas do perigoso filtro numa taça de vinho e, com largos gestos espetaculosos, como se estivesse obedecendo a ritual ignorado, deu-lhe a beber o conteúdo, prosseguindo nos gestos exóticos, que eram bem as expressões pitorescas e sinistras de extravagante magia de morte. Ingerindo o vinho na melhor intenção de guardar o amuleto da sua felicidade, o perigoso liberto sentiu que os membros se relaxavam sob o império de uma força desconhecida e destruidora, porquanto lhe faltava a própria voz para externar as emoções mais íntimas.

Quis gritar, mas não o conseguiu, e inúteis foram todos os esforços para levantar-se. Aos poucos, os olhos turvaram-se lugubremente, como enevoados por sombra espessa e indefinível. Desejou manifestar seu ódio ao mago assassino, defender-se daquela angústia que lhe sufocava a garganta, mas a língua estava hirta e um frio penetrante invadiu-lhe os centros vitais. Deixando pender a cabeça sobre os cotovelos apoiados ao longo da mesa ampla, compreendeu que a morte violenta lhe destruía todas as forças vivas do organismo. Araxes fechou tranqüilamente o quarto, como se nada houvesse acontecido, e voltou à loja, atendendo solícito à clientela numerosa, sem quebra da habitual serenidade.

Antes da noite, porém, penetrou na câmara mortuária e esvaziou a bolsa do cadáver, guardando as moedas silenciosamente entre as suas fartas reservas de avarento. Depois das vinte e três horas, quando a cidade dormia, o velho feiticeiro do Esquilino misturava-se aos escravos que faziam o serviço noturno dos transportes, conduzindo uma pequena carroça de mão, dentro da qual ia um grande volume. Após longo trajeto, ganhava as cercanias do Fórum, entre o Capitólio e o Palatino, onde descansou, esperando o derradeiro quarto da madrugada, quando, então, despejou a carga num ângulo escuro da via pública, voltando tranqüilamente para o seu sono de cada noite. De manhã, o cadáver de Saul foi facilmente identificado e, quando o senador buscava o liberto para declarações, recebeu a surpresa daquela notícia, inquirindo a si mesmo as razões daquela morte imprevista e estranha, aturdido com a entrosagem do mecanismo da justiça divina e perguntando intimamente, à própria consciência, se Saul não seria daqueles criminosos imediatamente justiçados pela lei das compensações, no caminho infinito dos destinos. Seu coração, mais que nunca inclinado ao exame das profundas questões filosóficas, perdia-se num abismo de conjecturas, recordando a recomendação do espírito de Flamínio e as elevadas lições de Ana, calcadas no Evangelho: procurava, com a maior boa vontade resolver o problema do perdão e da piedade.

Desejoso de satisfazer a própria consciência nas atividades da vida prática, buscou contrariar suas tradições e costumes em face do acontecimento, e, dirigindo-se à residência do algoz de seus filhos, tomou todas as providências para que não lhe faltassem a decência e o respeito nas cerimônias fúnebres. Alguns escravos e servos de confiança estavam habilitados a resolver todos os problemas atinentes aos negócios deixados pelo morto, mas, cooperandonas exéquias, Públio Lentulus se sentia satisfeito por vencer a aversão pessoal, homenageando, ao mesmo tempo, a memória de FIamínio. Localizando-se com a nova companheira em Avênio, Plínio Severus soube, por intermédio de amigos, da tragédia que se desenrolara em Roma na noite de sua ausência, sendo igualmente cientificado das dúvidas penosas que pairavam a seu respeito.

Profundamente tocado nas suas fibras emotivas, lembrando-se do irmão que, tantas vezes, lhe testemunhara as mais altas provas de afeto, desejou regressar, de maneira a esclarecer convenientemente o assunto, vingando-lhe a morte; todavia, amolecido nos braços de Aurélia e receoso do julgamento do velho senador, respeitado como um pai, além da suspeita que lhe causava a notícia da inexplicável enfermidade da esposa, deixou-se ficar na sua vida incompreensível, através de Avênio, Massília, Arelate, Antípolis e Nice, buscando esquecer no vinho dos prazeres as grandes responsabilidades que lhe cabiam. Junto de Aurélia, a vida do oficial decorreu em tranqüilidade condenável, por três longos anos, quando um dia teve a dolorosa surpresa de encontrar a companheira pérfida e insensível nos braços do músico e cantor Sérgio Acerronius, chegado a Massília com as ruidosas alegrias da Capital do Império.

Nesse dia amargurado da sua existência, o filho de Flamínio investiu sobre a mulher traidora, de arma na mão, disposto a tirar-lhe a vida criminosa e dissoluta. No instante, porém, da sua desforra, considerou intimamente que o assassínio de uma mulher, ainda que diabolicamente perversa, não deveria entrar nos trâmites da sua vida, supondo ainda que, deixá-la viver no caminho escabroso de suas crueldades, seria a melhor vindita do seu coração traído e desventurado. Abandonou, então, para sempre, aquela mísera criatura, que foi eliminada mais tarde, em Âncio, pelo punhal implacável de Sérgio, que lhe não tolerou a infidelidade e a pervicácia no crime. Sentindo-se só, Plínio Severus considerou, amarguradamente, os erros clamorosos da sua vida. Reviu o passado de futilidades condenáveis e atitudes loucas.

Quase pobre, viu-se misérrimo para voltar ao ambiente romano, onde tantas vezes brilhara na mocidade, em aventuras pródigas e felizes. Debalde lhe enviara o senador apelos afetuosos. Chamado a brios pelas lições dolorosas do próprio destino, o oficial, amparado por alguns amigos de Roma, preferiu esforçar-se pela reabilitação nas cidades das Gálias, onde permaneceria longos anos em trabalho silencioso e rude, pelo reerguimento do seu nome diante dos parentes e amigos mais íntimos. Já entrado na idade madura, das profundas reflexões, grande lhe foi o esforço de reabilitação, distante dos entes mais caros. Quanto ao velho senador, resistiu, decididamente, dentro da sua rígida estrutura espiritual, aos golpes aspérrimos do destino.

Fazendo da luta de cada dia o melhor caminho de esclarecimento, viu passar os anos sem desânimo e sem ociosidade. Desde os trágicos acontecimentos em que Agripa e Saul haviam perdido a vida misteriosamente, com o abandono definitivo do marido, Flávia Lentúlia tinha a saúde abalada para sempre. Na epiderme, os venenos de Ateia haviam sido anulados e vencidos pelas substâncias medicamentosas aplicadas, mas a luz dos seus olhos fôra aniquilada para todo o sempre. Desalentada e cega, encontrou, porém, no coração generoso de Ana, o carinho materno que lhe faltava em tão penosas circunstâncias da vida. A constituição física do senador, contudo, resistia a todos os embates e infortúnios. Entre os esforços de carinhosa assistência à filha e as lides políticas que lhe tomavam o máximo de atenção, seus dias decorreram cheios de lutas acerbas, mas silenciosos e tristes, como sempre.

Em seu espírito, havia agora as melhores e mais sinceras disposições para apreender a essência sagrada dos ensinamentos do Cristianismo e foi assim que o seu coração penetrou o crepúsculo da velhice, como se as sombras fossem clarificadas por estrelas cariciosas e suaves. No seu íntimo, permanecia uma serenidade imperturbável, mas, na vida do homem, corria o sopro inquieto do esforço pelas realizações do seu tempo. O coração estava resignado com as desilusões penosas e amargas do destino, mas no poder supremo do Império estava um tirano, que precisava cair, em benefício das construções do direito e da família; e por isso, junto de numerosos companheiros, entregou-se ao trabalho sutil da política interna, para a queda de Domício Nero, que prosseguia avassalando a cidade com os espetáculos odiosos do seu nefando reinado.

Caius Pisão, Sêneca, bem como outras figuras veneráveis da época, mais exaltadas no patriotismo e amor pela justiça, caíram sob as mãos criminosas do celerado que cingia a coroa, mas Públio Lentulus, ao lado de outros irmãos de ideal que trabalharam no silêncio e na sombra da diplomacia secreta, junto dos militares e do povo, esperou pela morte ou pelo banimento do tirano, aguardando as claridades do futuro, surgidas com o efêmero reinado de Sérgio Sulpício Galba, que, no dizer de Tácíto, teria sido por todos considerado digno do governo supremo do Império, se não houvesse sido Imperador. VIII Na destruição de Jerusalém Mais de dez anos correram, silenciosamente amargurados, depois de 58, sobre a vida comum das personagens desta história. Somente em 68, conseguira a política conciliatória de grande número de patrícios, entre os quais Públio Lentulus, o definitivo afastamento de Domício Nero e suas nefandas crueldades.

Todavia, a ascensão de Galba durara poucos meses e aquele ano de 69 ia definir grandes acontecimentos na vida do império. Lutas numerosas encheram a cidade de pavor e sangue. A terrível contenda entre Otão e Vitélio dividira todas as classes da família romana em facções hostis, que se odiavam ao extremo. Afinal, a famosa batalha de Bedriaco dava o trono a Vitélio, que instaurou novo círculo de crueldades em todos os setores políticos. A diplomacia interna, porém, vigiava na sombra, examinando atentamente a situação, de modo a não permitir a continuidade de novo surto de extermínio e de infâmia.

Vitélio apenas conservou o governo por oito meses e dias. porque, no mesmo ano de 69, as legiões do território africano, trabalhadas pela orientação sutil dos que haviam derribado Nero e seus asseclas, proclamaram Vespasiano para a suprema investidura do Império. O novo imperador, que ainda se encontrava no campo de seus feitos de armas, empenhado na pacificação da Judeia distante satisfazia as exigências mais avançadas de todas as classes civis e militares, sendo recebido em triunfo para o posto supremo, iniciando-se, assim, a era prestigiosa dos Flávios. Vespasiano integrava aquele grupo de patrícios operosos que contribuíra, sem alardes, para a queda dos tiranos. Amigo pessoal de Públio Lentulus, o imperador se tornara famoso, não só por suas vitórias militares, mas também por seu criterioso tirocínio político, evidenciado em Roma desde os dias turbulentos de Calígula. Sob a sua orientação administrativa, ia abrir-se uma trégua nas imoralidades governamentais, inaugurar-se-ia novo período de compreensão das necessidades populares e, na rota dos seus planos econômico-financeiros, o Império ia caminhar para os dias regeneradores de uma era nova. Públio recebeu todos os acontecimentos com a velada alegria possível aos seus 67 anos de lutas e fortes experiências da vida.

Sob a claridade serena da velhice, todavia, sua fibra moral e resistência física eram as mesmas de sempre. Dentro da perspectiva de melhores dias para as realizações patrióticas, considerava, agora, como bem empregado, todo o tempo que roubara à filha cega, para atender ao trabalho do bem coletivo; e foi nesse estado de espírito, com a consciência satisfeita pelo dever cumprido, de conformidade com as suas concepções, que se dirigiu a palácio para atender a chamado especial do imperador, que, muitas vezes, não deixou de recorrer ao conselho dos seus mais antigos companheiros de ideal. – Senador – disse-lhe Vespasiano, na intimidade tranqüila de um dos magníficos gabinetes da residência imperial – mandei chamá-lo para me amparar com a sua tradicional dedicação ao Império, na solução de assunto que julgo de 7 suma importância. – Dizei, Augusto!... – respondeu Públio, comovido.

Mas o imperador, gentil, cortou-lhe a palavra: – Não, meu caro, entendamo-nos com a velha intimidade de outros tempos. Deixemos, por um instante, os protocolos. E, vendo que o senador esboçava um sorriso de reconhecimento à sua palavra fluente e generosa, continuou a expor a questão que o interessava: – Chamado a Roma para o cargo supremo, não ousei desobedecer às sagradas injunções que me impeliam ao cumprimento desse grande dever, embora obrigado a deixar meu filho na obra de pacificação da Judéia amotinada, trabalho esse que considerarei, em toda a vida, o meu melhor esforço pela vitalidade do Império, no desdobramento de suas gloriosas tradições. Acontece, todavia, que o cerco de Jerusalém se vai prolongando demasiado, acarretando as mais sérias conseqüências para meus projetos econômicos, no programa restaurador que me propus realizar no governo. Suponho que o meu valoroso Tito esteja necessitando de um conselho de civis, além dos assistentes militares que o acompanham na arrojada empresa, e lembrei-me de organizá-lo tão somente com os amigos mais íntimos, que conheçam Jerusalém e suas cercanias.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.