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Capítulo 13 de 38

Parte 13 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

Certificada, em absoluto, do acontecimento, a caluniadora antegozou o instante em que tomaria Públio pelas mãos, a fim de conduzi-lo à visão direta do suposto adultério de sua mulher e, quando regressava ao vasto salão, deixando transparecer levemente a satisfação sinistra da sua alma, ainda ouviu Pilatos exclamar com delicadeza para os seus convidados: – Meus amigos, espero me concedam alguns minutos para atender a uma entrevista privada e urgente, que eu não esperava neste momento. Acredito que, consumada a condenação do Messias de Nazaré, batem já a estas portas os que não tiveram coragem para defendê-lo publicamente, no momento oportuno!. . Vamos ver! E retirando-se com o assentimento unânime dos presentes, o governador atingia o gabinete reservado, onde, eminentemente surpreendido, encontrou o vulto nobre de Lívia, mais bela e mais sedutora naqueles trajes despretensiosos e simples, e que lhe falou nestes termos: – Senhor governador, embora sem o consentimento prévio de meu marido, resolvi chegar até aqui, em virtude da urgência do assunto, a suplicar o vosso amparo político para a absolvição do profeta de Nazaré. Homem humilde e bom, caridoso e justo, que mal teria praticado para morrer assim, de morte aviltante, entre dois ladrões?

É por isso que, conhecendo-o pessoalmente e tendo-o na conta de um inspirado do céu, ouso invocar as vossas elevadas qualidades de homem público, em favor do acusado!... Sua voz era trêmula, indicando as emoções que lhe iam n’alma. – Senhora – respondeu Pilatos, fazendo o possível para sensibilizar e seduzir-lhe o coração com a fingida ternura de suas palavras, tudo fiz para evitar a Jesus a morte no madeiro infamante, vencendo todos os meus escrúpulos de homem de governo, mas, infelizmente, tudo está consumado. Nossa legislação foi vencida pelas iras da multidão delinqüente, nas explosões injustificadas do seu ódio incompreensível. – Então, não é licito esperarmos nenhuma providência mais a beneficio desse homem caridoso e justo, condenado como vulgar malfeitor?

Será ele, então, crucificado pelo crime de praticar a caridade e plantar a fé no coração dos seus semelhantes, que ainda não sabem adquiri-la por si próprios? – Infelizmente, assim é... – replicou Pilatos, contrafeito. – Tudo fizemos a fim de evitar os desatinos da plebe amotinada, mas os meus escrúpulos não conseguiram vencer, sendo obrigado a confirmar a pena de Jesus, a contragosto. Por um momento, entregou-se Lívia às suas meditações dolorosas, como se estivesse inquirindo, a si mesma, qualquer providência nova a adotar sem perda de um minuto.

Quanto ao governador, depois de imprimir uma pausa às suas palavras, deixou que os instintos do homem surgissem, plenamente, naquelas circunstâncias. Aquele dia havia sido de lutas penosas e intensas. Singular abatimento físico lhe dominava os centros mais poderosos da força orgânica, mas, diante dos seus olhos habituados à conquista e, muitas vezes, aos recursos da própria crueldade, estava aquela mulher, que lhe resistira... Poderosa algema parecia imantá-lo à sua personalidade simples e carinhosa, e ele, mais que nunca, desejou possuí-la, tornando-a, como as outras, um instrumento de suas transitórias paixões. O ambiente, sobretudo, conturbava-lhe as fontes mais puras do raciocínio.

Aquele gabinete era destinado, exclusivamente, às suas extravagâncias noturnas, e fluidos entontecedores pairavam em todos os seus escaninhos, embotando os mais nobres pensamentos. Via a mulher ambicionada, perdida por alguns segundos em graciosas cismas, diante da sua presença dominadora. Aquela graça simples, saturada de generosidade quase infantil e aliada aos olhos límpidos e profundos de madona do lar, obscureceu-lhe o cavalheirismo que, por vezes, aflorava no modo brusco das suas injustiças e crueldades de homem da vida particular e da vida pública. Avançando como tomado por força incoercível, exclamou inopinadamente, fazendo-lhe sentir o perigo da posição em que se colocara: – Nobre Lívia – começou ele, na inquietação de seus impuros pensamentos, nunca mais olvidei aquela noite, cheia de músicas e de estrelas, em que vos revelei pela primeira vez a ardência do meu coração apaixonado... Esquecei, por um momento, esses judeus incompreensíveis e ouvi, ainda uma vez, a palavra sincera dos profundos sentimentos que me inspirastes com as vossas virtudes e peregrina beleza!.

– Senhor!... – teve forças para exclamar a pobre senhora, procurando aliviar-se da afronta. Mas, o governador, com a ousadia dos homens impetuosos, não teve outro gesto senão o de obedecer aos seus caprichos impulsivos, tomando-lhe as mãos, atrevidamente. Lívia, todavia, movimentando todas as suas energias, alcançou recursos para se desvencilhar dos seus braços longos e fortes, redargüindo, intrépida: – Para trás, senhor! Acaso será esse o tratamento de um homem de Estado para com uma cidadã romana e esposa de um senador ilustre do Império?

E, ainda que me faltassem todos esses títulos, que me deveriam dignificar aos vossos olhos cúpidos e desumanos, suponho que não deveríeis faltar, neste momento, com o comezinho dever de cavalheirismo respeitoso, que qualquer homem é obrigado a dispensar a uma mulher! O governador estacou ante aquele gesto heróico e imprevisto, tão habituado estava ele aos mais avançados processos de sedução. A resistência daquela mulher espicaçava os desejos de vencer-lhe o orgulho nobre e a virtude incorruptível. Tinha ímpetos de se atirar àquela criatura delicada e frágil, no turbilhão de lascívia e voluptuosidade que lhe obumbravam o raciocínio; no entanto, força incoercível parecia impor-se aos seus caprichos perigosos de apaixonado, inutilizando-lhe as forças necessárias à execução de semelhante cometimento. Neste comenos, a esposa do senador, lançando-lhe um olhar doloroso onde se podia ler toda a. extensão do seu sofrimento e do seu desprezo em face do ultraje recebido, retirou-se profundamente emocionada, com o cérebro fervilhante dos mais desencontrados pensamentos. Antes, porém, que a vejamos sair do gabinete, somos obrigados a retroceder alguns minutos, quando Fúlvia solicitou ao sobrinho de seu marido o obséquio de uma palavra em particular, pondo-o ao corrente de tudo o que se passava.

O senador experimentou um choque terrível no coração, pressentindo que a prevaricação da mulher estava prestes a confirmar-se diante dos seus próprios olhos, e, contudo, hesitou ainda acreditar em semelhante vilania. – Lívia, aqui? perguntou soturnamente à esposa do tio, dando a entender, pela inflexão da voz, que tudo não passava de criminosa calúnia. – Sim – exclamou Fúlvia, ansiosa por fornecer-lhe a prova tangível de suas asserções –, ela está em colóquio com o governador, no seu compartimento privado, sem ajuizar da situação e das circunstâncias em que se verifica tal encontro, porque, afinal, Cláudia ainda está nesta casa e, perante a lei, minha irmã é a esposa legitima de Pilatos, mal habituado com os costumes dissolutos da Corte, de onde foi enviado para cá em virtude de sérios incidentes desta mesma natureza! Públio Lentulus arregalou os olhos, na sua ingenuidade, dando guarida aos mais horríveis sentimentos, intoxicando-se com o veneno da mais acerba desconfiança, em vista de todas as circunstâncias operarem contra sua mulher, embora jogasse ele no assunto com os mais vastos cabedais da sua tolerância e liberalidade.

Sua atitude de expectativa revelava ainda o máximo de incredulidade, com respeito às acusações que ouvira, mas, observando a caluniadora o seu angustiado silêncio, acudiu ansiosa, exclamando: – Senador, acompanhai-me através destas salas e vos entregarei a chave do enigma, porquanto verificareis a leviandade de vossa esposa, com os vossos próprios olhos.

– Desvairais? – perguntou ele, com serenidade terrível. – Um chefe de família da nossa estirpe social, a menos que uma confiança mais forte lhe outorgue esse direito, não deve conhecer as intimidades domésticas de uma casa que não seja a sua própria. Percebendo que o golpe falhara, voltou Fúlvia a exclamar com a mesma firmeza: – Está bem, já que não desejais fugir aos vossos princípios, aproximemo-nos de uma dessas janelas. Daqui mesmo, podereis observar a veracidade de minhas palavras, com a retirada de Lívia dos apartamentos privados deste palácio.

E quase a tomar o interlocutor pelas mãos, tal o abatimento moral que se apossara dele, a mulher do pretor aproximou-se do parapeito de uma janela próxima, seguida pelo senador, que a acompanhava, cambaleante. Não foram necessários outros argumentos que melhor o convencessem. Chegados ao local preferido de Fúlvia, como posto de observação, em poucos segundos viram abrir-se a porta do gabinete indicado, ao mesmo tempo que Lívia se retirava, nos seus disfarces galileus, deixando transparecer na fisionomia os sinais evidentes da sua emoção, como se quisesse fugir de situação que a acabrunhava penosamente. Públio Lentulus sentiu a alma dilacerada para sempre. Considerou, num relance, que havia perdido todos os patrimônios de nobreza social e política, de envolta com as aspirações mais sagradas do seu coração.

Diante da atitude de sua mulher, considerada por ele como indelével ignomínia que lhe infamava o nome para sempre, supôs-se o mais desventurado dos homens. Todos os seus sonhos estavam agora mortos, e perdidas, terrivelmente, todas as esperanças. Para o homem, a mulher escolhida representa a base sagrada de todas as realizações da sua personalidade nos embates da vida, e ele experimentou que essa base lhe fugia desequilibrando-lhe o cérebro e o coração. Contudo, nesse turbilhão de fantasmas da sua imaginação superexcitada, que escarneciam de suas mentirosas venturas, lobrigou o vulto suave e doce dos filhinhos, que o fitavam silenciosos e comovidos. Um deles vagava no desconhecido, mas a filha esperava-lhe o carinho paternal e deveria ser, doravante, a razão da sua vida e a força de todas as suas esperanças.

– Que dizeis, agora – exclamou Fúlvia, triunfante, arrancando-o do seu doloroso silêncio. – Vencestes! – respondeu secamente, com a voz embargada de emoção. E, dando à expressão fisionômica o máximo de energia, voltou ao salão extenso, a passos pesados e soturnos, despedindo-se heroicamente dos amigos, a pretexto de leve enxaqueca. – Senador, esperai um momento.

O governador ainda não voltou dos seus aposentos particulares – exclamou um dos patrícios presentes. – Muito agradecido! – disse Públio, gravemente. Mas os prezados amigos hãode desculpar a insistência, apresentando minhas despedidas e agradecimentos ao nosso generoso anfitrião. E, sem mais delongas, mandou preparar a liteira que o conduziria de regresso ao lar, pelas mãos fortes dos escravos, de modo a proporcionar algum repouso ao coração supliciado por emoções dolorosas e inesquecíveis.

Enquanto o senador se retira profundamente contrariado, acompanhemos Lívia, de volta à praça, a fim de notificar aos dois amigos o resultado improfícuo da sua tentativa. Profundas amarguras lhe pungiam o coração. Jamais pensara, na sua generosidade simples e confiante, que o procurador da Judéia pudesse receber-lhe a súplica com tamanha demonstração de indiferença e impiedade pela sua situação de mulher. Procurou refazer-se daquelas emoções, em se aproximando de Ana e do tio, porquanto lhe competia ocultar aquele desgosto no mais íntimo do coração. Junto de ambos os companheiros humildes, da mesma crença, deixou expandir a sua angústia, exclamando pesarosa: – Ana, infelizmente tudo está perdido!

A sentença foi consumada e não há mais nenhum recurso!... O profeta carinhoso de Nazaré nunca mais voltará a Cafarnaum para nos levar as suas consolações brandas e amigas!... A cruz de hoje será o prêmio, deste mundo, à sua bondade sem limites!... Todos os três tinham os olhos orvalhados de lágrimas. – Faça-se, então, a vontade do Pai que está nos céus – exclamou a serva, prorrompendo em soluços.

– Filhas –disse, porém, o ancião de Samaria, com o olhar profundo e límpido, fito no céu, onde fulguravam as irradiações do sol ardente –, o Messias nunca nos ocultou a verdade dos seus sacrifícios, dos martírios que o aguardavam nestes sítios, a fim de nos ensinar que o seu reino não está neste mundo! Nas sombras da minha velhice, estou apto a reconhecer a grande realidade das suas palavras, porque honras e vanglórias, mocidade e fortuna, bem como as alegrias passageiras do plano terrestre, de nada valem, pois tudo aqui vem a ser ilusão que desaparece nos abismos da dor e do tempo... A única realidade tangível é a de nossa alma a caminho desse reino maravilhoso, cuja beleza e cuja luz nos foram trazidas por suas lições inesquecíveis e carinhosas... – Mas –obtemperou Ana, entre lágrimas – nunca mais veremos a Jesus de Nazaré, confortando-nos o coração!... – Que dizes, filha – exclamou Simeão, com firmeza.

– Não sabes, então, que o Mestre afiançou que a sua presença consoladora é sempre inalterável entre os que se reúnem e se reunirão, neste mundo, em seu nome? Regressando, agora, a Samaria, erguerei uma cruz à porta da nossa choupana e reunirei, ali, a comunidade dos crentes que desejarem continuar as amorosas tradições do Messias. E, depois de uma pausa em que parecia despertar sob o peso de pungentes preocupações, acentuou: – Mas, não temos tempo a perder... Sigamos para o Gólgota... Vamos receber, ainda uma vez, as bênçãos de Jesus!

– Muito grato me seria acompanhá-los – retrucou Lívia, impressionada ; entretanto, urge volte a casa, onde me esperam os cuidados com a filha. Sei que hão de relevar minha ausência, porque a verdade é que estou, em pensamento, junto à cruz do Mestre, meditando nos seus martírios e inomináveis padecimentos... Meu coração acompanhará essa agonia indescritível, e que o Pai dos céus nos conceda a força precisa para suportarmos corajosamente o angustioso transe!... – Ide, senhora, que os vossos deveres de esposa e mãe são também mais que sagrados – exclamou Simeão, carinhosamente. E enquanto o velho e a sobrinha se dirigiam para o Calvário, escalando as vias públicas que demandavam a colina, Lívia regressava ao lar, apressadamente, buscando os caminhos mais curtos, através das vicias estreitas, de modo a voltar, quanto antes, não só pela circunstância inesperada de sair à rua em trajes diferentes, compelida pelos imperativos do momento, mas também porque inexplicável angústia lhe azorragava o coração, fazendo-lhe experimentar uma necessidade mais forte de preces e meditações.

Chegando ao lar, seu primeiro cuidado foi retomar a túnica habitual, buscando um recanto mais silencioso dos seus apartamentos, para orar com fervor ao Pai de infinita misericórdia. Daí a minutos, ouviu os ruídos indicativos da volta do esposo, que, notou, se recolhia ao gabinete particular, fechando a porta com estrépito. Lembrou-se, então, que de sua casa era possível avistar ao longe os movimentos do Gólgota, procurando um ângulo de janela, de onde conseguisse contemplar os penosos sacrifícios do Mestre de Nazaré. Bastou buscasse fazê-lo, para que enxergasse nas eminências do monte o grande ajuntamento de povo, enquanto levantavam as três cruzes famosas, daquele dia inesquecível. A colina era estéril, sem beleza, e através da distância podiam seus olhos lobrigar os caminhos poeirentos e a paisagem desolada e árida, sob um sol causticante. Lívia orava com toda a intensidade emotiva do seu espírito, dominada por angustiosos pensamentos.

À sua visão espiritual, surgiram ainda os quadros suaves e encantadores do "mar" da Galiléia, conhecendo que à memória lhe revinha aquele crepúsculo inolvidável, quando, entre criaturas humildes e sofredoras, aguardava o doce momento de ouvir a confortadora palavra do Messias, pela primeira vez. Via ainda a tosca barca de Simão, encostando-se às flores mimosas das margens, enquanto a renda branca das espumas lambia os seixos claros da praia... Jesus ali estava, junto da multidão dos desesperados e desiludidos, com seus grandes olhos ternos e profundos... Todavia, aquela cruz que se levantava, no monte da Caveira, trazia-lhe o coração em amargosas cismas. Depois de orar e meditar longamente, examinou de longe os três madeiros, presumindo escutar o vozeio da multidão criminosa, que se acotovelava junto à cruz do Mestre, em terríveis impropérios.

De repente, sentiu-se tocada por uma onda de consolações indefiníveis. Figurava-se-lhe que o ar sufocante de Jerusalém se havia povoado de vibrações melodiosas e intraduzíveis. Extasiada, observou, na retina espiritual, que a grande cruz do Calvário estava cercada de luzes numerosas. Ao calor invulgar daquele dia, nuvens escuras se haviam concentrado na atmosfera, prenunciando tempestade. Em poucos minutos, toda a abóbada celeste permanecia represada de sombras espessas.

No entanto, naquele momento, Lívia notara que se havia rasgado um longo caminho entre o Céu e a Terra, por onde desciam ao Gólgota legiões de seres graciosos e alados. Concentrando-se, aos milhares, ao redor do madeiro, pareciam transformar a cruz do Mestre em fonte de claridades perenes e radiosas. Atraída por aquele imenso foco de luz resplandecente, sentiu que sua alma desligada do corpo carnal se transportava ao cume do Calvário, a fim de prestar a Jesus o último preito do seu devotamento. Sim! Via, agora, o Messias de Nazaré rodeado dos seus lúcidos mensageiros e das legiões poderosas de seus anjos.

Jamais supusera vê-lo tão divinizado e tão belo, de olhos voltados para o firmamento, como em visão de gloriosas beatitudes. Ela o contemplou, por sua vez, tocada de sua maravilhosa luz, alheia a todos os rumores que a rodeavam, implorando-lhe fortaleza, resignação, esperança e misericórdia. Em dado instante, seu espírito sentiu-se banhado de consolação indefinível. Como se estivesse empolgada pela maior emoção de sua vida. notou que o Mestre desviara levemente o olhar, pousando-o nela, numa onda de amor intraduzível e de luminosa ternura. Aqueles olhos serenos e misericordiosos, nos tormentos extremos da agonia, pareciam dizer-lhe: – "Filha, aguarda as claridades eternas do meu reino, porque, na Terra, é assim que todos nós deveremos morrer!..." Desejava responder às exortações suaves do Messias, mas seu coração estava sufocado numa onda de radiosa espiritualidade.

Todavia, no íntimo, afirmou, como se estivesse falando para si mesma: "Sim, é desse modo que deveremos morrer!... Jesus, concedei-me alento, resignação e esperança para cumprir os vossos ensinamentos, para alcançar um dia o vosso reino de amor e de justiça!..." Lágrimas copiosas banhavam-lhe o rosto, naquela visão beatífica e maravilhosa. Nesse momento, porém, a porta abriu-se com estrépito e a voz soturna e desesperada do marido vibrou no ar abafado, despertando-a bruscamente, arrancando-a de suas visões consoladoras. – Lívia! – bradou ele, como se estivesse tocado por comoções decisivas e desesperadas.

Públio Lentulus, regressando ao lar, encaminhou-se imediatamente ao gabinete, onde se deixou ficar por muito tempo, engolfado em atrozes pensamentos. Depois de sentir o cérebro trabalhado pelas mais antagônicas resoluções, lembrou-se de que deveria suplicar a piedade dos deuses para os seus penosos transes. Dirigiu-se ao altar doméstico onde repousavam os símbolos inanimados de suas divindades familiares, mas, enquanto Lívia alcançara o precioso conforto, aceitando no coração os ensinos de Jesus com o perdão, a humildade e a prática do bem, debalde o senador procurou esclarecimento e consolo, elevando as suas orações aos pés da estátua de Júpiter, impassível e orgulhoso. Debalde suplicou a inspiração de suas divindades domésticas, porque esses deuses eram a tradição corporificada do imperialismo da sua raça, tradição que se constituía de vaidade e de orgulho, de egoísmo e de ambição. Foi assim que, intoxicado pelo ciúme, procurou a esposa, sem mais delongas, a fim de cuspir-lhe em rosto todo o desprezo da sua amargurada desesperação.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.