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Capítulo 34 de 38

Parte 34 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

Quando das minhas primeiras incursões na edilidade, tive conhecimento dos seus processos na reforma administrativa da Judéia, sabendo, portanto, da sua permanência em Jerusalém há mais de vinte anos. Era, pois, meu desejo que aceitasse, com outros poucos companheiros nossos, a incumbência de orientar melhor a tática militar de meu filho. Tito está necessitando da cooperação política de quem conheça a cidade nos seus menores recantos, bem como os seus idiomas populares, de maneira a vencer a situação que se vai tornando cada vez mais penosa. Públio Lentulus pensou na filha doente, um instante, mas, recordando-se da dedicação absoluta de Ana, que poderia perfeitamente substituir seus zelos por algum tempo, respondeu com decisão e energia: 7 Vespasiano esteve em Roma logo após a sua proclamação (Nota de Emmanuel) – Meu nobre imperador, vossa palavra augusta é a palavra do império. O Império manda e eu obedeço, honrando-me em cumprir vossas determinações e correspondendo aos impulsos generosos da vossa confiança.

– Muito agradecido! – falou Vespasiano, estendendo-lhe a mão, extremamente satisfeito. Tudo estará pronto, de modo que sua partida, e de mais dois ou três amigos nossos, se verifique dentro de duas semanas, o mais tardar. Assim aconteceu. Depois das dolorosas despedidas da filha, que ficara aos cuidados da serva dedicada, no palácio do Aventino, o senador tomava. a suntuosa galera que, largando de Óstia, penetrou depressa o mar largo, rumo à Judéia.

O velho patrício reviveu, com penosa serenidade, as peripécias da viagem dos seus tempos de juventude venturosa, quando a felicidade era para ele incompreensível, em companhia da esposa e dos dois filhinhos. Sim, a pequenina figura de Marcus, o filho desaparecido, parecia surgir novamente a seus olhos, sob uma auréola de radioso e santificado enlevo. Um dia, em Cafarnaum, levado pelas palavras caluniosas de Sulpício Tarquinius, duvidou da honorabilidade da mulher, acreditando, mais tarde, que o rapto da criança fosse uma conseqüência da sua infidelidade. Mas Lívia agora estava redimida de todas as culpas, no tribunal da sua consciência. Seus sacrifícios domésticos e a morte heróica no circo constituíam a prova máxima da sublimada pureza do seu coração.

Naqueles instantes de meditação, figurava-se-lhe que voltava ao passado com os seus sofrimentos intermináveis, esbarrando sempre na sombra pesada do mistério, quando tentava reler as páginas desse doloroso capítulo da sua existência. A que abismos insondáveis e desconhecidos teria sido levado o pequenino que lhe perpetuaria a estirpe nobre? Suas emoções paternais pareciam alarmar-se de novo, depois de tantos anos e tantos padecimentos em família. Mas, embora lhe flutuassem no íntimo as mais penosas dúvidas, o senador, na rigidez da sua enfibratura moral, preferia crer, consigo mesmo, que Marcus Lentulus havia sido assassinado por malfeitores vulgares, dados ao roubo e ao terrorismo, para nunca mais requisitar os seus desvelos paternais. Assim quereria crer, mas aquela viagem afigurava-se-lhe uma análise de suas lembranças mais queridas e mais pungentes.

De tarde, ao suave clarão do crepúsculo no Mediterrâneo, parecia-lhe ver ainda o vulto de Lívia acalentando o pequenino, ou falando-lhe ao coração em termos afetuosos de consolação, supondo lobrigar, igualmente, a figura de Comênio, o servo de confiança, entre os subalternos e escravos. Em companhia de três outros conselheiros civis, chegou sem maior dificuldade ao destino, colocando-se esse reduzido conselho de íntimos do imperador à imediata disposição de Tito, que lhe aproveitou os pareceres, utilizando com grande êxito as suas opiniões, filhas de larga experiência da região e dos costumes. O filho do imperador era generoso e leal para com todos os compatriotas, que o consideravam como benfeitor e amigo. Mas, para os adversários, Tito era de uma crueldade sem nome. Em torno da sua figura ardente e desassombrada, desdobravam-se legiões numerosas de soldados que combatiam encarniçadamente. O cerco de Jerusalém, terminado em 70, foi um dos mais impressionantes da história da humanidade.

A cidade foi sitiada, justamente quando intermináveis multidões de peregrinos, vindos de todos os pontos da província, se haviam reunido junto ao templo famoso, para as festas dos pães ázimos. Daí, o excessivo número de vítimas e as lutas acérrimas da célebre resistência. O número de mortos nos terríveis recontros elevou-se a mais de um milhão, fazendo os romanos quase cem mil prisioneiros, dos quais onze mil foram massacrados pelas legiões vitoriosas, depois da escolha dos homens válidos, entre cenas penosas de sangue e de selvageria por parte dos soldados. O velho senador sentia-se amargurado com aqueles pavorosos espetáculos de carnificina, mas cumpria-lhe desempenhar a palavra dada e era com o melhor espírito de coragem que dava pleno cumprimento ao seu mandato. Seus pareceres e conhecimentos foram, muitas vezes, utilizados com êxito, tornando-se íntimo conselheiro do filho do imperador.

Diariamente, em companhia de um amigo, o senador Pompílio Crasso, visitava os postos mais avançados das forças atacantes, verificando a eficácia da nova orientação observada pela estratégia militar dos seus patrícios Os chefes de operações várias vezes lhes chamaram a atenção, para não avançarem muito em suas atitudes de desassombro, mas, Públio Lentulus não manifestava o menor receio, realizando, na sua idade, minuciosos serviços de reconhecimento topográfico da famosa cidade. Afinal, na véspera da queda de Jerusalém, já se lutava quase corpo a corpo em todos os pontos de penetração, havendo incursões de parte a parte nos campos inimigos, com recíprocas crueldades contra todos os que tivessem a infelicidade de cair prisioneiros. Apesar do zelo de que eram cercados, Públio e o amigo, em virtude da coragem de que davam testemunho, caíram nas mãos de alguns adversários que, ao lhes observarem a indumentária de altos dignitários da Corte Imperial, os conduziram imediatamente a um dos chefes da desesperada resistência, instalado num casarão à guisa de quartel, próximo da Torre Antônia.

Públio Lentulus, observando as cenas de selvajaria e sangue da plebe anônima e amotinada, que exterminava numerosos cidadãos romanos sob as suas vistas, lembrou a tarde dolorosa do Calvário, em que o piedoso profeta de Nazaré sucumbira na cruz, sob a vozeada terrificante das multidões enfurecidas. Enquanto caminhava tangido com brutalidade e aspereza, o velho senador considerava, igualmente, que, se aquele momento assinalasse a sua morte, devia morrer heroicamente, como sua própria mulher, em holocausto aos seus princípios, embora houvesse fundamental diferença entre o reino de Jesus e o império de César.

A idéia de deixar Flávia Lentúlia órfã do seu afeto preocupava-lhe o íntimo; todavia, ponderava que a filha teria no mundo a dedicação generosa e assídua de Ana, bem como o amparo material da sua fortuna. Foi nesse estado de espírito, surpreso com a sucessão dos acontecimentos, que atravessou longas ruas cheias de movimento, de gritos, de impropérios e de sangue. Jerusalém, tomada de assombro, mobilizava as derradeiras energias para evitar a ruína completa. Ao cabo de algumas horas, extenuados de fadiga e sede, Públio e o amigo foram introduzidos no sombrio gabinete de um chefe judeu, que expedia as mais impiedosas ordens de suplício e morte para todos os romanos presos, revidando às atrocidades do inimigo. Bastou que Públio fitasse aquele velho israelita de traços característicos, para procurar, sofregamente, uma figura semelhante no acervo de suas lembranças mais íntimas e mais remotas. Não pôde, porém, de pronto, identificar aquela personagem.

O velho chefe, contudo, pousou nele o olhar astuto e, fazendo um gesto de satisfação, exclamou com uma chispa de ódio a lhe transparecer de cada palavra: – Ilustríssimos senadores – enfatizou com ironia e desprezo –, eu vos conheço de longos anos... E, fixando Públio, acentuou com malícia: – Sobretudo, honro-me com a presença do orgulhoso senador Públio Lentulus, antigo legado de Tíbério e de seus sucessores nesta província perseguida e flagelada pelas pragas romanas. Ainda bem que as forças do destino não me permitiram partir para a outra vida, na minha velhice trabalhosa, sem me desafrontar de uma injúria inolvidável. Avançando para o velho patrício que o contemplava supinamente surpreendido, repetia com insistência irritante: – Não me reconheceis?... O senador, porém, tinha o semblante a evidenciar o seu penoso abatimento físico, em face daquela rude provação da sua vida; debalde, encarava a figura franzina e maquiavélica de André de Gioras, agora com elevado ascendente nos trabalhos do templo famoso, em vista da fortuna que Conseguira amealhar.

Verificando a impossibilidade de ser identificado pelo prisioneiro, cuja presença, ali, mais o interessava e que lhe respondera a todas as perguntas com silencioso gesto negativo, o velho judeu retornou com sarcasmo: – Públio Lentulus, sou André de Gioras, o pai a quem insultaste um dia com o excesso da tua autoridade orgulhosa. Lembras-te agora? O prisioneiro fez um sinal afirmativo com a cabeça. Vendo, porém, que o seu atrevimento não o intimidava, o chefe de Jerusalém insistia exasperado: – E porque não te humilhas neste momento, diante de minha autoridade? Ignoras, porventura, que posso hoje decidir dos teus destinos?...

Qual a razão por que não me pedes comiseração? Públio estava exausto. Lembrou os seus primeiros dias em Jerusalém, recordou a visita daquele agricultor inteligente e revoltado. Procurou rememorar, intimamente, as providências que adotara na qualidade de homem público, a fim de que o filho do judeu voltasse ao lar paterno, não se lembrando de haver destilado tanto fel naquele coração irresignado. Deliberara nada dizer, diante da sua figura exasperada e truculenta, atendendo às suas íntimas disposições espirituais, mas, em face da ousada insistência, sem abdicar as antigas tradições de orgulho e vaidade que o caracterizavam noutros tempos, e como se desejasse demonstrar desassombro em tão penosas circunstâncias, replicou, afinal, com energia: – Se vos julgais aqui no cumprimento de uma obrigação sagrada, acima de qualquer sentimento particular e menos digno, não espereis que se vos peça comiseração, pelo fato de cumprirdes o vosso dever.

André de Gioras franziu o sobrolho, exasperado com a resposta imprevista, andando de um lado para outro no amplo gabinete, como se estivesse a cogitar o melhor meio de executar a tremenda vingança. Depois de alguns momentos de sombrio silêncio, como se houvesse chegado a uma solução condigna dos seus tigrinos projetos, chamou com voz soturna um dos guardas numerosos, ordenando: – Vai depressa e dize a Ítalo, de minha parte, que deve aqui estar amanhã, às primeiras horas, de modo a cumprir minhas determinações. E enquanto o emissário saía, dirigiu-se aos dois prisioneiros nestes termos: – A queda de Jerusalém está iminente, mas darei a última gota de sangue da minha velhice para exterminar as víboras do vosso povo. Vossa raça maldita veio cevar-se na cidade eleita, mas eu exulto com a minha vingança em vós ambos, orgulhosos dignitários do império da impiedade e do crime! Quando se abrirem as portas de Jerusalém, terei executado meus implacáveis desígnios!

Calando-se, bastou um gesto para que os dois amigos fossem atirados numa enxovia escura e úmida, onde passaram uma noite terrível de conjeturas dolorosas, trocando amarguradas confidências. Na manhã seguinte, eram chamados à prova suprema. Já se ouviam na cidade os primeiros rumores das forças romanas vitoriosas, entregando-se ao terror e ao saque da população humilhada e inerme. Por toda parte, o êxodo precipitado de mulheres e crianças em gritaria infernal e angustiosa; mas, naquele casarão de grossas paredes de pedra, refugiara-se considerável número de chefes e combatentes, para a resistência suprema. Públio e Pompílio foram conduzidos a uma sala ampla, de onde podiam ouvir o ruído crescente da vitória das armas imperiais, depois de lances dramáticos e cruentos, em tanto tempo de terror, de rapina e de luta; todavia, ali, naquele compartimento espaçoso e fortificado, tinha à frente centenas de guerreiros armados e alguns chefes políticos da resistência israelita, que os contemplavam.

Diante do avanço vitorioso das legiões romanas, era de notar a inquietação e o pavor que dominavam todos os semblantes, mas havia um interesse geral pelos dois prisioneiros importantes do Império, como se eles representassem o último objeto em que se pudessem cevar o ódio e a vingança. Modificando, todavia, aquela situação indecisa, André de Gioras tomou a palavra em voz estranha e sinistra, que retumbou por todos os ângulos da casa: – Senhores! Estamos chegando ao fim da nossa desesperada defesa, mas temos o consolo de guardar dois grandes chefes da amaldiçoada política de rapina do império Romano!... Um deles é Pompílio Crasso, que começou a sua carreira de homem público nesta província desventurada, inaugurando um longo período de terror entre os nossos compatriotas infelizes! O outro, senhores, é Públio Lentulus, orgulhoso legado de Tibério e de seus sucessores na Judeia humilhada de todos os tempos; que escravizou nossos filhos ainda jovens e organizou processos criminosos em todas as zonas provinciais, fomentando o pavor de nossos irmãos perseguidos e flagelados, lá da sua residência senhorial da Galiléia!...

Pois bem! antes que os malditos soldados da pilhagem imperial nos aprisionem e aniquilem, cumpramos nossos desígnios!... Todos os presentes ouviram-lhe a palavra, como se fora a ordem suprema de um chefe a quem se devesse obedecer cegamente. Os dois senadores foram, então, amarrados com pesadas peças de ferro aos postes do suplício, sem liberdade para qualquer movimento, restringindo suas expressões de mobilidade aos olhos silenciosos e serenos no sacrifício. – Nossa vingança –voltava o odiento israelita a explicar – deve obedecer ao critério da antigüidade. Primeiramente, deverá morrer Pompílio Crasso, por ser o mais velho e para que o vaidoso senador Públio Lentulus compreenda o nosso esforço para eliminar a vitalidade do seu império maldito.

Pompílio fitou longamente o amigo, como se estivesse fazendo suas despedidas angustiosas e mudas, na hora extrema. – Nicandro, este trabalho te compete – exclamou André, voltando-se para um dos companheiros. E dando ao vigoroso soldado uma espada sinistra, acrescentou com profunda ironia: – Tira-lhe o coração para o amigo, que deverá conservar a cena de hoje na sua memória, para sempre. Os olhos do condenado brilharam de intensa angústia, enquanto as faces descoravam ao extremo, acusando as emoções dolorosas que lhe iam na alma. Entre ele e o companheiro de amargura, foi trocado, então, um olhar inesquecível.

Em minutos rápidos, Públio Lentulus assistiu ao desenrolar da operação nefanda. A cabeça branca do supliciado pendeu ao primeiro golpe de espada e do seu tórax encarquilhado foi arrancado violentamente o coração palpitante, sangrento. Entretanto, o senador sobrevivente ouvia já o rumor dos patrícios vitoriosos que se aproximavam afigurando-se-lhe que já se lutava corpo a corpo, às portas daquela turbulenta assembléia da vindita e do crime. A monstruosa cena estarrecialhe o ânimo, sempre otimista e decidido, mas não perdeu a compostura altiva e rígida que ele a si mesmo se impunha, naquele angustioso transe. Terminada a execução de Pompílio, feita à pressa, porquanto todos os presentes tinham consciência da horrorosa situação que os esperava diante dos triunfadores, André de Gioras levantou novamente a voz: – Meus amigos – afirmou soturnamente –, ao mais velho, a penalidade misericordiosa da morte; mas, a este patrício infame que nos ouve, concederemos a pena amarga da vida, dentro do sepulcro das suas ilusões desvairadas, de vaidade e orgulho!...

Públio Lentulus, o antigo emissário dos imperadores, deverá viver!... Sim, mas sem os olhos que lhe clarearam o caminho do egoísmo supremo sobre os nossos grandes infortúnios!... Deixá-lo-emos com vida, para que nas trevas da sua noite busque ver com os olhos dos escravos que ele espezinhou no curso da vida. Havia um penoso silêncio interior, embora se ouvisse, lá fora, o patear dos cavalos e o tinir das armaduras, aliados ao rumor sinistro de vozes praguejantes no ataque e na resistência desesperada do último reduto. André de Gioras parecia, porém, embriagado com a volúpia de sua vingança e, mantendo o equilíbrio da assistência naquela hora trágica do destino que a todos aguardava, com a palavra magnética e persuasiva exclamou energicamente: – Ítalo, compete ás tuas mãos a tarefa deste momento. Da assistência compacta e inquieta destacou-se um homem, aparentando quase quarenta anos de idade, surpreendendo o senador pelos seus traços finos de patrício.

Seus olhares encontraram-se e ele supôs descobrir naquela alma um laço de afinidade estranha e incompreensível. Ítalo? Aquele nome não lhe recordava alguma coisa das proximidades da sua Roma inesquecida? Por que motivo estaria ali aquele homem, evidentemente de sangue nobre, combatendo ao lado dos judeus amotinados e intoxicados de ódio? Por sua vez, o verdugo, indicado pela voz soberana de André, parecia inclinado à ternura e à piedade por aquele homem velho e sereno, de mãos e pés amarrados ao poste da injúria, como que hesitava sobre se devia cumprir o sinistro e despiedado desígnio do seu chefe.

Daí a minutos, surgia, de uma porta larga e sombria, um guerreiro israelita, trazendo em ampla bandeja de bronze uma lâmina de ferro incandescente, cuja ponta aguçada repousava entre brasas vivas. Contemplando com interesse a enigmática figura de Ítalo, na vitalidade da idade adulta, o senador, silencioso, não podia dissimular a curiosidade em face do seu vulto ereto e delicado. André, porém, gozando o quadro e percebendo a acurada atenção do condenado, arrancou-o daquele estado de conjetura e surpresa, ironizando: – Então, senador, estais admirando o porte nobre de Ítalo?... Lembrai-vos de que se os patrícios se dão ao luxo de possuir escravos israelitas, os senhores da Judeia também apreciam os servos de tipo romano. Aliás, sou obrigado a considerar que é sempre perigoso guardarmos um escravo como este, na cidade, em vista da praga do patriciado, hoje excessivo por toda a parte; mas eu consegui manter este homem de trabalho no ambiente rural, até agora...

Públio Lentulus mal poderia decifrar o sentido oculto daquelas irônicas palavras, não lhe sobrando tempo, ali, para qualquer introspecção. Observou que André se calara, atendendo à urgência com que devia ser levada a efeito a operação em perspectiva, de modo a não se perder o vermelho incandescente da lâmina fatídica. Diante de muitos olhares atônitos e desesperados, que não sabiam se fixavam a cena macabra ou se atentavam para a ruidosa penetração das forças de Tito a quebrarem naquele instante os obstáculos do último reduto, o algoz implacável entregou a Ítalo o terrível instrumento do sacrifício. – Ítalo – recomendou com a máxima energia –, este minuto é precioso... Vamos queimar-lhe as pupilas, de modo a lhe proporcionarmos uma sepultura de sombras eternas, dentro da vida.

O pobre homem, todavia, sensibilizado até às lágrimas, em face do suplício que deveria infligir por suas mãos, parecia indeciso e titubeante. – Senhor... – disse súplice, sem conseguir formular objeções. – Porque hesitas?... – revidou André, tiranicamente, cortando-lhe a palavra.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.