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Capítulo 29 de 38
Parte 29 de 38
Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel
Como homem, vivera unido aos processos do Estado, que lhe roubavam os mais encantadores entretenimentos da vida doméstica e, como esposo, não tivera energia bastante para armar-se contra as calúnias insidiosas. Como pai, considerava-se o mais desgraçado de todos. De que lhe valia, então, a auréola do triunfo, se ela lhe chegava como intragável cálice de amargura? De que lhe valiam, agora, as vitórias políticas e a significação social dos títulos de nobreza, bem como a vultosa expressão da sua fortuna, sob a mão implacável do seu impiedoso destino neste mundo? Perdiam-se as suas meditações em profundos abismos de sombra e de dúvidas acerbas, quando lhe surgiu na mente atormentada a figura suave e doce do sublime profeta de Nazaré, com a riqueza indestrutível da sua paz e da sua humildade.
Na plenitude de suas lembranças, pareceu ouvir ainda as extraordinárias advertências que lhe dirigira com a voz carinhosa e compassiva, junto às águas marulhentas do Tiberíades. Recordando-se intensamente de Jesus, sentiu-se tomado por uma vertigem de lágrimas dolorosas, as quais, de alguma forma, lhe balsamizavam o deserto do coração. Ajoelhando-se sob a fronde opulenta e generosa, qual o fizera um dia na Palestina, exclamou para os céus, com os olhos marejados de pranto, lembrando-se da força moral que a doutrina cristã havia proporcionado ao coração da esposa, nutrindo-a espiritualmente para receber com dignidade e heroísmo todos os sofrimentos: – Jesus de Nazaré! – disse com voz súplice e dolorosa – foi preciso perdesse eu o melhor e o mais querido de todos os meus tesouros, para recordar a concisão e a doçura de tuas palavras!... Não sei compreender a tua cruz e ainda não sei aceitar a tua humildade dentro da minha sinceridade de homem, mas, se podes ver a enormidade de minhas chagas, vem socorrer, ainda uma vez, meu coração miserável e infeliz!...
Penosa crise de lágrimas sobreveio a essa invocação tocada de uma franqueza rude, agressiva e dolorosa. Figurou-se-lhe, todavia, que uma energia indefinível e imponderável o ajudava, agora, a atravessar o angustioso transe. Terminada a súplica que lhe fluía do imo da alma lacerada, o orgulhoso patrício observou que a presença de inexplicável força modificava, naquele momento inesquecível, todas as disposições mais íntimas do seu coração e, conservando-se genuflexo, notou, com a visão interior do seu espírito, que a seu lado começava a surgir um ponto luminoso, que se desenvolveu prodigiosamente, na dolorosa serenidade daquele penoso instante de sua vida, surpreendendo-se com o fenômenoque lhe sugeria ao pensamento as conjeturas mais inesperadas. Por fim, aquele núcleo de luz tomava forma e, diante de si, viu a figura radiosa de Flamínio Severus, que lhe vinha falar na tormentosa noite da sua infinita amargura. Públio reconheceu-lhe a presença, surpreendido e espantado, identificando-lhe os traços fisionômicos e as saudações acolhedoras, como quando se dirigia a ele, na Terra.
Seu semblante era o mesmo, na doce expressão de serenidade, agora tocada de triste e amargurado sorriso. Ostentava a mesma toga de barra purpurina, mas não apresentava o aspecto marcial e imponente dos dias terrestres. Flamínio contemplou-o como se estivesse assomado de piedade infinita e de ilimitada amargura. Seu olhar penetrante de espírito lhe devassava os mais recônditos refolhos da consciência, enquanto o senador se aquietava, reverente, sensibilizado e surpreendido. – Públio – disse-lhe carinhosamente a voz amiga do duende –, não te revoltes com a execução dos desígnios divinos, que hoje modificou todos os roteiros da tua vida!...
Ouve-me bem! Falo-te com a mesma sinceridade e amor que nos une os corações, de há longos séculos!... Diante da morte, todas as nossas vaidades desaparecem... nas suas claridades sublimadas; nossos poderes terrenos são de uma fragilidade misérrima!... O orgulho, amigo meu, abre-nos além do túmulo uma porta de trevas densas, nas quais nos perdemos em nosso egoísmo e impenitência!... Volta a tua casa e sorve o conteúdo da taça travosa das provas rudes, com serenidade e valor espiritual, porque ainda estás longe de esgotar o cálice de tuas purificadoras amarguras, dentro das expiações redentoras e supremas...
As grandes dores, sem remédio no mundo, hão-de abrir para o teu raciocínio um caminho novo, nos eternos horizontes da crença!... Nossos deuses são expressões de fé respeitável e pura, mas Jesus de Nazaré é o Caminho, a Verdade e a Vida!... Enquanto nossas ilusões sobre Júpiter nos levam a render culto aos mais poderosos e aos mais fortes, considerados como prediletos de nossas divindades, pela expressão valiosa dos seus ricos sacrifícios, os ensinos preciosos do Messias Nazareno nos levam a ponderar a miserabilidade de nossos falsos poderes à face do mundo, abraçando os mais pobres e os mais desventurados da sorte, como a impelir todas as criaturas a caminho do seu Reino, conquistado com o sacrifício e o esforço de cada um, em demanda da única vida real, que é a vida do Espírito... Hoje sei que perdeste, um dia, a tua sublime oportunidade, mas o Filho de Deus Todo-Poderoso, na sua piedade infinita e infinito amor, atende agora ao teu apelo, permitindo que a minha velha afeição venha balsamizar as feridas dolorosas do teu coração atormentado!... O senador deixou que todo o seu pensamento se perdesse na tempestade das mais abençoadas lágrimas de sua vida.
Arfando nos soluços de sua compunção, suplicava, mentalmente: – Sim, meu amigo e meu mestre, eu quero compreender a verdade e almejo o perdão das minhas faltas enormes!... Flamínio, inspiração de minha alma dilacerada, sê o meu guia na tormentosa noite do meu triste destino!... Vale-me com a tua ponderação e bondade!... Toma-me, de novo, pelas mãos e esclarece-me o coração no tenebroso caminho!... Que fazer para alcançar do céu o esquecimento de minhas faltas?!...
A serena visão, como se se houvera comovido intensamente ao receber aquele apelo, tinha agora os olhos iluminados por piedosa e divina lágrima. Aos poucos, sem que Públio pudesse compreender o mecanismo daquele fenômeno insólito, observou que a silhueta do amigo se diluía levemente na sombra, afastando-se da tela de suas contemplações espirituais; mas, ainda assim, percebeu que seus lábios murmuravam, piedosamente, uma palavra: – Perdoa!... Aquela suave recomendação caiu-lhe n’alma como bálsamo dulcificante. Sentiu, então, que seus olhos estavam agora abertos para as realidades materiais que o rodeavam, como se houvera acordado de sonho edificante. Sentiu-se algo aliviado de suas profundas dores e levantou-se para retomar, com decidido valor, o fardo penoso da existência terrena.
Regressando a casa, por volta das vinte e duas horas, ali encontrou Plínio e Flávia, que o esperavam aflitos. Vendo-lhe a fisionomia fundamente abatida e transfigurada, a filha, ansiosa, o abraçou, num transporte de ternura indefinível, exclamando em lágrimas: – Meu pai, meu querido pai, até agora não nos foi possível obter qualquer notícia. Públio Lentulus, porém, fixou nos filhos o olhar triste e desalentado, enlaçando-os silenciosamente. Em seguida, chamou-os ao gabinete particular, para onde determinou, igualmente, a vinda de Ana, e os quatro, em conselho de família, examinaram, emocionadamente, os inolvidáveis sucessos daquele dia de provações aspérrimas. À medida que o senador transmitia aos filhos as revelações penosas de Ana, que lhe acompanhava as palavras extremamente comovida, via-se que Flávia e o esposo traduziam no rosto as emoções mais singulares e mais fortes, sob a angustiosa impressão daquela narrativa.
Ao fim do minucioso relato, Plínio Severus exclamou no seu orgulho irrefletido: – Mas não poderíamos imputar toda a culpa dos fatos a esta mísera criatura que há tantos anos serve indignamente em vossa casa? Assim se pronunciando, o oficial apontava a serva, que baixou a cabeça humildemente, rogando a Jesus lhe fortalecesse o espírito para o testemunho daquele momento, que adivinhava penoso para os sentimentos mais delicados do seu coração. Públio Lentulus pareceu participar da opinião do genro; contudo, afigurouse-lhe que as palavras de Flamínio ainda lhe ressoavam no ádito da consciência e respondeu com firmeza: –Filhos, esqueçamos os julgamentos apressados e, se bem reconheça a falta de Ana aceitando as vestes de sua senhora, quero venerar nesta serva a memória de Lívia, para sempre. Companheira fiel dos seus angustiosos martírios de vinte e cinco anos consecutivos, ela continuará nesta casa com as mesmas regalias que lhe foram outorgadas por sua benfeitora. Apenas exijo que o seu coração saiba guardar os nossos lúgubres segredos desta noite, porque desejo honrar publicamente a memória de minha mulher, depois do seu tremendo sacrifício naquela festividade da infâmia.
Plínio e Flávia observaram-lhe, surpresos, a generosidade espontânea para com a criada que, por sua vez, agradecia a Jesus a graça do seu esclarecimento. O senador pareceu profundamente modificado naquele choque terrível, experimentado por suas fibras espirituais. Neste comenos, interveio Plínio Severus, esclarecendo: – A vários amigos nossos, que aqui estiveram para cumprimentar-vos, declarei que, em vista do nosso luto por minha mãe, não comemoraríeis o vosso triunfo político na data de hoje, informando mais, no intuito de justificar vossa ausência, que a senhora Lívia se encontrava gravemente enferma, em Tibur, para onde fora em busca de melhoras, notícias essas que, aliás, eram recebidas pelos nossos íntimos com o máximo de naturalidade, porque a vossa consorte nunca mais freqüentou a sociedade desde a volta da Palestina, sendo compreensível que todos os nossos amigos a considerassem doente. O senador ouviu, com interesse, essas explicações, corno se houvera encontrado solução para o angustioso problema que o oprimia. Ao cabo de alguns momentos, depois de examinar a possibilidade da execução da idéia que lhe aflorara no cérebro dolorido, exclamou mais animado: – Tua idéia, meu filho, neste particular, veio trazer-me a perspectiva de solução razoável para a angustiosa questão que me acabrunha.
Cumpre-me defender a memória de minha mulher – continuava o senador, de olhos úmidos –, e, se fôra possível, iria lutar corpo a corpo com a mentalidade infame do governo cruel que atualmente nos conspurca as melhores conquistas sociais; mas, se eu fosse bradar pessoalmente a minha indignação e a minha revolta, na praça pública, seria tachado de louco; e se fosse desafiar Domício Nero seria o mesmo que tentar a imobilidade das águas do Tibre com o galho de uma flor. Neste sentido, pois, saberei agir nos bastidores políticos, para derrubar o tirano e seus asseclas, ainda que isso nos custe o máximo de tempo e paciência. Agora, o que me compete urgentemente é prestar todas as homenagens possíveis aos sentimentos imáculos da companheira arrebatada nos torvelinhos da insânia e da crueldade. Plínio e Flávia escutavam-no, silenciosos e comovidos, sem lhe perturbarem o curso rápido das palavras, enquanto ele prosseguia sensatamente: – Há mais de dez anos que a sociedade romana via em minha pobre companheira uma enferma e uma demente.
E já que os nossos amigos foram avisados de que Lívia se encontrava em Tibur, talvez aguardando a morte, partirei para lá, ainda esta noite, levando Ana em minha companhia... E como se estivesse tomado por uma idéia fixa, com aquela preocupação de homenagear a morta inesquecível, Públio Lentulus continuou: – Nossa casa em Tibur está agora desabitada porque, há mais de vinte dias, Filopátor foi a Pompeia, obedecendo a determinações minhas...
Chegarei lá com Ana, levando uma urna funerária que, para todos os efeitos, encerrará os restos da minha pobre Lívia... Nossos servos devem partir amanhã, igualmente, quando então mandarei mensageiros a Roma, cientificando-lhes do acontecimento por satisfazer as pragmáticas da vida social!... Em Tibur, prestaremos à memória de Lívia todas as homenagens, transladando, em seguida, publicamente, as cinzas para aqui, onde farei celebrar as mais solenes exéquias, na visitação pública, testemunhando, assim, embora tardiamente, minha veneração pela santa criatura que se sacrificou por nós a vida inteira... – Mas... e a incineração? – perguntou Plínio Severus, prudentemente, ao conjeturar o êxito possível do projeto.
O senador, porém, não hesitou, resolvendo o assunto com a habitual energia das suas decisões: – Se essa cerimônia requer a presença dos sacerdotes, saberei conduzir-me junto ao ministro do culto, na cidade, alegando o desejo de tudo fazer no mais reduzido círculo da minha intimidade familiar. O que resta, tão somente, é esperar, de vocês que me ouvem, silêncio tumular sobre as providências dolorosas desta noite, a fim de não ferirmos as suscetibilidades do preconceito social. Surpreso com aquela energia em tão penosas circunstâncias, Plínio Severus fez-lhe companhia naquelas horas avançadas, para a compra da urna mortuária, que foi adquirida, em poucos minutos, de um comerciante que nada indagou do estranho cliente, atendendo à circunstância da sua posição social e política, bem como à vultosa importância da compra, efetuada com significativas vantagens para o seu interesse. Naquela mesma noite, Públio Lentulus e Ana se dirigiram com alguns escravos para a cidade de repouso dos antigos romanos, vencendo em algumas horas as sombras espessas dos caminhos e chegando com a possível tranqüilidade. de modo a ambientar as derradeiras homenagens à memória de Lívia. Todas as providências foram adotadas com profunda surpresa para todos os servos, que não ousavam discutir as ordens recebidas, e mesmo para os patrícios da cidade, que sabiam doente a esposa do senador, mas ignoravam o doloroso episódio da sua morte.
Flávia e Plínio foram chamados no dia seguinte, satisfazendo-se a todos os imperativos de ordem social, naquela penosa representação de condolências. Um donativo mais rico e mais generoso de Públio Lentulus ao culto de Júpiter conquistava-lhe a plena autorização do clero tiburtino, no referente à sua decisão de incinerar o cadáver da esposa na intimidade da família, sendo a memória de Lívia homenageada com todos os cerimoniais do antigo culto dos deuses, invocando-se a proteção dos manes e divindades domésticas. Numerosos portadores foram expedidos a Roma e daí a dois dias a urna funerária chegava à sede do Império, penetrando pomposamente no palácio do Aventino, onde a esperava um soberbo catafalco. Durante três dias sucessivos, as cinzas simbólicas de Lívia estiveram expostos à visitação do povo, tendo o senador mandado distribuir vultosos donativos, em alimentos e dinheiro, à plebe que viesse prestar as últimas homenagens à memória da sua morta querida. Longas romarias visitaram a residência, dia e noite, dando-lhe o aspecto imponente de um templo aberto a todas as classes sociais.
Toda a nobreza romana, inclusive o cruel Imperador, se fez representar nas pompas daquelas exéquias, que eram como que uma expressão de remorso e uma tentativa de reparação da parte do esposo amargurado. Públio Lentulus considerava que, somente assim, poderia agora penitenciar-se, publicamente, a respeito de sua mulher, que voltava a ocupar o lugar de veneração no círculo numeroso de amizades aristocráticas da sua família. Terminado o último número daquelas cerimônias, o senador fez questão de que a filha e o genro, bem como Agripa, passassem a residir no palácio do Aventino, em sua companhia, no que foi atendido, em caráter provisório, segundo asseverava Plínio à mulher, e, naquela mesma noite, com a alma dilacerada de saudade e de angústias transportou, em companhia de Ana, todos os objetos de uso pessoal da esposa para os seus aposentos particulares. Terminada a tarefa, Públio Lentulus exclamou para a serva, com singular interesse: – Tudo pronto? Recebendo resposta afirmativa, insistiu, como se faltasse ainda alguma coisa, referindo-se à cruz de Simeão, guardada cuidadosamente pela dedicação de Ana, como se mais ninguém pudesse apreciar a significação especial daquele tesouro: – Onde está uma pequena cruz de madeira tosca, que minha mulher tanto venerava?
– Ah! É verdade!... – exclamou a serva, satisfeita por observar a modificação daquela alma austera. E, retirando do seu quarto a modesta lembrança do apóstolo de Samaria, entregou-lha com reverência afetuosa. O senador, então, colocou-a num móvel secreto.
Todavia, quem lhe acompanhasse a existência amargurada, poderia vê-lo, todas as noites, na solidão do seu aposento, junto do precioso símbolo das crenças da companheira. Quando as luzes do palácio se apagavam, de leve, e quando todos buscavam o repouso no silêncio da noite, o orgulhoso patrício retirava do cofre de suas lembranças mais queridas a cruz de Simeão e, ajoelhado qual o fazia Lívia, parava a máquina do convencionalismo mundano, para meditar e chorar amargamente. VI Alvoradas do Reino do Senhor Reportando-nos à dolorosa e comovedora cena do sacrifício dos mártires cristãos, na arena do circo, somos compelido a acompanhar a entidade de Lívia na sua augusta trajetória para o Reino de Jesus. Nunca os horizontes da Terra foram brindados com paisagens de tanta beleza, como as que se abriram nas esferas mais próximas do planeta, quando da partida em massa dos primeiros apóstolos do Cristianismo, exterminados pela impiedade humana, nos tempos áureos e gloriosos da consoladora doutrina do Nazareno.
Naquele dia, quando as feras famintas estraçalhavam os indefesos adeptos das idéias novas, toda uma legião de espíritos sábios e benevolentes, sob a égide do Divino Mestre, lhes rodeava os corações dilacerados no martírio, saturando-os de força, resignação e coragem para o supremo testemunho de sua fé. Sobre as nefastas paixões desencadeadas naquela assistência ignorante e impiedosa, desdobravam os poderes do céu o manto infinito de sua misericórdia, e além daquele vozerio sinistro e ensurdecedor havia vozes que abençoavam, proporcionando aos mártires do Senhor uma fonte de suaves e ditosas consolações.
Entardecia já, quando tombavam as últimas vítimas ao choque brutal dos leões furiosos e implacáveis. Abrindo os olhos entre os braços carinhosos do seu velho e generoso amigo, Lívia compreendera, imediatamente, a consumação do angustioso transe. Simeão tinha nos lábios um sorriso divino e lhe acariciava os cabelos, paternalmente, com meiguice e doçura. Estranha emoção vibrava, porém, na alma liberta da esposa do senador, que se viu presa de lágrimas dolorosas. A seu lado notou, com penosa surpresa, os despojos sangrentos do corpo dilacerado e entendeu, embora o seu espanto, o doce mistério da ressurreição espiritual, de que falava Jesus nas suas lições divinas.
Desejou falar, de modo a traduzir seus pensamentos mais íntimos e, todavia, tinha o coração repleto de emoções indefiníveis e angustiosas. Aos poucos, notou que, da arena ensangüentada, se erguiam entidades, qual a sua própria, ensaiando passos vacilantes, amparadas, porém, por criaturas etéreas, aureoladas de graça incomparável, como jamais contemplara em qualquer circunstância da vida. Aos seus olhos desapareceu o cenário colorido e tumultuoso do circo da ignomínia e aos ouvidos não mais ressoaram as gargalhadas irônicas e perversas dos espectadores impiedosos. Notou que, do firmamento constelado, fluía uma luz misericordiosa e compassiva, afigurando-se-lhe que nova claridade, desconhecida na Terra, se acendera maravilhosamente dentro da noite. Imensa multidão de seres, que lhe pareciam alados, cercava-os a todos, enchendo o ambiente de vibrações divinas.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.