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Capítulo 18 de 38

Parte 18 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

– Senhora – aventou um deles respeitosamente –, sentimo-nos na obrigação de enviar um mensageiro a Cafarnaum, de modo que o senhor governador seja avisado destes acontecimentos. Todavia, com a mesma expressão de serenidade, respondeu ela firmemente: – Soldado, eu não permito a retirada de nenhum de vós outros, enquanto não derdes estes corpos à sepultura. Se o vosso governador possui um coração de fera, sinto-me agora na obrigação de proteger a paz das almas bem formadas. Não desejo que se repita nesta casa uma nova cena de covardia e de infâmia. Se a autoridade, neste país, atingiu o terreno das crueldades mais absurdas, eu prefiro assumi-la, resgatando uma dívida do coração para com os despojos deste apóstolo venerando, assassinado com a colaboração da vossa criminosa inconsciência.

– Não desejais consultar as autoridades de Sebaste, a respeito do assunto? – tornou um deles, timidamente. – De modo algum – respondeu ela, com audaciosa serenidade. – Quando o cérebro de um governo está envenenado, o coração dos governados padecem da mesma peçonha. Esperaríamos em vão qualquer providência a favor dos mais humildes e dos mais infelizes, porque a Judéia está sob a tirania de um homem cruel e tenebroso.

Ao menos hoje, quero afrontar o poder da perversidade, invocando cm meu auxílio a misericórdia infinita de Jesus. Silenciaram os soldados romanos, em face da sua atitude serena e imperturbável. E, obedecendo-lhe às ordens, colocaram os despojos inertes de Simeão sobre a mesa enorme e rústica das preces costumeiras. Foi então que os mesmos companheiros, que haviam negado o velho mestre do Evangelho, se acercaram piedosamente do seu cadáver, beijando-lhe as mãos mirradas, com enternecimento. arrependidos da sua covardia e fraqueza, cobrindo-lhe de flores os despojos sangrentos. Anoitecia, mas as tênues claridades do crepúsculo, na formosa paisagem da Samaria, ainda não haviam abandonado, de todo, o horizonte.

Uma força indefinível parecia amparar o Espírito de Lívia, alvitrando-lhe todas as providências necessárias. Em pouco, ao esforço hercúleo de numerosos samaritanos, foram retiradas pesadas pedras do grupo de rochas que protegia a cova, onde se haviam abrigado as três fugitivas, enquanto, às ordens de Lívia, os seis soldados abriram uma sepultura rasa, longe daquele local, para o corpo de Sulpício. Brilhavam, já, as primeiras constelações do firmamento, quando terminou a improvisação dos serviços dolorosos. No instante de transportarem os despojos do ancião, que Lívia envolveu, pessoalmente, em alvo sudário de linho, ela fez questão de orar rogando ao Senhor recebesse, no seu Reino de Luz e Verdade, a alma generosa do seu apóstolo valoroso. Ajoelhou-se como uma figura angélica junto àquele banco humilde e tosco, onde tantas vezes se sentara o servidor de Jesus, entre as suas oliveiras frondosas e bem-amadas. Todos os presentes, inclusive os próprios soldados que se sentiam empolgados de misterioso temor, prostraram-se genuflexos, acompanhando-lhe a reverência, enquanto, à claridade de algumas tochas, sopravam perfumadas as brisas leves das noites formosas e estreladas da Samaria de há dois mil anos...

– Irmãos – começou ela, emocionada, assumindo pela primeira vez a direção de uma assembléia de crentes –, elevemos a Jesus o coração e o pensamento!... Uma sensação mais forte parecia embargar-lhe a voz, inundando-lhe os olhos de lágrimas doloridas... Mas, como se forças invisíveis e poderosas a alentassem, continuou serenamente: – Jesus, meigo e divino Mestre, foi hoje o dia glorioso em que partiu para o céu um valoroso apóstolo do teu Reino... Foi ele, aqui na Terra, Senhor, a nossa proteção, o nosso amparo e a nossa esperança!... Na sua fé, encontramos a precisa fortaleza, e foi em seu coração compassivo que conseguimos haurir o consolo necessário!...

Mas julgaste oportuno que Simeão fosse descansar no teu regaço amoroso e compassivo! Como tu, sofreu ele os tormentos da cruz, revelando a mesma confiança na Providência Divina, nos dolorosos sacrifícios do seu amargo testemunho... Recebe-o, Senhor, no teu Reino de Paz e de Misericórdia! Simeão tornou-se bem-aventurado por suas dores, por seu denodo moral, por suas angustiosas aflições suportadas com o valor e a fé que nos ensinaste... Ampara-o nas claridades do Paraíso do teu amor inesgotável, e que nós, exilados na saudade e na amargura, aprendamos a lição luminosa do teu valoroso apóstolo da Samaria!...

Se algum dia nos julgares também dignos do mesmo sacrifício, fortalece-nos a energia, para que provemos ao mundo a excelência dos teus ensinamentos, ajudando-nos a morrer com valor, pela tua paz e pela tua verdade, como o teu missionário carinhoso a quem prestamos, nesta hora, a homenagem do nosso amor e do nosso reconhecimento... Nesse ínterim, houve na sua oração um interregno. Todavia, continuou: – Jesus, a ti que vieste a este mundo, mais para os desesperados da salvação, levantando os mais doentes e os mais infelizes, endereçamos, igualmente, nossa súplica pelo celerado que não hesitou em tripudiar sobre tuas leis de fraternidade e amor, martirizando um inocente, e que foi arrebatado pela morte para o julgamento da tua justiça. Queremos esquecer a sua infâmia, como perdoaste aos teus algozes do alto da cruz infamante do martírio... Ajuda-nos, Senhor, para que compreendamos e pratiquemos os teus ensinos!...

Levantando-se, comovida, Lívia descobriu o cadáver do apóstolo e beijou-lhe as mãos pela última vez, exclamando em lágrimas, carinhosa: – Adeus, meu mestre, meu protetor e meu amigo... Que Jesus te receba o espírito iluminado e justo no seu Reino de luzes imortais, e que a minha pobre alma saiba aproveitar, neste mundo, a tua lição de fé e valoroso heroísmo!... Repousado numa urna improvisada, o corpo inerte de Simeão foi conduzido ao seu último jazigo. Numerosas tochas haviam sido acesas para o ofício amargo e doloroso. E enquanto o cadáver do lictor Sulpício descia à terra úmida, sem outro auxílio além da cooperação dos seus prepostos, o nobre ancião ia repousar à frente do seu templo e do seu ninho, entre as virações cariciosas do vale, à sombra fresca das oliveiras que lhe eram tão queridas!...

Lívia dispensou, em seguida, os soldados do governador e, guardada por homens valorosos e dedicados, passou o resto da noite em companhia de Ana e da filhinha, em profundas meditações e dolorosas cismas, Ao raiar da aurora, retiravam-se definitivamente do vale de Siquém, acompanhadas por um vizinho de Simeão, encaminhando-se, de volta, a Cafarnaum, e levando, no íntimo, numerosas lições para toda a vida. Sabedoras de que não se fariam esperar as represálias das autoridades administrativas, regressaram por estradas diferentes, que constituíam atalhos preciosos, sem tocar em Naim para a troca de animais. Com algumas horas sucessivas, em marcha forçada, atingiam o solar tranqüilo, onde iam descansar dos golpes sofridos. Lívia remunerou largamente o seu dedicado companheiro de viagem, retirando-se para os seus aposentos, onde fixou, em base preciosa, a pequena cruz de madeira que lhe dera o apóstolo, algumas horas antes do cruento martírio. Alguns dias se passaram sobre os infaustos acontecimentos.

Pôncio Pilatos, contudo, informado de todos os pormenores do ocorrido, rugiu de ódio selvagem. Reconhecendo que defrontava poderosos inimigos, quais Públio Lentulus e sua mulher, buscou acionar por outro lado o mecanismo de sinistras represálias. Recolhendo-se imediatamente ao seu palácio de Samaria, fez que todos os habitantes da região pagassem muito caro a morte do lictor, humilhando-os através de medidas aviltantes e vexatórias. Assassínios nefandos foram praticados entre os elementos da população pacífica do vale, propagando-se por Sebaste e outros núcleos mais adiantados a rede de crimes e crueldades da sua mentalidade vingativa e tenebrosa. Estacionemos, todavia, em Cafarnaum e aguardemos aí a chegada de um homem.

Ao cabo de alguns dias, com efeito, regressava o senador de sua viagem através da Palestina. Após o seu regresso, Lívia cientificou-o de quanto ocorrera na sua ausência. Públio Lentulus ouvia-lhe o relato silenciosamente. À medida que se lhe tornavam conhecidas as ocorrências, sentia-se intimamente tomado de indignação e de revolta contra o administrador da Judéia, não só pela sua incorreção política, mas também pela extrema antipatia pessoal que a sua figura lhe inspirava, resolvendo, em face do acontecido, não vacilar um segundo em processá-lo acerbamente, como quem julgava dever perseguir o mais cruel dos inimigos. O leitor poderá, talvez, supor que o orgulhoso romano teria o coração sensibilizado e modificados os sentimentos a respeito da esposa, de quem presumia possuir as mais flagrantes provas de deslealdade e perjúrio, no santuário do lar e da família.

Mas, Públio Lentulus era humano, e, nessa condição precária e miserável, tinha de ser um fruto do seu tempo, da sua educação e do seu meio. Ao ouvir as últimas palavras de sua mulher, pronunciadas em tom comovido, como o de alguém que pede apoio e reclama o direito de um carinho, replicou austeramente: – Lívia, eu me regozijo com a tua atitude e rogo aos deuses pela tua edificação. Teus atos simbolizam para mim a realidade da tua regeneração, depois da fragorosa queda vista com os meus olhos. Bem sabes que para mim a esposa não mais deve existir; contudo, louvo a mãe de meus filhos, sentindo-me confortado porque, se não acordaste a tempo de seres feliz, despertaste ainda com a possibilidade de viver... Tua repulsa tardia por esse homem cruel me autoriza a crer na tua maternal dedicação e isso basta!...

Essas palavras, pronunciadas em tom de superioridade e secura, demonstraram a Lívia que a separação afetiva de ambos deveria continuar no ambiente doméstico, irremissivelmente. Abalada nas comoções do seu martírio moral, retirou-se para o quarto, onde se prostrou diante da cruz de Simeão, com a alma desalentada e combalida. Ali, meditou angustiosamente na sua penosa situação, mas, em dado instante, viu que a lembrança humilde do apóstolo da Samaria irradiava uma luz caridosa e resplandecente, ao mesmo tempo que uma voz suave e branda murmurava aos seus ouvidos: – Filha, não esperes da Terra a felicidade que o mundo não te pode dar! Aí, todas as venturas são como neblinas fugidias, desfeitas ao calor das paixões ou destroçadas ao sopro devastador das mais sinistras desilusões!... Espera, porém, o Reino da misericórdia divina, porque nas moradas do Senhor há bastante luz para que floresçam as mais santificadas esperanças do teu coração maternal!...

Não aguardes, pois, da Terra, mais que a coroa de espinhos do sacrifício... A esposa do senador não se surpreendeu com o fenômeno. Conhecendo de oitiva a ressurreição do Senhor, tinha a convicção plena de que se tratava da alma redimida de Simeão, que a seu ver voltava das luzes do Reino de Deus para lhe confortar o coração. Por semanas a fio, recebeu Públio Lentulus a visita de samaritanos numerosos, que lhe vinham solicitar enérgicas providências contra os desmandos de Pôncio Pilatos, então instalado no seu palácio de Samaria, onde permanecia raramente, ordenando o assassínio ou a escravidão de elementos numerosos, em sinal de vingança pela morte daquele que considerava como o melhor áulico da sua casa. Daí a algum tempo, regressava Comênio de sua viagem a Roma, com um professor competente para a pequena Flávia.

Além desse preceptor notável, que lhe mandava a carinhosa solicitude de Flamínio Severus, chegavam-lhe também novas noticias, que o senador considerava confortadoras. Em virtude da sua solicitação, as altas autoridades do Império determinaram a volta do pretor Sálvio Lentulus, com a família, para a sede do governo imperial, pedindo-lhe o amigo, particularmente, a remessa de dados positivos quanto à administração de Pilatos na Judeia, a fim de que o Senado pleiteasse a sua remoção. Em virtude dessas circunstâncias, daí a algum tempo voltava Comênio a Roma levando a Flamínio um volumoso processo, relacionando todas as crueldades praticadas por Pilatos, entre os samaritanos. Em vista das distâncias, por muito tempo rolou o processo nos gabinetes administrativos, até que no ano de 35 foi o Procurador da Judéia chamado a Roma, onde foi destituído de todas as funções que exercia no governo imperial, sendo banido para Viena, nas Gálias, onde se suicidou, daí a três anos, ralado de remorsos, de privações e de amarguras. Públio Lentulus permaneceu com as suas esperanças de pai, na mesma vivenda da Galileia, dedicando-se quase que exclusivamente aos seus estudos, aos seus processos administrativos e à educação da filha, que manifestara, muito cedo, pendores literários ao lado de apreciáveis dotes de inteligência.

Lívia conservou Ana junto de sua tutela e ambas continuaram orando junto à cruz que lhes dera Simeão no instante extremo, rogando a Jesus a necessária força para as penosas lutas da vida. Debalde a família Lentulus esperava que o destino lhe trouxesse, de novo, o sorriso encantador do pequenino Marcus e, enquanto o senador e filhinha se preparavam para o mundo, junto de Lívia e Ana, que traziam as suas esperanças postas no Céu, deixemos passar mais de dez anos sobre a dolorosa serenidade da vila de Cafarnaum, mais de dez anos que passaram lentos, silenciosos, tristes. FIM DA PRIMEIRA PARTE Segunda Parte I A morte de Flamínio O ano de 46 corria calmo. Em Cafarnaum, vamos encontrar, de novo, as nossas personagens mergulhadas numa serenidade relativa. As autoridades administrativas, em Roma, não eram as mesmas.

Entretanto, apoiado no prestígio do seu nome e nas consideráveis influências políticas de Flamínio Severus, perante o Senado, Públio Lentulus continuava comissionado na Palestina, onde gozava de todos os direitos e regalos políticos, na administração provincial. Debalde continuara ali o senador, a despeito de todo o seu imenso desejo de voltar à sede do governo imperial, esperando o ensejo de reaver o filho, que o tempo continuava a reter no domínio das sombras misteriosas. Nos últimos anos, perdera por completo a esperança de atingir o seu desiderato, mesmo porque, considerava, a esse tempo Marcus Lentulus deveria estar no seu primeiro período de juventude, tornando-se irreconhecível aos olhos paternos. Outras vezes, ponderava o orgulhoso patrício que o filho não mais vivia; que, certamente, as forças perversas e criminosas que o haviam arrebatado do lar teriam exterminado, igualmente, o gracioso menino sob a foice da morte, temendo uma punição inexorável. Lá dentro, porém, no imo d’alma, latejava a intuição de que Marcus ainda vivia, razão por que, entre as indecisões e alternativas, de todos os dias, resolvera, antes de tudo, ouvir a voz do dever paternal. lançando mão de todos os recursos para reencontrá-lo, permanecendo ali indefinidamente, contra os seus projetos mais decididos e mais sinceros.

A esse tempo, vamos encontrá-lo com os traços fisionômicos ligeiramente alterados, embora treze anos houvessem dobado sobre os dolorosos acontecimentos de 33. Seus cabelos ainda guardavam integralmente a cor natural e apenas algumas rugas, quase imperceptíveis, tinham vindo acentuar a sua facies de profunda austeridade. Serena tristeza lhe pairava no semblante, invariavelmente, levando-o a isolar-se quase da vida comum, para mergulhar tão somente no oceano dos seus papéis e dos seus estudos, com a única preocupação de maior vulto, que era a educação da filha, buscando dotá-la das mais elevadas qualidades intelectivas e sentimentais. Sua vida no lar continuava a mesma, embora o coração muitas vezes lhe pedisse reatar o laço conjugal, atendendo àqueles treze anos de separação íntima, com a mais absoluta renúncia de Lívia a todas e quaisquer distrações que não fossem as da vida doméstica e da sua crença. fervorosa e sincera. A sós com as suas meditações, Públio Lentulus deixava divagar o pensamento pelas recordações mais doces e mais distantes e, nessas horas de introspecção, ouvia a voz da consciência que subia do coração ao cérebro, como um apelo à razão inflexível, tentando destruir-lhe os preconceitos, mas o orgulho vencia sempre, com a sua rigidez inquebrantável.

Algo lhe dizia no íntimo que sua mulher estava isenta de toda mácula, mas o espírito de vaidade preconceituosa lhe fazia ver, imediatamente, a cena inesquecível da esposa ao deixar o gabinete privado de Pilatos, em vestes de disfarce, ouvindo ainda, sinistramente, as palavras escarninhas de Fúlvia Prócula, nas suas calúnias estranhas e ominosas... Lívia, porém, se insulara, envolta num véu de triste resignação, como quem espera as providencias sobrenaturais, que nunca aparecem no inquieto decurso de uma existência humana. O esposo a conservava junto da filha, atendendo simplesmente à condição de mãe, não lhe permitindo, porém, de modo algum, interferir nos seus planos e trabalhos educativos. Para Lívia, aquele golpe rude fôra o maior sofrimento da sua vida. A própria calúnia não lhe doera tanto; mas, o reconhecer-se como dispensável junto da filha do seu coração, constituía a seus olhos a mais dolorosa humilhação da sua existência.

Era por esse motivo que mais se abroquelava na fé, procurando enriquecer a alma sofredora, com as luzes da crença fervorosa e sincera. Longe de conservar as energias orgânicas, tal como acontecera ao marido, seu rosto testemunhava as injúrias do tempo, com a sua pesada bagagem de sofrimentos e amarguras. Na sua fronte, que as dores haviam santificado, pendiam já alguns fios prateados, enquanto os olhos profundos se tocavam de brilho misterioso, como se houvessem intensificado o próprio fulgor, de tanto se fixarem no infinito dos céus. Seus traços fisionômicos, embora atestassem velhice prematura, revelavam ainda a antiga beleza, agora transformada em indefinível e nobre expressão de martírio e de virtude. Um único pedido fizera ao esposo, quando se viu isolada dos seus afetos mais queridos, no ambiente doméstico, longe do próprio contacto espiritual com a filha, circunstância que ainda mais lhe afligia o coração amargurado: – foi apenas que lhe permitisse continuar nas suas práticas cristãs, em companhia de Ana, que tanto se lhe afeiçoara, com aquele espírito de dedicação que lhe conhecemos, a ponto de desprezar as oportunidades que se lhe ofereceram para constituir família.

O senador deu-lhe ampla permissão em tal sentido, chegando a facultar-lhe recursos financeiros para atender aos numerosos operários da doutrina que a procuravam, discretamente, amparando-se nas suas possibilidades materiais para iniciativas renovadoras. Falta-nos, agora, apresentar Flávia Lentúlia aos que a viram na infância, doente e tímida. No esplendor dos seus vinte e dois anos, ostentava o fruto da educação que o pai lhe dera, com a forte expressão pessoal do seu caráter e da sua formação espiritual. A filha do senador era Lívia, na encantadora graça dos seus dotes físicos, e era Públio Lentulus, pelo coração. Educada por professores eminentes, que se sucederam no curso dos anos, sob a escolha dos Severus, que jamais se descuidaram dos seus amigos distantes, sabia o idioma pátrio a fundo, manejando o grego com a mesma facilidade e mantendo-se em contacto com os autores mais célebres, em virtude do seu constante convívio com a intelectualidade paterna.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.