Voltar ao livro Há Dois Mil Anos…

Capítulo 27 de 38

Parte 27 de 38

Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

Os míseros prisioneiros daquela caçada humana foram atirados a uma larga dependência dos cárceres, nas primeiras horas da madrugada. Os soldados os despojaram, um a um, dos objetos de valor, ou das pequenas importâncias em dinheiro que traziam consigo. As próprias senhoras não escaparam ao esbulho humilhante, sendo roubadas nas suas jóias mais preciosas. Apenas Lívia, pelo respeito que inspiravam suas vestes, foi poupada ao exame infamante. Num gabinete privado, Clódio Varrus dava ciência ao seu superior, Cornélio Rufus, do êxito da diligência que lhe fôra cometida aquela noite.

– Sim – exclamava Cornélio, satisfeito –, pelo que vejo, a festa de amanhã correrá a inteiro contento do Imperador. Esta primeira caçada de cristãos era essencial ao glorioso feito das grandes homenagens aos senadores. Mas, escuta – continuava ele mais discretamente, referindo-se a Lívia –, quem é essa mulher que traz a toga das matronas da mais alta classe social? – Ignoro – respondeu o centurião, assaz pensativo. Aliás, muito me admirei de encontrá-la em tal ambiente, mas cumpri severamente as vossas ordens.

– Fizeste bem. Todavia, como se estivesse adotando intimamente uma providência nova, Cornélio Rufus sentenciou: – Deixá-la-emos aqui até amanhã, até o momento do espetáculo, quando, então, poderá ser posta em liberdade. – E porque não a libertamos desde já? – Ela poderia, na sua condição de nobreza, provocar algum movimento de protesto contra a decisão de César e isso nos colocaria em péssima situação. E como essas miseráveis criaturas serão atiradas às feras, na qualidade de escravos e condenados à última pena, nos derradeiros divertimentos da tarde, não convém nos comprometermos perante a sua família.

Retendo-a aqui, satisfazemos os caprichos de Nero e, soltando-a em seguida, não nos incompatibilizaremos com os que gozam dos favores da situação. – É verdade; essa é a solução mais razoável. Contudo, por que motivo essas criaturas serão condenadas como escravos, quando deveriam morrer como cristãos, pois tão somente essa é a causa de sua justa condenação? A razão de sua morte não está na humilhante doutrina que professam? – Sim, mas temos de ponderar que o Imperador não se sente ainda com bastante força para enfrentar a opinião dos senadores, dos edis e de várias outras autoridades, que, certamente, desejariam advogar a causa destes infelizes, em desprestígio dele e no de seus mais íntimos conselheiros...

Mas, não duvido de que essa perseguição aos adeptos da odiosa doutrina do Crucificado será oficializada em 6 breves dias, tão logo os poderes imperiais estejam mais fortemente centralizados. Esperemos, pois, mais algum tempo e, até lá, fortifiquemos o prestigio de Nero, porque o detentor do poder deve representar sempre o melhor dos amigos. Enquanto isso ocorria, todos os cristãos se dividiam em grupos, no interior do cárcere, trocando as mais íntimas impressões sobre o angustioso transe. Em dado momento, todavia, abriu-se uma porta, por onde surgiu a figura detestável de Clódio, exclamando, ironicamente: – Cristãos, não há demência de César para os que professam as perigosas doutrinas do Nazareno. Se tendes alguns negócios materiais a resolver, lembrai-vos de que é muito tarde, porquanto poucas horas vos separam das feras da arena, no circo.

Novamente, a pesada porta se fechou sobre a sua figura, enquanto os míseros condenados se surpreendiam amargamente com a notícia inquietante e dolorosa. Através das grades reforçadas, podiam observar os movimentos dos numerosos soldados que os guardavam, dando guarida, nos primeiros instantes, às mais angustiosas conjeturas. Depressa, porém, voltara-lhes a calma e os prisioneiros se aquietaram com humildade. Alguns faziam preces fervorosas, enquanto outros trocavam pensamentos em voz baixa. Os carcereiros não tardaram a separar as mulheres, instalando-as em dependência contígua, onde cada grupo de crentes ficou de alma voltada para Jesus, nos instantes supremos em que aguardavam a morte.

De manhãzinha, mal o Sol havia surgido de todo nas amplitudes do formoso firmamento romano, vamos encontrar Ana e Lívia em conversação quase serena, a sós, numa espécie de biombo dos muitos existentes na espaçosa sala reservada às mulheres, enquanto numerosas companheiras aparentavam descansar, estremunhadas. – Senhora – exclamava a serva, algo preocupada –, noto que vos tratam aqui com simpatia e deferência. Porque não pleiteardes imediatamente a vossa liberdade? Não sabemos o que de sinistro e terrível nos ocorrerá nas horas penosas deste dia!... – Não, minha boa Ana – respondeu Lívia, tranqüila –, deves ficar certa de que minh’alma está convenientemente preparada para o sacrifício.

E ainda que me não sentisse confortada, não deverias apresentar-me semelhante alvitre, porque Jesus, sendo embora o Mestre de todos os mestres e Senhor do reino dos céus, não pleiteou sua liberdade junto aos algozes que o atormentavam e oprimiam... – Isso é verdade, senhora. Mas, acredito que Jesus saberia compreender o vosso gesto, porque tendes ainda um esposo e uma filha... – acentuou a velha empregada, como a lhe recordar as obrigações humanas. – Um esposo? retrucou a nobre matrona, com heróica serenidade.

– Sim, agradeço a Deus a paz que me concedeu, permitindo que Públio me demonstrasse a 6 A maioria dos historiadores do Império Romano assinala as primeiras perseguições ao Cristianismo somente no ano de 64; entretanto, desde 58 alguns dos favoritos de Nero conseguiram iniciar o criminoso movimento, salientando-se que os cristãos da época, antes do grande incêndio da cidade, eram levados aos sacrifícios, na qualidade de escravos misérrimos, para divertimento do povo. Nota de Emmanuel. sua contrição nestes últimos dias. Para mim, só essa tranqüilidade era essencial e necessária, porque o esposo, na sua feição humana, eu o perdi há longos vinte e cinco anos... Debalde sacrifiquei todos os impulsos de minha mocidade para lhe provar o meu amor e a minha inocência, em contraposição à calúnia com que humilharam meu nome. Por um quarto de século tenho vivido com as minhas orações e as minhas lágrimas... Angustiosa tem sido a minha saudade e dolorosíssimo o triste degredo espiritual a que fui relegada, no plano dos meus afetos mais puros.

Não creio possa reviver para mim, no coração do velho companheiro, a confiança antiga, cheia de felicidade e ternura... Quanto à filha, entreguei-a a Jesus, desde os dias de sua infância, quando me vi obrigada à terrível separação do seu afeto. Afastada de sua alma por imposição de Públio, tive de sufocar os mais doces entusiasmos do coração materno. Sabe o Senhor de minhas ansiosas angústias, nas noites silenciosas e tristes em que lhe confiava meus amargurosos padecimentos. Além disso, Flávia tem hoje um marido que procurou isolá-la ainda mais do meu pobre espírito, receoso da minha fé, qualificada por todos de demência...

E depois de ligeira pausa, na sua confiança dolorosa, acentuou com serena tristeza: – Para mim, não pode haver o reflorescimento das esperanças aqui na Terra... Só aspiro, agora, a morrer em paz confortadora com a minha consciência. – Mas, senhora – tornou a criada com veemência –, hoje é o dia da maior vitória do vosso esposo... – Não me esqueci dessa circunstância. Faz, porém, vinte e cinco anos que Públio segue rumo oposto ao meu caminho e não será demais que, buscando ele hoje a suprema recompensa do mundo, como triunfo final dos seus desejos, busque eu também não a vitória do céu, que não mereci, mas a possibilidade de mostrar ao Senhor a sinceridade da minha fé, ansiosa pelas bênçãos lucificantes da sua infinita misericórdia.

Depois, minha querida Ana, é muito grato ao coração sonhar com o seu reino santificado e misericordioso... Vermos, de novo, as mãos suaves do Messias abençoando-nos o espírito, com os seus gestos amplos de caridade e de ternura!... Lívia tinha um clarão divino nos olhos, que se molhavam em lágrimas espontâneas, como se houvesse caído sobre o seu coração o orvalho do Paraíso. Via-se, claramente, que suas idéias não estavam na Terra, mas, sim, flutuando num mundo de radiosidades suavíssimas, cheio de recordações carinhosas do passado e saturado de ternas esperanças no amor de Jesus Cristo. – Sim – continuava falando, como se fora tão somente para a sua própria alma, na intimidade do coração –, ultimamente, muito me tenho lembrado do Divino Mestre e de suas palavras inesquecíveis...

Naquela tarde inolvidável de suas pregações, ainda era crepúsculo e o céu estava recamado de estrelas, como se as luzes do firmamento desejassem também ouvi-lo... As ondas do Tiberíades, que se apresentavam, freqüentemente, tão rumorosas ao fustigo do vento, vinham, silenciosas, desfazer-se num leque de espumas, de encontro às barcas da praia, numa doce expressão de respeito, quando se faziam ouvir na paisagem os seus divinos ensinamentos! Tudo se aquietava de manso; era de ver-se o sorriso angelical das criancinhas, à claridade terna dos seus olhos de pastor dos homens e da Natureza... Nos meus anseios, minha boa Ana, desejava adotar todos aqueles petizes maltrapilhos e famintos, que surgiam nas assembléias populares de Cafarnaum; mas, meu propósito materno de amparar aquelas mulheres desprezadas e aquelas crianças andrajosas, que viviam ao desamparo, não podia realizar-se neste mundo... Todavia, suponho que hei de realizar os ideais de minha alma, se Jesus me acolher nas claridades do seu Reino...

A velha serva chorava emocionada, ouvindo estas expansões tocantes, comovedoras. Depois de longa pausa, continuou como se desejasse bem aproveitar as derradeiras horas: – Ana – disse com enérgica tranqüilidade –, ambas fomos chamadas ao testemunho sagrado da fé, nas horas que passam e que devem ser gloriosas para o nosso espírito. Perdoa-me, querida, se algum dia te ofendi o coração com alguma palavra menos digna. Antes que Simeão te entregasse à minha guarda, já eu te amava ternamente, como se foras minha irmã ou minha própria filha!... A serva chorava, emocionada, enquanto Lívia, carinhosa, continuava: – Agora, querida, tenho um derradeiro pedido a fazer-te...

– Dizei, senhora –sussurrou a serva, com os olhos rasos de lágrimas –, antes de tudo, sou vossa escrava. – Ana, se é verdade que temos de testemunhar ainda hoje a nossa fé, eu desejava comparecer ao sacrifício como aquelas criaturas desamparadas, que ouviam as consolações divinas junto do Tiberíades. Se puderes atender-me, troca hoje comigo a toga da senhora pela túnica da serva! Desejava participar do sacrifício com as vestes humildes e pobres da plebe, não porque me sinta humilhada perante as pessoas da minha condição, no momento ditoso do testemunho, mas porque, arrancando para sempre os derradeiros preconceitos do meu nascimento, daria à minha consciência cristã o conforto do último ato de humildade... Eu, que nasci entre as púrpuras da nobreza, desejava buscar o Reino de Jesus com as vestiduras singelas dos que passaram pelo mundo no torvelinho doloroso das provações e dos trabalhos!...

– Senhora!... – obtemperou a serva, hesitante... – Não vaciles, se queres proporcionar-me a satisfação derradeira. Ana não pôde recusar, ante os piedosos propósitos da generosa criatura e, num instante, na penumbra daquele improvisado recanto que as separava das demais companheiras, trocaram a toga e a túnica, que eram tão somente uma espécie de manto, sobre a complicada indumentária da época, tendo Lívia adornado a toga de lã finíssima, agora no corpo da serva, com as jóias discretas que trazia usualmente consigo. Depois de entregar-lhe dois anéis preciosos e um gracioso bracelete, apenas um adorno de valor lhe restava, mas Lívia, passando a mão pelo pescoço e acariciando um pequeno colar, com imensa ternura, exclamou com decisão para a companheira: – Está bem, Ana, fica-me apenas este pequeno colar, em que trago o camafeu com o perfil de Públio, em alto relevo, e que é um presente dele no dia longínquo das nossas núpcias.

Morrerei com esta jóia, como se ela fôra um símbolo de união entre os meus dois amores, que são meu marido e Jesus Cristo... Ana aceitou, sem protesto, todas as piedosas imposições da senhora e, em breves instantes, na sua antiga beleza virginal, o porte da serva humilde estava tocado de imponente nobreza, como se ela fosse uma soberana figura de marfim velho. Para todos os prisioneiros, na terrível inquietação que os oprimia, embora as doces claridades interiores da prece que os integrava na precisa coragem moral para o sacrifício, as horas do dia passavam pesadas e vagarosas. João de Cleofas, com o resignado heroísmo do seu fervor religioso, conseguiu manter aceso o calor da fé em todos os corações: não faltaram os companheiros mais animosos que, na exaltação de sua confiança na Providência Divina, ensaiaram os próprios cânticos de glória espiritual, para o instante supremo do martírio. No palácio do Aventino, todos os domésticos mais íntimos acreditavam na permanência de Lívia em casa da filha; mas, um pouco antes do meio-dia, Flávia Lentúlia veio ter com o pai, a fim de beijá-lo antes do triunfo.

Informada pelo senador, quanto aos seus projetos de restabelecer a antiga felicidade doméstica, com as mais expressivas demonstrações públicas de confiança e de amor pela esposa, Flávia, com grande surpresa para o pai, procurava a mãe para as manifestações de sua justificada alegria. Angustiosa interrogação se estampou, desse modo, em todos os semblantes. Depois de vinte e cinco anos, era a primeira vez que Lívia e Ana se ausentavam de casa, de um dia para outro, provocando os mais justificados receios. O senador sentiu o coração ferido de presságios angustiosos, mas os escravos já se encontravam preparados para conduzi-lo ao Senado, onde as primeiras cerimônias teriam início depois do meio-dia, com a presença de César. Observando-lhe a aflição e os olhares ansiosos e inquietos, Flávia Lentúlia buscou tranqüilizá-lo com estas palavras, que dissimulavam as suas próprias aflições: – Vai tranqüilo, meu pai.

Voltarei agora a casa, mas não me descuidarei das providências necessárias, porque, quando regressares, de tarde, com a auréola do triunfo, quero abraçar-te com a mamãe, entre as flores do vestíbulo, a fim de podermos ambas receber-te com as pétalas do nosso amor desvelado de todos os dias. – Sim, filha – respondeu o senador com uma sombra de angústia –, permitam os deuses que assim seja, porque as rosas do lar serão para mim as melhores recompensas!... E tomando a liteira, saudado por amigos numerosos que o esperavam, Públio Lentulus demandou o Senado, onde multidões entusiásticas esfuziavam de alegria, em sinal de agradecimento pela farta distribuição de trigo com que as autoridades romanas haviam comemorado aquele evento, aplaudindo os homenageados com a gritaria ensurdecedora das grande manifestações populares.

Da nobre casa política, onde os mais elegantes torneios de oratória foram proferidos para enaltecimento da personalidade do Imperador e antecedidos pela figura impressionante do César, que nunca desdenhou o fausto retumbante dos grandes espetáculos, na sua feição de antigo comediante, dirigiram-se os senadores para o famoso Templo de Júpiter, onde os homenageados receberiam a auréola de mirto e rosas, como os triunfadores, obedecendo à inspiração de Sêneca, que tudo envidava por desfazer a penosa impressão do governo cruel do seu ex-discípulo, que, afinal, decretaria também a sua morte no ano 66. No Templo de Júpiter, o grande artista que era Domício Nero coroou a fronte de mais de cem senadores do Império, sob a bênção convencional dos sacerdotes, demorando-se as cerimônias na sua complicada feição religiosa, por algumas horas sucessivas.

Somente depois das 15 horas, saía do templo, em direção ao Circo Máximo, o grosso e desmesurado cortejo. A compacta procissão, tocada de aspecto solene, poucas vezes observado em Roma nos séculos posteriores, dirigiu-se primeiramente ao Fórum, atravessando pela massa formidável de povo, com o máximo respeito. Para esclarecimento dos leitores, passemos a dar pálida idéia do maravilhoso cortejo, de conformidade com as grandes cerimônias públicas da época. Na frente, vai um carro, soberba e magnificamente ornamentado, onde se instala molemente o Imperador, seguindo-se-lhe numerosos carros nos quais se aboletam os senadores homenageados, bem como os seus áulicos preferidos. Domício Nero, junto de um dos favoritos mais caros, passa sobranceiro no seu traje vermelho de triunfador, com o luxo espalhafatoso que lhe caracterizava as atitudes.

Em seguida, numeroso grupo de jovens de quinze anos passa, a cavalo e a pé, escoltando as carruagens de honra e abrindo a marcha. Passam, depois, os cocheiros guiando as bigas, as quadrigas, as séjuges, que eram carros a dois, a quatro e a seis cavalos, para as loucas emoções das corridas tradicionais. Seguindo-se aos aurigas, quase em completa nudez, surgem os atletas, que farão os números de todos os grandes e pequenos jogos da tarde; após eles, vão os três coros clássicos de dançarmos, o primeiro constituído por adultos, o segundo dos adolescentes insinuantes, e o terceiro por graciosas crianças, todos ostentando a túnica escarlate apertada com uma cinta de cobre, espada ao lado e lança na mão, salientando-se o capacete de bronze enfeitado de penachos e cocares, que lhes completam a indumentária extravagante. Esses bailarinos passam, seguidos pelos músicos, exibindo movimentos rítmicos e executando bailados guerreiros, ao som de harpas de marfim, flautas curtas e numerosos alaúdes. Depois dos músicos, qual bando de sinistros histriões, surgem os Sátiros e os Silenos, personagens estranhas, que apresentam máscaras horripilantes, cobertos de peles de bode, sob as quais fazem os gestos mais horrendos, provocando o riso frenético dos espectadores, com as suas contorções ridículas e estranhas.

Sucedem-se novos grupos musicais, que se fazem acompanhar de vários ministros secundários do culto de Júpiter e outros deuses, levando nas mãos grandes recipientes à guisa de turíbulos de ouro e de prata, de onde espiralam inebriantes nuvens de incenso. Seguindo os ministros, com adornos de ouro e pedras preciosas, passam as estátuas das numerosas divindades arrancadas, por um momento, dos seus templos suntuosos e sossegados. Cada estátua, na sua expressão simbólica, faz-se acompanhar de seus devotos ou dos seus variados colégios sacerdotais. Todas as imagens, em grande aparato, são conduzidas em carros de marfim ou de prata, puxados por cavalos imponentes, guiados delicadamente por meninos pobres de dez a doze anos, que tenham pai e mãe vivos, e escoltados, com atenção, pelos patrícios mais em evidência na grande cidade. Era tudo um deslumbramento de coroas de ouro, púrpuras, luxuosos tecidos do Oriente, metais brilhantes, cintilações de pedras preciosas.

Fecha o cortejo a última legião de sacerdotes e ministros do culto, seguindo-lhes a massa interminável do povo anônimo e desconhecido. A gigantesca procissão penetra o Grande Circo com grande recolhimento, em observância às mais elevada solenidades. O silêncio é apenas cortado pelas aclamações parciais dos diferentes grupos de cidadãos, quando passa a estátua da divindade que lhes protege as atividades e a profissão, na vida comum. Depois de um volteio solene pelo interior do circo, as silenciosas figuras de marfim são depostas na edícula, junto aos cárceres, sob os fulgores radiosos do pavilhão do Imperador e onde se fazem as preces e sacrifícios de nobres e plebeus, enquanto o César e seus áulicos, em companhia dos políticos homenageados naquela tarde, fazem numerosas e extraordinárias libações. Terminadas aquelas cerimônias, desaparece, igualmente, o silencioso recolhimento das multidões.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.