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Capítulo 1 de 38
Parte 1 de 38
Há Dois Mil Anos… · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel
Há Dois Mil Anos... Do Espírito: EMMANUEL Psicografado por: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER HÁ DOIS MIL ANOS... EPISÓDIOS DA HISTÓRIA DO CRISTIANISMO NO SÉCULO I Do Espírito: Emmanuel (primeira edição lançada em 1939 pela FEB) Psicografada por: Francisco Cândido Xavier Editado por: FEB – Federação Espírita Brasileira www.febnet.org.br Digitalizada por: L. Neilmoris © 2008 – Brasil www.luzespirita.org Há Dois Mil Anos... EPISÓDIOS DA HISTÓRIA DO CRISTIANISMO NO SÉCULO I Romance de: EMMANUEL Psicografada por: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER Índice Na intimidade de Emmanuel –pag. 5 Primeira Parte I – Dois amigos – pag. 10 II – Um escravo – pag.19 III – Em casa de Pilatos – pag. 30 IV – Na Galiléia – pag. 39 V – O Messias de Nazaré – pag. 48 VI – O rapto – pag. 57 VII – As pregações do Tiberíades – pag. 68 VIII – No grande dia do Calvário – pag. 77 IX – A calúnia vitoriosa – pag. 86 X – O Apóstolo da Samaria – pag. 99 Segunda Parte I – A morte de Flamínio – pag. 127 II – Sombras e núpcias – pag. 141 III – Planos da treva – pag. 151 IV – Tragédias e esperanças – pag. 161 V – Nas catacumbas da fé e no circo do martírio – pag. 177 VI – Alvoradas do Reino do Senhor – pag. 201 VII – Teias do infortúnio – pag. 210 VIII – Na destruição de Jerusalém – pag. 227 IX – Lembranças amargas – pag. 243 X – Nos derradeiros minutos de Pompéia – pag. 250 Na intimidade de Emmanuel Ao Leitor Leitor, antes de penetrares o limiar desta história, é justo apresentemos à tua curiosidade algumas observações de Emmanuel, o ex-senador Públio Lentulus, descendente da orgulhosa "gens Cornelia", recebidas desse generoso Espírito, na intimidade do grupo de estudos espiritualistas de Pedro Leopoldo, Estado de Minas Gerais.
Através destas observações ficarás conhecendo as primeiras palavras do Autor, a respeito desta obra, e suas impressões mais profundas, no curso do trabalho, que foi levado a efeito de 24 de outubro de 1938 a 9 de fevereiro de 1939, segundo as possibilidades de tempo do seu médium e sem perturbar outras atividades do próprio Emmanuel, junto aos sofredores que freqüentemente o procuram, e junto ao esforço de propaganda do Espiritismo cristão na Pátria do Cruzeiro. Em 7 de setembro de 1938, afirmava ele em pequena mensagem endereçada aos seus amigos encarnados: – "Algum dia, se Deus mo permitir, falar-vos-ei do orgulhoso patrício Públio Lentulus, a fim de algo aprenderdes nas dolorosas experiências de uma alma indiferente e ingrata. "Esperemos o tempo e a permissão de Jesus." Emmanuel não esqueceu a promessa. Com efeito, em 21 de outubro do mesmo ano, voltava a recordar, noutro comunicado familiar: – "Se a bondade de Jesus nos permitir, iniciaremos o nosso esforço, dentro de alguns dias, esperando eu a possibilidade de grafarmos as nossas lembranças do tempo em que se verificou a passagem do Divino Mestre sobre a face da Terra. "Não sei se conseguiremos realizar tão bem, quanto desejamos, semelhante intento.
De ante-mão, todavia, quero assinalar minha confiança na Misericórdia do Nosso Pai de Infinita Bondade." De fato, em 24 de outubro referido, recebia o médium Xavier a primeira página deste livro e, no dia seguinte, Emmanuel voltava a dizer: – "Iniciamos, com o amparo de Jesus, mais um despretensioso trabalho. Permita Deus que possamos levá-lo a bom termo. "Agora verificareis a extensão de minhas fraquezas no passado, sentindo-me, porém, confortado em aparecer com toda a sinceridade do meu coração, ante o plenário de vossas consciências. Orai comigo, pedindo a Jesus para que eu possa completar esse esforço, de modo que o plenário se dilate, além do vosso meio, a fim de que a minha confissão seja um roteiro para todos." Durante todo o esforço de psicografia, o Autor deste livro não perdeu ensejo de ensinar a humildade e a fé a quantos o acompanham. Em 30 de dezembro de 1938, comentava, em nova mensagem afetuosa: – "Agradeço, meus filhos, o precioso concurso que me vindes prestando.
Tenho-me esforçado, quanto possível, para adaptar uma história tão antiga ao sabor das expressões do mundo moderno, mas, em relatando a verdade, somos levados a penetrar, antes de tudo, na essência das coisas, dos fatos e dos ensinamentos. "Para mim essas recordações têm sido muito suaves, mas também muito amargas. Suaves pela rememoração das lembranças amigas, mas profundamente dolorosas, considerando o meu coração empedernido, que não soube aproveitar o minuto radioso que soara no relógio da minha vida de Espírito, há dois mil anos. "Permita Jesus que eu possa atingir os fins a que me propus, apresentando, nesse trabalho, não uma lembrança interessante acerca de minha pobre personalidade, mas, tão somente, urna experiência para os que hoje trabalham na semeadura e na seara do Nosso Divino Mestre." De outras vezes, Emmanuel ensinava aos seus companheiros encarnados a necessidade de nossa ligação espiritual com Jesus, no desempenho de todos os trabalhos. No dia 4 de janeiro de 1939, grafava ele esta prece, ainda com respeito as memórias do passado remoto: "Jesus, Cordeiro Misericordioso do Pai de todas as graças, são passados dois mil anos e minha pobre alma ainda revive os seus dias amargurados e tristes!...
"Que são dois milênios, Senhor, no relógio da Eternidade? "Sinto que a tua misericórdia nos responde em suas ignotas profundezas... Sim, o tempo é o grande tesouro do homem e vinte séculos, como vinte existências diversas, podem ser vinte dias de provas, de experiências e de lutas redentoras. "Só a tua bondade é infinita! Somente tua misericórdia pode abranger todos os séculos e todos os seres, porque em Ti vive a gloriosa síntese de toda a evolução terrestre, fermento divino de todas as culturas, alma sublime de todos os pensamentos.
"Diante de meus pobres olhos, desenha-se a velha Roma dos meus pesares e das minhas quedas dolorosas... Sinto-me ainda envolto na miséria de minhas fraquezas e contemplo os monumentos das vaidades humanas... Expressões políticas, variando nas suas características de liberdade e de força, detentores da autoridade e do poder, senhores da fortuna e da inteligência, grandezas efêmeras que perduram apenas por um dia fugaz!... Tronos e púrpuras, mantos preciosos das honrarias terrestres, togas da falha justiça humana, parlamentos e decretos supostos irrevogáveis!... Em silêncio, Senhor, viste a confusão que se estabelecera entre os homens inquietos e, com o mesmo desvelado amor, salvaste sempre as criaturas no instante doloroso das ruínas supremas...
Deste a mão misericordiosa e imaculada aos povos mais humildes e mais frágeis, confundiste a ciência mentirosa de todos os tempos, humilhaste os que se consideravam grandes e poderosos!... "Sob o teu olhar compassivo, a morte abriu suas portas de sombra e as falsas glórias do mundo foram derruídas no torvelinho das ambições, reduzindo-se todas as vaidades a um acervo de cinzas!... "Ante minh’alma surgem as reminiscências das construções elegantes das colinas célebres; vejo o Tibre que passa, recolhendo os detritos da grande Babilônia imperial, os aquedutos, os mármores preciosos, as termas que pareciam indestrutíveis... Vejo ainda as ruas movimentadas, onde uma plebe miserável espera as graças dos grandes senhores, as esmolas de trigo, os fragmentos de pano para resguardarem do frio a nudez da carne. "Regurgitam os circos... Há uma aristocracia do patriciado observando as provas elegantes do Campo de Marte e, em tudo, das vias mais humildes até os palácios mais suntuosos, fala-se de César, o Augusto!...
"Dentro dessas recordações, eu passo, Senhor, entre farraparias e esplendores, com o meu orgulho miserável! Dos véus espessos de minhas sombras, também eu não te podia ver, no Alto, onde guardas o teu sólio de graças inesgotáveis... "Enquanto o grande Império se desfazia em suas lutas inquietantes, trazias o teu coração no silêncio e, como os outros, eu não percebia que vigiavas! "Permitiste que a Babel romana se levantasse muito alto, mas, quando viste que se ameaçava a própria estabilidade da vida no planeta, disseste: – "Basta! São vindos os tempos de operar-se na seara da Verdade!" E os grandes monumentos, com as estátuas dos deuses antigos, rolaram de seus pedestais maravilhosos!
Um sopro de morte varreu as regiões infestadas pelo vírus da ambição e do egoísmo desenfreado, despovoando-se, então, a grande metrópole do pecado. Ruíram os circos formidandos, caíram os palácios, enegreceram-se os mármores luxuosos... "Bastou uma palavra tua, Senhor, para que os grandes senhores voltassem às margens do Tibre, como escravos misérrimos!... Perambulamos, assim, dentro da nossa noite, até o dia em que nova luz brotara em nossa consciência. Foi preciso que os séculos passassem, para aprendermos as primeiras letras de tua ciência infinita, de perdão e de amor!
"E aqui estamos, Jesus, para louvar-te a grandeza! Dá que possamos recordar-te em cada passo, ouvir-te a voz em cada som distraído do caminho, para fugirmos da sombra dolorosa!... Estende-nos tuas mãos e fala-nos ainda do teu ....... Temos sede imensa daquela água eterna da vida, que figuraste no ensinamento à Samaritana... "Exército de operários do teu Evangelho, nós nos movemos sob as tuas determinações suaves e sacrossantas!
Ampara-nos, Senhor, e não nos retires dos ombros a cruz luminosa e redentora, mas ajuda-nos a sentir, nos trabalhos de cada dia, a luz eterna e imensa do teu Reino de paz, de concórdia e de sabedoria, em nossa estrada de luta, de solidariedade e de esperança!..." Em 8 de fevereiro último, véspera do término da recepção deste livro, agradecia Emmanuel o concurso de seus companheiros encarnados, em comunicado familiar, do qual destacamos algumas frases: – "Meus amigos, Deus vos auxilie e recompense. Nosso modesto trabalho está a terminar. Poucas páginas lhe restam e eu vos agradeço de coração. "Reencontrando os Espíritos amigos das épocas mortas, sinto o coração satisfeito e confortado ao verificar a dedicação de todos ao firme pensamento de evolução, para a frente e para o alto, pois não é sem razão de ser que hoje laboramos na mesma oficina de esforço e boa vontade. "Jesus há de recompensar a cota de esforço amigo e sincero que me prestastes e que a sua infinita misericórdia vos abençoe é a minha oração de sempre." Aqui ficam algumas das anotações íntimas de Emmanuel, fornecidas na recepção deste livro. A humildade desse generoso Espírito vem demonstrar que no plano invisível há, também, necessidade de esforço próprio, de paciência e de fé para as realizações.
As notas familiares do Autor são um convite para que todos nós saibamos orar, trabalhar e esperar em Jesus Cristo, sem desfalecimentos na luta que a bondade divina nos oferece para o nosso resgate, no caminho da redenção. Pedro Leopoldo, 2 de março de 1939. A EDITORA Primeira parte I Dois amigos Os últimos clarões da tarde haviam caído sobre o casario romano. As águas do Tibre, ladeando o Aventino, deixavam retratados os derradeiros reflexos do crepúsculo, enquanto nas ruas estreitas passavam liteiras apressadas, sustidas por escravos musculosos e lépidos. Nuvens pesadas amontoavam-se na atmosfera, anunciando aguaceiros próximos, e as últimas janelas das residências particulares e coletivas fechavam-se com estrépito, ao sopro dos primeiros ventos da noite.
Entre as construções elegantes e sóbrias, que exibiam mármores preciosos, no sopé da colina, um edifício havia que reclamava a atenção do forasteiro pela singularidade das suas colunas severas e majestosas. Uma vista de olhos ao seu exterior indicava a posição do proprietário, dado o aspecto artístico e imponente. Era, de fato, a residência do senador Públio Lentulus Cornelius, homem ainda moço, que, à maneira da época, exercia no Senado funções legislativas e judiciais, de acordo com os direitos que lhe competiam, como descendente de antiga família de senadores e cônsules da República. O Império, fundado com Augusto, havia limitado os poderes senatoriais, cujos detentores já não exerciam nenhuma influência direta nos assuntos privativos do governo imperial, mas mantivera a hereditariedade dos títulos e dignidades das famílias patrícias, estabelecendo as mais nítidas linhas de separação das classes, na hierarquia social. Eram dezenove horas de um dia de maio de 31 da nossa era.
Públio Lentulus, em companhia do seu amigo Flamínio Severus, reclinado no triclínio, terminava o jantar, enquanto Lívia, a esposa, expedia ordens domésticas a uma jovem escrava etrusca. O anfitrião era um homem relativamente jovem, aparentando menos de trinta anos não obstante o seu perfil orgulhoso e austero, aliado à túnica de ampla barra purpúrea, que impunha certo respeito a quantos se lhe aproximavam, contrastando com o amigo que, revestindo a mesma indumentária de senador, deixava entrever idade madura, iluminada de cãs precoces, em penhor de bondade e experiência da vida. Deixando a jovem senhora entregue aos cuidados domésticos, ambos se dirigiram ao peristilo, por buscarem um pouco de oxigênio da noite cálida, embora o aspecto ameaçador do firmamento prenunciasse chuva iminente. – A verdade, meu caro Públio – exclamava Flamínio, pensativo –, é que te consomes a olhos vistos. Trata-se de uma situação que precisa modificar-se sem perda de tempo. Já recorreste a todos os facultativos no caso de tua filhinha?
– Infelizmente – retorquia o patrício com amargura – já lancei mão de todos os recursos ao nosso alcance. Ainda nestes últimos dias, minha pobre Lívia levou-a 1 a distrair-se em nossa vivenda de Tibur, procurando um dos melhores médicos da cidade, que afirmou tratar-se de um caso sem remédio na ciência dos nossos dias. O facultativo não chegou a positivar o diagnóstico, certamente em razão da sua comiseração pela doentinha e pelo nosso paternal desespero; mas, segundo nossas observações, acreditamos que o médico de Tibur presume tratar-se de um caso de lepra. –É uma presunção atrevida e absurda! – Entretanto, se não podemos admitir qualquer dúvida com relação aos nossos antepassados, sabes que Roma está cheia de escravos de todas as regiões do mundo e são eles o instrumento de nossos trabalhos de cada dia.
–É verdade... – concordou Flamínio, com amargura. Um laivo de perspectivas sombrias transparecia na fronte dos dois amigos, enquanto as primeiras gotas de chuva satisfaziam a sede das roseiras floridas que enfeitavam as colunas graciosas e claras. – E o pequeno Plínio? – perguntou Públio, como desejoso de proporcionar novo rumo a conversação.
– Esse, como sabes, continua sadio, demonstrando ótimas disposições Calpúrnia atrapalha-se, a cada momento, para satisfazer-lhe os caprichos dos doze anos incompletos. Às vezes, é voluntarioso e rebelde, contrariando as observações do velho Parmênides, só se entregando aos exercícios da ginástica quando muito bem lhe apraz; no entanto, tem grande predileção pelos cavalos. Imagina que, num momento de irreflexão própria da idade, burlando toda a vigilância do irmão, concorreu a uma tirada de bigas realizada nos treinos comuns de um estabelecimento esportivo do Campo de Marte, obtendo um dos lugares de maior destaque. Quando contemplo meus dois filhos, lembro-me sempre da tua pequena Flávia Lentúlia, porque bem sabes dos meus propósitos para o futuro, no sentido de estreitar os antigos laços que prendem as nossas famílias. Públio ouvia o amigo, calado, como se a inveja lhe espicaçasse o coração carinhoso de pai.
– Todavia – revidou –, apesar de nossos projetos, os áugures não favorecem nossas esperanças, porque a verdade é que minha pobre filha, com todos os nossos cuidados, mais parece uma dessas infelizes criaturinhas atiradas ao 2 Velabro. –Contudo, confiemos na magnanimidade dos deuses. 1 Hoje Tivoli. (Nota da Editora) 2 Bairro da antiga Roma e que se localizava sobre um pântano. – Dos deuses? – repetiu Públio, com mal disfarçado desalento. – A propósito desse recurso imponderável, tenho excogitado mil teorias no cérebro fervilhante. Há tempos, em visita a tua casa, tive ocasião de conhecer mais intimamente o teu velho liberto grego.
Parmênides falou-me da sua mocidade e permanência na Índia, dando-me conta das crenças hindus, com as suas coisas misteriosas da alma. Acreditas que cada um de nós possa regressar, depois da morte, ao teatro da vida, em outros corpos? – De modo algum – replicou Flamínio, energicamente. – Parmênides, não obstante o seu caráter precioso, leva muito longe as suas divagações espirituais. – Entretanto, meu amigo, começo a pensar que ele tem razão.
Como poderíamos explicar a diversidade da sorte neste mundo? Porque a opulência dos nossos bairros aristocráticos e as misérias do Esquilino? A fé no poder dos deuses não consegue elucidar esses problemas torturantes. Vendo minha desventurada filhinha com a carne dilacerada e apodrecida, sinto que o teu escravo está com a verdade. Que teria feito a pequena Flávia, nos seus sete anos incompletos, para merecer tão horrendo castigo das potestades celestiais?
Que alegria poderiam encontrar as nossas divindades nos soluços de uma criança e nas lágrimas dolorosas que nos calcinam o coração? Não será mais compreensível e aceitável que tenhamos vindo de longe com as nossas dividas para com os poderes do Céu? Flamínio Severus meneou a cabeça, como quem deseja afastar uma dúvida, mas, retomando o seu aspecto habitual, obtemperou com firmeza: – Fazes mal em alimentar semelhantes conjeturas no teu foro íntimo. Nos meus quarenta e cinco anos de existência, não conheço crenças mais preciosas do que as nossas, no culto venerável dos antepassados. É preciso considerares que a diversidade das posições sociais é um problema oriundo da nossa arregimentação política, a única que estabeleceu uma divisão nítida entre os valores e os esforços de cada um; quanto à questão dos sofrimentos, convém lembrar que os deuses podem experimentar nossas virtudes morais, com as maiores ameaças à enfibratura do nosso ânimo, sem que necessitemos adotar os absurdos princípios dos egípcios e dos gregos, princípios, aliás, que já os reduziram ao aniquilamento e ao cativeiro.
Já ofereceste algum sacrifício no templo, depois de tão angustiosas dúvidas? – Tenho sacrificado aos deuses, segundo os nossos hábitos – respondeu Públio, compungida mente – e ninguém mais que eu se orgulha das gloriosas virtudes de nossas tradições familiares. Entretanto, minhas observações não surgem tão somente a propósito da filhinha. Há muitos dias, ando torturado com o espantoso enigma de um sonho. – Um sonho?
Como pode a fantasia abalar, desse modo, a fibra de um patrício? Públio Lentulus recebeu a pergunta mergulhado em profundas cismas. Seus olhos parados pré sumiam devorar uma paisagem que o tempo distanciara no transcurso dos anos. A chuva, agora em bátegas pesadas, caía continuadamente, fazendo os mais fortes transbordamentos do implúvio e represando-se na piscina que enfeitava o pátio do peristilo. Os dois amigos haviam-se recolhido a um largo banco de mármore, reclinando-se nos estofos orientais que o forravam, prosseguindo na palestra amistosa. – Sonhos há – prosseguiu Públio – que se distinguem da fantasia, tal a sua expressão de realidade irretorquível Voltava eu de uma reunião no Senado, onde havíamos discutido um problema de profunda delicadeza moral, quando me senti presa de inexplicável abatimento.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.