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Capítulo 36 de 38
Kardec — parte 3 de 4
As Vidas de Osvaldo Polidoro
O Codificador intrigava-se mais e mais. Num desses trabalhos, uma mensagem foi destinada especificamente a ele. Um Espírito chamado Verdade disse-lhe que tinha uma importante missão a desenvolver. Daria vida a uma nova doutrina filosófica, científica e religiosa. Kardec afirmou que não se achava um homem digno de uma tarefa de tal envergadura, mas que sendo o escolhido, tudo faria para desempenhar com sucesso as obrigações de que fora incumbido. Não abraçava religião alguma e, como os grandes pensadores de sua época, simpatizava com os pensamentos que formariam o Positivismo. Efetivamente, deu início à sua pesquisa no ano de 1855, no mês de maio, ao participar de uma reunião na casa da Sra. de Plainemaison, à Rua Grange-Batelière, 18, às 20 horas. Não mais parou, tentando identificar a causa dos fenômenos e as surpreendentes respostas que começaram a ser dadas através da escrita por intermédio das irmãs Baudin. O desenvolvimento da Codificação Espírita basicamente teve início na residência da família Baudin, no ano de 1855. Na casa havia duas moças que eram médiuns. Tratava-se de Julie e Caroline Baudin, de 14 e 16 anos, respectivamente. Através da “cesta-pião”, um mecanismo parecido com as mesas girantes, Kardec fazia perguntas aos Espíritos desencarnados, que respondiam por meio da escrita mediúnica. À medida que as perguntas do professor iam sendo respondidas, ele percebia que ali se desenhava o corpo de uma doutrina e se preparou para publicar o que mais tarde se transformou na primeira obra da Codificação Espírita. A forma pela qual os Espíritos se comunicavam no princípio era através da cesta-pião que tinha um lápis em seu centro. As mãos das médiuns eram colocadas nas bordas, de forma que os movimentos involuntários, provocados pelos Espíritos, produzissem a escrita. Com o tempo, a cesta foi substituída pelas mãos dos médiuns, dando origem à conhecida psicografia. Das consultas feitas aos Espíritos, nasceu “O Livro dos Espíritos”, lançado em 18 de abril de 1857, descortinando para o mundo todo um horizonte de possibilidades no campo do conhecimento. Como disse Henri Sausse: “(...) Sua razão repele as revelações, somente aceita observações objetivas e controláveis. (...) Vários amigos que acompanhavam há cinco anos o estudo dos fenômenos, (...) colocam à sua disposição mais de cinqüenta cadernos, contendo as comunicações feitas pelos Espíritos (...). O estudo desses cadernos constituiu, para Rivail, o trabalho mais profundo e mais decisivo. Foi por esse estudo que ele se (...) convenceu da existência do mundo invisível e dos Espíritos”. Ele utilizava o material dos cadernos, com as respostas dadas pelos supostos espíritos, para refazer as mesmas perguntas para outros médiuns, de preferência desconhecido dos primeiros. Com base nas novas respostas, Rivail comparava o conteúdo de ambas, e ficava perplexo com as similaridades freqüentes entre as elas. Ele reformulava as perguntas, e pedia a ajuda de amigos para fazê-las a outros médiuns, em outras localidades. Ele recebia as respostas e compilava-as organizadamente por tópicos e assuntos. Como poderia ser que pessoas, que nunca se viram, dessem as mesmas respostas para as mesmas perguntas, as quais possuíam, freqüentemente, um grande peso filosófico e uma amplidão de conhecimentos que escapavam à formação ou aos conhecimentos normais dos médiuns? A única resposta lógica seria a de que agentes inteligentes as dariam por intermédio de certas pessoas com uma sensibilidade psíquica especial: os médiuns. Além do mais, Rivail notou que poderia existir uma extraordinária discrepância entre o desenvolvimento moral e intelectual de um médium e as comunicações obtidas em estado de transe, que na época se chamava estado sonambúlico, ou, algumas vezes, de mesmerização, nome devido ao pioneiro da hipnose, Mesmer. Sendo assim, há a faculdade de comunicar-se com os agentes inteligentes invisíveis, independente do grau de desenvolvimento espiritual do médium, havendo médiuns moralmente medíocres (e até mesmo perversos), e outros médiuns de grande desenvolvimento moral, que podem, uns e outros, receberem mensagens de cunho elevado ou banal. Por estarem numa dimensão diferente da nossa, estes agentes inteligentes invisíveis teriam de vivenciar uma realidade própria ao estado vibratório de sua dimensão, o que explicaria algumas características das repostas dadas. Isso abriria um imenso leque de cogitações e de explicações extraordinárias. Mas Rivail não se deixou levar pelo entusiasmo.Ele destacava claramente, desde o início, que muitas das respostas obtidas por meio dos médiuns eram tolas e pueris, e que outras tinham muito a ver com os conhecimentos ou as crenças do próprio médium, embora, durante o transe, ele comumente não tivesse consciência do que dizia ou escrevia. Assim, Rivail formulou as seguintes conclusões: Primeiro, se são agentes inteligentes não físicos que dão as respostas, nem por isso eles parecem ser muito diferentes dos homens vivos, pois suas respostas são parecidas às respostas que qualquer homem daria, inclusive dentro do nível de instrução a que tenham chegado, pois há respostas muito bem elaboradas junto a muitas outras muito fúteis. Segundo, algumas vezes as respostas são dadas de forma não-consciente, pelo próprio médium. Então, seria o agente inteligente do próprio médium que daria certas respostas, em certas ocasiões. Estas repostas não são destituídas de valor. Elas podem apresentar um extraordinário grau de maturidade, mesmo que sejam estranhas ao pensamento normal do médium quando em estado de vigília ou de consciência desperta normal. Assim, Denizard Rivail colocava, clara e lucidamente, que as entidades, por serem seres desencarnados, nem por isso eram necessariamente mais sábios que os homens encarnados. Eles mesmas diziam que nada mais eram do que os Espíritos dos homens que já morreram, e por isso mesmo, continuavam tão humanos e cheios de falhas quanto antes. E mais ainda, Rivail antecipou-se extraordinariamente em mais de quarenta e três anos a Sigmund Freud (1856-1939), ao reconhecer uma ação inconsciente pessoal agindo sobre a manifestação mediúnica, algumas vezes. Rivail não teria sido um precursor da cética Psicanálise?
Allan Kardec ouviu outros espíritos, além dos que se comunicavam na casa de sr. Roustan. Quando apresentou aos espíritos a forma definitiva da obra fundamental, estes lhe fizeram grandes objeções. É que o Sr. Allan Kardec apresentava o espiritismo como uma religião nova, com o que não concordaram os conselheiros espirituais. Aceitou a crítica “Foi através da comparação e da fusão de todas aquelas respostas coordenadas, classificadas e muitas vezes refeitas no silêncio da meditação que aprontei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, publicada a 18 de abril de 1857”, (com 531 perguntas e respostas, divididas por temas). A segunda edição, revista e ampliada, foi considerada por Rivail como definitiva, possuindo 1.019 perguntas e respostas. A sua obra é um acontecimento tão extraordinário como a Revolução Francesa. Esta estabeleceu os direitos do homem dentro da sociedade, aquela instituiu os liames do homem com o universo, deu-lhe as chaves dos mistérios que assoberbavam os homens, dentre eles o problema da chamada morte, os quais até então não haviam sido equacionados pelas religiões. A missão do mestre, como havia sido prognosticada pelo Espírito de Verdade, era de escolhos e perigos, pois ela não seria apenas de codificar, mas principalmente de abalar e transformar a Humanidade. A missão foi-lhe tão árdua que, o em nota de 1 . de janeiro de 1867, Kardec referia-se às ingratidões de amigos, a ódios de inimigos, a injúrias e a calúnias de elementos fanatizados. Entretanto, ele jamais esmoreceu diante da tarefa (sobre esse assunto, ver textos do Pai, no início) Rivail decidiu lançar O Livro dos Espíritos utilizando um pseudônimo, Allan Kardec, que teria sido seu nome quando encarnado entre os druidas, na região das Gálias, durante o antigo Império Romano (vida que, nesta última encarnação, não mencionava). Com isso, colocando-se no anonimato, desejava que o público e a crítica analisassem a obra com isenção, sem se prenderem na figura do autor, o que de fato aconteceu. Adeptos do Espiritismo -ou Doutrina Espírita- reuniam-se na casa de Kardec, à Rua dos Mártires, chegando a 30 pessoas. Decidiram fundar a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 1º de abril de 1858, tendo sua sede no Palais- Royal, Galeria de Valois, até que, depois de uma primeira mudança, veio a instalar-se em sede própria na Rua e Galeria Sant´Anna, 59, em 1º de abril de 1860. Diversos príncipes estrangeiros e outras distintas personagens freqüentavam a Sociedade, que se tornou núcleo de pesquisa e divulgação do Espiritismo. De grande profundidade filosófica e psicológica, O Livro dos Espíritos possui passagens e reflexões que vão muito além do nível de conhecimento ordinário de sua época de publicação, inclusive no que tange aos aspectos científicos da obra. Cite-se a noção de evolução das espécies vivas, dada pelos espíritos e comentada por Kardec, publicada nesta obra um ano antes do livro seminal de Charles Darwin, A Origem das Espécies; ou, ainda, da identidade entre matéria e energia (chamada por Kardec de fluido universal), que se diferenciam entre si apenas por um estado de condensação da energia, muito antes de Albert Einstein... De igual modo, as noções de percepção de consciência como sendo diferentes manifestações de maturação psíquica lembra e muito as atuais abordagens da Psicologia, principalmente a Psicologia Transpessoal. É de notar-se a coincidência entre certos princípios do Druidismo e a obstinação de Allan Kardec em subtrair o Espiritismo à tendência das massas menos cultas em transformá-lo numa religião. Neste particular, a concessão máxima que se pode fazer, fê-la Sir Arthur Conan Doyle, chamando-o de religião psíquica, isto é, uma filosofia prática que leva a criatura para uma etapa religiosa muito superior à moral comum, desde que ‘a moral é a média do comportamento do grupo social’ e aquele conduz para um limite superior, no qual, tornando-se altamente consciente, a criatura é, simultaneamente, templo, sacerdote e penitente. Até o último instante Allan Kardec sustentou que o Espiritismo era ‘uma filosofia científica de conseqüências religiosas, mas não uma religião’. Há momentos em que a apresentação da doutrina em O Livro dos Espíritos não fica a dever em nada às melhores teorias da personalidade da Psicologia moderna. A descrição de Kardec do Fluido Universal lembra a do conceito de orgônio, ou orgon, dado pelo psicanalista Wilhelm Reich, pai da Bioenergética. Da mesma forma, os fundamentos e causas do processo da reencarnação é idêntico aos fundamentos e causas postulados por alguns psicoterapeutas (muitos dos quais não conhecem Allan Kardec) e que, por meios de desenvolvimento e pesquisas diversos, a partir do atendimento clínico de pacientes, chegaram à técnica da Terapia de Vida Passada - TVP. E a filosofia de vida que a doutrina estimula a adotar é, em muitos pontos, similar às condições propícias ao desenvolvimento da auto-atualização que é o lema dos psicólogos humanistas, tais como Abraham Maslow e Carl Ransom Rogers. A noção de animismo aponta para o conceito de inconsciente que teve em Sigmund Freud um sério teórico, e a de evolução espiritual lembra o processo de individuação postulado pelo gênio de Jung. Kardec logo reconheceria que seu estudo sobre a comunicação dos chamados espíritos (como elas mesmas se diziam ser, as forças inteligentes), que ele chamou de Espiritismo, não trazia nada de realmente novo, a não ser o fato destes fenômenos serem vistos e entendidos sob a ótica moderna, científica: (...) Constituindo uma lei da natureza, os fenômenos estudados pelo Espiritismo hão de ter existido desde a origem dos tempos e sempre nos esforçamos por demonstrar que dele se descobrem sinais na Antigüidade mais remota. Pitágoras, como se sabe, não foi o autor da metempsicose (ou seja, da transmigração da alma pela reencarnação); ele a colheu dos filósofos indianos e dos egípcios, que o tinham desde tempos imemoriais (...) o que não padece dúvidas é que uma idéia não atravessa séculos e séculos, nem consegue impor-se a inteligências de escol, se não contiver algo de sério (...)” (Kardec, p. 143 de O Livro dos Espíritos, ed. FEB).
Deviam falar vários mestres, como de fato falaram; e tudo girou em torno das Revelações Fundamentais, atingindo o Cristo, com o Seu Batismo de Revelação, passando depois para a corrupção romana, tornando a surgir fulgurante com o advento da restauração, com o nome de Espiritismo. Porém não começou com Kardec, o Codificador, mas sim lá bem atrás, na Europa do século quatorze, com a ordem do Cristo Planetário, de serem iniciados os trabalhos restauradores, de onde surgiram no plano carnal aqueles vultos que se chamaram Wicliff, Huss, Joana D’Arc, Savanarola, Lutero, Giordano Bruno, etc. E dos frutos daí derivados, em liberdade e traduções de livros, houve a possibilidade de vir Kardec, acompanhado de muitos companheiros, trazendo de novo o Pentecostes, a grande eclosão mediúnica dos meados do século dezenove. Era apenas o retorno do Batismo de Revelação ou Espírito, tal com se acha exposto no segundo capítulo dos Atos, que fora a Graça trazida para toda a carne por Jesus Cristo. Tudo ouvimos, debaixo de um silêncio profundo, naquele dia que correspondia, na crosta, ao lançamento de O LIVRO DOS ESPÍRITOS; porque os encarnados festejavam o retorno da Excelsa Doutrina do Caminho, e o plano espiritual festejava a data comemorativa da renovação intelecto-moral da humanidade, pelo conhecimento das verdades básicas. (trecho de “A Volta de Jesus Cristo”)
Na seqüência, foram publicados: O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho segundo o Espiritismo (1864); O Céu e o Inferno (1865); A Gênese (1868). Além desses, devem ser considerados também: O Que é o Espiritismo; Introdução ao Estudo dos Fenômenos Espíritas e Viagem Espírita em 1862, além da coleção anual dos números da Revista Espírita. É por isso também que a introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de 1864 (obra de cunho filosófico com o objetivo de esclarecer a posição da doutrina frente à mensagem do Cristo) traz um estudo histórico que culmina em um resumo do posicionamento de Sócrates e de Platão como precursores dos mais elevados ideais cristãos e, em suas filosofias, de vários tópicos do Espiritismo, como bem fica evidenciado no diálogo Fédon, de Platão. Já em O Livro dos Espíritos, Kardec tece comentários sobre a ancestralidade das idéias básicas do espiritismo (c.f. capítulo V da obra citada) e como os fenômenos ditos espíritas são universais. Os fenômenos que caracterizam o Espiritismo, especialmente o da comunicação entre encarnados e desencarnados, são mencionados e reconhecidos como existentes em todas as épocas da humanidade, qualquer que seja a cultura considerada. A idéia da reencarnação, por exemplo, é tão antiga e universal quanto a própria humanidade (ver o capítulo V de O Livro dos Espíritos), e é a base de diversas tradições filosóficas e religiosas do oriente, como o budismo e o Hinduismo, por exemplo, e a das religiões pré-cristãs da Europa, como a dos druidas, ou, posteriormente, baseados no cristianismo, o posicionamento de alguns papas da Igreja antes do concílio de Constantinopla, em 533, quando a doutrina da reencarnação foi abolida por motivos políticos, mas que é encontrada em figuras excepcionais da igreja, como em Orígenes de Alexandria, só para citar um exemplo. Ainda houve a presença de alguns movimentos fortemente contestatórios da ação da Igreja de Roma, como a dos Cátaros, embora os conhecimentos antropológicos, históricos e sociológicos de seu tempo não permitissem a Kardec ir muito além na análise destas tradições, filosofias e ocorrências históricas. Além do mais, diferentemente de outras escolas espiritualistas, Kardec fez absoluta questão de expor seus estudos de forma racional, sem cair nas armadilhas do discurso místico ordinário, (mais levado pela emoção e pela fantasia que pela razão), trabalhou a partir de fatos, fenômenos e percepções reais, com o máximo zelo à análise e ao cuidado da descrição dos fenômenos a partir de sólidos referenciais lógicos. Seu trabalho seria, então, de trazer ao nível intelectual moderno alguns fenômenos que sempre acompanharam o homem em sua história e que foram negligenciados pela ciência mecanicista moderna, principalmente a partir do legado mecanicista de Descartes e de Newton, apesar de ambos terem sido pessoas espiritualizadas, principalmente o segundo, que foi o primeiro grande cientista da era moderna e o último grande mago dos tempos alquímicos. Com o progresso do Espiritismo, Allan Kardec teve a intenção de publicar um jornal espírita, que seria um poderoso auxiliar na divulgação e na pesquisa espírita. Kardec decide redigir o primeiro número, trocando a idéia de um jornal pela de uma revista, e assim faz aparecer a 1º de janeiro de 1858 a Revista Espírita, que mensalmente iria editar por mais de 12 anos. O primeiro número saiu com o comprometimento de suas economias, mas os pedidos de assinatura vieram de todas as partes da Europa, tornando a Revista um sucesso. Segundo Henri Sausse, “em menos de um ano (...)”, a Revista Espírita “(...) estava espalhada por todos os continentes do Globo. (...) De tal maneira aumentou o número de assinantes, que Kardec, a pedido destes, reimprimiu duas vezes as coleções de 1858, 1859 e 1860 (...)”. Dentre os mais célebres admiradores, amigos e estudiosos de Kardec ou do espiritismo, destacamos o famoso astrônomo francês Camille Flammarion, o filósofo H. Bergson, o psicólogo e filósofo William James, o físico William Crookes, o biólogo Alfred Russel Wallace, o físico Oliver Lodge, o escritor Arthur Conan Doyle, dentre inúmeros outros. Podemos expor a importância do trabalho de Kardec por estas palavras do pai da moderna Parapsicologia, o fisiólogo Charles Richet: “Allan Kardec foi o homem que no período de 1857 a 1871 exerceu a mais penetrante influência, e que traçou o sulco mais profundo na ciência metapsíquica” (Charles Richet in “Traité de Métapsychique”, p. 34).
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