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Capítulo 33 de 38
Voltaire
As Vidas de Osvaldo Polidoro
Voltaire nasceu em Paris, em 22 de novembro (ou 22 de fevereiro, segundo ele) de 1694. Seu nome verdadeiro é François Marie Arouet. Seu pai era tabelião e possuía pequena fortuna, sendo também conselheiro do rei. Sua mãe, Marie- Margherite Daumart, tinha origem aristocrática; desencarnou depois do parto. François foi franzino durante a infância e teve saúde fraca durante toda a vida. Tinha um irmão mais velho, Arnaud, que entrou para um culto herético jansenista. Voltaire encontrou na irmã, oito anos mais velha, uma segunda mãe a quem sempre amará com ternura. François revelou talento literário e sensibilidade poética logo na infância. Ele comprou livros com a herança de uma senhora que havia visto nele futuro cultural. Com esses livros, e sob a tutela de um abade, começou sua educação. O abade mostrou-lhe o ceticismo e as orações religiosas, mas o pai de François queria um futuro prático para o filho. Achava que a literatura não rendia dinheiro nem prestígio. Com o intuito de tornar o filho advogado do rei, coloca-o num colégio jesuíta. Ali, no colégio Louis-le-Grand, jesuítas ensinaram para Voltaire a dialética, (arte de dialogar progressivamente, para provar idéias). Ele discutia teologia com os professores, que o reconheciam como um "rapaz de talento, mas patife notável". Estudou ali por sete anos, tornando-se amigo de herdeiros das melhores famílias da nobreza. Seu padrinho o introduziu numa vida desregrada. Conheceu escritores, poetas e cortesãos. Ficava na rua até tarde, divertindo-se com fanfarrões epicuristas. Seu pai, homem sério, não viu com bons olhos as atividades do filho, e mandouo para a casa de um parente, para mantê-lo quase preso; mas o parente, quando o conhece melhor, gosta tanto dele que lhe dá a liberdade ansiada. Quando François termina o colégio, seu pai arranjou para que se tornasse pajem do marquês de Châteauneut, então partiu em missão diplomática com ele para Haya, Holanda (1713). Logo que chegou lá, encontrou uma moça: Olympe Runoyer, a Pimpette. François teve com ela encontros amorosos e queria que ela fosse morar com ele na França. Quando o caso foi descoberto, mandaram-no de volta para a casa de seu pai. Compôs uma ode a Luís XIII, com a qual participou de um concurso, que não venceu. Luís XIV desencarna e seu filho é muito jovem para ser rei. O poder ficou com um regente. Sem um governador legítimo, a vida em Paris corria sem controle. François começa a ficar conhecido por ser brilhante e turbulento. É malicioso, irônico, tem os olhos vivos e perspicazes. Tem como amante Susanne de Livry, a quem faz versos galantes, e começa a compor poemas cômicos. Aspira ser grande trágico, e não são poucas as suas tragédias: suas obras, somadas, dão noventa e nove volumes. É um espírito versátil, dono de uma cultura notável. Em 1715 escreve a peça Édipo e o poema Henríada, um épico sobre Henrique IV. Sua fama aumenta, e todas as coisas espirituosas e maliciosas são a eles atribuídas, inclusive algumas anedotas contra o regente que governava, duque de Órleans. As anedotas contavam que o regente conspirava para usurpar o trono... e, em 1717, o regente manda-o para a Bastilha, a prisão parisiense. Na Bastilha adota o nome de Voltaire. Depois de quase um ano de prisão, o regente coloca-o em liberdade. Produz, em 1718, a tragédia que escrevera, Édipo, que fica em cartaz quarenta e cinco noites seguidas, um recorde para a época. Com o lucro de 4000 francos da peça, Voltaire faz investimentos financeiros e empresta dinheiro, que eram bons negócios; assim, fez render seu dinheiro e pôde viver com folga. Em 1722 faz uma viagem à Holanda, onde admira a tolerância e a prosperidade comercial desse país. Uma briga com o duque de Sully, cavaleiro de Rohan, obrigou-o a exilar-se. O nobre não aceitou seu desafio para um duelo, e dispunha de meios para prendê-lo de novo. O cavaleiro mandou seus homens baterem nele, e manteve-o preso por um curto período, por isso preferiu o exílio na Inglaterra onde permaneceu até 1728. Lá alcançou o sucesso com Édipo e Henríada, passando, então, (de início a contragosto) três anos na Inglaterra, concebendo profunda admiração pelas instituições inglesas e escrevendo a sua primeira obra filosófica, que intitulou Cartas Inglesas. Nesse livro divulgava as idéias de Newton e de Locke, os quais tinha em grande consideração . Aprendera o inglês. Em Londres, ampliou sua cultura relacionando-se com os poetas Young e Pope, com o escritor Swift e o filósofo empirista Berkeley. Admira-se com a liberdade de expressão dos ingleses, que podem escrever o que querem. Aproxima-se da filosofia inglesa, em contatos com Bacon, Hobbes e Locke e os deístas. Estuda a fundo a obra de Newton, e mais tarde propagará suas idéias na França, com as Cartas filosóficas, de 1734. Em 1727 publica, em inglês, Ensaio sobre as guerras civis e Ensaio sobre a poesia épica. A maioria de suas obras posteriores – o Dicionário Filosófico, Candide, as histórias e muitos dentre os poemas e ensaios – relacionam-se também com a exposição da doutrina de que o mundo é governado por leis naturais e a razão e a experiência concreta são os únicos guias seguros que o homem pode seguir. Voltaire desprezava o fácil otimismo segundo o qual os males de cada um fazem o bem de todos e tudo marcha da melhor maneira no melhor dos mundos possíveis. Via, muito ao contrário, o sofrimento, o ódio, a discórdia e a opressão por toda parte. Somente no seu país utópico do Eldorado, que imaginou existir em alguma parte da América do Sul, havia liberdade e paz. Ali não havia monges, padres, processos ou prisões. Os habitantes conviviam sem malícia nem cobiça, adorando a Deus segundo os ditames da razão e
resolvendo os seus problemas por meio da lógica e da ciência. Mas uma vida tão idílica só era possível por estar em terra separada dos “assassinos arregimentados da Europa” por montanhas intransponíveis. Voltaire absorve rapidamente a cultura e a ciência inglesas. Gosta da tolerância religiosa. Começa a amar a marquesa de Châtelet, Emile de Bretiul. A marquesa é culta, traduzira Newton e apresentou Leibniz a ele. Ela lhe dá proteção no seu castelo de Cyrei (ela tinha vinte e oito anos, e ele quarenta). Graças ao exemplo dela e outras damas, prega a igualdade da capacidade mental inata para os dois sexos. No castelo de Cyrei, passavam o dia estudando, pesquisando e fazendo experimentos no laboratório. Voltaire, juntamente com Emile, aprofundou-se em física, metafísica, estudos bíblicos e história. O castelo tornou-se um centro cultural. Voltaire aperfeiçoa seu estilo irônico, aparentemente frívolo. Escreve Alzire, Mérope, O filho pródigo, Maomé, O mundano, O ingênuo e Cândido. São romances com bom humor; e deles Will Durant diz que os heróis são idéias, os vilões são supertições e os acontecimentos são pensamentos. Viaja com a sra Du Châtelet à Bélgica e à Holanda (1740), edita uma coletânea dos primeiros capítulos de Século de Luís XIX, que é apreendida. Neste ano é coroado o príncipe Frederico da Prússia, que o leva a Berlin e quer segurá-lo na corte, mas só o retém por algumas semanas. Vai, então, intercalando temporadas em Cirey e Bruxelas, cumprindo missões diplomáticas oficiosas junto a Frederico II, que insiste para que Voltaire se estabeleça na Prússia. Aos poucos, Voltaire volta a ter contato com Paris. Graças à proteção de madame Pompadour, torna-se historiógrafo real. Em 1745, Voltaire e a marquesa vão para Paris. Ele se torna candidato à Academia Francesa. Em 1746, é eleito. Em Paris escreve muitos dramas. Inicialmente fracassa, mas depois alcança sucesso com Zaire, Nahomet, Mírope, Semiramas. Depois de quinze anos, sua relação com a marquesa torna-se difícil. Em 1748, a marquesa começa um caso com Saint Lambert; em 1749, desencarna. Ainda em 1748, uma impertinência faz com que tenha que se refugiar no castelo de Sceaux, da duquesa de Maine. Passa temporadas em Lunéville, na corte do rei Estanislau. Foi um dos piores momentos de sua vida: minado pela doença, solitário, incerto de moradia. Com o desencarne de Emile, em Lenéville, retorna a Paris e instala-se na casa de sua sobrinha viúva, a sra. Denis. Reata com amigos e volta a freqüentar os meios teatrais. Frederico II, da Prússia, convida-o para fazer parte de sua corte em Postdam. Ele é convidado a ser professor de francês do monarca, que manda o dinheiro para a transferência. O convite deve-se ao fato de ser Voltaire querido por todos, e admirado por sua inteligência e seus escritos. A estada por lá lhe agrada, mas não de todo: foge das cerimônias oficiais. Frederico lhe é gentil e amável, e juntos mantiveram conversas de alto nível. Frederico e Voltaire tornaram-se muito amigos, e Voltaire não poupa elogios ao monarca. Por causa de uma interpretação divergente de um ponto da teoria newtoniana, Voltaire polemiza com um protegido do rei, Malpertuis, presidente da Academia de Berlim. Voltaire dirige seu ataque a Malpertuis num panfleto, Diatribe do dr. Akakia, em 1752. Quando o panfleto foi publicado, rei Frederico manda que todos sejam queimados, e Voltaire deixa a Prússia, escapando da raiva real. Em Frankfurt foi preso pelos agentes do rei. Fica preso durante semanas. Quando vai para a França, descobre que está proibido de entrar em Paris. Vai para Genebra, onde adquire uma propriedade chamada "As delícias". Ali ele termina suas maiores obras históricas, que iniciara em Cyrei: Um ensaio sobre o costume e o espírito das nações e sobre os principais fatos da história, de Carlos Magno a Luís XIII. e A era de Luís XIV. Descobre a natureza e a vida rústica, mas não deixa de montar espetáculos teatrais em casa, para escândalo do Grande Conselho de Genebra. Nas suas obras históricas, Voltaire não dedicou grande espaço à Judéia e ao cristianismo, relatou com imparcialidade a gigantesca cultura oriental. O Oriente tinha mais tradição que o Ocidente. Sob nova perspectiva, descobriu-se esse mundo, e os dogmas europeus puderam ser questionados. Conhecido como campeão da liberdade individual, considerava como totalmente bárbaras todas as restrições à liberdade de expressão e de opinião. Mas, se havia uma forma de opressão que Voltaire odiasse acima de todas as outras, era a tirania da religião organizada. Trovejou contra a monstruosa crueldade da igreja em torturar e queimar homens inteligentes que se atreveram a pôr em dúvida os seus dogmas. Com referência a todo o sistema de ortodoxia perseguidora e privilegiada, a dotou como lema a frase écrasons l’infame. Não era menos violento em seus ataques à tirania política, especialmente quando esta resultava em matança de milhares de criaturas para satisfazer as ambições dos déspotas. “É proibido matar”, dizia ele, com sarcasmo, “e portanto todos os assassinos são punidos, a não ser que o façam em larga escala e ao som de trombetas” (Dicionário Filosófico, verbete Guerra) Os enciclopedistas do Iluminismo Francês, encabeçados por Diderot, pedem sua contribuição. Escreve alguns artigos para a Enciclopédia. De um modo geral, Diderot e d’Alembert concordavam com o racionalismo e o liberalismo de Voltaire. Diderot, por exemplo, afirmava que “os homens jamais serão livres enquanto não seja estrangulado o último rei com as tripas do último padre”. D’Alembert afirmava que a garantia única de progresso residia no esclarecimento universal, sustentando que as verdades da razão e da ciência deviam ser ensinadas às massas, na esperança de que um dia o mundo inteiro pudesse libertar-se do obscurantismo e da tirania. Ocorre então uma ruptura entre Voltaire e Diderot, por desavença de opiniões. Voltaire sai de Genebra e vai para Ferney, onde permanece quase que o resto da vida. Cuidava de sua propriedade rural e escrevia muito. Plantou milhares de árvores. O lugar rapidamente se tornou um centro cultural, a exemplo do que acontecera com o castelo da marquesa. Alguns Iluministas iam para lá, como Helvetius e d'Alembert. Voltaire mantém vasta correspondência com gente de todos os tipos, incluindo muitos governantes. Em 1755 soube do terremoto em Lisboa, onde desencarnaram em torno de trinta mil pessoas. Lamentou a desgraça do destino dos vivos em um poema. Voltaire sempre lutou contra o preconceito e as supertições, preferindo, em lugar delas, a razão e a cultura elucidativa, portanto colocava-se contra o modo de o povo encarar tais fatos. A adoração a um Ente Supremo e submissão a suas leis eternas, sem conhecê-las por completo, resulta em rituais que não fazem sentido, não tem eficácia. Voltaire tem um tratamento racional para desvendar os mistérios da consciência humana. Critica
Descartes, preferindo a teoria de Locke, o qual coloca que tudo deriva das sensações. A sensação é tão importante quanto o pensamento, e o mundo é uma sensação contínua. Ele faz paralelos com a cultura grega e romana, nos verbetes do Dicionário Filosófico. As crenças têm um lado subjetivo muito forte. Esforçando-nos para ver a crença, ela acabará por existir, para nós. Desde 1757 a correspondência de Voltaire torna-se o eco de seu século, não cessa de lutar por seus ideais. O artigo “Genève” provoca indignação em Genebra, ameaçando o agradável retiro do filósofo. É neste ano que reata a correspondência com Frederico II. Tenta conciliar o grupo dos enciclopedistas, não o consegue e pára de colaborar em junho de 1758. Ao complicarem-se as relações entre Versailles e Berlin a guerra se alastra, compra, então, as terras de Ferney, em terra francesa, porém na fronteira da Suíça, e muda-se acompanhado da sobrinha. Ali escreve Cândido, que publicará em 1759; passará a ter vida intensa, dividindo-se entre Délices e Ferney, onde se instalará definitivamente em 1760. Inicia hostilidades públicas com J.J. Rousseau, briga que será longa. Nesta época amplia-se a propaganda deísta, escreve Le sermon des cinquante e Extrait du testament du cure e, por fim, Traité sur la Tolérance. O Dicionário Filosófico foi publicado em 1764. Foi o primeiro livro de bolso da história e alcançou muito sucesso. As idéias nele contidas são revolucionárias, pois criticam o Estado e a religião. Voltaire faz muitas citações de grandes autores, e o livro tem uma parte histórica grande. Voltaire faz parte desse movimento de renovação da cultura e crítica da política absolutista que se chamou Iluminismo. Suas idéias foram propagadas na Revolução Francesa pois refletiam os ideais dessa revolução, durante a qual foi muito lembrado. Voltaire não despreza a cultura pagã e a oriental, como fazem outros autores. As religiões instituídas eram estigmatizadas como instrumentos de exploração, que astutos velhacos tinham inventado para poderem pilhar as massas ignorantes. Dizia Voltaire, deísta: “O primeiro teólogo foi o primeiro espertalhão que encontrou o primeiro tolo” (Dicionário Filosófico, verbete Religião). Não satisfeitos em condenar os elementos irracionais da religião, os deístas passaram a denunciar todas as formas de fé organizada, almejando construir uma forma mais simples, dentro destes princípios: 1) Existe um Deus único que criou o Universo e estabeleceu as leis naturais que o regem; 2) Deus não intervem nos negócios do homem, neste mundo; 3) Não se suborna Deus através de simulacros, rituais, etc; 4) O homem é dotado de livre arbítrio, não há predestinação. Para Voltaire, a metafísica é uma quimera. Pode-se escrever mil tratados de sábios e não desvendar o segredo do universo, ou questões como: O que é a matéria? Porque as sementes germinam na terra? Para os Iluministas, a ignorância e o medo criaram os deuses, e a fraqueza os preserva. É um empecilho para a civilização. O materialismo é preferencial à teologia. Essas idéias foram defendidas na Enciclopédia, cujo principal autor é Diderot. Os enciclopedistas chamavam Voltaire de fanático, por acreditar em Deus. Voltaire via Deus na harmonia inteligente entre as coisas, mas negava o livre arbítrio e a providência. Respondeu ao Barão d'Holbach, notório ateu, que o título de seu livro O sistema da natureza demonstra a inteligência superior. Voltaire foi um defensor da justiça. Defendeu muitos que estavam em desgraça e lutou contra a tirania. Não se entusiasmava com as formas de governo. Achava os legisladores reducionistas. Como viajou muito, não era patriótico. Não confiava no povo e não gostava da ignorância, que estava muito difundida. Levantava dúvidas, muitas de suas obras são repletas de perguntas. Numa carta a Rousseau, na qual comenta o Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade, respondeu-lhe ironicamente que o seu livro (de Rousseau) fazia desejar voltar a ser animal e andar de quatro patas, mas que ele, Voltaire, já havia abandonado esse hábito há sessenta anos. Em 1765 Voltaire acolhe a reabilitação de Calas (protestante acusado falsamente em 1763 da morte de seu filho e executado, sendo que Voltaire consegue a revisão do processo três anos depois) como sendo “uma vitória da filosofia”. A partir daí, solicitado ou por iniciativa própria, intervirá em causas desse gênero quase todos os anos, sendo até ajudado pelos reis da Prússia, da Polônia, da Dinamarca e por Catarina da Rússia, como no caso da defesa da família Sirven. Em 1767 publica Anecdote sur Bélisaire, Questions de Zapatta (contra Sorbonne), Le dîner du comte de Boulainvilliers (contra o cristianismo), L’Ingénu, Précis du siècle de Louis XV, La princesse de Babylone, L’homme aux quarente écus, Lês singularités de la nature. Lança ao ministério francês a idéia de facilitar o estabelecimento de refugiados genebrinos em Versoix, França, o que ativaria o comércio. Sem ajuda oficial, com sua imensa fortuna, Voltaire conseguiu realizar isso em pequena escala. Como um patriarca, adorado de seus protegidos, cuida de questões administrativas e de obras públicas da região de Gex, onde está Ferney. Em Paris é feita uma subscrição pública para a estátua de Voltaire (Rousseau está entre os subscritos). Nos anos de 1771/72, pela segunda vez Voltaire compõe um dicionário acerca de suas idéias, convicções, gostos, etc. São nove volumes de Questions sur L’Encyclipédie, publicados à medida que terminados. Sem abandonar suas lutas nem sua direção filosófica, deixa diminuir a produção literária; sofre graves acessos de estrangúria em 1773. Anos mais tarde, em 1776, sustenta a política econômica de Turgot até sua queda, a qual deplorará como uma derrota da filosofia do século. Publica a tragédia Don Pèdre e dois contos (Les oreilles du comte de Chesterfield e Histoire de Jenni – contra as audácias do ateísmo e do materialismo modernos). Fruto de trinta anos de crítica apaixonada da Bíblia e de sua exegese, publica nesse ano La Bible enfin expliquée. O Preço da Justiça é uma as últimas obras de Voltaire, escrita em 1777. Opinam sobre esta obra os déspotas esclarecidos Catarina II, da Rússia, e Frederico II, Prússia. Dizia ela: “Fico lisonjeada com que a sociedade de Berna aprove essa maneira de pensar (um prêmio sobre a questão dos crimes e das penas). Esteja, senhor, certo de que a minha, em relação ao senhor, não está submetida a nenhuma variação”. Nas cartas desta época, Voltaire passou a assinar-se Le
vieux malade de Ferney (o velho doente de Ferney); em carta de 24 de novembro, diz-lhe Frederico II: “Senhor, recebi a carta do dia 27 do mês passado, com O Preço da Justiça e da Humanidade. Apressei-me a lê-lo e vi nessa obra a justiça e a humanidade traçadas, ambas, no papel, com a pena mais eloqüente e a prosa mais bela. Seria desejável que jurisconsultos pensassem como o senhor sobre esse assunto”. Aos oitenta e três anos, em 1778 viajou para Paris, para rever a cidade-luz, depois de tanto tempo. Teve calorosa recepção. Assistiu a uma peça sua encenada. Foi até a Academia de Letras de Paris, recebendo uma homenagem. Três dias de visitas e homenagens ininterruptas deixam-no esgotado. Fica acamado três semanas, confessa-se e recebe a absolvição, depois de submeter-se a uma retratação escrita, declarando morrer na religião católica. É a última batalha: a insubmissão, com o risco de ser jogado na vala comum após o desencarne, ou a submissão, com a negação de sua obra e de sua influência. Mal se restabelece, recomeça a roda-viva. Em 30 de março é seu dia de apoteose com sessão de honra na Academia e representação triunfal da tragédia Irène. Em 7 de abril é recebido maçon na loja doas Neuf-Soers. Esgota-se redigindo um plano de trabalho para a Academia. Desencarna no dia 30 de maio e, apesar as interdições, é enterrado em terra cristã, na abadia de Scellières, em Champagne. Suas cinzas serão transferidas para o Panthéon em 12 de julho de 1791, em meio à alegria popular.
Frases: "Posso não concordar com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo." "Paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma. As paixões são como ventanias que enfunam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveria viagens nem aventuras nem novas descobertas." Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral, onde se encontram remédios para todos os males." "Devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas respostas." "A primeira lei da natureza é a tolerância - já que temos todos uma porção de erros e fraquezas." “Caberá à justiça ser secreta? Só é próprio do crime o esconder-se”. “Vós respondereis, por certo, que não se trata de discutir qual é a punição mais suave, porém a mais útil. O grande objetivo, como dissemos, é ser útil ao público; e, sem dúvida, um homem votado todos os dias a preservar uma região da inundação por meio de diques, ou a abrir canais que facilitem o comércio, ou a drenar pântanos infestados, presta mais serviços ao Estado que um esqueleto a pendular de uma forca numa corrente de ferro, ou desfeito em pedaços sobre uma roda de carroça”. (Artigo III, O Preço da Justiça) “Visto haver ainda povos cristãos – mas que estou dizendo! -, sacerdotes cristãos, monges cristãos que usam a tortura como principal argumento, é preciso começar a dizer-lhes que Calígulas e Neros nunca ousaram exercer esse furor contra um único cidadão romano”. (Artigo XXIV, O Preço da Justiça)
resumos: Em O Ingênuo, um príncipe huroniano chega na França e se submete aos costumes franceses, tornando-se católico, ganhando, por isso, de um abade, um exemplar do Novo Testamento. Através de colocações aparentemente simples, questiona fatos e conceitos. O romance mostra as diferenças entre o cristianismo primitivo e eclesiástico. No romance Micrômegas, Voltaire narra a visita de um enorme habitante de Sirius à Terra. Com cem quilômetros de altura, setenta e dois sentidos, essa raça costuma viver quinze mil anos. Sob essa perspectiva, vem à tona a finitude e a pequenez da Terra e seus habitantes. O extraterrestre diz que é na Terra que a felicidade mora, dirigindo-se aos humanos como átomos inteligentes e imateriais. Um filósofo humano expõe ao visitante a brutalidade da existência na Terra, provocando-lhe a ira e decepção. O filósofo consegue dissuadi-lo de matar a todos com suas passadas. Cândido, sua obra principal, foi escrita em três dias. Conta a história de um simples rapaz, filho de um barão. Seu mestre, Pangloss, inverte a lei da causalidade, ao afirmar que as pedras forma feitas para construir castelos e o nariz para suportar óculos. No entanto, se acha muito culto. O exército búlgaro invade o castelo onde Cândido mora e o transforma em soldado. Entre morrer e ser açoitado, Cândido prefere o açoite. Agüenta as chibatadas de todo o regimento durante um tempo. Os pais de Cândido são assassinados, e o castelo é destruído. O rapaz consegue fugir para Lisboa, e no barco que o leva até lá, encontra Pangloss. Em Lisboa ocorre o terremoto. A Inquisição durou mais tempo em Portugal, que se manteve católica e não aderiu ao protestantismo. Cândido, fugindo dela, vai para o Paraguai, país onde há muita diferença social. Ele é feito escravo, mas depois se torna assessor de seu senhor. Cândido acha ouro no interior virgem do Paraguai, mas é enganado e fica sem quase nada. Vai para Bordeaux com o que sobrou. E Cândido prossegue, sofrendo males a aventuras. Vai para a Turquia. No livro, Voltaire critica a teologia medieval e o otimismo de Leibniz, que diz ser esse o melhor dos mundos possíveis. Certa feita, um jovem defendeu Leibniz, criticando Voltaire, que perguntou: "Se esse é o melhor dos mundos possíveis, porque existem tantos males e injúrias?" Apesar disso, o mal, para Voltaire, não é metafísico, mas sim social. Deve-se superá-lo com trabalho e com a razão. O homem deve estar sempre ocupado, para não ficar doente e morrer. Voltaire era muito ativo e combateu o ócio. Rousseau via críticas pessoais no trabalho de Voltaire. ________________________________________________________________________________________
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.