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Capítulo 22 de 38

Lao-Tsé

As Vidas de Osvaldo Polidoro

As introduções à cultura chinesa e sua história espiritual falam habitualmente das três doutrinas: Ju (confucionismo), Tao (taoísmo) e Fo (budismo), sendo que, particularmente na literatura ocidental, “doutrina” e “religião” são colocadas no mesmo plano. O nome Lao Tsé, velho Mestre, está ligado ao surgimento da filosofia de vida do taoísmo, sendo que o textochave é o Tao Te Ching – Cânon do Caminho e da Virtude. A mais antiga nota biográfica sobre Lao Tsé vem de um historiador da corte dos imperadores Tan, em 100 aC. Seu nome era Erh Li, e na maturidade passa a ser Dan. Nasceu em uma aldeia do Estado de Ch’u, extremo sul da China Imperial. É nebuloso o fato de ter Lao Tsé entrado em contato com Confúcio, nada podendo ser provado; tem-se de concreto o arrependimento de Confúcio (por ter sido falso profeta) e sua mudança de conduta, passando a ser discípulo de Lao Tsé. Diz-se que Erh Dan Li tinha uma personalidade marcante e dotada de grande afabilidade e inteligência, recebendo tudo o que seu pai poderia oferecer-lhe em conhecimentos: foi discípulo de grandes mestres de sua época. De acordo com a tradição, Lao Tzu (Lao Tsé) foi guardião dos Arquivos Imperiais de Loyang (província de Honan) até que, enojado com a hipocrisia e a decadência, foi procurar a virtude em ambiente mais natural. Partiu em direção a uma região que hoje é o Tibet. Ao atravessar a fronteira (em Hank Pass), o guarda Yin Xi lembrou-lhe de que seus ensinamentos perder-se-iam, pois não haviam sido gravados. Pediu-lhe que os registrasse por escrito para a sua preservação para a posteridade. Lao Tzu nada escrevera antes, pois admitia que a observação da natureza era mestre mais confiável que as palavras dos homens, mas atendeu ao pedido do guarda e deixa uma coletânea de 81 parágrafos que não transmitem princípios doutrinários, mas versos que as pessoas adaptam nas diversas situações, dando uma maneira de aplicação prática de se viver em harmonia, dentro do equilíbrio das polaridades da manifestação do TAO. O nome Lao Tsé aparece pela primeira vez nos textos do século III aC. Nos primeiros tempos da dinastia Han (começo do século II aC), sua doutrina deve ter alcançado uma posição de absoluto predomínio. Quando, em 127 aC, a tradição clássica confucionista foi erigida como única doutrina a ser ministrada na Academia Imperial, ocorreu ao mesmo tempo a degradação das tendências doutrinárias não-confucionistas, como sendo heterodoxas. Com isso, também os ensinamentos de Lao Tsé desapareceram do horizonte oficial. Em conseqüência, não foi mais possível reconstruir a sua tradição nos séculos seguintes. Na segunda metade do século II, surgiu uma seita que evoluiu para um movimento popular, uma rebelião espalhada pelo país. Com seu líder –Chang Tao Ling- começou uma hierarquia que perdura até hoje. Esse movimento denominou-se taoísmo, Doutrina de Tao, taoísmo religioso. Lao Tsé assou a ser venerado como seu patriarca e foi, inclusive, divinizado. A ortodoxia neo-confuncionista desaloja esta posição no início do século XX sob a alegação de que seriam vários os autores da doutrina, colocando abaixo, portanto, os dados do historiador Sse-Ma Ch’ien... porém, ainda hoje as estátuas do divinizado Lao Tsé são veneradas. Segundo Wang Pi, temos que na época em que a dinastia Han sucumbia em meio a uma terrível desordem, havia uma divisão em três focos de poder. A síntese arquitetada no século II aC – que associava a Escola confuciana a uma compreensão do universo – perdera a sua força inspiradora original. O mundo chinês estava em crise espiritual... A antiga concepção chinesa do mundo e do homem encontrou aqui as suas primeiras idéias fundamentais (mais tarde decisivas para o desenvolvimento de uma história espiritual) voltando aos antigos escritos taoístas. Gradativamente, o influxo da filosofia budista veio acrescentar-se ao pensamento da elite, de tal sorte que se difundiu o conceito de que “as três doutrinas” eram complementares entre si. Durante mais de um milênio a religião espalhou-se por toda a China e por partes significativas da Ásia. Com o fim da dinastia Ch’ing em 1911 o apoio estatal ao taoísmo terminou, e a China voltou a entrar numa fase de violentos confrontos internos. Com a revolução de 1949, as práticas religiosas também foram esquecidas e só depois de 1982, com a maior tolerância religiosa permitida por Deng Xiao-ping, é que o taoísmo voltou a expandir-se.

A obra: O Caminho, o Tao, está expresso em uma obra, Tao Te Ching (ou King), coletânea de 81 pequenos aforismos - síntese do pensamento monista chinês. Tao (modo de vida) Te (ajuste de vida pelo homem) Ching (texto). Há vários sentidos na tradução: “As leis da Virtude e seus caminhos”, “Como as coisas acontecem”, “O Livro que revela Deus”, “O Livro que leva à divindade”. De início, o Tao Te Ching era uma obra destinada aos sábios, aos líderes políticos e aos governantes da China, constando, originalmente de 5 000 caracteres.

O taoísmo é praticado no oriente sob duas formas: Taoísmo Filosófico e Taoísmo Religioso. Os taoístas filosóficos vêem o Tao como método de vida, guia para se achar a harmonia entre o ser e a natureza. Os religiosos acreditam na existência de um lugar de grandes e pequenos deuses, estudam a natureza procurando encontrar formas de mudá-la. Estes desenvolveram complicadas cerimônias mágicas e algumas formas de artes marciais. Na realidade, no Taoísmo encontra-se um dos princípios herméticos, o princípio da Polaridade: tudo na natureza tem o seu oposto, físico ou biológico, os pólos yang e yin.

Sobre o governante ideal: (a necessidade de ter em mente a unidade dos opostos). O governante deve ter a capacidade de conduzir de tal maneira o processo de complementação dos contrários a ponto de não permitir que eles se apresentem como contrários.

“Quando todo o mundo conhece a beleza do que é belo, então é dada a conhecer também a feiúra. Quando todo mundo conhece a bondade do que é bom, então é dada a conhecer também a maldade. Dessa forma, o que é e o que não é aparecem à luz, o pesado e o leve mutuamente completam-se, o comprido e o curto entre si medem-se, o alto e o baixo inclinam-se um ao outro, sons fortes e fracos harmonizam-se, o adiante e o atrás se sucedem...” (cap 2)

Quando não se privilegiam os capazes, não haverá rivalidades entre o povo. Quando não se dá valor aos bens difíceis de conquistar, acabarão as roubalheiras entre o povo. Quando não se expõe à vista um objeto de desejo, os corações do povo não entram em confusão. Por isso, o santo, em seu governo, esvaziará os corações do povo e encherá as suas barrigas. Enfraquecerá as suas vontades e fortalecerá os seus ossos. Providenciará para que o povo permaneça na ignorância e sem desejos e para que os sábios não se atrevam a imiscuir-se com ele”. (cap 3)

A tradução da palavra Te pode ser “Força Verdadeira”, comumente vertida como “virtude”. Neste trecho, Te tem o sentido de força, conquistada pelo apreço do que é humilde. Isto vem ilustrado ainda mais claramente por meio da metáfora da água, como imagem da fraqueza que supera a força:

“Nada no mundo é mais fraco que a água, mas nada se lhe compara no seu embate contra o que é forte, porque nada há que possa substituí-la.” (cap 78)

“O fundamento pelo qual o rio e o mar são na verdade os reis de centenas de vales é justamente porque sabem que estão por baixo”. ... “Portanto, se alguém quiser estar acima do povo, deve, por suas palavras, colocar-se abaixo dele, e se alguém quiser estar à frente do povo, é preciso segui-lo...” (cap 66)

Quanto à palavra Wu Wei, que acolhe traduções diversas (“não-intervir”, “não fazer”, “não atacar”), para o que se dispõe a governar não quer dizer “não intervenção” nos processos naturais do mundo, mas manter-se afastado, conscientemente, da idéia de que “eu sou aquele que faz isso ou aquilo”:

“Ele não se mostra, por isso brilha. Não se afirma a si mesmo, e com isso adquire fama. Não se vangloria, e isso lhe resulta em proveito. Não se exalta a si mesmo, e com isso ele é o maior. Por não se meter em emulações, ninguém no mundo terá como rivalizar com ele”.(cap 22)

Quanto a um antecedente Criativo:

“Ele é silencioso e informe, subsiste por si, e não se altera, tudo circunda permanentemente; poderia ser a mãe do mundo”. (cap 25)

“Se encontraste a Mãe, então conheces o filho. Se conheces o filho, então volta atrás e agarra-te à Mãe. Assim estarás a salvo, até o fim da tua vida”. (cap 52)

O movimento do Tao é de retorno. Muitos aspectos do taoísmo podem ser interpretados como uma fuga do mundo, como uma auto-retração do mundo, mas a mensagem de Lao Tsé pode também ser entendida como a experiência pura do poder Criador, no seio da vida e da comunidade:

“Aquele que se dedica ao estudo cresce diariamente, aquele que se dedica ao Tao diariamente diminui. Por meio de diminuições e mais diminuições, chegarás à não-intervenção, e na não-intervenção nada há que não aconteça” (cap 48)

“Aferrolha as tuas aberturas, cerra as tuas portas, e estarás livre de fadiga, até o fim da tua vida” (cap 52).

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.