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Capítulo 30 de 38
Francisco De Assis
As Vidas de Osvaldo Polidoro
Pedro Bernardone, ainda solteiro já era o mais rico comerciante de Assis, na Itália. Atravessou os Alpes e foi até a França, onde travou conhecimento com culturas estrangeiras, e provavelmente foi aí que conheceu também Pica de Bourlemont, com quem se casou mais tarde. Logo depois do casamento, Pedro voltou para a França em busca de finíssimas mercadorias e seu filho nasceu em Assis, em sua ausência. Em 26 de setembro de 1182, sem esperar o regresso do marido, Dona Pica faz batizado do recém-nascido, impondo-lhe o nome de João em honra de João Batista, pelo qual santo teve sempre grande devoção. Mas para Pedro Bernardone, João nada significava; entusiasmado com os seus negócios e com o que tinha visto na terra francesa, mudou-lhe o nome para Francesco. Francisco Bernardone tirou todos os proveitos de sua condição social vivendo entre os amigos boêmios. Tentou como o pai, seguir a carreira de comerciante, mas a tentativa foi em vão. Eram freqüentes, nesta época, guerras e batalhas entre os senhores feudais e as emergentes comunas. Como todo jovem ambicioso de sua época, Francisco desejava conquistar, além da fortuna, também a fama e o título de nobreza. Para tal, fazia-se necessário tornar-se herói em uma dessas freqüentes batalhas. No ano de 1201, incentivado por seu pai, que também ansiava pela fama e nobreza, Francisco partiu para mais uma guerra que os senhores feudais, baseados na vizinha cidade de Perúsia, haviam declarado contra a Comuna de Assis. Durante os combates, em uma tarde de inverno, Francisco caiu prisioneiro, sendo levado para a prisão de Perúsia, onde permaneceu longos e gelados meses. Para um jovem cheio de vida como ele, a inércia da prisão deve ter sido especialmente dolorosa! Somente seu espírito alegre, seu temperamento descontraído e seu gosto pela música salvaram-no do desespero. Encontrava ainda forças para reconfortar e reanimar seus companheiros de infortúnio. Ao término de um ano foi solto da prisão, retornando para Assis, onde se entregou novamente aos divertimentos da juventude e às atividades na casa comercial de seu pai. O clima insalubre da prisão, agravado pelos prolongados meses de inverno, haviam enfraquecido o seu organismo, provocando agora uma grave enfermidade. Depois de longos meses de sofrimento sem poder sair da cama, finalmente conseguiu melhorar. Ao levantar-se, porém, não era mais o mesmo Francisco. Sentiu-se diferente, sem poder compreender o porquê. A verdade é que a humilhação e o sofrimento da prisão, somados ao enfraquecimento causado pela doença, provocaram profundas mudanças no jovem Francisco. Foi o caminho que Deus escolheu para entrar mais profundamente em sua vida. Já não sentia mais prazer nas cantigas e banquetes em companhia dos amigos; começou a perceber a leviandade dos prazeres puramente terrenos, mas conservava ainda a ambição da fama. Aderiu prontamente ao exército que o Conde Gentile de Assis estava organizando para ajudar o Papa Inocêncio III na defesa dos interesses da Igreja. Contou para isso com a aprovação entusiasmada do pai, que vislumbrava aí a oportunidade tão longamente esperada de enobrecer sua família. Deus, porém, lhe reservava algumas surpresas... Antes de partir, num impulso de generosidade, Francisco cedeu a um amigo mais pobre os ricos trajes e a armadura caríssima que havia preparado para si. Isso lhe valeu um sonho estranho: viu um castelo repleto de armas destinadas a ele e a seus companheiros. Francisco não conseguiu entender o significado do sonho. Pensou que estava, talvez, destinado a ser um famoso guerreiro! O fato é que o sonho não lhe saía do pensamento. Ao chegar ao povoado de Espoleto, Deus tornou a lhe falar em sonhos, desta vez com maior clareza, de modo que ele reconheceu a voz divina que lhe perguntava: "A quem queres servir: ao Servo ou ao Senhor?" Francisco respondeu prontamente: "Ao Senhor, é claro!" A voz tornou a lhe falar: "Por que insistes, então, em servir ao servo? Se queres servir ao Senhor, retorna a Assis. Lá te será dito o que deves fazer!" Francisco entendeu, então, que estava buscando apenas a glória humana e passageira. Estava fazendo a vontade de pessoas ambiciosas e mesquinhas e não a vontade do Senhor do Universo. Em busca de respostas, decidiu viajar para Roma no ano de 1205. Visitou a tumba do Apóstolo São Pedro e, indignado pelo que viu, exclamou: "É uma vergonha que os homens sejam tão miseráveis com o Príncipe dos Apóstolos!" E jogou um grande punhado de moedas de ouro, contrastando com as escassas esmolas de outros fiéis menos generosos. A seguir, trocou seus ricos trajes com os de um mendigo e fez sua primeira experiência de viver na pobreza. Voltou a Assis, à casa paterna, entregando-se ainda mais à oração e ao silêncio. A família e os amigos estavam preocupados com o jovem Francisco: o que lhe estaria acontecendo? Será que ainda estava em pleno juízo? Seu pai, então, não se conformava! Não era isso que ele tinha sonhado para seu filho! Indignado, forçava-o a trabalhar cada vez mais. Suas revelações não parariam por aí. Em Assis, dedicou-se ao serviço de doentes e pobres. Num dia do outono de 1205, enquanto rezava na igrejinha de São Damião, ouviu a imagem de Cristo lhe dizer: "Francisco, restaura minha casa decadente". O chamado foi tomado no sentido literal: vendeu as mercadorias da loja do pai para restaurar a igrejinha. Como resultado, o pai de Francisco, indignado com o ocorrido, deserdou-o. Em 1206, passeando a cavalo pelas campinas de Assis, viu um leproso, que sempre lhe parecera um ser horripilante, repugnante à vista e ao olfato, cuja presença sempre lhe havia causado nojo... mas, então, como que movido
por uma força superior, apeou do cavalo e, colocando naquelas mãos sangrentas seu dinheiro, aplicou ao leproso um beijo de amizade. Falando depois a respeito desse momento, ele diz: "O que antes me era amargo, mudou-se então em doçura da alma e do corpo. A partir desse momento, pude afastar-me do mundo e entregar-me a Deus". Ao final de 1206, Pedro Bernardone, convencido de que nem as razões nem a força podiam torcer o ânimo de Francisco, decidiu recorrer ao Bispo, instaurando-se um julgamento como nunca aconteceu na história de outro santo. O palco do julgamento foi a própria Praça Comunal de Assis, bem à vista de todos. Bernardone exigiu que seu filho lhe devolvesse tudo quanto recebera dele. Francisco, sem vacilar um momento, despojou-se de tudo até ficar nu. Jogou os trajes e o dinheiro aos pés de seu pai, e exclamou: "Até agora chamei de pai a Pedro Bernardone. Doravante não terei outro pai, senão o Pai Celeste". O Bispo, então, o acolheu, envolvendo-o com seu manto. Muitos começaram, enfim, a compreender o sentido dessa vida e manifestaram o desejo de segui-la. O primeiro foi um homem rico de Assis, Bernardo de Quintaval. Ao perguntar para Francisco: "O que devo fazer para seguir-te"?, este decidiu, como em todos os momentos decisivos de sua vida, recorrer ao Evangelho para que o próprio Cristo lhes desse a resposta. De manhã, bem cedo, foram ambos à missa. Pelo caminho juntou-se aos dois Pedro de Catânia, doutor em Direito e novo companheiro. Por três vezes abriram o livro do Evangelho, e as três respostas que encontraram foram as seguintes: "Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá-o aos pobres. Depois vem e segue-me"(Mt 19,21). "Não leveis nada pelo caminho, nem bastão, nem alforje, nem uma segunda túnica..."(Lc 9,3). "Se alguém quer vir após mim, neguese a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me" (Mt 16,24). O exemplo de Bernardo produziu frutos. O primeiro é o sacerdote Silvestre, que exclamou comovido: "Como posso eu, sacerdote e velho, ser menos generoso que estes jovens e ricos?" E, sem mais, lançou-se com eles na aventura de viver o Evangelho, tornando-se, assim, o primeiro sacerdote da Ordem Franciscana! Prontamente aderiram outros: Gil, um modesto lavrador que se tornaria um grande santo; Morico, dedicado ao serviço dos leprosos; Bárbaro, futuro missionário no Oriente; Sabatino, Bernardo de Viridiante, João de Constança, Ângelo, da ilustre família dos Tancredo, aparentado com reis e príncipes; Felipe, grande pregador; e muitos outros... Um deles, João de Capela, apostatou e, finalmente, se enforcou. Muitos consideram que é grande exemplo e motivo de humildade e temor, considerando que ninguém tem a certeza de perseverar até o fim. Todos esses homens foram de tanta santidade no comportamento que se diz que no mundo, desde o tempo dos apóstolos, não houve outros tais. Juntos, formaram um grupo de mendigos voluntários (daí o adjetivo de Ordem Mendicante dado à Ordem Franciscana), que trabalhavam e rezavam, cantavam e pregavam, maravilhando o povo com a novidade do Evangelho sendo vivido diante de seus próprios olhos. Algumas choupanas cobertas de folhagem, no pitoresco vale do Rivotorto, serviam-lhes de modesto abrigo. “Aqueles que vinham abraçar esta vida distribuíam aos pobres tudo o que tinham. Contentavam-se só com uma túnica, uma corda e um par de calções, e não queriam mais”, dirá mais tarde Francisco em seu Testamento. Os novos apóstolos reuniram-se em torno da pequena igreja da Porciúncula, ou Santa Maria dos Anjos, que passou a ser o berço da Ordem. A regra predominante é a da alegria de servir a Deus e ao semelhante, além de fazer a exortação ao apostolado: a observação prática, vivida, do exemplo de Jesus. Com a renúncia definitiva aos bens materiais paternos, Francisco deu início à sua vida religiosa, "unindo-se à Irmã Pobreza". No ano de 1210, Francisco e seus seguidores viajaram até Roma para buscar a aprovação do Papa para a regra de vida adotada por eles. Mas como aquele bando de mendigos, maltrapilhos e desconhecidos, seria recebido pelo Severo Inocêncio III? Francisco rezava e confiava. Por coincidência ou providência divina, encontrava-se em Roma, nessa ocasião, o Bispo de Assis, grande admirador de Francisco. Graças a ele, o Papa os recebeu e ficou maravilhado com o propósito de vida daquele grupo, especialmente, com a figura de Francisco, a clareza de sua opção e a firmeza que demonstrava. Reconheceu nele o homem que há pouco vira em sonho, segurando as colunas da Igreja de Latrão (a igrejamãe de todas as Igrejas do mundo!), que ameaçava ruir. O Papa reconheceu que era o próprio Deus quem inspirava Francisco a viver radicalmente o Evangelho, trazendo vida nova a toda a Igreja, naquele tempo tão distanciada dos ensinamentos de Cristo! Por isso deu ao modo deles viverem o Evangelho a aprovação oficial da Igreja. Autorizou Francisco e seus seguidores a pregarem o Evangelho nas igrejas e fora delas, e despediu-se deles dando sua bênção. Este fato histórico ocorreu a 16 de abril de 1210, marcando o nascimento oficial da Ordem Franciscana. Certa noite, os frades viram um carro de fogo de um esplendor maravilhoso, com um globo brilhante, parecido com o sol, entrar pelo aposento em que estavam, dando três voltas no recinto. Compreenderam que Deus quisera mostrarlhes, por aquela figura, “que seu pai Francisco viera ‘no espírito e na força de Elias’. Desde então [Francisco] penetrava os segredos de seus corações, predizia o futuro e realizava milagres. Estava patente para todos que o espírito de Elias era presente com tal plenitude, que o mais seguro para todos era seguir sua vida e ensinamentos”. Francisco manifestava seu amor a Deus por uma alegria imensa, que se expressava muitas vezes em cânticos ardorosos. A quem lhe perguntava qual a razão de tal alegria, respondia que “ela deriva da pureza do coração e da constância na oração”. O trabalho foi tão bem realizado que, por toda Itália, os irmãos chamavam o povo à fé e à penitência. A sede da Ordem, na capela de Ponciúncula de Santa Maria dos Anjos, estava superlotada de candidatos ao sacerdócio. Para suprir
a necessidade do espaço, foi aberto outro convento em Bolonha. Um fato interessante entre os pregadores itinerantes foi que poucos, dentre eles, tomaram as ordens sacras. Francisco de Assis, por exemplo, nunca foi sacerdote. Essa divina loucura que assomou Francisco e angariou muitos discípulos, devia atrair também uma jovem, filha do Conde de Sasso Rosso, Clara, de 17 anos. Desde o momento em que ouviu o Pobrezinho pregar, compreendeu que a vida que ele indicava era a que Deus queria para ela. Francisco tornou-se seu guia e pai espiritual de sua alma. Como os pais tinham outros planos para Clara Scifi, foi preciso que ela fugisse para a igrejinha da Porciúncula, onde Francisco cortou-lhe os cabelos e fê-la vestir um simples hábito. Nascia assim a Ordem Segunda dos Franciscanos, a das Clarissas. Duas semanas depois, Inês, irmã de Clara, seguia-a no claustro, e mais tarde uma terceira, Beatriz. Já em 1217, o movimento franciscano começou a se desenvolver como uma ordem religiosa. E como já havia ocorrido anteriormente, o número de membros era tão grande que foi necessária a criação de províncias que se encaminharam por toda a Itália e para fora dela, chegando inclusive à Inglaterra. Não havia, a princípio, a clausura. Viviam da caridade alheia, recebendo alimentos e roupas, não podendo, entretanto, receber dinheiro. Trabalhavam com dinamismo ajudando os necessitados. Era uma existência de oração e recolhimento. Os pés descalços das irmãs leigas percorriam longas distâncias na busca do que necessitavam, realizando extraordinária obra de amor praticado. Chegaram a ser advertidas pelo papa Gregório IX (em 1228, depois do desencarne de Francisco de Assis) quanto aos rigores demasiados de suas vidas, ao que lhe respondeu Clara: “Santo padre, absolveime de meus pecados, mas não do voto de seguir Nosso Senhor”. À medida que os seguidores de Francisco de Assis se afastavam dos ideais de seu fundador, mais Clara deles se aproximava. Apesar de pregar sobretudo aos pobres e com eles identificar-se, Francisco tinha o hábito de alertar seus discípulos, exortando-os a não condenar e não desprezar ‘aqueles que viviam na opulência e se vestiam com luxo’. Dizia que ‘também esses têm a Deus por senhor, e que Deus pode, quando quer, chamá-los, como aos outros, e torná-los justos e santos”. Um desses nobres deu ao Poverello (o Pobrezinho) o Monte Alverne, onde ele receberia a maior graça de sua vida. Em 1217, indo a Roma, Francisco encontrou-se com outro luminar da Igreja da época, Domingos de Gusmão, que também havia fundado uma Ordem religiosa para combater a decadência dos costumes. Os dois santos se abraçaram, estabelecendo uma amizade solidificada pelo amor de Deus. Pouco depois Francisco recebia em sua Ordem um dos que seriam sua maior glória e se tornaria um dos santos mais populares do mundo, Frei Antônio de Lisboa — mais tarde, também “— de Pádua” (Santo Antônio é uma das vidas de João Evangelista). Em 1219, ano em que os cruzados partiram para o Egito a fim de combater os muçulmanos, Francisco também seguiu para lá, com a intenção de convertê-los pela palavra. O apostolado iniciou entre os cruzados, que foram advertidos a que não entrassem na Terra Santa, pois antes deveriam honrar no comportamento a cruz que levavam no peito... Seis mil soldados foram dizimados em apenas um dia. Obteve permissão para pregar ao sultão que, impressionado com a sua sinceridade, forneceu-lhe um salvo-conduto para andarem, os franciscanos, na Terra Santa o quanto quisessem, sem serem importunados. Nesse momento da história, Francisco renunciara à liderança da ordem e, em sua ausência, os irmãos criaram algumas inovações. Uma das maiores dores de Francisco foi ver surgir uma nova tendência entre seus frades, chefiada pelo Superior Frei Elias, que dava uma orientação diferente da do fundador, principalmente em relação aos estudos e ao modo de se observar a pobreza. Francisco chegou a amaldiçoar Frei Pedro de Stacia, um dos frades da nova tendência. Por outro lado, eram tantos os leigos que, ligados pelos laços do matrimônio ou com outros encargos terrenos, não podiam observar inteiramente as regras franciscanas, mas queriam pertencer à sua família de almas, que Francisco fundou uma Ordem Terceira para abranger a todos. Muitos grandes personagens — como Luís IX, Rei de França (que mandou construir inúmeros hospitais, lavava os pés dos leprosos, comia com os enfermos – São Luis, pela Igreja Católica), e Isabel (Santa Isabel, pela Igreja Católica) filha dos reis de Hungria, Duquesa da Turíngia, Galileu, Galvani, Volta, Isabel de Castela, Bela IV, rei da Hungria, Carlos IV, rei da Boêmia, Dante, Camões, Vasco da Gama, Colombo, Álvares Cabral, Lope de Vega, Calderón de La Barca, Cervantes — a ela pertenceram. Designada pelo papa Gregório IX como Ordem Terceira dos Irmãos e Irmãs da Penitência, agregava os devotados à causa. Continuavam a viver em seus lares, mas ocupavam-se com obras de caridade, no ideal franciscano. Não era incomum que houvesse manifestações mediúnicas no meio dos que seguiam tais ideais. Há registros de que falavam “eloqüentes discursos, que a todos encantavam, inspirados pelo Espírito Santo”. São várias as passagens em suas várias biografias dispostas em bibliotecas que atestam visões e profecias, num cultivo normal dos dons. Jesus aparecia-lhes “revelando tesouros de divina sabedoria”. O dom da cura era amplamente empregado junto aos necessitados que acorriam em busca de amparo. Por uma narrativa de frei Leão sabemos que certa noite observou Francisco conversando com uma deslumbrante chama, da qual saía uma voz de suavíssimo tom. Mais tarde recebeu a explicação com estas palavras: “Sabe, irmão, ovelhinha de Jesus Cristo, que naquela flama que viste estava Deus, o qual me falava como antigamente havia falado a Moisés...” Quanto aos animais, foi comum o diálogo com pássaros e outros animais, que conviviam muito de perto com os franciscanos. Francisco cantava em dueto com os rouxinóis; libertando lebrezinhas presas em armadilhas, elas corriam para seu colo; desviava no caminho para não pisar em vermes ou formigas; soltava pássaros que logo voltavam ao seu ombro; peixes rodeavam seu barco; algumas aves que vinham em busca de seu calor, recusavam-se a deixar o “ninho” de
suas mãos. Conversou com um lobo que assombrava a cidade, e que se tornou manso, andando por um tempo ao seu lado pela cidade, mediante a promessa de que teria comida. Este animal viveu mais dois anos, portando-se sempre com mansidão. Segundo Boaventura: “Francisco chegara a uma tal pureza, que a carne estava submetida ao espírito e o espírito submetido a Deus, num admirável concerto; e assim, pela vontade do Senhor, a criatura, obedecendo ao Autor, submetiase maravilhosamente à vontade e ao comando de seu servo”. Apoiado pelo amigo cardeal Ugolino, em 1221, Francisco de Assis apresentou uma versão revisada de sua regra de Pobreza, Humildade e Liberdade evangélica e, após algumas modificações, a regra foi aprovada. Eram, portanto, três as ordens franciscanas: Frades Menores (divulgar, através da palavra e dos exemplos, a doutrina), Pobres Damas (trabalho na caridade) e a Terceira (reavivar os sentimentos da paz, justiça, caridade e amor). Seu biógrafo e contemporâneo, Tomás de Celano, garante: “O Santo diligenciava por viver sempre com alegria no coração, por conservar a unção do espírito e o bálsamo da jovialidade. Evitava com o maior cuidado a tão funesta doença da melancolia”. Música e canto desempenhavam papel primordial nos primitivos tempos da comunidade, fosse na forma de coral, hino, ou cantilenas, atraindo a simpatia do povo. A senha dada era: Paupertas cum laetitia (pobreza com alegria). Procurava caracterizar o que entendia por alegria do espírito, para que não a confundissem com leviandade ou loucura. Para ele era inconcebível que um irmão encontrasse satisfação em prazeres terrenos ou na glória, e também não lhe agradava que andasse algum deles com risadas ou palavreado inútil. A perfeição e o decoro estão na raiz mesma de suas palavras. Dizia: “A ilusão é muito fácil, por isso é tão freqüente. Há no entanto um sinal que permite descobri-la facilmente: é a perturbação da alma. Quando uma água se turva, manifesta que não está pura”. Ele queria que todos os homens tivessem a imagem concreta de Deus, pois assim se lhe afigurava que maior seria o seu amor por Ele. Estabelecia diálogo com todos os elementos da natureza. Através da água, das flores, das estrelas, dos animais, conversava com Deus. No Natal de 1223 resolveu fazer uma comemoração como nunca houvera anteriormente, mandando montar na floresta uma manjedoura, com um boi, um asno, tudo como em Belém. A partir daquela noite, o culto do presépio se irradiou pelos outros países. A devoção a Deus não se resumiria em sacrifícios, mas também em dores e chagas. Enquanto pregava no Monte Alverne, nos Apeninos, em 1224, apareceram-lhe ‘no corpo as cinco chagas de Cristo, no fenômeno denominado estigmatização. Na figura de um serafim de seis asas, apareceu-lhe Jesus crucificado que, depois de entreter-se com ele em doce colóquio, partiu deixando-lhe impressos no corpo os sagrados estigmas da Paixão. Os estigmas não só lhe apareceram no corpo, como foram sua grande fonte de fraqueza física e, dois anos após o fenômeno, Francisco de Assis desencarnou. Nos últimos tempos de sua vida, houve ainda um problema com suas vistas e, no intento de curarem-lhe tais problemas, recorreram a um especialista da época que fez uma cauterização, queimando-o com uma barra de ferro dos supercílios até as orelhas. Seu estômago já não aceitava alimentos, o quadro já era delicado. Nos últimos momentos, queria Francisco que Frei Ângelo e Frei Leão permanecessem junto a seu leito para cantar os louvores da “Irmã Morte”. Àqueles que se escandalizavam com essa atitude, respondia: “Por graça do Espírito Santo, sinto-me tão profundamente unido ao meu Senhor Deus, que não posso deixar de me alegrar n’Ele”. Francisco confessava: “— Eu verdadeiramente creio nunca haver, por graça de Deus, cometido falta sem ter feito disso expiação, confessando o meu pecado e arrependendo-me da minha culpa”. Desencarnou rezando e cantando um Salmo, no dia 4 de outubro de 1226, aos 45 anos; foi canonizado dois anos após sua morte. Em 1939, o papa Pio XII tributou um reconhecimento oficial ao "mais italiano dos santos e mais santo dos italianos", proclamando-o padroeiro da Itália.
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