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Capítulo 24 de 38
Platão
As Vidas de Osvaldo Polidoro
“Prosseguindo, o instrutor salientou Platão, em cujas obras, por não lhe ser permitido falar abertamente, estão contidas observações iniciáticas superficiais. Mas, afirmou, lembra o fato de a ninguém ser ensinado ou revelado mais do que a sua capacidade o permitisse. Sócrates e Platão foram iniciados órficos; e da VERDADE falaram apenas o que lhes permitia o sigilo esotérico”. (do livro “Lei, Graça e Verdade”)
Platão, cujo verdadeiro nome era Aristócles, nasceu em Atenas, em 428 ou 427 a.C., de pais aristocráticos e abastados, de antiga e nobre prosápia, e lá morreu em 347 a.C. Platão é um nome que, segundo alguns, derivou de seu vigor físico e da largueza de seus ombros (platos significa largueza). Era filho de Áriston e Periccione. Como Periccione já fora casada anteriormente; Antifon, seu filho, foi meio irmão de Platão, que teve ainda mais dois irmãos, Adimanto e Glaucon, que comparecem nos Diálogos, e ainda a irmã Potone. Será Potone mãe de Espeusipo. Este sobrinho de Platão, além de discípulo, será seu continuador na Academia. Periccione era ainda prima de Crítias, um dos chefes dos chamados Trinta Tiranos, e também personagem dos Diálogos de Platão. Periccione e Crítias descendiam de um irmão de Sólon, o eminente legislador de Atenas. É ainda parente de Cârmides, que dá o nome a um Diálogo. Enfim, por parte de seu pai, Áriston, descendia Platão de Cadmus (1045 a.C.), último rei de Atenas e herói nacional. De temperamento artístico e dialético - manifestação característica e suma do gênio grego - deu, na mocidade, livre curso ao seu talento poético, que o acompanhou durante a vida toda, manifestando-se na expressão estética de seus escritos. Sua mocidade foi a de um ateniense rico, rodeado de todos os luxos, rodeado e festejado por numerosos amigos. Buscando o belo, em todas as suas modalidades, cultivou a poesia, a pintura e a música. Diz Timóteo de Atenas, em Biografias, que Platão tinha voz penetrante. Aos vinte e sete anos já tinha composto várias tragédias e escrevera numerosas poesias. Aos vinte anos, Platão travou relação com Sócrates - mais velho do que ele quarenta anos - e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre. Sócrates era um homem muito simples, mas grande original. Filho de um escultor, chegou a esculpir um grupo das três Graças, quando adolescente. Deu preferência a esculpir almas e, desde então, consagrou-se à pesquisa da sabedoria. Tinha o costume de apresentar seu saber, sua filosofia, aproximando-se das pessoas (dos sofistas em particular) e, de pergunta em pergunta, fazer com que elas mesmas expusessem a própria ignorância, ou mesmo dessem as respostas às perguntas que foram feitas por eles próprios. No final, sorridente, agradecia por terem lhe ensinado com as respostas. A este método dera o nome de maiêutica. Quando discípulo de Sócrates, e ainda depois, Platão estudou também os maiores pré-socráticos. Depois da morte do mestre, Platão retirou-se com outros socráticos para junto de Euclides, em Mégara. Foi Sócrates que lhe demonstrou a inferioridade da beleza e da glória, tais como Platão as concebera até então. A Beleza irradiante, eterna, que é o esplendor do Verdadeiro ocupará agora a alma de Platão. Nada fora por acaso: Sócrates viu em sonho um cisne novo pousado sobre seus joelhos, o qual, agitando logo as asas, elevou-se nos ares, com doces cantos. Ao ser levado a ele, no dia seguinte, Platão como discípulo, disse a todos: - eis aqui o cisne". Ao conhecer o valor da filosofia, Platão ofereceu um riquíssimo banquete a seus amigos e, ao fim da festa, anunciou que saía do convívio de todos, convidando os que quisessem segui-lo, a ficarem até o término. Disse-lhes: “Saibam todos: renuncio até à poesia. Reconheci sua incapacidade para exprimir a verdade que estou buscando. Não farei mais versos e vou queimar, diante de vós todos, os que compus”. Ao colocar fogo nos papéis, clamou por Vulcano: “Vulcano, vem! Platão necessita de ti!” As circunstâncias haviam ligado Sócrates e Platão ao governo dos Trinta Tiranos (404-403). Era Platão sobrinho de Crítias um dos chefes dos mencionados Trinta. Sócrates fora convidado para exercer funções públicas e aceitou: foi membro do Senado. Sobrevindo a ascensão de um outro governo, era fácil que viesse a ser envolvido e condenado em meio às suas turbulências, como de fato o foi em 399 a.C. Platão, pela sua prudente abstenção, e sendo ainda parente de Cârmides, prócer do partido aristocrático, irmão ainda de Glaucon, conseguiu manter-se ileso. Sentiu-se, entretanto, desiludido com a realidade. Voltou-se para um plano de reforma das instituições. Seus escritos, mesmo os mais utópicos, tiveram, portanto, origem em situações reais. Neste clima social e político escreverá primeira República e depois ainda Leis. Metade de sua obra literária futura se referirá à ordem prática e social, convencido de que a difícil tarefa dos negócios do Estado deveria ser entregue aos filósofos, isto é, aos sábios com o devido conhecimento. A aristocracia que pregava era, portanto, diversa, da que então havia. Daí deu início a suas viagens, e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388). Visitou o Egito, de que admirou a veneranda Antigüidade e estabilidade política; a Itália meridional, onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento); a Sicília, onde conheceu Dionísio o
Antigo, tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion, cunhado daquele. Caído, porém, na desgraça do tirano pela sua fraqueza, foi vendido como escravo. Libertado graças a um amigo, voltou a Atenas.
Depois da morte de Sócrates (399 a.C.), ainda haveriam de passar 12 anos, até que Platão fundasse a Academia em 387 a.C. Neste espaço de tempo teve novas experiências valiosas. Platão passou pela escola de Crátilo, discípulo de Heráclito, e a de Hermógenes, que seguia a doutrina de Parmênides. Isto quer dizer que o jovem Platão se colocava ante duas doutrinas extremamente opostas, a filosofia jônica de Heráclito e Crátilo, extremamente mobilista e positivista, e a de Parmênides de Elea, racionalista e unicista. Platão, ao contrário de Sócrates, interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. Foi assim que o filósofo, após a morte de Dionísio o Antigo, voltou duas vezes - em 366 e em 361 - à Dion, esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. Estas duas viagens políticas a Siracusa, porém, não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou com desterro de Dion; na segunda, Platão foi preso por Dionísio, e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos, estando, então, Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento.
Na primeira viagem de Platão à Siracusa, situada, por hipótese, no ano 390 a.C., seria ele então um homem já maduro, aos 37 anos, para dar à iniciativa os desdobramentos que neste curso de tempo lhe foram atribuídos. Dali, de Mégara, foi a Cirene e se fez discípulo de Teodoro, matemático. Dali passou à Itália para conhecer os pitagóricos Filolao e Eurito. Platão contatou, por conseguinte, duas escolas, até aqui não mencionadas em sua biografia, a cirenaica e a itálica ou pitagórica, - das quais receberá importantes elementos para a reflexão. Platão herdará também do pitagorismo sugestões para sua teoria das idéias arquétipas e o modelo para a criação da Academia. Navegou três vezes à Sicília. A primeira a fim de conhecer a ilha e as crateras do Etna. Na ocasião, o tirano da Ilha Dionísio, filho de Mermócrates, o fez conversar com ele. Havendo-lhe então falado Platão sobre a tirania, disse-lhe que não era o melhor aquilo que era conveniente a ele, se não estivesse conforme com a virtude. Indignado, o tirano quis tirarlhe a vida, não o executando porque por ele intercederam Dion e Aristômenes: Entregou-o a Pollis, então vindo como embaixador lacedemônio, para que o vendesse, o qual o levou a Egina, onde o pôs a venda. Aniceris de Cirene, um pitagórico, libertou-o pelo pagamento do resgate. Entretanto, foi também um pitagórico que fez a seguinte observação a respeito de Platão: “Um filósofo, não sabendo lisonjear, deve conservar-se longe dos príncipes”. A viagem ao Egito, - que Platão teria feito, como é referida por Diógenes Laércio -, teria ocorrido depois da volta da Itália, talvez depois do resgate, portanto cerca do ano 387 a.C. A segunda viagem à Siracusa, em 367 a.C., foi por ocasião da ascensão ao trono em 367 a.C. de Dionísio II, o Jovem. Platão foi chamado por Dion, para aconselhá-lo na reforma política que pretendia realizar. Apesar de hesitar, Platão seguiu mais uma vez para Siracusa, pois era também uma oportunidade para aplicar suas idéias. Diógenes Laércio também se referiu à esta outra viagem: "A segunda vez em que (Platão) passou à Sicília foi para pedir a Dionísio, o Jovem, terra e homens para realizar sua república. Dionísio prometeu-o, mas não cumpriu a palavra. Platão correu grande risco, porque se suspeitava haver ele instigado a Dion e a Teodotas a libertarem a Ilha. De retorno, reassumiu Platão a direção da Academia, que houvera deixado com o matemático e astrônomo Eudoxo de Cnido. Já estava então a Academia a funcionar há cerca de 20 anos. Também já a este tempo havia Platão escrito República. Dion também se houvera instalado em Atenas. A terceira viagem a Siracusa (361 a.C.) aconteceu porque Dionísio voltou a convidar Platão para retornar à Siracusa, pois esperava, através do mestre da Academia, a intercessão junto ao rei para a revogação de seu mesmo exílio. Deu-se então a terceira viagem em 361 a.C., de que se tem o seguinte breve relato: "Passou pela terceira vez à Sicília a fim de reconciliar a Díon com Dionísio, mas não o conseguindo, os deixou, e retornou a seu país".
Desencarnou o grande Platão em 348 ou 347 a.C., com oitenta anos de idade. A respeito disso se conhecem várias circunstâncias: "Morreu no ano 13 do reinado de Felipe (da Macedônia), como afirma também Favorino no 3º livro de seus Comentários. Durante a festa de casamento de amigos, fatigado pelo barulho dos convidados, desculpou-se e saiu para um dos quartos da casa, “para uma soneca”, como disse. Horas depois, o noivo entrou no quarto para ver como estava o mestre, e encontrou-o já bem distante dos ruídos do mundo. Sobre seu sepulcro gravaram-se diversos epitáfios. No primeiro, há advertências para o nome Aristócles (pois Platão era apenas um apelido) e o qualificativo de divino, que recorda a crença sobre sua origem por obra de Deus Apolo.
"Aqui jaz o divino Aristócles, Que em prudência e justiça, Soube exceder a todos os mortais. Se a sabedoria eleva a alguém, As suas alturas, este as conseguiu. A inveja em nada lhe empanou a glória"
A Academia:
A fundação da Academia de Platão foi em 387 a.C. Esta data é especulativa. A fundação se calcula houvesse ocorrido pelos 40 anos de Platão, exatamente o meio de sua vida, que durará outros 40 anos. Tudo se deu depois dos episódios de sua primeira viagem a Siracusa, após a Paz de Antálcidas, portanto, por volta do ano 387 a.C. Na verdade, a Academia já pré-existia na condição de ginásio de exercícios esportivos e, nela, só depois veio Platão a ensinar, passando o nome à mesma escola. Por sua vez o nome de Academia procede de Academo, um personagem heróico dos tempos da guerra de Tróia, e que dava o nome a um bosque sagrado, onde também se faziam exercícios ginásticos. Evoluiu a Academia de Platão, passando a ter estatutos rigorosos. Lembra as comunidades pitagóricas, e que de fato lhe terão servido de modelo. Junto da Academia foi adquirido terreno em que se construiu um templo às Musas. Voltando para Atenas, Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica, ao ensino filosófico e à redação de suas obras, atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo, da qual a filosofia - como lemos no Fédon - não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. Para dar continuidade à obra de Sócrates, ele devia difundir a verdade. Mas Platão não podia ensinar, publicamente, os princípios que os pitagóricos recobriam por um tríplice véu. Os juramentos, a prudência, seu próprio objetivo, não permitiam isso. É a doutrina esotérica que encontramos em seus Diálogos, dissimulada, minimizada, envolta em dialética raciocinadora, algo estranha ao conteúdo, mas ela mesma disfarçada em legenda, em mito, em parábola. Não se trata de um conjunto imponente como o edifício de Pitágoras; apresenta-se em fragmentos analíticos. Como Sócrates, Platão coloca-se no mesmo plano dos moços atenienses, dos mundanos, dos reitores, dos sofistas. O seu gênio está sempre nos diálogos, em vôos às verdades sublimes. Como já se disse, fora o terreno da Academia comprado por Aniceris, com o dinheiro, que os amigos atenienses queriam devolver-lhe, quando houvera feito o resgate de Platão exposto à venda em Egina. A evolução da Academia se deveu evidentemente à capacidade pessoal de Platão, e a sua posição social. Este desenvolvimento consistiu na multiplicação dos mestres, passando a haver um diretor, sendo Platão o primeiro. Nas suas ausências assumem a direção em diferentes oportunidades Eudoxo de Cnido, Speusipo, Xenócrates, Heráclites do Ponto. Com relação a Aristóteles, entrara para a Academia, como jovem de 17 anos, ali pelo ano 367 a.C., ao tempo em que a instituição já alcançava 20 anos e Platão já fazia a 2ª viagem a Siracusa. Permaneceu Aristóteles nela por 20 anos, por último como professor, até a morte de Platão, havendo seguido depois para Assos, na Ásia. Ali participou, ao que parece, de uma comunidade de discípulos do mesmo Platão, o qual a eles se refere na VII Carta, 322 A Academia subsistirá forte, até o fechamento em 529, por obra do imperador cristão de Constantinopla. Teve três fases: Academia Antiga, cujos integrantes se fizeram conhecer simplesmente por Acadêmicos, Academia Média, Academia Nova, sendo sobretudo os integrantes da última denominados neo-acadêmicos, em virtude das variações que deram ao platonismo. Platão foi enterrado ali. Celebraram seus funerais todos os que ali habitavam"
A obra: “O que Orfeu promulgou por meio de obscuras alegorias, diz Proclos, ensina-o Pitágoras depois de ter sido iniciado nos mistérios órficos, e de tudo obteve Platão um conhecimento pleno, pelos escritos órficos e pitagóricos.” - G. I. Sempre houve, como já assinalamos por vezes, uma infusão perfeita entre as Escolas Esotéricas da antiguidade. Além de Sócrates e Platão, podemos encontrar em Plotino, Jâmblico, Proclos e muitos outros maiores e menores pensadores daqueles dias, a grandeza espiritual da iniciação esotérica. Quem é que estuda, comparativamente, os escritos dos Apóstolos, mormente dos mais versados em espiritualidade, que não venha a encontrar profundos traços de Pitágoras e de Platão em seus escritos? João Evangelista, por exemplo, empregou sentenças completas do pitagorismo puro, além de ter aplicado, inclusive, bastantes derivâncias, com acentuadas marcas de platonismo. E no quarto século, ao fabricar Roma a corrupção doutrinária, liquidando a Revelação, o Batismo de Espírito, procurou engendrar o seu clericalismo idólatra e mercenário, usando muito platonismo, pelo fato de ser Platão muito obscuro em matéria de iniciação pura, sendo muito mais escolástico e idealista político do que iniciado órfico. Entretanto, ainda que obscuramente, Platão é um iniciado, e em todos os seus escritos se encontram, mais ou menos veladamente, ensinos iniciáticos.
“Havendo penetrado com Hermes, Orfeu e Pitágoras, no interior do templo, melhor podemos julgar da solidez e da direitura dessas largas estradas construídas pelo divino engenheiro que foi Platão. O conhecimento da Iniciação dá-nos a justificação e a razão de ser do Idealismo.” - G. I. A Humanidade, através de seus vultos melhores, tem feito apenas livrecos, pois o único Livro Perfeito é a Criação, é o Todo Anímico e é o Todo Cósmico. No entretanto, como temos visto, nesta passagem rápida pelos Grandes Reveladores e Mestres da humanidade, podemos reconhecer que eles chegaram a vislumbrar palavras e sentenças, períodos e páginas do Sagrado Livro da Vida. O Cristo, como Reflexo de Deus, dá-nos a prova desta assertiva, pois não escreveu.
Para quem quiser entender, a Verdade falada fica muito distante da Verdade Vivida; é por isso que importa procurar informações na Forma, no Exterior, a fim de ir realizando, em Páginas de Vida Eterna, a Verdade Interior. (trecho de “Bíblia dos Espíritas”)
Platão é o primeiro filósofo antigo de quem a humanidade possui as obras completas. Dos 35 diálogos, porém, que correm sob o seu nome, muitos são apócrifos, outros de autenticidade duvidosa. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates, até a sua morte. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos - em três grupos principais, segundo certa ordem cronológica, lógica e formal, que representa a evolução do pensamento platônico, do socratismo ao aristotelismo. Referindo-se a esses Diálogos, repete Emerson as palavras de Omar sobre o Alcorão: “queimai as bibliotecas, porque o valor delas está nesse livro”. De fato, não há tema de interesse humano em que Platão não tenha tocado, em sua busca dos princípios da justiça: a fraternidade universal, a eugenia, o socialismo, o comunismo, o feminismo, o controle da natalidade, o amor livre, a livre expressão, os duplos e simples padrões de moralidades, a posse pública das riquezas, das mulheres, das crianças – tudo enfocado com o propósito da equidade, da retidão... a retidão no indivíduo e a equidade no Estado. Esse país imaginário, a sua República, é a primeira Utopia da história. Considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. Deve, pois, transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim, isto é, chegar à contemplação do inteligível, para o qual é atraído por um amor nostálgico, pelo eros platônico. O conhecimento sensível deve ser superado por um outro conhecimento, o conhecimento conceptual, porquanto no conhecimento humano, como efetivamente, apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação. O conhecimento sensível, particular, mutável e relativo, não pode explicar o conhecimento intelectual, que tem por sua característica a universalidade, a imutabilidade, o absoluto (do conceito); Sócrates estava convencido, como também Platão, de que o saber intelectual transcende, no seu valor, o saber sensível, mas julgava, todavia, poder construir indutivamente o conceito da sensação, da opinião; Platão, ao contrário, não admite que da sensação - particular, mutável, relativa - se possa de algum modo tirar o conceito universal, imutável, absoluto. E, desenvolvendo, exagerando, exasperando a doutrina da maiêutica socrática, diz que os conceitos são a priori, inatos no espírito humano, donde têm de ser oportunamente tirados, e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes constituem a origem, e sim a ocasião para fazê-los reviver, relembrar conforme a lei da associação. Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia. O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias; e a estas se contrapõe à matéria obscura e incriada. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas, através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem, que está no vértice. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica, um objeto adequado ao conhecimento conceptual. Esse conhecimento, aliás, se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível, para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na sua efetiva realidade. E, em geral, o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores, o dever ser, de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. A alma, assim como o Demiurgo, desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria, à qual comunica o movimento e a vida, a ordem e a harmonia, em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma. Assim, deveria ser, tanto no homem como nos outros seres, porquanto Platão é um pan-psiquista, quer dizer, anima toda a realidade. Ele, todavia, dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte, de superioridade, em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos, religiosos e místicos. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias, ao Demiurgo e à matéria), de natureza espiritual, inteligível, caído no mundo material como que por uma espécie de queda original, de um mal radical. Deve, portanto, a alma humana, libertar-se do corpo, como de um cárcere; esta libertação, durante a vida terrena, começa e progride mediante a filosofia, que é separação espiritual da alma do corpo, e se realiza com a morte, separando-se, então, na realidade, a alma do corpo. Nada mais fácil do que encontrar as diferentes partes da doutrina esotérica em Platão e também descobrir as fontes. A doutrina das idéias típicas das coisas, no Fedro, é um corolário da doutrina dos números de Pitágoras. Há no Timeu a exposição – embrulhada – da cosmogonia esotérica. Quanto à doutrina da alma, das suas migrações, da sua evolução, ela atravessa toda a obra de Platão, mas em nenhuma parte transparece tão claramente como no Banquete e na Legenda de Er. Platão substituiu a doutrina dos três mundos, exposta em Pitágoras, por três conceitos que se relacionam com o mundo humano e com o mundo divino. Platão colocou na mesma linha as idéias do Verdadeiro, do Bom e do Bem, explicando que são raios que partem do mesmo centro, e que se reúnem neste mesmo centro, ou seja, Deus. A alma purifica-se na busca do Bem, do Justo, preparando-se para conhecer a verdade, primeira e indispensável condição do seu progresso. O Idealismo é afirmação ousada pela alma das verdades divinas, é a penetração dessas verdades pela experiência da alma, pela visão direta do espírito, pela ressurreição interior. No grau supremo, é a comunicação da alma com o mundo divino.
Isso explica a imensa popularidade e a força irradiante das idéias platônicas. Essa força está no seu fundamento esotérico; por isso a Academia durou séculos, prolongando-se na grande escola de Alexandria.
Títulos das obras mais importantes: República; Symposion (O Banquete); Fedro; Fédon; Apologia de Sócrates; Críton; Timeu; Crítias; Filebo; Teeteto; Lisis; Laquês; Cármides; Górgias; Parmênides; Eutidemo; Sofista; Protágoras; Crátilo; Íon; Mênon; Eutífron; Leis.
Sobre a Atlântida: Especulações sobre a existência de um continente perdido há muito tempo habitam as mentes dos homens. Referências sobre a civilização opulenta e sofisticada que sumiu do mapa sem deixar vestígios surgiram nos diálogos Timeu e Crítias. Teria sido no fim da última glaciação, que marca o fim do período geológico conhecido como Plesitoceno, ocorrido há 11.600 anos. De fato, é geologicamente comprovado que nessa época o nível do mar subiu de 100 a 150 metros em todo o planeta. Violenta e catastrófica, essa subida do mar quase acabou com a humanidade. O fim da última glaciação coincide exatamente com a data indicada por Platão, nove mil anos antes do tempo de Sólon, que viveu em 600 A.C. Junte-se com os dois mil anos que se passaram desde então, e dará a mesma data. Segundo os gregos do tempo de Platão e Aristóteles, chamava-se de Oceano Atlântico, ou melhor "Oceano dos Atlantes", não apenas aquele que nós chamamos por esse nome, mas incluía-se o Oceano Índico e uma porção do Oceano Pacífico em torno da costa oriental da Ásia.
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