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Capítulo 35 de 38
Kardec — parte 2 de 4
As Vidas de Osvaldo Polidoro
Para os ultrajar e apedrejar" - Atos, cap. 14. O Espiritismo, como reposição do Caminho do Senhor, é o mesmo profetismo que pelo Divino Mestre foi generalizado. E todos sabem que desde a primeira reencarnação de Elias, como João Huss, as coisas se têm passado em base de perseguições e de martírios. Quando veio como Kardec, já as coisas estavam melhores, mas mesmo assim foi-lhe recomendado tomar cuidado; por isso mesmo que muitas coisas ficaram para ser ditas mais tarde, na complementação da obra. Entretanto, se temos leis mais favoráveis, nem por isso os inimigos da Revelação puderam compreender ainda, que não adianta lutar contra ela. Podem continuar com a obra blasfema, que os trabalhadores do Senhor levarão de vencida a ignorância e o erro, custe o que custar.(Novo Testamento dos Espíritas) -o0o- Vida e Obra: É neste contexto histórico que nasce Hyppolyte Leon Denizard Rivail, este foi o nome civil de Allan Kardec. Ele era filho de um juiz, Jean Baptiste-Antoine Rivail, e sua mãe chamava-se Jeanne Louise Duhamel. Nascido em 3 de outubro de 1804, em Lion, França, fez ali seus primeiros estudos, completados em Yverdun (Suíça), com o Professor Pestalozzi, de quem se tornou um dos seus mais eminentes discípulos, colaborador inteligente e dedicado. Aplicou-se na propaganda do sistema de educação que exerceu tão grande influência sobre a reforma dos estudos na Alemanha e França. Muitas vezes, quando Pestalozzi era chamado a outras cidades, confiava a Denizard Rivail a direção da sua escola. Rivail foi lingüista, conhecendo a fundo o alemão, inglês, italiano e espanhol, tendo também conhecimento do holandês; além disso, tinha maneiras distintas, humor jovial, era bom e obsequioso. Mais tarde fundou em Paris um instituto semelhante ao de Pestalozzi, tendo como sócio um de seus tios. Com apenas vinte anos de idade (1824), o jovem e talentoso professor Rivail lançava, pela tipografia de Pillet Ainé, de Paris, o seu primeiro livro: “Curso Prático de Aritmética, segundo o Método de Pestalozzi, com modificações”. Eram dois tomos em formato grande, recomendados aos educadores e às mães de família. Essa valiosa obra, que teve várias reedições, abre-se com o “Discurso Preliminar”, onde Rivail recorda um dos seus primeiros e mais queridos mestres: «Devo aqui prestar homenagem a uma pessoa que protegeu minha infância, o sr. Boniface, discípulo de Pestalozzi, professor tão distinto pela sua erudição como pelo seu talento para ensinar. Ninguém mais do que ele possui a arte de fazer-se amado pelos seus alunos. Foi um dos meus primeiros mestres e sempre me hei de lembrar com que prazer meus colegas e eu freqüentávamos as suas aulas. Cheio de amor pela infância, ao mesmo tempo verdadeiro filantropo, fundou uma escola à Rua de Tournon, no bairro de Sain-Germain, que bem mereceu os elogios que lhe dispensam as pessoas mais distintas e merecedoras. É autor de vários trabalhos, entre os quais um “Curso de Desenho Linear”, muito estimado». Daí se poderia deduzir que Rivail freqüentou a escola da Rua de Tournon. O sr. Boniface deve ter sido parisiense. Ora, ao que parece, Rivail não foi a Paris antes de 1820. De qualquer maneira, foi graças a este mestre que Rivail escreveu sua primeira obra. Declarava: “Desejando tornar-me útil aos jovens e concorrer com todas as minhas forças para aplainarlhes a trilha árdua dos estudos, aproveitarei, com empenho, os conselhos que de boa vontade me chegarem de pessoas que me são superiores pelo saber e pela experiência, considerando que a aprovação dos homens de bem sempre me será gratíssima recompensa”.
Quem assim se expressava era um jovem de vinte anos, mal saído dos bancos escolares, mas já vivamente interessado em libertar da ignorância, com todas as suas perniciosas conseqüências, a juventude de sua pátria. Com esse primeiro livro, Rivail iniciou sua fase de educador e pedagogo emérito, ali se afirmando como a maior autoridade no método Pestalozzi. Em 1830 já era médico, doutorou-se aos 24 anos. Teve tais contatos com o mundo das letras e das ciências que chegou a possuir vários diplomas de sociedades científicas e de incremento ao progresso. O estudante de medicina, e depois médico, atuava na vida prática não só como divulgador de conhecimentos teóricos, mas como um propulsor da agricultura e da indústria, através dos aperfeiçoamentos científicos dos meios de produção, como do aperfeiçoamento moral e espiritual das criaturas. Durante trinta anos, sobrepondo-se às incompreensões e aos reveses, empenhou-se de corpo e alma em instruir e educar um sem número de crianças e jovens parisienses, segundo modernas práticas pedagógicas por ele mesmo criadas, muitas das quais só mais tarde, no século XX, seriam retomadas e largamente difundidas por ilustres reformadores do ensino. Quando o Prof. Rivail deixou a Suíça, rumo a Paris, ocupou-se em traduzir para o alemão obras de grandes autores clássicos da França, dando preferência aos escritos de Fénelon, alguns dos quais, como “Telêmaco” receberam inteligentes notas e foram publicados posteriormente para uso nos educandários. Fundou e dirigiu em Paris uma Escola do Primeiro Grau (1825), que não sabemos por quanto tempo subsistiu. Sabemos que ele criava, logo em seguida, um Instituto Técnico e que rapidamente ganhou fama. Situava-se à Rua de
Sêvres nº35 e era semelhante ao Instituto de Yverdun. Posteriormente auxiliado pela Professora Amélie Gabrielle Boudet, com quem se consorciou em 1832, desenvolveu ali notável trabalho de aprimoramento da inteligência de centenas de alunos, aos quais carinhosamente chamava “meus amigos”, dando-lhes repetidas vezes este conselho: “Instruindo-vos, trabalhais para a vossa própria felicidade”. O associado do Prof. Rivail, ao que parece um tio seu, tinha paixão pelo jogo e arruinou o sobrinho perdendo grandes quantias em Spa e Aix-la-Chapelle. Rivail liquidou o Instituto, restando da partilha 45.000 francos para cada um dos sócios. Essa soma foi colocada pelo casal Rivail nas mãos de amigos íntimos, os quais fizeram maus negócios e cuja falência deixou-os sem nada os credores. Necessitando de capital para dar prosseguimento à sua obra educativa, o Prof. Rivail empregou-se como “contrôleur” no Théatre des Délassements-Comiques. então funcionando no Boulevard du Temple, episódio que os adversários do Espiritismo não se esquecem de lembrar, fazendo-o com ironia e sarcasmo. Afirma o jornalista parisiense René du Merzer, de quem vem a informação revelada logo após o sepultamento de Kardec, que pouco depois o Professor Denizard Rivail abandonava o referido Teatro para trabalhar como guarda-livros na livraria religiosa de Pélagaud e nos escritórios de “L’Univers”, influente folha católica (se assim se pode considerá-la) fundada em 1836. Para superar esta fase ruim, o casal lançou-se ao trabalho, sendo que Rivail encarregava-se da contabilidade de três casas e, terminando o dia, escrevia gramáticas, livros de aritmética, outros para estudos pedagógicos; traduzia obras inglesas e alemãs e preparava os cursos de Levy-Alvares. Organizou também em sua casa cursos gratuitos de química, física, astronomia e anatomia, de 1835 a 1840. Ocupado durante todo o dia, dedicava as noites à elaboração de novos e importantes livros de ensino e pedagogia, à tradução de obras do inglês e do alemão e à preparação de todos os cursos que ele, juntamente com o Prof. Lévi Alvarés, dava a alunos de ambos os sexos no Faubourg de Saint-Germain: “A educação é a obra de minha vida, e todos os meus º instantes, eu os dedico a esta matéria”. Fundando à Rua de Sêvres n. 35, um Liceu Polimático, aí organizou, de 1835 a 1850, cursos gratuitos de Química, Física, Astronomia e Fisiologia, “empresa digna de encômios em todos os tempos, mas, sobretudo, numa época que só um número muito reduzido de inteligências ousava enveredar por esse caminho”.Lecionou também Matemática e Retórica, sendo vastos os seus conhecimentos filológicos e de gramática da língua francesa, como o demonstram algumas obras de sua autoria. Preconizou o desenho geométrico, a leitura ponderada, os exercícios práticos de redação, e considerou útil o estudo e o exercício da música vocal. Aplicando todos os seus esforços no desenvolvimento das virtualidades intelectuais e morais da juventude, não lhe pode ser contradita a formação de humanista cristão. Dirigiu críticas ao método pelo qual se aprendia História, em que dava importância demasiada a datas e a fatos políticos, salientando que o verdadeiro objetivo da História deve ser “o estudo dos usos e costumes, do progresso artístico e científico das várias épocas”. A fim de obter maior aproveitamento dos alunos, chegou a inventar um quadro mnemônico que facilitasse o estudo da História da França. Chef d’ Institution da Academia de Paris, o Prof. Denizard Rivail tornou-se membro de dezenas de Sociedades e Institutos culturais de sua Pátria, quase todos da capital. É bastante longa a lista de obras didáticas que escreveu, só ou com Levy-Alvarés. O ano de publicação é, às vezes, incerto, mas julgamos útil lembrar alguns títulos, para dar idéia de sua atividade pedagógica: “Gramática normal dos exames”, ou soluções racionais de todas as perguntas sobre gramática francesa, propostas nos exames da Sorbonne e em todas as Academias da França para obtenção de certificados e diplomas de habilitação e para admissão ao funcionalismo público, resumindo a opinião da Academia Francesa e de vários gramáticos sobre os princípios e dificuldades da língua francesa. Obra escrita em colaboração com Lévy-Alvarés. “Curso de cálculo de cabeça”, pelo método Pestalozzi (para uso das mães de família e dos professores, no ensino de crianças pequenas).
“Tratado de Aritmética”- (3.000 exercícios e problemas graduados). Único que contém o método adotado pelo comércio e pelos bancos para o cálculo de juros. “Questionário gramatical, literário e filosófico”, em colaboração com Levy-Alvarés. “Manual dos exames para certificados de habilitação”. “Catecismo gramatical da língua francesa”. “Soluções racionais das perguntas e dos problemas de aritmética e de geometria usual”, propostos nos exames do “Hôtel de Ville” e da Sorbone. “Solução dos exercícios e problemas do tratado completo de aritmética». Suas últimas obras pedagógicas publicadas foram:“Ditados normais dos exames do “Hôtel de Ville” e da Sorbonne” e “Ditados especiais sobre as dificuldades ortográficas”. As suas obras são adotadas pela Universidade de França, o que vem coroar, de certa maneira, um quarto de século de atividades a serviço da instrução pública.
Depois do “Programa de estudos conformes ao plano de instrução”, editado em 1838, publica um “Projeto de reforma”, em que trata dos exames e dos educandários para jovens, acompanhado de uma proposta concernente à adoção das obras clássicas pela Universidade, a respeito do novo projeto de lei do ensino. O Projeto é de 1847 e a indicação “impresso na casa do autor, Rua Mauconseil, 18”, leva-nos a crer que Rivail se tivesse mudado da Rua de Sévres. Também é interessante notar que entre os seus títulos citados na obra Membro da Real Academia de Ciências Naturais de França, etc. já não figura o de “discípulo de Pestalozzi”. Isto não significa, entretanto, que o autor tivesse esquecido completamente as lições do mestre sobre a “natureza da criança”, o “papel da mãe e do Professor-Jardineiro”. Vemos que Rivail, ao término de longa atividade e experiência pedagógica, estava preparado para a outra tarefa, a fundação do Espiritismo. Foi graças à sua clareza e concisão - rigor todo cartesiano - que em toda a obra espírita não encontramos um episódio sequer em que Allan Kardec se deixasse arrastar por palavras descontroladas ou por alguma divagação inspirada. E é exatamente isto que constitui a mais profunda característica do Espiritismo. Pensa-se que a vida de Allan Kardec e a fundação do Espiritismo Científico são coincidentes. À força de escrever obras de aritmética, de geometria, de química, de física, de história, de literatura, etc,. Rivail tinha-se tornado homem de grande instrução. Nada lhe era desconhecido. Sua curiosidade baseava-se em sólido método de pesquisas. Embora trabalhando para a educação das crianças do seu país, transforma-se em homem sem pátria, sem ligações particulares. É o homem universal. As ciências, o estudo das humanidades, ensinaram-lhe que o homem, para ser verdadeiramente livre, deve tomar consciência de seu universalismo. O espírito de tolerância, de caridade, deve ser mais forte que o de clã, de seita ou de igreja, de grupo limitado no tempo e no espaço. Ao cessar a publicação de seus trabalhos pedagógicos, Rivail passou a se interessar mais pelos problemas sociais. Ao mesmo tempo sua curiosidade era despertada para os fenômenos insólitos que se produziam e eram observados na América, na Inglaterra e na Alemanha. A carreira do Prof. Rivail estava chegando ao fim. Allan Kardec vai surgir.
Quase que paralelamente a estes acontecimentos na vida de Denizard Rivail, ocorre nos E.U.A um conjunto de fenômenos que deram início ao nascimento do moderno espiritismo (este termo, espiritismo, foi cunhado em 1857, por Rivail, para distinguir este movimento do de outras escolas espiritualistas – ver texto no início). Trata-se de fenômenos ocorridos em Hydesville, estado de New York, em 1848, na casa da família Fox, que era metodista, e, portanto, longe de ter qualquer queda ou interesse por fatos que poderíamos hoje chamar de paranormais. As fortes pancadas que começaram a ser ouvidas no quarto das irmãs Katherine e Margaretta (e que se fizeram freqüentes por várias semanas) levaram a primeira, então com nove anos, a desafiar “o batedor” a reproduzir as pancadas que ela mesma daria. A prontidão das respostas acabaria por marcar o início desse tipo de comunicação entre vivos e mortos. (segundo a Enciclopédia Mirador- Britannica, p. 4171). Foi em 1854 que ouviu falar pela primeira vez nas mesas girantes, (a princípio na casa do Sr. Fortier, com quem mantinha relações de amizade em razão dos seus estudos sobre magnetismo). Depois de algum tempo, em maio de 1855, ele foi convidado para participar de uma dessas reuniões, pelo Sr. Pâtier, um homem muito sério e instruído. O professor era um grande estudioso do magnetismo e aceitou participar, pensando tratarem-se de fenômenos ligados ao assunto. Após algumas sessões, começou a questionar para descobrir uma resposta lógica que pudesse explicar o fato de objetos inertes emitirem mensagens inteligentes. As “forças invisíveis” que se manifestavam nas sessões de mesas falantes diziam que eram almas de homens que já haviam vivido na Terra. “Entretanto – coisa notável! – entre tanta gente de alta cultura, ninguém lobrigou o alcance filosófico das batidas nas mesas e móveis e, em geral, das manifestações dos Espíritos. Só um fato impressionava: a sobrevivência do ser humano, com os seus gostos, os seus cacoetes, os seus impulsos, enfim, a sua personalidade!” A França, cognominada a filha primogênita da Igreja, assistia ao naufrágio da fé, resultante do cheque entre a ciência e a religião. Dona de mais largo e profundo conhecimento das leis da natureza, a humanidade estava preparada para passar da fé imposta à fé raciocinada, isto é, da crença para a certeza. A ciência oficial desdenhava tudo quanto pudesse, direta ou indiretamente, conduzir a um postulado da religião; em contrapartida, a religião, fechada numa filosofia apriorística, verberava toda tentativa intelectual que pudesse atuar como um sopro sobre o castelo de cartas do dogmatismo. O único homem que teve a visão da importância moral e sociológica da fenomenologia espírita foi o Dr. Rivail”
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