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Capítulo 32 de 38
José De Anchieta
As Vidas de Osvaldo Polidoro
José de Anchieta nasceu em 1533 nas ilhas Canárias, na cidade de Tenerife. Seu pai era natural de Biscaia, e não há sobre ele nenhuma outra informação. Sua mãe*, natural da Grã-Canária, a maior ilha do arquipélago, vinha de uma família nobre entre os nativos. João de Anchieta e Mência Diaz tiveram dez filhos: Teresa, Ana Martin, José, João, Baltasar, Gaspar, Melchior, Beatriz, Cristóvão, Bartolomeu. Na ilha onde nasceu, Anchieta aprendeu a ler e a escrever, além de noções básicas do latim. (*) Palavras do Pai, em Santana, 5/4/85: “ A Ciganinha, é a Ruth bíblica, Santa Catarina maior, foi 3 vezes minha mãe: mãe de Anchieta, do médico e astrólogo que fui na França; éramos ciganos, ela era vidente”. Ciganinha foi uma vidente que trabalhou ao lado do Pai por um período de sua vida, da qual não temos o nome completo. Ainda bem jovem, acompanha seu irmão mais velho à universidade de Coimbra, que vivia sua época de ouro. Ali aperfeiçoou seu latim e algumas ciências teológicas (chamadas de "maiores ciências"). Nesta universidade estudou dialética e filosofia, o que lhe facilitou o ingresso na Companhia de Jesus aos 17 anos. Assim, em 1550, José de Anchieta entra para a Companhia fundada por Ignácio de Loyola apenas alguns anos antes, onde ficaria até o fim de sua vida, sempre servindo os princípios da companhia que na época era considerada a "Renovação da Igreja". Apesar de seus estudos terem ajudado esse ingresso, foram as suas habilidades naturais que o ajudaram a desenvolver os trabalhos para os quais era designado. Começou logo a ser um exemplo vivo de virtude, em especial de devoção, humildade e obediência: Sua primeira atividade entre os jesuítas foi ajudar na celebração de missas; não se contentando com pouco e querendo mostrar trabalho, era comum ajudar em mais de 10 missas diariamente. Parece que nunca ajudou em menos de 8 em um dia só. Essa dedicação, no entanto, causou-lhe logo problemas de saúde, pois passava mais de 14 horas por dia ajoelhando-se e levantando, o que lhe causava dores e uma lesão que o atormentou pelo resto de sua vida. Simão Vasconcelos explica da seguinte maneira essa passagem: "Mas como o espírito era forte apesar do padecer constante, nunca se persuadiu José que poderia o corpo receber mal, donde a alma recebia gosto tão grande” Em 1533, parte Anchieta para o Brasil a serviço da Companhia de Jesus. A sua vinda, muito mais do que missionária, foi devida ao problema de saúde já mencionado. Explica-nos Quirício Caxa: "Não tendo já os médicos o que fazer, tendo novas os padres da Terra do Brasil ser muito sadia, determinaram com padecer também dos médicos que fossem enviados a ele, e que poderia ser um novo céu e uma nova terra com novos ares e novos mantimentos, e que nela havia alguma disposição de mudança e de salvar-lhe a saúde”. Assim, aos 20 anos de idade, o missionário trocou o Velho pelo Novo Mundo. Da doença de Anchieta, no diagnóstico do médico brasileiro Prof Dagmar Chaves, (a “corcunda de Anchieta”), fala o especialista que é do “mal de Pott”. Afirma ele que Anchieta padeceu de tuberculose pulmonar, enfermidade pela qual desencarnaram também Nóbrega e muitos índios. Conta-se que durante a viagem, ele pediu para que lhe permitissem ajudar os marinheiros, pois não sabia viver sem ajudar em coisa alguma. Permitiram, então, que ele ficasse junto ao cozinheiro, sendo então ajudante de cozinha. Desembarcou na Bahia, mas logo foi enviado à capitania de São Vicente, onde a Companhia de Jesus era mais presente. Neste local encontrou pela primeira vez o padre Manuel da Nóbrega, que seria seu companheiro de muitas aventuras missionárias neste país. Entre os integrantes da Companhia de Jesus que estavam no Brasil, a grande maioria não sabia o latim com muita perfeição. Nem todos eram padres, muitas vezes eram aprendizes, seminaristas ou simplesmente ajudantes. Sendo assim, Nóbrega encarregou Anchieta de ensinar latim aos "moços de fora" (filhos de portugueses que moravam naquela região). O seu talento como professor era muito elogiado: "Todos tiraram um grande proveito do trabalho seu, porque além de ler, traz consigo a força de fazer sofrer a rudeza e a negligência dos discípulos”
“Em breve começaram a aparecer os quilates do noviço. As sólidas humanidades que adquirira indicaram-no para a redação das cartas quadrimestrais. Fez-se professor de primeiras letras, de latim, não só de irmãos como de sacerdotes, do padre Manuel de Paiva, por exemplo, superior da missão. Para suprir a falta de livros de ensino perdia parte da noite a trasladá-los. Fazia
peças manuais próprias ao escambo com os vizinhos que ajudaram a minguar a fome. Sua atividade física e sua atividade intelectual não conheciam fadiga.” (J. Capistrano de Abreu, Ensaios e Estudos)
Neste contato com os filhos dos portugueses (que muitas vezes eram mestiços com índios), Anchieta pôde começar a aprender, ao mesmo tempo em que ensinava o latim, alguns termos da língua indígena, e aprendeu a falá-la tão bem que podia traduzir o seu catecismo para ela. Aprendeu a sua estrutura e um modo de tradução eficaz, tanto do "tupi" para o português, como vice-versa. Estruturou uma forma de se aprender esta língua de modo que qualquer um pudesse ter conhecimentos básicos dela, mesmo que nunca chegasse a pôr os pés no Brasil. Diversas cantigas e alguns de seus famosos poemas foram escritos na língua indígena.
“O projeto de transpor para a fala do índio a mensagem católica demandava um esforço de penetrar no imaginário do outro, e este foi o empenho do primeiro apóstolo. Na passagem de uma esfera simbólica para outra, Anchieta encontrou óbices por vezes incontornáveis. Como dizer aos tupis, por exemplo, a palavra pecado, se eles careciam até mesmo de sua noção, ao menos no registro que esta assumira ao longo da Idade Média européia? Anchieta, neste e em outros casos extremos, prefere enxertar o vocábulo português no tronco do idioma nativo.” (Alfredo Bosi, Anchieta ou as Flechas Opostas do Sagrado)
Entrosou os índios nos rituais da igreja, pois estes foram trazidos às missas para que cantassem as músicas que Anchieta compusera na sua língua natal e, desta forma, podiam entender o que cantavam. Compôs também algumas peças de teatro bilíngües, para que portugueses e índios pudessem vê-las, e estas sempre eram populares entre os últimos. De tal forma eram populares que um autor do começo do século chega a afirmar que "esses autos que inventava eram como literatura para analfabetos” Sua capacidade como lingüista não foi pequena. Foi ele quem percebeu que existia uma raiz comum nas línguas que falavam as diferentes tribos indígenas. O propósito destes trabalhos lingüísticos era especialmente a catequese. Mesmo o teatro e as músicas tinham como único propósito o louvor: "As cantorias dos índios até mesmo as danças, não eram coisas para divertir, mas para solenizar a morte, os sacrifícios (...) ou então como rito nas festas religiosas" A prova disto é a invenção de uma palavra nova nos moldes indígenas: "Scilicet". Era uma espécie de preceito de fé criado especialmente para os índios; ela significava "Não comer carne humana, não ter mais que uma mulher, nunca atacar os portugueses e sempre ouvir aos padres"
A capitania de São Vicente sofria muitas baixas devido aos ataques constantes dos índios tamoios. Essa tribo mostrava-se cada vez mais agressiva e destruidora, invadiam casas, roubavam cavalos, libertavam escravos (escravos indígenas, provavelmente parentes tamoios) e às vezes roubavam mulheres de portugueses, (em geral mulheres indígenas... e não há como afirmar se elas se casaram por livre e espontânea vontade ou forçadas pelos colonizadores). Nóbrega, no entanto, sabia que a culpa não era somente deles; pelo contrário, os danos que os portugueses faziam a esses índios eram maiores. Como não havia reza ou missa que apaziguasse a situação, ele tentou ir pessoalmente para servir de intermediário nesta situação, levando também Anchieta que, nesta época, além de intérprete e colega, também era seu amigo. No meio do trajeto, viram um grande grupo de indígenas acompanhados de um francês, (os franceses buscavam o apoio dos tamoios para dominar aquela área). Por dois meses, ficaram em conversas com os índios para entenderem as suas necessidades e os males que os portugueses lhes causavam. Nóbrega resolve voltar novamente para São Vicente para expor os pedidos dos índios e buscar a paz. Anchieta fica como refém, por sua própria vontade. Depois de três meses, Nóbrega volta ao acampamento e traz a notícia de que a paz poderia ser conseguida. Anchieta finalmente pôde voltar para a "civilização", entretanto, o que aprendera naqueles meses jamais seria esquecido. Da mesma forma, a sua figura começou a ser amada e admirada entre os índios. Suas palavras a muitos consolavam, principalmente porque falava em sua língua.
O poema latino De Beata Virgine Dei Matri Maria foi composto por ele no cativeiro em Iperoig, julho/agosto de 1563. Foi redigido na primavera seguinte, como cumprimento de um voto, ao ser libertado e reintegrado na sua comunidade de São Vicente. Este, entre tantos poemas, são a demonstração do imenso amor dedicado à Mamãe Maria. Num de seus colóquio com a Virgem Maria na cena do Nascimento de Jesus, exprime este sentimento que mais de uma vez se repetirá nos seus escritos: “Quem dera encerrar bem dentro do coração, O coração da mãe que encerrou Jesus!” Este afeto encontrará mais tarde sua perfeição estilística numa belíssima ode sáfica dedicada à Purificação de Maria, a “Candelária” de sua ilha de Tenerife, venerada. Denominava Maria como mais bela que Ester, mais forte que Judite, e acentua nove vezes a antítese relativamente a Eva. Mas não fica satisfeito: Nec te laudando mea mens expletur abunde, Nec mea sufficiunt laudibus ora tuis – (Nem minha mente se sacia por mais que te louve, nem meus lábios são suficientes para exaltar-te). Pode parecer incrível, mas os índios da aldeia de Reritiba, que tinha Maria como padroeira, entendiam: Super caelos elevaris, / Virgo virginum praeclara, / Virgo clemens, Deo cara, Christi Mater. (Assunta acima dos céus, ilustre
Virgem das virgens, Virgem clemente, de Deus amada, Mãe de Cristo). Este latim para eles era tão familiar quanto o português ou o castelhano. Cantavam-no em coro com o santo missionário, pois a poesia era simples, tendo ritmo nos versos, e a rima que os ouvidos de seus queridos índios tanto apreciavam.
Do domínio que teve sobre os animais foram muitas vezes testemunhas os peixes, as aves, as feras, as serpentes, as quais José chamava na língua do Brasil e elas ouviam, e obedeciam àquele dom que comunicou Deus a nossos primeiros pais inocentes, quando lhes disse Dominai os peixes do mar, as aves do céu, as feras da terra e tudo o que anda sobre o solo. Em qualquer parte, quando o padre queria, não apenas se achavam peixes, mas eles vinham às suas mãos. E acontecia que algumas vezes, quando estando impedida a pesca em algumas povoações, devido às tempestades e estando reduzidos à fome seus moradores, ele os convocava na orla do mar e perguntava que tipo de peixe queriam, e eles, para brincar, pediam um tipo de pescado que não havia naquela época do ano. E ele dava o que pediam com tanta abundância que quanto cada um queria, prendia nas redes e apanhava nas mãos. Chamava as aves e elas voavam a seu chamado e pousavam em seu dedo a cantar louvores ao Criador. Por ordem sua, retirou-se um bando de corvos que acabavam com os peixes colocados pelos pescadores na margem e ali ficaram aquelas aguardando a parte da presa que o padre lhes prometera ao afugentá-las. Outra vez, ia navegando e como o companheiro, por estar enfermo, não pudesse suportar o rigor do sol do meiodia, mandou que uma ave chamasse as companheiras e lhe fizessem sombra, o que aconteceu, pelo espaço de uma légua de viagem, entre trinados. Muitas avezinhas saltitavam em seus braços enquanto rezava ou pregava. Duas onças costumavam acompanhálo, como se fossem guardas, quando entrava nas selvas para rezar, dando-lhes ele, como pagamento, sua ração da provisão de frutos da terra. Dominou touro feroz, pediu que macaquinhos fizessem momices para alegrar a viagem tão cansativa, conversava com as serpentes, usando-as, enquanto as manuseava, para pregar sobre a bondade de Deus. Esse seu domínio de modo algum se restringia apenas aos limites dos corpos viventes. Era admirável em serenar tempestades do mar, em curar enfermidades, deter chuvas que causariam algum dano, conseguir chuvas para algum proveito. Mandou que um mudo de nascença falasse, que um padre moribundo se levantasse da cama, que febres saíssem das pessoas. Com a água do batismo curou um leproso; com o contato com suas vestes, um paralítico; com uma bebida de água, um asmático. Somente com seu falar, desvanecia aflições e purificava as almas de algumas tentações. Numa grande falta de azeite, mandou ao despenseiro que apanhasse uma vasilha seca, e esta deu, pelo espaço de dois anos, tanto azeite quanto foi necessário. Converteu água em vinho para alívio de certa viagem; peixe em toucinho, em condescendência a certo enfermo. Profetizou mortes, chorou algumas que aconteciam naquele instante, confirmadas depois; rezou missa por uma mulher que havia sido martirizada no dia anterior,, em outro continente. Consta de legítimos autores que estava levantado do solo sempre que rezava, rodeado de claríssima luz, soando música celestial naquele instante. Esteve em dois lugares ao mesmo tempo e podia furtar-se à vista das pessoas
A cidade aonde voltaria séculos depois: A cidade de São Paulo teve o seu início bem simples e singelo. No começo, a atuação de Anchieta na fundação do colégio foi um tanto pequena. Mais tarde, quando foi nomeado diretor do mesmo, passaria a ter um papel de maior destaque, dando uma forte ajuda ao projeto. O primeiro edifício construído foi o próprio colégio, mas uma cidade já estava planejada e foi sendo construída, pouco a pouco, em volta da primeira construção. A edificação do Colégio foi feita com as próprias mãos dos padres e dos índios, como explica Vasconcelos: "Porém estava já Nóbrega mui debilitado do vigor corporal, padecia de acidentes de sangue e melancolia, e era força cair o trabalho às costas de José. Em um colégio que começava a edificar-se, em cidade que escassamente tinha lançados fundamentos já acudia à instrução dos índios que tinham vindo à capitania em ajuda da guerra." Em 1554 o colégio começou a ser construído, e em 1555, no dia 25 de janeiro, foi rezada a primeira missa da fundação. Ele abrigaria 13 padres jesuítas e vários alunos, praticamente todos indígenas. O colégio recebeu neste dia o nome de Colégio de São Paulo. Era tão pequeno que Anchieta chegou a escrever para Ignácio de Loyola: "às vezes mais de 20 de nossos se abrigavam numa barraquinha de caniço e barro, cobertos por palha. Aqui temos 14 pés de comprimento e 10 de largura. E em tudo isso temos a escola, a enfermaria, o dormitório, o refeitório, a cozinha e a despensa." Entretanto, o colégio continuou crescendo pouco a pouco, sempre com a presença de Anchieta. Em 1556 inaugurou-se a nova Igreja. Logo, mais construções foram ficando prontas com a ajuda dos indígenas. Os maiores problemas, contudo, não decorriam da pobreza do local, mas das tensões e desavenças que se foram provocando com os bandeirantes. Talvez devido a isso, João Ramalho e Anchieta desentenderam-se até tal ponto que o jesuíta escrevera: "Não cessam, junto a seu pai, Ramalho, de empregar contínuos esforços para derrubarem a obra que, com a graça de Deus, pudemos edificar"
A obra: O Brasil foi o palco de sua vida e obra. Foi sacerdote, missionário, professor, epistológrafo, historiador, gramático e poeta. É considerado fundador ou iniciador da literatura, teatro e poesia brasileiras, além de ter poetado em língua latina, espanhola, portuguesa e tupi. Exerceu funções de médico, enfermeiro. Escreveu sobre zoologia e botânica do Brasil. No
mar, foi piloto. Nos naufrágios, sobrevivente. Seu nome está escrito entre os fundadores das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e outras. Historiador – alguns de seus manuscritos se conservam em Roma, no Arquivo da Companhia de Jesus, todos já publicados por Edições Loyola, em 12 volumes. Essas publicações são o que se salvou de seus manuscritos, quer em português, espanhol, latim ou tupi. De nenhum escritor brasileiro daquela época se salvaram tantas obras em prosa ou verso e em diversas línguas. É admirável que suas obras, hoje impressas, tenham atingido tantos volumes. A obra de Anchieta foi muito vasta e diversa. Essa atividade, à época, historicamente original, resultou numa aculturação lingüística e espiritual determinante para a formação do futuro povo mestiço nacional. Se, por um lado, as forças do poder colonizador impunham uma nova representação maniqueísta ou dualista do sagrado, por outro, o cristianismo tinha de receber alguns influxos da crença tupi. O jesuíta conseguiu os resultados educacionais mais favoráveis ao objetivo almejado através de um teatro (em língua tupi) que soube se adaptar ao novo ambiente. Nesse princípio de mescla entre o pensamento colonizador e o autóctone, entre essas duas linguagens, nasce a literatura nacional, de um Barroco singularmente moldado às novas exigências do país.
Teatro e poesia Seus teatros polilíngues foram escritos e representados muitas vezes, entre as peças mais famosas temos Peça para a Festa de São Lourenço, Assunção, Natal e Vila de Vitórias. Em termos de poesias, temos exemplares também em ambas as línguas, tupi e português. As principais são: Ao Santíssimo Sacramento, A Santa Inês e À Bem aventurada virgem mãe de Deus, Maria.
Lingüística No campo da lingüística chegou a escrever a primeira gramática da língua tupi que se tem notícia, cujo título era Arte da gramática da língua mais usada na costa do Brasil, terminada em 1595. No campo da política escreveu O Governo de Mem de Sá (De gestis mendi de Saa ), seu primeiro livro escrito no Brasil e único em latim. Além destes, escreveu outros manifestos contra a escravidão indígena. Em forma de cartas, a sua obra é ainda maior e ainda mais rica, chegando a juntar milhares de páginas.
Outras obras: e Auto da Pregação Universal (1570); Diálogo do P. Pero Dias Martir (1571); Na Festa de Natal ou Pregação (1577); Na Aldeia de Guapimirim (1580); Excerto do Auto de S. Sebastião (1584); Arte de Gramática da Língua Tupi (1595); Auto da Visitação de Sta. Isabel (1507); Cartas, Informações e Sermões (1933); De Beata Virgine (1940); Capitania de São Vicente (1946); Poesias (1959); Obras Completas (1985). Extraído de uma aula do Curso de Teatro da Academia Brasileira de Letras, temos um trecho retirado da obra de Lafayette Silva, que conta a respeito da apresentação de uma peça no dia 31 de dezembro de 1567, onde toda a capitania se dispunha a assistir. Seria no adro da igreja de São Vicente e o tempo anunciava tempestade. Assomando à janela, sereno e dominador, dirigiu-se aos espectadores que já se retiravam, e pediu que se aquietassem, pois não choveria. A nuvem permaneceu ameaçadora, quieta, durante todo o tempo da apresentação. Só quando todos chegaram em casa a borrasca desencadeou, numa violência jamais vista. Milagre!, exclamavam todos... e neste acontecimento temos uma das páginas mais tocantes das origens do teatro brasileiro. Numa representação em Niterói aconteceu algo semelhante: choveu durante todo o tempo, mas apenas na região em torno da igreja. A chuva estendeu-se ao adro apenas depois do final. Ele escreveu em tupi para fazer-se entender pelos indígenas, mas, segundo padre Vieira, Anchieta “só com a música e harmonia de vozes atraía a si todos os índios da América”. Ninguém foi mais brasileiro que José de Anchieta. Pode-se considerá-lo como iniciador da literatura indianista, que mais tarde seria cultivada por Basílio da Gama, Santa Rita Durão, Gonçalves Dias e José de Alencar.
Poesia Ao Santíssimo Sacramento, de Anchieta Ao Santíssimo Sacramento / Oh! Entranhas piedosas / De vosso divino amor! / Ó meu Deus e meu senhor / Humanado, / Quem vos fez tão namorado / De quem tanto vos ofende? / Quem vos ata, quem vos prende / Como tais nós? / Por caber dentro de nós / Vos fazeis tão pequenino, / Sem o vosso ser divino / Se mudar. / Para vosso amor plantar / Dentro em nosso coração / Achastes tal invenção / De manjar, / Em qual nosso paladar / Acha gostos diferentes / Debaixo dos acidentes / Escondidos. / Uns são todos incendidos / Do fogo do vosso amor. / Outros cheios de temor / Filiar. / Outros com o celestial / Lume deste sacramento / Alcançam conhecimento / De quem são. / Outros sentem compaixão / De seu Deus que tantas dores, / Por nos dar estes sabores, / Quis sofrer, / E desejam morrer / Por amor de seu amado / Vivendo sem ter cuidado / Desta vida. / Quem viu nunca tal comida / Que é sumo de todo bem? / Ai de nós! Que nos detém? Que buscamos? / Como não nos enfrascamos / Nos deleites deste pão / Com que nosso coração / Tem fartura? / Se buscamos formosura / Nele está toda medida. / Se queremos achar a vida / Esta é! / Aqui se refina a fé, / Pois, debaixo do que vemos, / Estar Deus e Homem cremos, / Sem mudança / Acrescenta-se a esperança, / Pois na terra nos é dado / Quanto no céu guardado / Nos está. / A qualidade que lá / Há de ser perfeiçoada / Deste pão é confirmada / Em pureza. / Dele nasce a fortaleza / Ele nos dá perseverança. / Pão de bem aventurança, / Pão de Glória / Deixado para memória / Da morte do redentor / Testemunho de seu amor / Verdadeiro."
Extrato da obra CARTA AO GERAL DIOGO LAINEZ, DE SÃO VICENTE, 16-4-1563 Falamos-lhe que o queríamos batizar para que sua alma não se perdesse, mas que por então não podíamos ensinar-lhe o que era necessário por falta de tempo, e que estivesse preparado para quando voltássemos. Folgou ele tanto com esta notícia, como vinda do Céu, e teve-a tanto em memória, que agora quando viemos e lhe perguntamos se queria ser Cristão, respondeu com muita alegria que sim, e que já desde então o estava esperando [...] O que se lhe imprimiu foi o mistério da Ressurreição, que ele repetia muitas vezes dizendo: “Deus verdadeiro é Jesus, que saiu da sepultura e subiu ao Céu, e depois há de vir, muito irado, a queimar todas as cousas” [...] Chegando à porta da igreja o assentamos em uma cadeira onde estavam já seus padrinhos com outros cristãos a esperálo. Aí lhe tornei a dizer que dissesse diante de todos o que queria; e ele respondeu com grande fervor que queria ser batizado, e que toda aquela noite estivera pensando na ira de Deus, que havia de ter para queimar todo o mundo, e destruir todas as cousas, e de como havíamos de ressuscitar todos.
O fim de sua vida: o Em 1578 Anchieta foi feito o 5 provincial do Brasil (espécie de bispo de província, mas sem o status de tal). Continuou em defesa dos índios em diversos outros incidentes, em geral contra os bandeirantes paulistas. Em 1597, uma grave moléstia o atingiu: sentia-se fraco e com as dores costumeiras cada vez piores. Pediu para que fosse levado para dentro da aldeia na qual por 40 anos ensinara aos índios. Desencarnou na presença de outros cinco padres. Com isso concluiu seus 64 anos de vida, sendo que 47 destes a serviço da Companhia de Jesus, e 44 dedicados aos índios do Brasil e sua catequese. Sua morte causou dor, não somente aos padres do colégio e de toda a Companhia no Brasil, mas principalmente aos índios, que, segundo seu ritual, o choraram por sete dias seguidos.
Títulos: Ganhou o título de Abaré (em tupi "Aquele que ensina as coisas de Deus"), e o de Apóstolo do Brasil. Por ter sido o primeiro e maior educador religioso europeu a catequizar os índios em sua própria terra natal, também lhe valeu o título de Patrono dos Professores. Por seu trabalho religioso e artístico pioneiro, foi escolhido como Patrono da Cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Música (em seus autos, usava enormemente a música, que, infelizmente, não ficou registrada).
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.