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Capítulo 20 de 38
Elias
As Vidas de Osvaldo Polidoro
Após o desencarne de Salomão (em 931 aC), o reino hebreu dividiu-se em duas partes, Reino de Israel (10 tribos, ao norte, capital Samaria) e Reino de Judá (2 tribos, ao sul, capital Jerusalém). Por motivos comerciais, os sírios bíblicos (arameus) vinham se infiltrando na região de Samaria. O rei Onri, de Israel, fez uma sólida aliança com os fenícios, temendo invasões. Tal aliança foi selada pelo casamento da filha do rei de Tiro, a voluntariosa Jezabel, com o herdeiro de Onri, seu filho Acab. Tal foi a contribuição de Jezabel para os negócios do reino durante o reinado do 19 anos do reinado de seu marido, que seu nome ainda hoje é lembrado como sinônimo de mulher imoral. O pai de Jezabel era sacerdote de Astarté, a deusa fenícia, e ela criou-se nesta atmosfera ritualística, devotada adoradora de Baal. Exerceu uma notável ascendência sobre o marido, influenciando-o em política e tendo palavra decisiva em religião: o culto de Baal difunde-se e quem segue o verdadeiro Deus é perseguido, sendo os sacerdotes mortos. Um desrespeito tão chocante pelos costumes israelitas não podia passar sem defesa, e ambos, Acabe e Jezabel, viram-se diante de Elias, o tisbita. Elias é o homem que está, por Deus, presente para dar fim a essa situação. É profeta de estilo de vida ascético, eremita. A iconografia tradicional retrata-o coberto de peles, ou com uma capa branca sobre uma túnica escura. Seu nome significa “Meu Deus é Iavé”. Sua tarefa: restaurar a tradição, pôr termo ao sincretismo, iconoclasta por essência. Seu carisma é claro e potente: segundo Ricciotti – em História de Israel, “Aquilo que ele, o profeta, diz em vista de sua missão, é Deus quem o diz; este substitui Aquele e ambos, Quem envia e quem foi enviado, na prática são a mesma coisa. Mesmo enquanto indivíduo, o profeta vive em relação muito íntima com Deus, chegando quase a despir-se da sua personalidade: Deus e a sua missão o conquistaram a tal ponto que ele realiza ações consideradas indecorosas e inconvenientes pela maioria dos homens”. Seus feitos podem ser lidos na Bíblia, nos livros I e II de Reis, no Velho Testamento. Testemunham gloriosamente o uso nobre e santo dos dons mediúnicos que, produzindo sinais e prodígios, atestam à humanidade da época (e até hoje) a onipotência de Deus. Quando o número de judeus diminuíra demais (pela perseguição e dispersão), Elias anuncia, como punição divina, uma grande seca e, quando ela tem início, ele instala-se ao lado de uma torrente, aonde corvos levam-lhe pão e carne como alimento. Ao secar também tal torrente, o profeta dirige-se a Sarepta, abrigando-se na casa de uma viúva, fazendo ali o prodígio de não faltarem mais óleo e farinha naquele lar, ressuscitando também o filho dela. Acab, vencido pela seca, um ano depois, manda pedir um encontro com Elias no Monte Carmelo, onde estarão 450 sacerdotes de Baal e o profeta de Deus. Elias propõe que sejam esquartejados dois novilhos, colocados sobre lenha, e que o nome do Deus de cada um seja invocado; aquele que responder enviando fogo é o Deus verdadeiro. O profeta manda ainda que sua fogueira seja, por três vezes, regada com bastante água, e então faz a invocação e... “o fogo do Senhor baixou do céu, devorou o holocausto, a lenha e as pedras”. Todos os profetas de Baal foram mortos pelo povo. A chuva volta a cair em seguida. Sempre amparado pelas legiões do Senhor, a darem-lhe alimento e consolo, caminha por 40 dias, até chegar ao Monte Horebe, onde recebe instruções de Deus a respeito de quem ele deverá ungir como reis da Síria e Israel, assim como o outro profeta que ficará em seu próprio lugar: Eliseu. Josafá, competente rei do reino do Sul, estava em Samaria, e concordou em aliar-se a Acab para reconquistarem Ramote, mas ele não faria nada sem antes ouvir os profetas de Deus. Acab envia 400 profetas de Baal, que anunciam falsamente muito sucesso, mas Josafá insiste em ouvir um hebreu. O único que restara ali era Micaías, e ele, ao profetizar, anuncia a morte de Acab. Este entra disfarçado na luta, e uma seta penetra-lhe as juntas da ombreira da armadura, tendo os cães lambido seu sangue, exatamente como Elias predissera. Acabam os 19 anos de seu péssimo reinado, iniciando agora o do ineficaz Acazias. Elias também enfrenta Acazias, (porque ele havia consultado Belzebub, deus de Acara) mandando línguas de fogo descerem do céu sobre os dois batalhões de 50 enviados do rei que tinham a missão de marcarem um encontro com o profeta. Quando chegou um terceiro grupo, seu comandante implora pelas suas vidas e só então Elias acompanha-os até o leito de Acazias, que jazia doente, anunciando-lhe que desencarnará. Jezabel também encontrou o fim profetizado por Elias: Recostada numa janela, repreendia Jeú, grande comandante das hostes de Israel, e foi empurrada para as ruas por eunucos, pisoteada pelos cavalos daquele chefe, tendo sua carne sido comida pelos cães. A vida de Elias aproxima-se do fim. Perto de Jericó, caminha às margens do Jordão em companhia de Eliseu. Bate nas águas com seu manto e elas separam-se, a fim de que ele passe com o pé enxuto. Enquanto conversam, “um carro de fogo e cavalos de fogo os separam, e Elias sobe aos céus num turbilhão“.
Não houve túmulo: sua saída da carne sem deixar corpo deixa esta marca indelével mais uma vez na nossa história.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.