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Capítulo 31 de 38
João Huss
As Vidas de Osvaldo Polidoro
Leituras preliminares: WYCLIFF (1333-1384), teólogo e reformador inglês, era professor da Universidade de Oxford, e atualmente é considerado um dos grandes sábios de sua época; foi discípulo de Ockham, adversário da supremacia do Papa. Desenvolveu alguns tratados sobre o dominiun, ou seja, a idéia de que o poder vem de Deus e apenas é legítimo naqueles que se encontram em estado de graça. As suas teses contrariavam os interesses da Igreja Católica: expressava-se contra o poderio papal, os votos religiosos, os benefícios e riquezas do clero, as indulgências e a concepção tradicional acerca do sacerdócio. Atacou severamente o sistema eclesiástico, a opulência clerical, pregando o confisco dos bens da Igreja na Inglaterra e adoção, no clero, dos votos de pobreza material do cristianismo primitivo. Com isso sofreu inúmeras admoestações por parte do clero. Huss considerava-se teologicamente sintonizado a Wycliff, corroborando suas afirmações, mas associou o reformismo religioso ao anseio de independência nacional da Boemia diante do domínio germânico do Sacro Império. John Wycliff aproveitava habilmente as fraquezas do clero para ridicularizá-las. Apoiou o Parlamento, que recusou o tributo ao Papa, e a Lancastre, que propunha se retirassem os benefícios dos Bispos. Escreveu a obra De Domínio Divino, onde provava que a autoridade é Deus. Entre seus princípios estabelecia que as relações de Deus para com os homens eram diretas: não eram necessários os intermediários, e isso era um golpe contra Roma. Foi trazido à corte eclesiástica de S. Paulo e teve Lancastre a seu lado, como defensor. Achava mais, que os eclesiásticos deviam ser submetidos ao tribunal civil. Atacou e ironizou os perdões, indulgências, absolvições, peregrinações, cultos de santos, etc., não se deixou apanhar em qualquer armadilha, e por isso Roma, diferentemente do caso de João Huss, teve o desgosto de não o poder levar a fogueira. Desencarnou tranqüilamente, depois de um ataque de paralisia.
A Reforma Protestante: O século XVI foi marcado pelo surgimento de novas religiões cristãs, que acabaram com a hegemonia política e espiritual da Igreja católica e abalaram a autoridade do papa. Esse processo de divisão do catolicismo denominou-se Reforma, e às novas Igrejas, protestantes. A reação da Igreja católica a essas novas religiões cristãs chamou-se Contra- Reforma. A Reforma protestante foi um movimento religioso de adequação aos novos tempos, ao desenvolvimento capitalista; representou no campo espiritual o que foi o Renascimento no plano cultural: um ajustamento de ideais e valores às transformações sócio-econômicas as Europa (A Besta e o Falso Profeta, do Apocalipse, cap 13). O descontentamento dos humanistas da época levou-os a criticarem a Igreja pelos abusos cometidos. Destacaramse, além de Wycliff e Huss, Erasmo de Rotterdam e Thomas Morus, que propuseram a depuração das práticas eclesiásticas e a reforma interna, feita pelos próprios membros da Igreja. Erasmo de Rotterdam (1466-1536), uma das vidas de João Evangelista, onde considerado “príncipe dos humanistas”. Desprezou as doutrinas escolásticas e escreveu “Elogio da Loucura”, denunciando algumas atividades da Igreja e a imoralidade do clero. Da revista Veja “Ainda são recentes na memória dos povos da península italiana os excessos radicais que o repúdio à dissolução de costumes e à corrupção protagonizadas em Roma pelo papa Alexandre VI pode provocar. Há apenas três anos, depois de liderar um movimento puritano e reformista na opulenta Florença, o frei dominicano Jerônimo de Savonarola foi excomungado, torturado, enforcado com correntes e queimado por ordem do papa. Savonarola insurgiu-se contra o clero corrupto em geral e o papa em particular. "A Igreja está atolada, dos pés até a cabeça, na vergonha e no crime. Além dos outros vícios de Alexandre VI, que são conhecidos de todos, afirmo que ele não é cristão, não acredita na existência de Deus", dizia. Pregador carismático, cujos sermões exaltados atraíam milhares de fiéis, quando exércitos franceses invadiram Florença, o dominicano aliou-se ao conquistador. De líder espiritual, tornou-se regente. O poder político deu-lhe a oportunidade para pôr em prática seu radicalismo. Recrutando adolescentes para o que chamava "grupos santos", impôs leis proibindo o uso de trajes pomposos, tabuleiros de xadrez e até retratos femininos em trajes sumários, como se usa agora. Alguns desses "símbolos do pecado" foram queimados em praça pública, nas chamadas fogueiras da vaidade. Savonarola enfrentou o papa, mas não poderia vencê-lo. Tentou formar um concílio com poderes para depor Alexandre VI por depravação notória e não obteve apoio. Terminou executado em praça pública, mas lançou uma semente, que talvez venha a germinar, de uma Igreja mais comprometida com os ideais cristãos de fraternidade e solidariedade. Se a sua advertência insistente – "A igreja deve ser reformada e renovada" – continuar ignorada, certamente outras insurgências virão.”
Lemos em Atos dos apóstolos a origem da Igreja Cristã, o derrame do Espírito Santo, a perseguição, judaica e romana, contra o Cristianismo, a coragem dos apóstolos, o apostolado. Esta perseguição teve um fim proveitoso para Igreja: só ficou nela quem era de fato CRISTÃO. Alguns admiradores do cristianismo negavam-se a pertencer à Doutrina do Caminho quando viam o espólio dos bens, as torturas romanas, a perda dos privilégios sociais ou o desencarne. A pureza do Cristianismo era abominável aos olhos profanos dos romanos. Pena que não durou mais do que dois séculos. De perseguido, o cristianismo torna-se a religião oficial do Estado. O astuto imperador romano Constantino, no ano 313 d.C., numa tentativa de unificação do Império e outros motivos políticos, declara o Cristianismo como religião Oficial e abre as portas da igreja a pagãos. Mas a história não deixa enganos. Foi a pior de todas as "conquistas" da Igreja. Ela perdeu a sua identidade de agência do Reino. Todo o império se tornou "Cristão" de uma noite para o dia. Os inconversos também eram batizados e recebidos no rol da igreja, agora chamada de Católica Apostólica Romana, que ganhou muita glória humana, mas muita decadência espiritual. Todo tipo de paganismo, superstições, orgias, idolatrias e mundanismos foram entrando na igreja e encontrando seu espaço, sem restrições e/ou disciplinas. O paganismo supersticioso misturou-se ao "cristianismo oficial". Foi aí que foram introduzidos dentro da Igreja alguns costumes pagãos como segue: Ano 315: reza pelos mortos; ano 320: uso das velas; ano 375: culto aos "Santos"; ano 431: culto à virgem Maria; ano 503: doutrina do purgatório; ano 606: Bonifácio III se declara Papa; ano 783: adoração das imagens e relíquias: ano 850: uso de água benta; ano 993: canonização dos santos; ano 1074: celibato obrigatório; ano 1076: dogma da infalibilidade da igreja; ano 1090: invenção do rosário; ano 184: instituição da "Santa Inquisição"; ano 1190: instituição da venda de indulgências; ano 1215: dogma da confissão: (confessar ao sacerdote os pecados); ano 1229: proibida a leitura da Bíblia; ano 1316: instituição da reza - "Ave Maria"; ano 1415: somente os sacerdotes tomam o vinho e aos fiéis é permitida apenas a hóstia. Estes foram alguns dos costumes pagãos/idólatras que foram incorporados ao Cristianismo pela igreja. Depois, que a "Santa Inquisição" (1184) matou inúmeros pregadores como John Huss, John Wycliff, Savonarola e muitos outros, por anunciarem o Evangelho conforme a Bíblia, a humanidade, desgostosa com a corrupção moral e espiritual do sacerdócio, clamava por uma reforma Religiosa dentro da Igreja Cristã, que se distanciou do que Cristo deixara exemplificado. No dia 31 de outubro de 1517, ao meio-dia, na véspera da "Festa de Todos os Santos", o monge agostiniano, Martinho Lutero, fixou as 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Winttenberg, na Alemanha, dando assim o início oficial da Reforma Protestante, tentando voltar à pureza da fé bíblica, mas acabando por ser o Falso Profeta anunciado no Apocalipse. As teses de Lutero condenavam, entre outras coisas, a venda de indulgências (bula papal que garantia aos fiéis a entrada no céu). Lutero deu o grito da Reforma, mas outros deram facetas diferentes ao movimento, nos vários países em que se expandiram: Zwinglio (seguidor de Lutero e de Erasmo de Rotterdam) iniciou a Reforma na Suíça, com pregações tão violentas que resultou em guerra civil em 1529. João Calvino publicou ali uma obra em 1536, Instituição da Religião Cristã, e aos poucos conquistou toda Genebra com suas idéias, acabando por controlar a cidade. Foi considerado o teólogo do capitalismo ao estimular o lucro e o trabalho, favorecendo a burguesia. O líder da revolução protestante na Inglaterra foi o próprio rei Henrique VIII, que colocou no movimento características eminentemente políticas, sob o nome de anglicanismo. A reação católica foi conter essa expansão reformista com um movimento que se chamou Contra-Reforma, que incluiu a Reforma Católica: fundam a Companhia de Jesus em 1534, cabendo aos jesuítas a difusão do catolicismo. Em 1545, o papa Paulo III convoca o Concílio de Trento, onde se institui a Inquisição, o Index (lista de livros proibidos, tanto religiosos quanto científicos e culturais) e o Tribunal do Santo Ofício foi reativado, instituições essas que, sob o pretexto de combater hereges, sempre em nome do Cristo, condenou à tortura e ao desencarne milhares de pessoas.
A história de João Huss nos mostra o quão longe do ideal bíblico estava a ortodoxia católica e nos permite entender porque a Reforma Protestante procedeu de maneira cismática. A Igreja, naquela época, estava em crise: dividida pelo Cisma do Ocidente, ameaçada pela ressurreição das antigas heresias e a formulação de novos postulados antidogmáticos. Eis que surge na Boêmia um outro foco, muito mais perigoso que o de Wicliff. É que Huss apresenta-se como reformador religioso e como caudilho nacional, papel muito semelhante, desempenhado um século mais tarde, por Lutero na Alemanha. Huss, tradutor das obras de Wicliff, propagou várias teses antidogmáticas: negou a necessidade de confissão auricular, atacou como idolátrico o culto de imagens, da Virgem Maria e dos Santos, e a infalibilidade papal. Com isso, teve a ira do clero contra a sua pessoa. Defendia que: a igreja era formada pelos predestinados, tendo Cristo como cabeça, e não o papa.Somente Deus pode perdoar os pecados. Nem o papa nem os cardeais poderiam estabelecer doutrina contrária à Escritura, e não deveriam ser obedecidos se dessem ordens erradas. O povo errava ao adorar imagens, acreditar em milagres falsos, e em fazer peregrinações supersticiosas. É erro a venda de indulgências. O papa não podia usar força física contra os seus inimigos.
Sua Vida: Jan (ou João) Huss foi sacerdote tcheco, mártir e precursor da Reforma protestante. Nasceu de uma família camponesa que vivia na pequena aldeia de Hussinek, perto de Fichtelgebirge, na Boêmia, cerca da fronteira bávara e do
limite lingüístico entre o alemão e o tcheco, em 1373. Desencarnou queimado em fogueira da Inquisição em 1415, em Constança. Assinava Jan de Hussinek e, por abreviatura, Huss, que em tcheco quer dizer ganso ou pato. Ingressou na Universidade de Praga quando tinha uns dezessete anos. A partir de então, toda sua vida transcorreu na capital de seu país, excetuados seus dois anos de exílio e encarceramento em Constança. Completou o seu curso na Universidade de Praga, onde se formou como bacharel em Teologia (1394) e em Artes (1396). Trabalhou na fixação da ortografia e na reforma da língua literária tcheca. Em 1400 foi ordenado sacerdote, e no ano seguinte passou a ocupar o cargo de Reitor da Universidade, quando se aproximou da obra do reformador inglês John Wycliffe, passando a considerar-se teologicamente sintonizado com seu ponto de vista. No ano seguinte (1401), tornou-se pregador da Capela de Belém, em Praga, capital da Boêmia, e tinha o apoio do Arcebispo. Ali, pregou com dedicação a Reforma pela qual tantos outros tchecos propugnaram desde os tempos de Carlos IV. Huss, como professor da Universidade de Praga, distinguiu-se nas discussões mais abstratas e no conhecimento de Aristóteles, da Bíblia e dos Santos Padres. Buscou no escritos de Matias Janov e Chtitny as soluções deles para as inquietudes religiosas. (Matias Janov e Chtitny propagavam a consideração da Bíblia como única fonte de verdade e de fé. Huss era afastado da doutrina católica e sua heterodoxia se reforçou na leitura das obras de Wycliff, particularmente do Dialogus e Trialogus, trazidas de Oxford por Jerônimo de Praga. Sua eloqüência era tanta, que aquela capela em pouco se transformou no centro do movimento reformador. Ladislau e sua esposa Sofia escolheram-no por seu confessor, e deram-lhe seu apoio. Alguns dos membros mais destacados da hierarquia social começaram a encará-lo com receio, mas boa parte do povo e da nobreza parecia segui-lo: o apoio dos reis ainda era suficientemente importante para que os prelados não se atrevessem a tomar medidas contra o pregador entusiasmado. No mesmo ano em que passou a ocupar o púlpito de Belém, Huss foi feito reitor da Universidade, de modo que se encontrava em ótima posição para impulsionar a Reforma. Ao mesmo tempo em que pregava contra os abusos que havia na Igreja, Huss continuava sustentando certas doutrinas geralmente aceitas; nem mesmo seus piores inimigos atreviam-se a censurar-lhe a vida ou sua ortodoxia. Huss era muito gentil e contava muito com o apoio popular. A Capela de Belém, onde ele pregava, fora fundada para que nela se falasse em tcheco. Antes disso somente podia se falar em latim. A Igreja, então, ocupava lugar excepcional na Boêmia; a sua opulência e os privilégios de que gozava produziram o enfraquecimento das regras canônicas e da moral. Praga revoltou-se contra os abusos eclesiásticos. Destarte, as preocupações de uma reforma religiosa juntaram-se às reivindicações nacionais. Até na doutrina religiosa havia hostilidade entre alemães e boêmios. Huss era francamente pela reforma e pela preponderância nacional da Boêmia, embora sem entrar em conflito com as autoridades eclesiásticas. Chegou, mesmo, a ser nomeado pregador sinodal, com o mandato de protestar contra os desregramentos do clero. Mais tarde, ele desmascarava a velhacaria dos que atraíam a Wilsnack numerosos peregrinos, e, de acordo com o Arcebispo, publicou um tratado onde desenvolvia a tese de que um cristão não deve correr atrás de milagres. Um conflito surgiu nos círculos universitários: Um discípulo de Huss, Jerônimo de Praga, passou algum tempo na Inglaterra, e trouxe consigo algumas das obras mais radicais da reforma inglesa. Sem demora, os alvos dos ataques de Huss e de seus seguidores ampliaram; religiosos começaram a ver nos ensinos de Wycliff uma ameaça séria a sua posição e reuniram-se ao grupo dos alemães. O rei Vaclav, filho de Carlos IV, decidira-se pela neutralidade entre os dois papas que, na época, pretendiam chefiar o mundo cristão. Pediu à Universidade uma decisão a respeito. Os alemães eram partidários de Gregório XII e possuíam três votos, como representantes de três nações polonesas, e a tcheca um voto só. Por instigação de Huss, o rei modificou os Estatutos, ficando a tcheca com os três votos e os outros com um. Mas, cerca de 5.000 alemães, professores e alunos, deixaram Praga. Huss foi, então, nomeado Reitor da Universidade, que se tornou inteiramente eslava. Ora, o Arcebispo, que era por Gregório XII, acusou Huss de heresia wyclifita e transmitiu sua queixa a Alexandre II, eleito pelo Concílio de Pisa. O Papa, então, pela bula de 1409, exigiu a retratação dos erros wyclifitas, a apreensão dos livros de Wycliff e a interdição de se pregar em igrejas que não fossem as antigas. Huss apelou, mas o Arcebispo fez queimar os escritos de Wycliff e excomungou os seus partidários. Mas o clero inferior, a Universidade, o povo e o rei ficaram com João Huss. A rainha Sofia gostava de ouvi-lo. Surge daí um conflito político e religioso, e João Huss aparece como o chefe do partido nacional. Continuaram as prédicas na Capela de Belém, apesar da bula, e ninguém se incomodou com o interdito contra Praga. Numa segunda fase da luta, entra diretamente em cena o Papa João XXIII, que sucedeu a Alexandre V. Huss havia parado de pregar. Com o passar do tempo, sua consciência se impôs. Ele subiu ao púlpito e continuou pregando a tão ansiada Reforma. Este foi seu primeiro ato de desobediência. Também se negou a ir a um encontro com o Papa e, em conseqüência, o Cardeal Colonna excomungou-o em 1411, em nome do Papa. Mas, apesar disto, Huss continuou pregando em Belém e participando da vida eclesiástica, pois contava com o apoio dos reis e de boa parte do país. Assim, Huss colocou um dos pontos mais revolucionários da sua doutrina: um papa indigno, que se opunha ao bemestar da igreja, não deve ser obedecido. Huss não estava dizendo que o papa não era legítimo, pois continuava favorável ao papa pisano.
Outro incidente turbou a questão ainda mais. João XXIII, o papa pisano, estava em guerra com Ladislau, de Nápoles. Nesta contenda, sua única esperança de vitória estava em obter o apoio, tanto militar como econômico, do restante da cristandade latina. O rei, entretanto, tinha interesse em manter boas relações com João XXIII. Entre outras, a razão para isso era a questão entre ele ou seu irmão Sigismundo, (ainda não fora decidido qual deles seria o imperador legítimo) e era possível que, se a autoridade de João XXIII viesse a se impor, seria ele quem teria de decidir a questão. Por isso o rei proibiu que a venda de indulgências continuasse sendo criticada. Sua proibição, todavia, veio tarde demais. A opinião de Huss e seus companheiros já era conhecida de todos, a ponto de terem surgido passeatas do povo, em protesto contra esta nova maneira de explorar o povo checo. . O resultado disso foi um grande tumulto popular em Praga, quando Huss, com o apoio do rei Ladislau, foi festejado como herói nacional. O tráfico das indulgências e a política guerreira do Papa escandalizaram Huss e seus partidários, embora alguns recuassem, com receio da autoridade papal. Huss, porém, sustentava que o perdão dos pecados só se poderia obter por contrição e penitência sincera, e nunca por dinheiro; que nem o Papa, nem qualquer sacerdote, poderiam levantar a espada em nome da Igreja; que a infalibilidade do Papa era uma blasfêmia. Houve o discurso inflamado de Jerônimo de Praga e cortejos satíricos onde se ridicularizava a Igreja Oficial. O rei de Nápoles estabeleceu a pena de morte para quem ofendesse o Papa, e logo três moços foram decapitados. Os hussitas enterraram-nos solenemente, e Huss lhes fez o necrológio. . Enquanto isto, João XXIII e Ladislau fizeram as pazes, e a pretensa cruzada foi revogada. Huss, no entanto, foi tido como o líder de uma grande heresia, e até chegou-se a dizer que todos os boêmios eram hereges. Em 1412, Huss foi excomungado de novo, por não ter comparecido diante da corte papal, sendo fixado um prazo curto para ele se apresentar. Se não o fizesse, Praga, ou qualquer outro lugar que lhe desse acolhida, estaria sob interdito. Desta forma, a suposta heresia de Huss resultaria em prejuízo para tal cidade. Por esta razão, o reformador tcheco decidiu abandonar a cidade onde tinha passado a maior parte de sua vida. Entrementes, o imperador Sigismundo, irmão de Ladislau, da Boêmia, entendia-se com João XXIII, para convocar o Concílio de Constança, de cujo programa constava a pacificação religiosa da Boêmia. Sigismundo prometeu a Huss um salvo-conduto, se consentisse em comparecer ao Concílio de Constança (1414). Huss acedeu. Diante da promessa, veio a Praga e se pôs em caminho. Em Constança recebeu o dito salvo-conduto onde se dizia que ele podia transire, stare, morari et redire libere. Mas, com o pretexto de que ele queria retirar-se, prenderam-no e internaram-no no Convento dos Dominicanos, em infecto recinto. Instauraram um processo; o ato da acusação coube a Etienne Palec. Começara a via-crucis de Huss. No dia 5 de junho de 1415, Huss compareceu diante do Concílio. Poucos dias antes, João XXIII tinha sido aprisionado e trazido de volta para Constança, e Huss tivera seus piores conflitos com ele. Era de se supor que a situação do reformador melhoraria, mas sucedeu o contrário: foi tratado como se tivesse tentado fugir ou se já tivesse sido julgado. Foi acusado formalmente de ser herege e de seguir as doutrinas de Wycliff. (O Concílio condenara as teorias de Wycliff). Huss tentou expor suas opiniões, mas algazarra foi tamanha que ele não pode, e a questão foi adiada para o dia 7 do mês seguinte. Não havia maneira de resolver o conflito. Queriam que Huss se submetesse ao Concílio, cuja autoridade não poderia ser posta em dúvida. O Concílio pedia unicamente que Huss se submetesse a ele, retratando-se das suas doutrinas, mas não queria escutá-lo. Quanto ao seu tratado De Ecclesia; ele nem pode defender-se, porque vozes exasperadas interrompem-no e abafam a sua. Huss, porém, manteve a doutrina de que apenas o Cristo e não Pedro era o chefe da Igreja, e resistiu às promessas e ameaças que lhe fizeram. Logo percebeu qual a sorte que o aguardava: cheio de pena pelos inimigos, escreve cartas de reconhecimento pela amizade que lhe devotaram, e aos amigos, animando-os, por terem se conservado fiéis à Verdade. O cardeal Zabarella preparou um documento que exigia de Huss a retratatação, e Huss respondeu com o Apelo de Jesus Cristo: “Em suas mãos eu deponho a minha causa, pois Ele há de julgar cada um, não com base em testemunhos falsos e Concílios errados, mas na verdadeira justiça”. Encarceraram-no por vários dias para que fraquejasse, mas Huss continuou firme. Ficou sob a guarda do Bispo de Constança, e transferiram-no, como medida de maior segurança, para o torreão do Castelo de Gottlieben, onde ficou aprisionado com correntes, e assim permaneceu dia e noite. Dali foi para o Convento dos Franciscanos. A 6 de julho de 1415 é proclamada a condenação de Jan Huss, e logo executada. Foi levado para a Catedral de Constança e ali, depois de um sermão sobre a teimosia dos hereges, ele foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, tão somente para logo em seguida arrebatarem-lhe ambos, sinal simbólico de que estava perdendo suas ordens sacerdotais. Depois disso, cortaram-lhe o cabelo para danificar a tonsura, fazendo-lhe uma cruz na cabeça. Foi degradado e fizeramlhe um chapéu de papel, onde se lia esta inscrição: Hic est hoere siarcha (Eis o herege). Conduzido a um terreno vazio, despiram-no, amarraram-no a um poste, ajuntaram lenha em torno e atearam fogo. Ouviram-no cantar a litania - Christo, Fili Dei vivi, miserere nobis. Quando ia entoar a segunda linha - pai natas es ex Maria -, foi envolvido inteiramente pelas chamas e pela fumaça e a voz morreu-lhe na garganta. Suas cinzas foram lançadas ao Reno. E assim desencarnou queimado, aos 46 anos, quem pregou contra a injustiça, a venalidade e a insinceridade, tendo enfrentado a fogueira com grande coragem. Dizem os historiadores que era uma alma sensível, piedosa, pura, honesta, só se deixando dominar pelo que lhe parecia justo e verdadeiro. E, diziam ainda, sua vida anuncia uma era nova, onde se imporão os direitos religiosos da consciência individual.
Um ano após o martírio de Jan Huss, um discípulo seu também era imolado na fogueira da Inquisição: Jerônimo de Praga (1416). Jan Huss teria proferido a seguinte frase, antes de morrer cantando: «Hoje vós assais um pato, mas dia virá em que o cisne de luz voará tão alto, que as vossas labaredas não mais alcançarão”. Séculos depois, de fato, Jan Huss volta como Voltaire, Allan Kardec e Osvaldo Polidoro, cumprindo o trabalho de Restauração da Doutrina, repondo as Verdades Divinas no lugar e entregando o prometido Evangelho Eterno que está profetizado no capítulo 14 do Apocalipse. O desencarne de Huss provocou revolta entre os seus seguidores, os ultraquistas e os taboritas, (quando não estavam em guerra com as autoridades romanas, os ultraquistas perseguiam os taboritas). Os mais moderados, os ultraquistas, lideraram a resistência contra as cruzadas católicas e negociaram uma paz com a Igreja Católica, no Concílio de Basiléia, entre 1433-1436. Os taboritas, mais radicais, não aceitaram essa paz e foram quase extintos pelos ultraquistas na batalha de Lipan em 1433. Mesmo após o papa Pio II declarar nulo o acordo, os ultraquistas conseguiram manter uma igreja hussita independente, essa durou até a conquista da Boêmia pelos Hasburgos em 1620. _______________________________________________________________________
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