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Capítulo 9 de 29

Parte 9 de 29

Joana D’Arc, Médium · Léon Denis

Finalmente, em Patay, os ingleses são batidos em campo raso e o General Talbot, que os comandava, cai prisioneiro. Em seguida, as tropas libertadoras marcham sobre Remos e Carlos VII é sagrado rei da França. Em dois meses Joana reparara todos os desastres; reconstituíra, moralizara, disciplinara, transfigurara o exército e reerguera todas as coragens. “Antes dela – dizia Dunois –, duzentos ingleses punham em fuga mil franceses; com ela, algumas centenas de franceses forçam um exército inteiro a 111 recuar”. No MISTÉRIO DO CERCO, drama popular, representado pela primeira vez no ano de 1456, em Orleães, um dos atores exclama: Um só de nós 112 vale por cem sob o estandarte da Pucela. 113 Alguns autores, como Thalamas, julgaram poder afirmar que a situação de Orleães em 1429 não chegara a ser tão grave quanto geralmente se diz.

Os ingleses eram pouco numerosos e os borgonheses se haviam retirado. A cidade, bem abastecida, se achava em estado de resistir longo tempo e os orleaneses podiam libertar-se unicamente por seus próprios esforços. Não só todos os historiadores, Micheles, Henri Martin, Wallon, Lavisse, etc., são unânimes em atestar a situação precária dos sitiados, como também o afirma um outro escritor, nada suspeito de parcialidade em favor de Joana: Anatole France, que escreveu o seguinte: “Perturbados pelas dúvidas e temores, ardendo 110 A. France – VIE DE JEANNE D'ARC, t. I, págs. 335336. 111 J.

Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I. Depoimento de Dunois. 112 MISTERE DU SIEGE D'ORLEANS, v. 12, 232233. 113 Conferência feita em Tours, a 30 de abril de 1905. de inquietações, sem sono, sem repouso, não avançando um passo em qualquer 114 sentido, os orleaneses começavam a desesperar”. Enquanto isso, os ingleses aguardavam novos reforços prometidos pelo Regente. Cinco mil combatentes se reuniram em Paris sob as ordens de Sir John 115 Falstolf, com abundantes víveres, para marchar em auxílio dos sitiantes.

Lembremos ainda mais o depoimento do duque d'Alençon no PROCESSO DE REABILITAÇÃO. Falando das temíveis fortificações construídas pelos ingleses, diz: “Se me achara em qualquer delas com um punhado de homens armados, ousara desafiar o poder de um exército e creio bem que os atacantes não lograriam tomá-las. E, de fato, os capitães que tiveram parte nas operações 116 me declararam que algo de miraculoso houve no que se fez em Orleães!”. A esses testemunhos convém aditar a afirmação de um dos sitiados, João Luillier, notável comerciante da cidade, o qual assim se exprimia: “Todos os meus concidadãos e eu estamos certos de que, se a Pucela não viera socorrer-nos, em pouco teríamos caído nas mãos dos sitiantes. Fora impossível aos orleaneses conseguirem resistir por muito tempo às forças inimigas, cuja superioridade era 117 enorme”.

O entusiasmo dos habitantes dá a medida dos perigos por que passaram: após a libertação da praça, os orleaneses “se ofereciam a Joana para que a heroína 118 dispusesse deles e de seus bens à vontade”, diz-nos o JOURNAL DU SIÈGE. Não menos probante é o testemunho que um modesto tabelião da cidade, Guilherme Girault, deixou consignado numa página de um de seus livros de assentamentos. Em meio das aclamações de toda a França, Girault escrevia que o livramento de Orleães fora o “milagre mais evidente que já houvera depois da 119 Paixão”. Esta parte da vida de Joana é rica de fenômenos de premonição, que devemos acrescentar aos já assinalados. Suas vozes lhe haviam dito que, quando ela entrasse em Orleães, os ingleses não se mexeriam.

O fato se verificou. As chalanas que tinham de atravessar o rio para embarcar os víveres não podiam fazê-lo, por ser contrário o vento que soprava. Joana diz: “Esperem um 120 pouco. Tudo entrará na cidade.” Com efeito o vento mudou e enfunou as velas. 114 A. France – VIE DE JEANNE D'ARC, t.

I, pág. 164. 115 Ibidem, t. I, pág. 430 (esse reforço não pôde tomar parte senão na batalha de Patay). 116 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I, pág. 176. 117 Ibidem, págs. 260261. Depoimento do burguês João Luillier. 118 J.

Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, págs.9192. 119 J. Doinel – MEMOIRES DE LA SOCIETE HISTORIQUE ET ARCHEOLOGIQUE DE ORLEANAIS, 1892, t. XXIV, págs. 392393. 120 PROCESSO. Depoimento de Dunois. – JOURNAL DU SIEGE, págs. 7475.

– Chronique de la Pucelle, pág. 284. 63 – JOANA D´ARC, MÉDIUM Nenhuma inquietação lhe produziu a partida do Marechal de Boussac, à frente do segundo comboio de víveres. Dizia: “Sei que não lhe acontecerá mal algum.” E assim foi. Pouco a pouco, a alegria dos orleaneses ganha toda a França. À medida que as vitórias de Joana se sucedem, o rei as comunica às suas “boas cidades”, convidando as populações a “louvarem a Deus e renderem homenagem a Pucela, 121 que sempre estivera presente à execução de todas estas coisas”. Por toda parte as notícias são recebidas com júbilo delirante e o povo consagra à heroína um culto cada dia mais elevado. * Há 480 anos, Orleães festeja o aniversário de tão prodigiosos acontecimentos.

Graciosamente convidado pelo maire, tive ocasião de assistir a 122 muitas dessas solenidades. Transcrevo aqui as notas que então escrevi, sob a impressão do momento: O grande sino de alarma, velha testemunha do assédio, o mesmo que assinalava os movimentos dos ingleses, toca de quarto em quarto de hora. Suas vibrações sonoras se propagam por sobre a cidade, se instilam pelas ruas estreitas e tortuosas da antiga Orleães, penetram até ao fundo das casas, despertam nos corações a lembrança do levantamento do cerco. Acudindo-lhe ao chamado, logo todos os sinos das paróquias entram a bimbalhar. Suas aéreas vozes se elevam no espaço e formam um concerto portentoso, em que predominam as notas graves do grande sino, sons que impressionam as almas sonhadoras.

A cidade inteira se apresenta enfeitada e empavesada. Por cima dos edifícios flutuam bandeiras; nas sacadas e janelas, misturam-se os pavilhões nacionais e os estandartes com as cores e as armas da Pucela. A multidão enche as ruas e praças. Abundam forasteiros, vindos uns dos arredores, outros de pontos longínquos da França e até do estrangeiro. Significativa particularidade!

Todos os anos, grande número de ingleses vêm participar das festas da virgem Lorena. Entre os prelados franceses, via-se o cardeal Vaughan, arcebispo de Westminster. Um povo que procede assim não é um povo sem grandeza. Em parte alguma a lembrança de Joana d'Arc se conservou tão viva. Em Orleães, tudo nos fala da Pucela.

Cada esquina de rua, cada monumento nos recorda um episódio do cerco. Durante quatro séculos, a França desconheceu sua heroína. O silêncio e a obscuridade lhe envolveram a memória. Só Orleães nunca a esqueceu. 121 Carta de Carlos VII aos habitantes de Narbona, PROCESSO, t. V, págs. 101 e 104.

– Arcère, HISTOIRE DE LA ROCHELE. – Moynès, INVENTAIRES DES ARCHIVES DE L’AUDE, anexos, pág. 390, etc. (segundo A. France.) 122 Especialmente de 1893 a 1905. O programa das festas não varia de um ano para outro. Apenas, depois da separação, as grandes corporações do Estado não mais assistem, oficialmente, à cerimônia religiosa. A partir de 1430, um ano depois de levantado o sítio, foram instituídas a cerimônia e as procissões comemorativas e, desde então, a municipalidade e o clero, numa digna emulação, se esforçam por dar à solenidade novos atrativos, sempre que ela se repete.

Espetáculo raro e tocante: todos os poderes se unem para tornar a manifestação cada vez mais brilhante. Só a memória de Joana é hoje capaz de restabelecer a união dos pensamentos e dos corações, do mesmo modo que ela em pessoa restabeleceu a unidade da França, no momento dos supremos desastres e do esboroamento. Na noite de 7 de maio, por volta das 8 horas, Joana, vitoriosa nas Tourelles, entrava na cidade assediada. Comovedora e inolvidável cerimônia consagra anualmente a lembrança desse fato. O maire, levando à frente a bandeira da heroína, uma bandeira branca com as flores de lis bordadas a ouro, seguido pelos conselheiros municipais, sai da municipalidade e vem até ao adro da catedral, onde passa o estandarte sagrado às mãos do bispo, que ali o aguarda cercado do clero e dos prelados estrangeiros.

Sob um céu escuro, carregado de nimbos, avulta as torres maciças da basílica da Santa Cruz. As tropas formam quadrado; troa o canhão; o sino grande, o bordão da catedral, e os das outras igrejas repicam vibrantemente. Abrem-se as portas do vasto templo; a passos lentos, o cortejo dos bispos e dos padres as transpõe e se estende ao longo dos pórticos escancarados, diante dos quais se vêem desfraldadas as bandeiras de Santo Aignan e Santo Euverte, padroeiros da cidade. Ao clarão das tochas, que os cavaleiros empunham, rutilam as mitras e os báculos. Lâmpadas, que subitamente se acendem no interior das torres, as iluminam, emprestando-lhes cores fantásticas.

Uma luz purpúrea se derrama por sobre os florões, as ogivas, o rendilhado de pedra da fachada, as bandeiras ondulantes, as estolas e as sobrepelizes. Etendard de la délivrance A la victoire tu menas nos aïeux. Fils de ces preux, disons comme eux: Vive Jeanne! Vive la France! Um frêmito, um alento forte passa pela multidão atenta e concentrada.

As frontes se inclinam diante da bandeira branca, ornada de flores de lis, que lentamente sobe os degraus e desaparece em baixo das abóbadas, semelhando o fantasma da virgem Lorena a mostrar-se no seu aniversário. As grades tornam a fechar-se; apagam-se as luzes; as harmonias emudecem; a multidão se retira e a basílica torna à escuridão e ao silêncio nas trevas da noite. * Oito de maio, 10 horas. Batida pelos raios do Sol, a catedral se ostenta ornamentada de auriflamas e pavilhões. É sóbria, mas de muito efeito a decoração interna. Longas bandeiras vermelho e ouro, as cores de Orleães, enfeitam o coro.

Suspensos aos pilares, vêem-se os brasões do Bastardo e dos outros companheiros 65 – JOANA D´ARC, MÉDIUM 123 da Pucela. Na altura do órgão, dominando todo o conjunto, as armas de Joana, num quadro virginal de alvíssimos estofos. Nenhum lugar vazio na vasta nave. A França inteira – exército, magistratura, clero, poderes municipais, burgueses, artistas – está representada naquela reunião. Aos uniformes agaloados, às togas encarnadas dos juízes e aos trajes pretos dos funcionários, mesclam-se os garridos vestuários e os chapéus floridos das senhoras.

O ofício começa pela Missa em memória de Joana d'Arc, de Gounod. Às harmonias do órgão, juntam-se as fanfarras de guerra e em seguida um coro de donzelas entoa as Vozes de Joana, do mesmo autor. As notas puras do canto descem da elevada tribuna, como se foram melodias celestes. Dir-se-ia um eco das esferas angélicas, uma como evocação da virgem mártir que, Espírito radioso, todos sentem pairando sob aquelas abóbadas. Por um instante, esquecem-se as tristezas e as dores terrenas.

A impressão é grandiosa e profunda; de muitos olhos marejam lágrimas. Elevo então a Joana o pensamento, dirijo-lhe ardente prece e um raio do Sol, coando-se através das vidraças brasonadas, me banha de luz, enquanto que, ao meu derredor, larga sombra cobre a multidão comprimida dos ouvintes. Depois, o bispo de Orleães faz o panegírico da Pucela. Reconduz-nos à Terra e, em frases calorosas, expõe a situação da cidade durante o cerco. Diz: “Certamente ela se defende bem, a nobre cidade!

Paris é inglesa, seja; Orleães se conservará francesa. Paris é apenas a cabeça do reino; Orleães é o coração. Enquanto o coração bate, restam esperanças. Almotacéis, povo, burgueses, clero, guerreiros, resolvem morrer de preferência a se renderem. Queimarão os arrabaldes, desmantelarão as igrejas, estarão dia e noite de atalaia; os negociantes bater-se-ão como se tal fora sua profissão habitual; e assim darão tempo ao rei de mandar reforços.

E, viva Deus! ver-se-á para que lado pende a sorte das batalhas. “Mas, ai! O rei, nem dinheiro, nem soldados enviava; os sitiantes apertavam o cerco; erguiam fortificações de semana a semana; os 124 víveres se esgotavam e a fome, a horrível fome, devastava. Mais meio mês, e Orleães sucumbirá e o reizinho de Bourges nem sequer continuará a ser o simples reizinho de Bourges e a França baixará ao túmulo em que jazem as nações mortas...” Pouco adiante, pinta o delírio dos habitantes, após as vitórias de Joana: “Ah! Os oito dias que se seguiram à jornada de Patay, quanto devera ser bom vivê-los!

Quão mais suave deve ter parecido a 123 Essas armas são: em campo azul uma espada de prata com o copo de ouro e, enfiada na ponta da espada, a coroa real, também de ouro; ao lado, os lírios. 124 Ver, no JOURNAL DU SIÈGE, a alegria com que é notado o recebimento da mais insignificante quantidade de víveres. Primavera! quão mais luminosa a superfície do nosso Líger e embalsamado o nosso Vale de ouro! Podeis imaginar as visitas em ação de graças a todas as vossas igrejas; os cantares que não mais cessavam; os entusiasmos de que eram objeto os heróis da maravilhosa epopéia; o povo respirando pela primeira vez, depois das opressões da guerra de Cem Anos; numa palavra, esta cidade aclamando-se a si mesma, na vitória da Pucela, e a ressurreição da Pátria?” Desce do púlpito o orador.

A turba imensa se precipita para o adro, baralhase com as forças do exército, ziguezagueia por entre os bispos, as bandeiras, as relíquias, e a tradicional procissão desfila, comprida de dois quilômetros, sob um céu escampo, através das ruas empavesadas. Vai percorrer as estações marcadas pelas vitórias de Joana, em Orleães sitiada. No local do forte das Tourelles uma cruz modesta guarda a memória daquela – diz a inscrição – que “por seu valor, salvou a cidade, a França e seu rei”.

Aí a última parada. Troa de novo o canhão e as bandas militares saúdam o estandarte; o cortejo regressa ao ponto donde partira e se dispersa. Contente, a multidão vai entregar-se a seus folgares, enquanto os verdadeiros amigos de Joana irão orar e meditar na solidão. 67 – JOANA D´ARC, MÉDIUM VIII Remos Da França o reino, ao delfim, Restituir aqui vim. Saint-Yves d’Alveydre Cumprira-se a profecia de Joana com relação a Orleães. Restava o segundo ponto: a marcha sobre Remos e a sagração de Carlos VII.

Sem perda de um instante, a Pucela se pôs em campo para realizá-la até ao fim. Deixou o Orleães e foi em busca do delfim no interior da Touraine. Encontrou-o em Túrones e daí o acompanhou a Loches, insistindo continuamente para que ele preparasse tudo que era necessário ao êxito da audaciosa empresa. Mas, indolente, sem vontade própria, o príncipe hesitava entre as solicitações da heroína e as observações de seus conselheiros, que julgavam temerário arriscar-se a uma viagem de sessenta léguas, atravessando um país eriçado de fortalezas e de praças ocupadas pelo inimigo. A essas objeções, Joana respondia invariavelmente: “Bem sei; mas, nada disso merece consideração.

Seremos bem sucedidos!” O entusiasmo do povo e do exército se alastrava progressivamente. De todos os lados se ouvia que era preciso aproveitar o aturdimento dos ingleses, que haviam evacuado o Líger e se retiravam para Paris, abandonando bagagens e artilharia. Até aí, jamais tinham recebido tão violento golpe. Aterrorizados, criam ver nos ares exércitos de fantasmas, avançando para combatê-los. Por toda a França ecoava o rumor dos acontecimentos.

Com o renascer da confiança, despertavam as energias. Tão forte se fez a corrente da opinião, que Carlos VII não pôde permanecer indiferente. Cumulou de honras a libertadora e sua família, continuando, entretanto, indeciso, sem coragem. Nem sequer foi visitar os orleaneses. Seus influentes conselheiros, La Trémoille e Regnault de Chartres, viviam inquietos, intimamente irritados com o bom êxito da obra de Joana, que os punha na sombra, ciosos do prestígio que a constituía objeto da atenção e das esperanças de todos.

Assustava-os a possibilidade de verem submergir na poderosa e irresistível caudal do sentimento popular, que fizera recuar a invasão inglesa, o crédito e a fortuna de que se orgulhavam. Afinal, a voz pública se tornou clamor e não houve remédio senão ceder. Reuniu-se em Gien um exército de 12.000 combatentes. De todas as partes acorriam os gentis-homens. Os que, por muito pobres, não podiam equipar-se, pediam para servir como infantes.

A 29 de junho, partiu a expedição, com pouco dinheiro, escassos víveres e insuficiente artilharia. A 5 de julho chegou a Troyes. A cidade, muito forte, bem provida e defendida por uma guarnição anglo-borgonhesa, recusou abrir as portas. O exército francês, carente de recursos, não podia empreender um longo assédio. Ao cabo de alguns dias, os soldados já estavam reduzidos a se alimentarem de favas e das espigas de trigo que encontravam nos campos.

O rei convocou um conselho para deliberar sobre as resoluções que deviam ser tomadas. Quanto à Pucela, nem ao menos a convidaram. O chanceler expôs a triste questão: deve o exército retroceder, ou continuar a marcha para Remos? A cada um dos presentes cumpria responder por sua vez. Roberto le Masson, senhor de Trèves-sur-Loire, fez ver que, não tendo o rei empreendido aquela operação, nem por considerá-la fácil, nem por ter às suas ordens um exército poderoso e o dinheiro preciso para mantê-lo, mas porque Joana afirmava que tal era a vontade de Deus e que nenhuma resistência haviam de encontrar, convinha antes de tudo consultar a heroína.

Essa proposta logrou geral aprovação. Ora, no momento mesmo em que isso se dava, Joana, prevenida por suas vozes, batia fortemente à porta. Entrou e, dirigindo-se ao rei, disse: “Gentil rei da França, se consentirdes em ficar mais dois dias apenas diante da vossa boa cidade de Troyes, ela, por força ou por amor, vos prestará obediência, não tenhais a menor dúvida!” – Replicou o chanceler: “Se tivéssemos a certeza de que isso se verificaria em seis dias, esperaríamos de boamente!” – “Não duvideis!” replicou Joana. E, sem tardança, pôs-se a percorrer os acampamentos, a fim de organizar o ataque, infundindo em cada um o ardor de que se sentia possuída. A noite passou-se em preparativos.

De cima das muralhas e das torres, os sitiados observavam os campos franceses, presos de febril atividade. A luz de archotes, cavaleiros, escudeiros, soldados trabalhavam à porfia, entupindo os fossos, preparando a faxina e as escadas, construindo abrigos para a artilharia. Era um espetáculo fantástico e de impressionar. Aos primeiros arrebóis da madrugada, os habitantes de Troyes viram, terrificados, que tudo estava disposto para um furioso assalto: as colunas de ataque colocadas, com suas reservas, nos pontos mais favoráveis; as poucas peças de artilharia bem abrigadas e prontas a abrir fogo; os arqueiros e besteiros em seus postos de combate. O exército inteiro, formado em silêncio, esperava o sinal.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.