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Capítulo 24 de 29

Parte 24 de 29

Joana D’Arc, Médium · Léon Denis

Nas Tourelles, mesmo ferida, manda que as tropas se restaurem, antes de renovarem o assalto. Sua antipatia aos ladrões e às meretrizes, o desejo que manifestava de que os soldados se abstivessem de deboches, de sacrilégios e de rapinagens, deram azo a que o Senhor Anatole France, qualificando aqueles sentimentos de hipocrisia de “beguina”, os metesse a ridículo. Confessemos, entretanto, que de outro meio ela não dispunha para restabelecer a ordem e a disciplina, condições essenciais do bom êxito. “Preocupavam-na tanto – diz Andrew Lang – as almas como os corpos de seus soldados, o que hoje parece infantil e absurdo ao espírito científico da escola do Senhor Anatole France: mas, é preciso não esquecer que Joana era mulher do seu tempo e que seu método não diferia do de Cromwell, do dos mais célebres condutores de homens, que a História do passado aponta.” Não menos notáveis se revelaram nela a compreensão, a previdência, o discernimento nas coisas da política. O Sr.

A. France parece às vezes considerá-la uma espécie de idiota. Que se lembre, no entanto, do acolhimento que a heroína dispensou ao condestável de Richemont, inabilmente repelido pelo rei, e cujas oitocentas lanças contribuíram muito para a vitória de Patay; dos estratagemas que empregava para enganar o inimigo acerca do conteúdo de suas mensagens, dado o caso de lhes caírem estas nas mãos. Não esqueçamos, outrossim, a sutileza com que adivinhou, muito antes dos mais sagazes políticos, a falsidade das negociações entabuladas pelo duque de Borgonha, depois da sagração de Carlos VII. Dizia então: 255 “Não se conseguirá a paz com os borgonheses senão à ponta de lança”.

Joseph Fabre realça em traços vigorosos esse dom de penetração peculiar à Pucela: “Forçando o resultado, a poder de acreditar nele, com que notável instinto ela esfrangalha as teias de aranha da diplomacia, para se lançar na ação a todo transe! É um pássaro de alto vôo, que desconcerta vitoriosamente os políticos 256 rastejantes, covardes promotores da paz a qualquer preço”. Consultemos agora os escritores militares, que julgamos haver estudado com mais sagacidade e consciência o papel da heroína. O general Canonge assim se 257 manifesta: “Joana imprime às operações, em torno de Orleães, uma atividade até então desconhecida e, ao cabo de nove dias, o assédio, que durava havia seis meses, termina a nosso favor. 255 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 6º interrogatório público. 256 J.

Fabre – LA FETE NATIONALE DE JEANNE D”ARC. 257 Général F. Canonge– JEANNE D'ARC, CHEF DE GUERRE. LE JOURNAL, 15 de abril de 1909. 165 – JOANA D´ARC, MÉDIUM “Conduzida ofensivamente, a campanha do Líger chega a termo feliz, com uma rapidez imprevista; a jornada de Patay, remata-a no dia 18. Inutilmente se há tentado negar, contra toda a verdade, a parte que coube a Joana nessa vitória decisiva: ela fizera o necessário para que o choque com os ingleses não resultasse inútil, anunciou a luta e predisse a vitória, prescrevendo a fórmula de obtê-la. “No fim de junho, deixa de ‘comandar’ e, por conseguinte, deixa de ter a responsabilidade do êxito.

“Durante a cavalgada para Remos, de 29 de junho a 16 de julho, diante de Troyes, a forças moral de Joana intervém eficazmente, no momento mesmo em que o séqüito real pretende nada menos do que fazer o exército retroceder para o Líger. É sabido que à permissão, miseravelmente concedida à Pucela, de operar livremente, se seguia, em curto prazo, a queda de Troyes. “A partir da sagração, Joana é desprezada. Está provado, entretanto, que ela se opôs à marcha ondulante sobre Paris e, bem inspirada a todos os respeitos, preconizou a marcha direta. “Quanto ao revés sob os muros da grande cidade, não lhe poderia ser imputado.

Se o fraco Carlos VII lhe houvesse prestado ouvidos, em lugar de reduzi-la à impotência, o insucesso de 8 de setembro teria sido prontamente reparado. “No alto Líger, durante os assédios de Saint-Pierre-le-Moutier e de Charité, Joana, colocada em segundo plano, só influiu pelo maravilhoso exemplo, que deu, como um capitão. “Enfim, na sua última campanha, tão brutalmente interrompida, desempenhou o papel de chefe de partido. “Na ocasião em que caiu prisioneira, contava apenas dezoito anos e cinco meses; sua ação militar não durara mais do que treze meses. “Fora inútil querer demonstrar que a liberdade completa da França não coincidiu com o desaparecimento da Pucela.

Contudo, é inegável que, graças a Joana, o indolente monarca reconquistara a maior parte da região compreendida entre Orleães e o Mosa, que a confiança voltara, enfim que a libertação definitiva foi conseqüência do prodigioso ardor patriótico que ela incendera. “O papel militar de Joana d'Arc pode ser encarado de duas maneiras: “Como soldado, distinguiu-se por qualidades cuja reunião é rara. “Aos olhos de qualquer observador leal, não disposto a negar até a evidência, o ‘comandante’ provoca verdadeira admiração. “Segue-se um conjunto de predicados que se nos deparam em alguns vencedores, cujos nomes a História registrou. Em Joana, com efeito, a concepção e a execução correm parelha.

Daquela deflui uma ofensiva audaciosa, obstinada, da natureza da que, admitida mais tarde por Napoleão, imobiliza o inimigo, não lhe dá tempo de se refazer e vai a ponto de destroçá-lo material e moralmente. “A execução é impetuosa; mas, tanto quanto preciso, moderada pela prudência. “Bastará enumerar as outras qualidades que lhe permitiram violentar a vitória: ciência do tempo, previdência, bom senso pouco comum, fé imperturbável no êxito, exemplo fascinado, reconfortante, grande poder de trabalho, espírito de perseverança, secundado por uma vontade inabalável, conhecimento do coração humano, donde uma influência moral que só alguns insignes capitães chegaram, com o tempo, a possuir no mesmo grau. “O caráter da guerra do século XV não dá ocasião a Joana de fazer obra de estratégia. Assim é que todos os seus contemporâneos reconheceram nela uma tática notável e temida. “A origem, a ignorância e a inexperiência das coisas da guerra, o sexo e a mocidade da virgem desnortearam muitos espíritos.

“Embora sem cogitar de comparar a nossa heroína a tal ou qual extraordinário capitão, ou de lhe assinalar um posto na gloriosa falange dos guerreiros, justo é que a coloquemos entre estes por uma excelente razão: a de que os talentos de que ela deu prova são os que, desde todas as épocas, conduziram ao triunfo. “Entremos agora na indagação do porquê da iniciação súbita de Joana nos mais delicados segredos da arte da guerra. “A bem dizer, essa indagação seria ociosa, se fosse verdade, como se avançou muito levianamente, que a arte militar não existia no décimo quinto século, que então bastava saber montar a cavalo, que, finalmente, no que respeita a Joana, sua arte militar se reduzia a levar os soldados à confissão. Falemos claro. “A primeira negação provém, não há que duvidar, de uma ignorância completa da questão.

A segunda é estupefaciente. Dunois e alguns outros capitães, com efeito, juntavam à experiência e ao saber um traquejo na equitação mais do que suficiente, em tal caso, para vencer e, no entanto, o bom êxito sempre lhes falhou, até ao aparecimento de Joana. Quanto à última alegação – aliás em absoluto desacordo com os fatos – é, pelo menos, singular. “Passemos, pois, às objeções formuladas por historiadores sérios e dignos de todas as atenções, por isso que buscaram a solução do problema com incontestável lealdade. Todavia, este exame será rápido.

“Negar o incompreensível no papel militar da Pucela é dar de barato as dificuldades da questão. “O bom senso, que, como qualidade dominante, invocaram, era incapaz de lhe fornecer, de um dia para o outro, os conhecimentos técnicos necessários à boa direção das operações. “A fé ardente que reinava no século XV poderia por si só armar Joana de uma alavanca que bastasse? É lícito duvidar. “Invocaram também a obediência.

Ora, a obediência só se tornou realidade depois da libertação de Orleães. 167 – JOANA D´ARC, MÉDIUM “Dizer que Joana realizou a unidade de ação, que até então faltava, é reconhecer um fato, não é explicá-lo. “Dunois é uma testemunha que cumpria fosse tida em conta. Entretanto, ele se mostrou uma criança em confronto com a Pucela, a 7 de maio de 1429, por ocasião do ataque ao forte das Tourelles. Sabe-se com que ímpeto ela atacou. Processo idêntico seguiu em Jargeau, em Patay, diante de Troyes e de Saint Pierre-le-Moutier.

“Enfim, julgaram-se no direito de atribuir ‘unicamente ao sentimento de revolta patriótica’ os êxitos da heroína. Certo, o patriotismo pode, quer individualmente, quer coletivamente, fazer milagres; mas, é impotente para transformar em comandante de exército, do dia para a noite, uma mocinha ignorante e com menos de dezoito anos. Joana constitui um verdadeiro fenômeno, único no gênero; e, sob esse aspecto, ocupa lugar excepcional na França e na História de todos os povos. O seguinte paralelo se impõe à reflexão. Em 1429, o patriotismo, cujo desenvolvimento Joana apressou, mal começava a despontar.

Por que, em 187071, quando já estava mais esclarecido, mais ardente e mais disseminado, não pôde, manifestamente, salvar a França que se achava na última extremidade? “Em suma, parece que nenhuma das razões humanas apresentadas explica as vitórias que Joana obteve, empregando, conscientemente ou não, os princípios aplicados, em campos de operações mais ou menos vastos, por grandes capitães. “Soldado, eu me declaro incapaz de resolver, humanamente falando, o problema militar de Joana d'Arc.” E o general Canonge, terminando, adota a solução que a própria Joana forneceu, assinalando como origem de seus atos principais “o socorro de Deus”. A estas considerações de um escritor cuja autoridade em tais matérias se não poderá contestar, aditaremos as seguintes citações de tópicos de um trabalho 258 inédito, mas que será em breve publicado. Devemo-lo à pena do Coronel E.

Collet, vice-presidente da Sociedade de Estudos Psíquicos de Nancy. Respondem ponto por ponto às críticas dos Srs. Anatole France e Thalamas sobre o levantamento do cerco de Orleães, cujo mérito, segundo esses autores, pertence muito mais aos sitiados do que a Joana. Depois de enumerar os episódios do assédio, diz aquele coronel: “Está, portanto, bem firmado que a Pucela, desde o primeiro dia, mostrara um senso militar infinitamente superior ao dos melhores capitães do exército, disciplinando as tropas e querendo marchar imediatamente sobre o ponto em que os ingleses concentravam suas forças principais. Os capitães de espírito elevado e reto, como Le Bâtard d'Orléans, Florent d'Illiers, La Hire, etc., e os homens d'armas não orgulhosos, nem ciosos, logo o verificaram.

“A milícia comunal a reconheceu de pronto como seu verdadeiro chefe e se persuadiu de que seria invencível, obedecendo-lhe às ordens. – É um fato de 258 Coronel E. Collet – VIE MILITAIRE DE JEANNE D'ARC. Considerações sobre o cerco de Orleães. psicologia militar, que se explica facilmente neste caso, mas cuja causa se conserva misteriosa em muitos outros que a História menciona. Por que instinto de justo discernimento a turba ignorante dos soldados percebe muitas vezes, sem nenhum sinal aparente, dentre seus chefes, qual o que realmente terá capacidade para guiá-la e lhe proporcionar vitórias?

– Com efeito, aquela notícia contribuiu mais do que as tropas assalariadas para a tomada das Tourelles e mostrou todo o valor e energia de que são capazes os que se batem pela defesa de seus lares e de sua liberdade. Daí veio à Pucela a primeira idéia de um exército nacional permanente, instituído mais tarde pelo rei Carlos VII, depois que se tornara mais criterioso e mais patriota. “Já falamos das razões intuitivas que a induziram a continuar o ataque às fortificações da margem esquerda, sem embargo da decisão em contrário dos capitães, decisão que parecia ter por base a prudência. O êxito provou que as razões de ordem psicológica eram boas. Quando, ferida no decurso da ação, dominando os sofrimentos, animada por suas vozes, correu ao lugar em que se achava Le Bâtard d'Orléans, para impedir que ele ordenasse a retirada e para dirigir em pessoa o assalto decisivo, ainda obedeceu à mesma intuição de psicologia militar e ao mais racional princípio de uma boa ofensiva de tática – o da perseverança.

Acode, a este propósito, uma observação interessante. Dizendo a Le Bâtard d'Orléans: ‘Fazei com que a nossa gente repouse; dai-lhe de beber e de comer’, não revelava ela o senso prático de um veterano capitão, ocupando-se com as necessidades materiais de seus soldados, antes de os obrigar a novo esforço? Isto nos leva a pensar em Bugeaud e nos práticos que se instruíram na velha escola da guerra e que serão sempre nossos mestres, na difícil arte de conduzir exércitos. “Pode-se, pois, afirmar com absoluta certeza que o mérito da vitória coube principalmente à Pucela, bem secundada pelos valentes capitães e homens d'armas que a acompanharam à margem esquerda e poderosamente ajudada pelos orleaneses, operando com tanta habilidade, quanto vigor, no ataque às Tourelles, pela ponte do Líger: sem ela o ataque não se praticaria, ou se teria malogrado. “Cumpre lembrar que desde 3 de maio Joana anunciara que o cerco seria levantado em cinco dias. (Depoimento de frei João Pasquerel e confissão de João Wavrin du Forestel, cronista do partido inglês.) “O Senhor Anatole France desconfiou do testemunho de Pasquerel, se bem que um outro o corrobore.

Parecem-lhe suspeitas as predições da Pucela e, para justificar o seu cepticismo, cita o seguinte: “Antes que chegue o dia de São João Batista (ano de 29), nem mais um só inglês, por valente e forte que seja, a França verá, quer em campanha, quer em batalha.” Fonte indicada: Notariado da Câmara das Contas de Brabante, no Processo, t. IV, pág. 426. (VIE DE JEANNE D'ARC, tomo I, pág. 402.) “Ora, procuramos essa pretendida profecia no documento apontado (PROCESSO, t. IV, pág. 426), e não a encontramos. Nele, ao contrário, se lê que as predições de Joana relativamente à libertação de Orleães, a seu ferimento e à 169 – JOANA D´ARC, MÉDIUM sagração em Remos se realizaram perfeitamente. E as fraudes desse gênero abundam no livro do Senhor France; não se pode atamancar mais indignamente a História.” Em seguida, o Coronel Collet cita este documento, que demonstra, mais uma vez, quanto são injustificadas as críticas dos Srs.

France e Thalamas: “E, conquanto os capitães e outros homens de guerra executassem o que ela dizia, a dita Joana ia sempre às escaramuças com seu arnês, ainda que contra a vontade e a opinião da maior parte daqueles capitães e homens de guerra; e montava seu corcel, armada como um cavaleiro do exército nascido na corte do rei, o que aborrecia e espantava os homens de guerra.” – João Chartier. E o Coronel Collet conclui nestes termos: “Em resumo, o cerco de Orleães, mantido sem habilidade e sem vigor pelos ingleses, houvera contudo terminado, em prazo mais ou menos longo, pela capitulação da cidade, cujos recursos acabariam por esgotar-se, não obstante o corajoso devotamento e a constância de seus habitantes, pois que a praça já só recebia socorros muito insuficientes e perdia pouco a pouco as forças, em ações parciais, empenhadas sem método e sem espírito de continuidade, por capitães que abusavam demasiado da iniciativa.

Porém, com a chegada da Pucela, as coisas mudaram de feição, pelo efeito moral que ela produziu sobre os dois exércitos, inversamente, e pela força irresistível que trouxe à defesa, força que a jovem guerreira soube utilizar admiravelmente. Disciplinando as tropas por um meio poderoso, o da fé religiosa que dominava tudo naquela época, constituiu-selhes o verdadeiro chefe e as tornou capazes do esforço prodigioso que a vitória exigia. Impôs-lhes a sua vontade pela palavra e pelo exemplo, deu-lhes a unidade de ação e a direção de que careciam, ensinou-lhes a ofensiva ousada, calculada e perseverante, que força o triunfo.

Finalmente, nas circunstâncias todas em que vimos de apreciá-la, procedeu como um chefe que tem o conhecimento perfeito dos homens, a intuição dos princípios reguladores essenciais, a experiência das coisas da guerra e uma bravura excepcional.” Acrescentemos ainda o quadro seguinte, cheio de animação e de colorido, em 259 que o Coronel Collet desenha o papel da Pucela no cerco de Troyes: “A cavalo, empunhando um bastão, a Pucela correu aos acampamentos, a fim de fazer preparassem, a toda pressa, os engenhos e os materiais necessários para atacar à viva força a praça. Comunicou prontamente seu ardor às tropas e cada um tratou de desempenhar com entusiasmo a tarefa que lhe incumbia: cavaleiros, escudeiros, arqueiros, gente de todas as condições entraram, com assombrosa atividade, a dispor, nos pontos bem escolhidos, os poucos canhões e bombardas que o exército possuía, a transportar faxina, madeiros, pranchas, folhas de portas, janelas, etc., e a construir tapagens e aproches, visando a um 260 assalto eminente e terrível. 259 ver: BULIETIN DE LA SOCIETE D'ÉTUDES PSYCHIQUES DE NANCY, dezembro de 1907. 260 CHRONIQUE DE LA PUCELLE. “Joana encorajava os trabalhadores, estimulava-lhes o zelo, fiscalizava tudo e mostrava – diz Dunois em seu depoimento – diligência tão maravilhosa, que dois ou três consumados capitães não teriam podido fazer mais.

“E isto se passava durante a noite, cujas trevas davam aspecto fantástico àqueles preparativos extraordinários: movimentos de homens, de cavalos e de carretas, à luz baça de archotes, em meio de uma zoada ensurdecedora de gritos, chamadas, relinchos, golpes de machado e de martelo, estalos e desabamentos, ranger de eixos, solavancos, etc. “Sem dúvida que não era banal o espetáculo, para os homens da guarnição, que se mantinha vigilante por detrás das ameias, bem como para a população da cidade, que tudo observava trepada nas coberturas das casas e nos monumentos públicos, e facilmente podemos imaginar qual o espanto e o pavor de uns e outros. Que mudança se operara no campo francês, onde pouco antes tudo indicava desânimo?

Que significavam aquela estranha agitação, aquele tumulto assustador? Mistério diabólico, que nada de bom pressagiava: formidável catástrofe ameaçava a cidade, era certo! “Entre a população aterrorizada circulavam os mais sinistros boatos; a multidão se comprimia nas igrejas; toda a gente se lamentava e clamava que a cidade devia fazer ato de submissão ao rei e à Pucela, conforme o aconselhava 261 frei Richard em suas prédicas. O bispo e os burgueses notáveis se encontravam numa perplexidade cruel: tinham-se comprometido a resistir até à morte, mas começavam a entrever as vantagens de se submeterem. Quanto aos nobres e aos homens da guarnição, pouco tranqüilos se mostravam no tocante ao resultado da luta, se a terrível Pucela os atacasse.

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