Voltar ao livro Joana D’Arc, Médium

Capítulo 23 de 29

Parte 23 de 29

Joana D’Arc, Médium · Léon Denis

Quando, porém, nos aventurarmos às passagens perigosas que inçam o acidentado caminho, ocultas mãos se estendem para nos suster. Temos a liberdade de repeli-las. Mas, se condescendemos em aceitar o amparo que se nos traz, chegaremos a realizar as mais árduas empresas. A obra de beleza e de grandeza que nossas vidas executam não se ultimaria sem a ação combinada do homem e de seus invisíveis irmãos. É o que Joana atesta ainda por outras palavras: “Sem a graça de Deus, eu nada poderia fazer.” Com muita bondade acolhia sempre os curiosos que iam vê-la, especialmente as mulheres.

Falava-lhes tão meiga e cariciosamente, diz a Crônica, que as fazia chorar. Contudo, simples e despretensiosa, preferira esquivar-se às “adorações” da multidão. Sentindo-lhes o perigo, dizia: “Na verdade, eu não conseguiria 235 preservar-me de tais coisas, se Deus não me preservasse”. “Evitava, quanto 236 podia, que me beijassem as mãos”, declara no curso do processo. E quando, em Burges, as mulheres do povo lhe apresentavam pequenos objetos para que os tocasse, dizia, rindo: “Tocai-os vós mesmas.

Tão cheios de virtudes ficarão por 237 efeito do vosso contacto, quanto do meu”. 234 PROCESSO DE REABILITAÇÃO. Depoimento de frei Seguin. 235 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. l. Depoimento do advogado Marbin e de Simon Beaucroix. 236 Sexto interrogatório público. Ver também suas palavras por ocasião da leitura do auto de acusação. 237 J.

Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. 1. Depoimento de Margarida la Touroulde. De par com as qualidades que vimos de apreciar, Joana era dotada de um senso estético notável: “Tinha paixão pelas armaduras – referem seus historiadores – e revelava um esmero muito puro e distinto nas mais insignificantes minudências do trato de sua pessoa e de seu vestuário. Os cortesãos lhe admiravam esses cuidados e as próprias damas muito naturalmente a houveram tomado por uma de sua hierarquia, tais a graça e a distinção que se lhe notavam. “Valente a ponto de, nos combates, desafiar alegremente a morte, sem jamais dá-la a quem quer que fosse, adoravelmente mulher, não dissimulava o contentamento por possuir brilhantes armas e belos cavalos negros, sobretudo 238 por serem estes ’tais e tão maliciosos que ninguém se atreveria a montá-los”. Seus juízes a criminaram por gostar dos trajes elegantes e dos cavalos de 239 raça.

Mas, como bem o diz Henri Martin: “Seu misticismo, de ordem elevada, associando o sentimento do belo ao do bem, nada tinha de comum com essa espécie de ascetismo que faz da negligência com o corpo e do exterior sórdido uma virtude e que parece ter por ideal o feio.” Particularidade dolorosa: em sua rápida carreira política, os que mais a fizeram sofrer foram exatamente aqueles que lhe deviam amparo, gratidão e amor. Isso, porém, não lhe agastou o caráter, nem jamais a tornou mal humorada. Quando passava por alguma decepção amarga, mostrava inabalável firmeza de ânimo e recorria à prece: “Quando sou contrariada de qualquer maneira – dizia – retiro-me para um canto e oro a Deus, queixando-me de que aqueles a quem falo não me acreditam facilmente. Acabada a minha oração a Deus, ouço uma voz que 240 me diz: ’Filha de Deus, vai, vai, serei teu amparo, vai!”. Acusaram-na de haver querido suicidar-se no castelo de Beaurevoir.

Mentira! É exato que, prisioneira de João de Luxemburgo, Joana tentou evadir-se, crente de que a evasão é um direito de todo preso. Bem longe de pretender matar-se, como procuraram insinuar durante o processo, ela nutria “a esperança de salvar o corpo 241 e de ir a socorro da boa gente que estava em perigo”. Tratava-se dos sitiados de Compienha, cuja sorte tanto lhe amargurava o coração. Refletiu, estudou maduramente seu projeto e não se precipitou loucamente no vácuo, como em geral se supõe.

Por uma corda que amarrou à janela da prisão, conseguiu descer do alto da torre; mas, ou por ser a corda muito curta, ou porque se partisse, não resistindo à tensão, ela caiu pesadamente sobre as pedras. Levaram-na dali semimorta e a 242 encarceraram de novo. Em Ruão, sobretudo, diante dos juízes velhacos e astuciosos, é que lampejam suas réplicas finas e inopinadas, suas respostas breves, incisivas, inflamadas. Guido Gœrres o comprova nestes termos a que convém sejam transcritos: 238 H. Boissonnot – JEANNE D'ARC A TOURS. 239 H.

Martin – HISTOIRE DE FRANCE,t. VI, pág. 234. 240 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, Depoimento de Dunois. 241 Sexto interrogatório secreto. 242 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. II, pág. 142, nota 2. 159 – JOANA D´ARC, MÉDIUM “A cada interrogação, Joana se via na contingência de sustentar rijo combate.

Todavia, a ingênua donzela, que não aprendera com seus pais senão o Padre-nosso, a Ave-Maria e o Credo, fixava sobre os seus inimigos um olhar firme e tranqüilo e mais de uma vez os obrigou a baixar os olhos e os confundiu, desenleando subitamente a trama de suas perfídias e mostrando-se-lhes em todo o fulgor da inocência. Se, pouco antes, os mais bravos cavaleiros lhe admiravam a coragem heróica no ardor das batalhas, muito maior era a que alardeava quando, carregada de ferros, aguardando uma horrorosa morte, testificava a verdade de sua missão divina a seus algozes e profetizava àquele tribunal, prestes a condená-la em nome do rei da Inglaterra, a queda completa da dominação inglesa na França e o triunfo da causa nacional.” “Sabes – perguntam-lhe – se santa Catarina e santa Margarida odeiam os 243 ingleses?” – “Elas amam o que Deus ama e abominam o que Deus aborrece”. E o juiz fica desnorteado. Um outro interroga: “Santa Margarida fala o inglês?” – “Como poderia ela falar o inglês, se não é do partido dos ingleses?” – “São Miguel estava nu?” – “Pensais que Deus não tem com que o vestir?” – “Tinha 244 cabelos?” – “Porque lhe haviam de ser cortados os cabelos?!”. Balda com uma palavra as armadilhas que lhe preparam.

Perguntam-lhe se está em graça: “Se não estou, que Deus me faça estar; se estou, que Deus me 245 conserve nela”. Citemos ainda a digna e altiva resposta que deu, quando lhe censuraram o haver desfraldado o estandarte durante a cerimônia da sagração em Remos: “Ele 246 fora atribulado; justo era que fosse preiteado”. Um dos inquisidores escarnece de seu cativeiro e do suplício que a espera. Responde ela sem hesitar: “Bem pode ser que os que me querem tirar deste mundo 247 vão antes de mim”. O bispo de Beauvais, desassossegado, atormentado pela consciência, pergunta-lhe: “As vozes já te têm falado de teus juízes?” – “Freqüentemente tenho, por minhas vozes, notícias de monsenhor de Beauvais.” – “Que te dizem 248 elas de mim?” – “Eu vo-lo direi em particular”.

E eis que com estas simples palavras um prelado é chamado ao sentimento de sua dignidade, por aquela cuja perda ele resolvera. * Como explicaremos os contrastes que dão à pulcra figura de Joana d'Arc tão forte brilho: a pureza de uma virgem e a intrepidez de um capitão; o recolhimento com que ora no templo e a viveza jovial nos acampamentos; a simplicidade de 243 Oitavo interrogatório secreto. 244 Quinto interrogatório público. 245 Terceiro interrogatório público. 246 Nono interrogatório secreto. 247 Quinto interrogatório público. 248 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, pág. 244. uma camponesa e os gostos delicados de uma dama de alta estirpe; a graça, a bondade, de par com a audácia, a força, o gênio? Que pensar da complexidade de traços que lhe compõem uma fisionomia sem precedente na História? Explica-lo-emos de três maneiras: primeiro, pela sua natureza e sua origem. Sua alma, temo-lo dito, vinha de muito alto.

Demonstra-o a circunstância de que, desprovida de toda e qualquer cultura terrestre, sua inteligência se elevava às mais sublimes concepções; em seguida, pelas inspirações de seus guias; em terceiro lugar, pelas riquezas que acumulara no decurso de suas vidas anteriores, vidas que ela própria nos fez conhecer. Joana era uma missionária, uma enviada, um médium de Deus e, como em todos os missionários do Céu, para salvação dos povos, três grandes coisas nela preponderam: a inspiração, a ação e, por fim, a paixão, o sofrimento, que é o fecho, a apoteose de toda existência digna. Domremy, Orleães e Ruão foram os campos escolhidos para desabrolhar, expandir-se e consumar-se tão maravilhoso destino. A vida de Joana d'Arc tem flagrantes analogias com a do Cristo. Como este, ela nasceu entre os pequeninos da Terra.

O adolescente de Nazaré discutia com os doutores da lei no sinédrio; do mesmo modo, a virgem da Lorena confunde os de Poitiers, respondendo-lhes às insidiosas perguntas. Ao vê-la expulsar do acampamento as ribaldas, reconhecemos o gesto de Jesus expulsando do templo os mercadores. A paixão de Ruão não emparelha com a do Gólgota e a morte da Pucela não pode ser comparada ao fim trágico do filho de Maria? Como Jesus, Joana foi renegada e vendida. O preço da vítima retinirá nas mãos de João de Luxemburgo, como na de Judas.

A exemplo de Pedro no pretório, o rei Carlos e seus conselheiros voltarão costas e fingirão não mais a conhecer, quando lhes noticiam que Joana se acha em poder dos ingleses, ameaçada de cruel morte. Até a cena de Saint-Ouen muitas semelhanças apresenta com a do Jardim das Oliveiras. Temos tratado longamente das missões de Joana d'Arc. Não haja equívoco sobre o sentido deste termo. Julgamos oportuno dizer aqui que, na realidade, cada alma tem a sua neste mundo.

À maioria tocam em partilha as missões humildes, obscuras, apagadas; outras recebem encargos mais importantes, de acordo com as suas aptidões, com as qualidades que apuraram, evolvendo no perpassar das idades. Só às almas ilustres estão reservadas as grandiosas missões, que o martírio remata. Cada vida terrena, sabemo-lo, é a resultante de um imenso passado de trabalho e de provações. Do conhecimento da lei de ascensão no tempo e no 249 espaço, que já expusemos, não havia mister Joana, no décimo quinto século, por isso que as condições intelectuais de sua época não o comportavam. A concepção do destino era muito limitada: as vastas perspectivas da evolução teriam perturbado, sem proveito, o pensamento dos homens, ainda muito atrasados para apreciarem e entenderem os magníficos desígnios de Deus a respeito das criaturas humanas.

Entretanto, no espírito superior de Joana, sujeito, como todos, à lei do 249 Ver, nesta obra, o cap. XVI e O PROBLEMA DO SER E DO DESTINO, passim. 161 – JOANA D´ARC, MÉDIUM esquecimento durante a encarnação na Terra, um passado maravilhoso esplende; virtudes, faculdades, intuições, tudo demonstra que aquela alma percorrera dilatado ciclo e amadurecera para as missões providenciais. Pode-se mesmo, já o vimos, reconhecer nela, mais particularmente, um espírito céltico impregnado das qualidades daquela raça entusiástica e generosa, apaixonada pela justiça, sempre pronta a se consagrar às causas nobres. Familiarizada, desde os primeiros albores da História, com os mais transcendentes problemas, essa raça possuiu constantemente numerosos médiuns. Joana aparece-nos, por entre a caligem da Idade Média, como a reencarnação de alguma antiga vidente, ao mesmo tempo guerreira e profetisa.

O que na sua personalidade, porém, predomina, em todas as épocas e meios em que viveu, é o espírito de sacrifício, a bondade, o perdão, a caridade. No desempenho das tarefas que lhe foram confiadas, mostrou-se invariavelmente o que Henri Martin soube definir numa palavra: “a mulher de grande coração”. Essas tarefas, Joana não as tem por findas. Continua a considerar-se em obrigação para com aqueles que Deus colocou sob seu patrocínio. Conserva ardente, como no século XV, o amor que vota à França, e os que então lhe foram objeto de solicitude ainda são presentemente seus protegidos.

Entre os que tiveram parte em sua vida heróica, quer benéfica, quer maleficamente, muitos revivem hoje na Terra em condições bem diversas. Carlos VII, reencarnado num desconhecido burguês, acabrunhado de enfermidades, foi muitas vezes distinguido com a visita da “filha de Deus”. Iniciado nas doutrinas espiritualistas, pôde comunicar-se com ela, receber seus conselhos, seus incitamentos. Uma única palavra de censura lhe ouviu: “A nenhum – disse-lhe um dia Joana – me custou tanto perdoar como a ti.” Por meios e com o auxílio de influências que seria supérfluo indicar aqui, a virgem conseguira reunir em um só ponto do globo, há alguns anos, seus inimigos de outrora, até mesmo seus algozes, e, usando do ascendente que sobre eles exercia, procurava levá-los à luz, fazê-los defensores e propagandistas da nova fé. Era um espetáculo comovente para quem, conhecedor daquelas personagens de outra época, podia perceber a maneira sublime pela qual ela se vingava, esforçando-se por transformá-los em agentes de renovação.

Por que a verdade me obrigará a dizer que os resultados foram medíocres? Todos, sem dúvida, a ouviam com uma deferência cheia de admiração, sentindo bem ser um Espírito de alto valor, quem os aconselhava. Mas logo o peso dos cuidados mundanos, dos interesses egoístas e das preocupações de amor-próprio oprimiam aquelas almas. O sopro do Além que, por instantes, as sacudira, cessou. Joana jamais se revelou senão a poucos.

Os outros não souberam adivinhá-la. Raros puderam compreendê-la. Sua linguagem era muito perfeita; vertiginosas as alturas a que tentava atraí-los. Esses estigmatizados da História, que se ignoram a si mesmos, ainda não estavam amadurecidos para semelhante papel. Todavia, o que não foi possível obter no correr de uma existência, ela o alcançará nas que se hão de suceder, porquanto nada conseguirá esgotar-lhe a paciência e a bondade.

E as almas sempre se encontram, ao longo do caminho do destino. XIX Gênio militar de Joana d’Arc O mérito da vitória coube principalmente à Pucela. Coronel E. Collet Os detratores de Joana d'Arc: Anatole France, Thalamas, H. Bérenger, Jules Soury, etc., concordes entre si, lhe negam talentos militares. A.

France, com especialidade, não perde ocasião de lhe rebaixar o papel, de lhe restringir a parte que teve na obra de libertação. Faz pouco caso dos depoimentos dos companheiros de armas da heroína, prestados no Processo de reabilitação, sob o pretexto de estarem misturados com os de uma “honesta viúva”. Moteja dos historiadores que consideram Joana a “padroeira dos oficiais, o modelo inimitável dos alunos de 250 Saint-Cyr, a guarda nacional inspirada, a artilharia patriota”. Mais adiante diz: “Uma única era a sua tática: impedir que os homens blasfemassem e tivessem ribaldas em sua companhia... “Toda a sua arte militar consiste no encaminhar os soldados para a 251 confissão.” Por nosso lado, que caso devemos fazer de tais opiniões?

Até que ponto professores, romancistas, jornalistas, que talvez nunca pegaram numa arma, são competentes para apreciar as operações militares da Pucela? Na obra intitulada JEANNE D'ARC, 1'HISTOIRE ET LA LÉGENDE, Thalamas nos aconselha, com razão, a só termos em conta os testemunhos diretos e a desprezarmos os outros. Este modo de ver se nos afigura especialmente aplicável à questão que agora nos preocupa. Ora, os testemunhos concernentes às aptidões militares de Joana são formais: emanam de pessoas que a viram de perto, que com ela partilharam dos perigos e combateram à sua ilharga. O duque 252 d'Alençon se expressa deste modo: 250 Anatole France – VIE DE JEANNE D'ARC.

Preface, páginas XXXVIII. 251 Ibidem, t. I, pág. 309. 252 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I. 163 – JOANA D´ARC, MÉDIUM “Nas coisas da guerra, era muito experiente, tanto para empunhar a lança, como para reunir um exército, ou ordenar um combate e dispor a artilharia. Todos se maravilhavam de ver que, relativamente às coisas militares, ela procedia com tanto acerto e previdência, como se fora um capitão que houvesse guerreado durante vinte ou trinta anos.

Sobretudo, no manejo da artilharia, é que era muito entendida.” Outro comandante, Thibauld d'Armagnac, senhor de Termes, diz, a seu turno: “Em todos estes assaltos (no cerco de Orleães), foi tão valorosa e se conduziu de tal maneira, que a homem algum seria possível portar-se melhor na guerra. Todos os capitães pasmavam de sua valentia e de sua atividade, das canseiras e trabalhos que suportava... Para dirigir e dispor as tropas, para preparar a batalha e animar os soldados, comportava-se como se fora o mais 253 hábil capitão do mundo, desde longo tempo adestrado na guerra”. Entre os escritores contemporâneos, que se ocuparam com Joana d'Arc, os mais aptos a lhe apreciarem o papel militar são evidentemente os que têm exercido a profissão das armas, comandado tropas, dirigido operações de guerra. Ora, esses unanimemente reconhecem os talentos de Joana na arte de combater, sua queda para a tática, sua habilidade em utilizar a artilharia.

Consideram a campanha do Líger um modelo no gênero. O general russo Dragomirow assim a resume: “Só a 10 de junho lhe permitiram marchar com o exército do duque d'Alençon, para desalojar os ingleses dos pontos em que ainda se mantinham no Líger. A 14 de junho, tomou de assalto Jargeau; a 15, a ponte de Meung; a 17 ocupou Beaugency; a 18 derrotou Talbot e Falstolf num reencontro em campo raso. Resultado dos cinco dias de ação: dois assaltos e uma batalha, feito que não teria mareado a glória de Napoleão e que Joana sabia realizar quando a 254 embaraçavam”. O que releva notar nesta ação fulminante é o ardor que a inspira e dirige, temperado pela prudência.

Esses movimentos rápidos têm por fim alcançar e ferir o inimigo no ponto principal de seu poder, sem lhe deixar tempo de se recobrar, de acordo com o método dos grandes capitães modernos. Foi ainda o senso estratégico de Joana que impôs a marcha sobre Remos e em seguida impeliu o rei a avançar sobre Paris. A grande cidade teria sido tomada, se não fora o inqualificável abandono do cerco, ordenado por Carlos VII. Considerai também a coragem heróica da virgem e o constante sacrifício de si mesma. Desconhecia o medo e a fadiga, dormia completamente armada e se satisfazia com uma alimentação frugal.

Maravilhoso era sobretudo o dom que possuía de fascinar as tropas. Em Troyes, segundo o testemunho de Dunois, a energia e a destreza que demonstrou em organizar um assalto, contra os fortes da cidade, não poderiam ser igualadas pelas dos melhores comandantes de exército da Europa inteira. O marechal de Gaucourt, veterano da guerra de Cem Anos, 253 Ibidem, t. I. 254 Dragomirow–JEANNE D'ARC, pág. 37. concorda com Dunois, com respeito à admirável conduta de Joana nessa operação em que ele tomou parte. A disciplina era-lhe uma preocupação de todos os instantes e a solicitude que consagrava aos soldados denota aprofundado conhecimento da vida militar.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.