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Capítulo 4 de 29
Parte 4 de 29
Joana D’Arc, Médium · Léon Denis
Eralhe preciso fazer-se ao mesmo tempo respeitada e amada como chefe; obrigar, pelo ascendente, aqueles mercenários a verem na sua pessoa uma imagem da França, da pátria que ela queria constituir. Pelas predições realizadas, pelos acontecimentos verificados, conseguiu inspirar-lhes absoluta confiança. Chegaram quase a divinizá-la. Sua presença era tida como garantia de bom êxito, símbolo da intervenção celeste. Admirando-a, devotando-se-lhe, mais fiéis se lhe tornaram do que o rei e os nobres.
Ao divisarem-na, sopitavam os pensamentos e sentimentos malévolos e nos seus corações se acendiam os da veneração. Todos a consideravam um ser sobre 19 humano, segundo o testemunho de seu intendente, Jean d'Aulon, no processo. O conde Guy de Laval escrevia à sua mãe, em 8 de junho de 1429, depois de tê-la visto em Salles-sur-Cher, na companhia do rei: “É coisa toda divina vê-la e ouvi 20 la”. Sem assistência alguma oculta, como é que uma simples rapariga dos campos houvera podido adquirir tal prestígio, alcançar tais resultados? O que soubera a respeito da guerra na sua meninice: os constantes sobressaltos dos campônios, a destruição das aldeias, os lamentos dos feridos e dos moribundos, o rubro crepitar dos incêndios, tudo isso fora antes de molde a afastá-la da profissão das armas.
Era, porém, a escolhida do Alto para levantar a França de sua queda e incutir a noção de pátria em todas as almas. Para atingir esse escopo, maravilhosas faculdades e socorros poderosos lhe foram outorgados. * Examinemos de mais perto a natureza e o alcance das faculdades mediúnicas de Joana. Há, em primeiro lugar, as vozes misteriosas que ouvia, tanto no silêncio dos bosques, como no tumulto dos combates, no fundo da masmorra e até diante dos juízes, vozes freqüentemente acompanhadas de aparições, conforme ela própria o diz, no curso do processo, em doze interrogatórios diferentes. Depois, há os numerosos casos de premonição, isto é, as profecias realizadas, anúncio dos acontecimentos vindouros. Antes de tudo: são autênticos esses fatos?
Nenhuma dúvida é possível. Os 21 textos, os depoimentos aí estão, copiosos; as cartas, as crônicas abundam. 19 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I. Depoimento do intendente de Joana, pág. 248.
– Ver também: Depoimento do advogado Barbin, t. I, pág. 158. 20 E. Lavisse – HISTOIRE DE FRANCE, t. IV, pág. 55. 21 Perceval de Cagny – CHRONIQUES, publicadas por H. Moranvillé, Paris, 1902.
– Jean Chartier, CHRONIQUE DE CHARLES VIII, ROI DE FRANCE. – JOURNAL DU SIEGE D'ORLEANS (1428 1429), publicado por P. Charpentier e C. Guissart. – CHRONIQUE DE LA PUCELLE.
– MYSTERE DU SIEGE D'ORLEANS, etc. Existe, sobretudo, o processo de Rouen, cujas peças, redigidas pelos inimigos da acusada, dão a seu favor testemunhos ainda mais fortes do que os do PROCESSO DE REABILITAÇÃO. Neste último, os mesmos fatos são atestados sob juramento pelos conhecedores de sua vida, depondo perante os inquisidores, 22 ou em presença do tribunal. Acima, porém, dos testemunhos, colocaremos a opinião de um contemporâneo, que os resume todos e cuja autoridade é grande. Queremos falar de Quicherat, diretor da Escola de Chartes. Não era um místico, um iluminado, mas homem grave e frio, eminente crítico de História, que se entregou a uma pesquisa aprofundada, toda de erudição, a um exame escrupuloso da vida de Joana 23 d'Arc.
Eis aqui a sua apreciação: “Aproveite ou não à Ciência, impossível é deixar de admitir-lhe as visões.” Acrescentarei: à ciência nova aproveitará, pois todos esses fenômenos, considerados outrora miraculosos, se explicam hoje pelas leis da mediunidade. Joana era ignorante: por únicos livros tivera a Natureza e o firmamento estrelado. A Pedro de Versailles, que a interroga em Poitiers sobre o grau de sua instrução, responde: “Não sei o ABC.” Muitos o afirmam no PROCESSO DE 24 REABILITAÇÃO. Entretanto, realizou maravilhosa obra, como igual mulher alguma jamais empreendeu. Para levá-la a bom termo, porá em jogo aptidões e qualidades raras.
Iletrada, confundirá e convencerá os doutores de Poitiers. Por seu gênio militar e pela habilidade dos seus planos, adquirirá pronta influência sobre os chefes do exército e os soldados. Em Ruão, fará frente a sessenta eruditos, casuístas destros em sutilezas jurídicas e teológicas; frustrar-lhes-á as ciladas e lhes responderá a todas as objeções. Mais de uma vez os deixará embaraçados pelo poder de suas réplicas, rápidas como relâmpagos, penetrantes quais pontas de espadas. Como conciliar tão esmagadora superioridade com a falta de instrução?
Ah! É que existe outro manancial de ensinamentos que não a ciência da escola! Pela comunhão constante com o mundo invisível, desde a idade de treze anos, quando teve a sua primeira visão, é que Joana alcança as luzes indispensáveis ao desempenho de sua missão espinhosa. As lições dos nossos guias do espaço são mais eficazes do que as de um professor, mais abundantes, sobretudo, em revelações morais. Essas vias de instrução, que se chamam as Universidades e as Igrejas, quase não as praticam; seus representantes pouco lêem nesse “livro de Deus” de que fala Joana, nesse imenso livro do Universo invisível, onde ela haurira sabedoria e luzes!
“Há nos livros de Nosso Senhor muito mais do que nos 22 Esse PROCESSO DE REABILITAÇÃO compreende, segundo A. France, 140 depoimentos, prestados por 123 testemunhas. 23 J. Quicherat – APERÇUS NOUVEAUX SUR LE PROCES DE JEANNE D'ARC, págs.6061. 24 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I.
Depoimento do escudeiro Gobert Thibault, pág. 161. – t. II. Depoimento do cavaleiro Aimond de Macy, pág. 145. 29 – JOANA D´ARC, MÉDIUM vossos. – O Senhor tem um livro no qual nenhum clérigo jamais leu, por mais 25 perfeito que seja no clericato!” afirma em Poitiers.
Por estas palavras, faz sentir que os mundos ocultos e divinos possuem fontes de verdades infinitamente mais ricas e profundas do que as nascentes em que bebem os humanos, fontes que se abrem por vezes aos simples, aos humildes, aos ignorantes, àqueles que Deus marcou com seu selo, os quais encontram nelas elementos de saber, que excedem quanto o estudo nos pode proporcionar. A ciência humana nunca é isenta de um certo orgulho. Seus ensinos cheiram quase sempre a convenção, a afetação, a pedantismo. Falta-lhe, de contínuo, clareza, simplicidade. Algumas obras de psicologia, por exemplo, são de tal modo obscuras, complexas, eriçadas de expressões barrocas, que chegam ao ridículo.
É divertido apreciar a que esforços de imaginação, a que ginástica intelectual, homens, como o professor T. Flournoy e o Dr. Grasset, se dão para edificar teorias tão burlescas quanto eruditas. As verdades que promanam das altas revelações aparecem, ao contrário, em traços de luz e, com poucas palavras, pela boca dos humildes, resolvem os mais escabrosos problemas. “Eu te bendigo, ó meu Pai – exclama o Cristo –, por teres revelado aos 26 pequeninos o que ocultaste aos sábios”.
Bernardino de Saint-Pierre exprime o mesmo pensamento, dizendo: “Para achar a verdade, é preciso procurá-la com um coração simples.” Era com um coração simples que Joana escutava suas vozes, que as interrogava nos casos importantes e que, sempre confiante na sábia direção delas, se constitui, sob o impulso das potências superiores, um instrumento admirável, rico de preciosas faculdades psíquicas. Não só vê e ouve maravilhosamente, como também sente pelo tato e pelo olfato as aparições que se apresentam: “Toquei em Santa Catarina, que me apareceu visivelmente”, diz. “Beijaste ou abraçaste Santa Catarina ou Santa Margarida?” perguntam-lhe. – “Abracei-as ambas.” – “Recendiam perfumes!” – 27 “É bom se saiba que recendiam perfumes”. Noutro interrogatório, exprime-se assim: “Vi São Miguel e os anjos, com os olhos do meu corpo, tão perfeitamente como vos vejo.
E, quando se afastavam de 28 mim, eu chorava e bem quisera que me levassem consigo”. É essa a impressão de todos os médiuns que entrevêem os esplendores do Espaço e os seres radiosos que lá vivem. Experimentam um enlevo que lhes torna mais tristes e duras as realidades deste mundo. Haver partilhado, por um instante, da vida celeste e cair de novo, pesadamente, nas trevas do nosso planeta: que pungente contraste! Mais ainda o era para Joana, cuja alma seleta, depois de se achar, por alguns momentos, no meio que lhe era familiar, donde viera, e de 25 Ibidem, t.
I. Depoimento de Jean Pasquerel, pág. 228 – Depoimento de Marguerite la Touroulde, pág. 292. 26 Lucas, 10:21. 27 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 9º interrogatório secreto, pág. 187. 28 Ibidem, 4º interrogatório público, pág. 81. receber dele “grande conforto”, se via novamente em face dos rudes e penosos deveres que lhe corriam. Poucos homens compreendem estas coisas. As vulgaridades da Terra lhes encobrem as belezas do mundo invisível que os cerca e no qual penetram como cegos na luz.
Há, porém, almas delicadas, seres dotados de sutilíssimos sentidos, para as quais o espesso véu da matéria se rasga por segundos e através desses rasgos elas lobrigam um recanto do mundo divino, do mundo das verdadeiras alegrias, das felicidades reais, onde nos encontraremos todos depois da morte, tanto mais livres e venturosos quanto melhor tivermos vivido pelo pensamento e pelo coração, quanto mais houvermos amado e sofrido. Todavia, não era unicamente sobre esses fatos extraordinários, sobre suas visões e vozes, que Joana acentuava a confiança que punha em seus amigos do Espaço. A razão lhe demonstrava também quão pura e elevada era a fonte de suas inspirações, porquanto aquelas vozes a guiavam sempre para a prática de ações úteis, no sentido do devotamento e do sacrifício. Ao passo que certos visionários se extraviam por entre devaneios estéreis, em Joana os fenômenos psíquicos concorrem todos para a realização de uma grande obra. Daí sua fé inabalável: “Creio tão firmemente – responde aos juízes – nos ditos e feitos de São Miguel que me apareceu, como creio que Nosso Senhor Jesus Cristo sofreu morte e paixão por nós.
E o que me move a crê-lo são os bons conselhos, o conforto e os 29 ensinamentos que me deu”. Tudo ponderando com seguro critério, é principalmente o lado moral das manifestações que constitui, a seus olhos, uma prova da autenticidade delas. Pelos avisos eficazes, pelo amparo que lhe concediam, pelas sãs instruções que lhe prodigalizavam, reconhece que seus guias são enviados do Alto. No decurso do processo, como no de sua ação militar, as vozes lhe aconselham o que deve dizer e fazer. Recorre a elas em todos os casos difíceis: “Pedi conselho à voz acerca do que devia responder, dizendo-lhe que, por sua vez, pedisse conselho a Nosso Senhor.
E a voz me disse: Responde ousadamente; 30 Deus te ajudará”. Os juízes a interrogam sobre esse ponto: “Como explicas que as santas te respondam?” – “Quando faço apelo a Santa Catarina – diz Joana –, ela e Santa Margarida apelam para Deus e, depois, por ordem de Deus, me dão a 31 resposta”. Assim, para os que sabem interrogar o invisível por meio da concentração e da prece, o pensamento divino desce, degrau a degrau, das maiores alturas do espaço até as profundezas da Humanidade. Mas, nem todos o discernem como Joana. 29 Ibidem, 8º interrogatório secreto, pág. 176. 30 Ibidem, 3º interrogatório público, pág. 68. 31 Ibidem, 5º interrogatório secreto, pág. 157. 31 – JOANA D´ARC, MÉDIUM Quando suas vozes emudecem, ela se recusa a responder sobre qualquer questão importante: “Por enquanto, nada obtereis de mim; ainda não tenho a permissão de Deus.” “Creio que não vos digo tudo o que sei. Porém, muito mais temo cair em falta dizendo qualquer coisa que desagrade às minhas vozes, do que receio vos 32 responder”.
Admirável discrição, que muitos homens bem agiriam imitando, quando as vozes da consciência e do bom senso não lhes ordenam que falem. Até ao fim de sua vida trágica, Joana mostrará grande amor aos seus guias, inteira confiança na proteção que lhe dispensavam. Mesmo quando pareceu que a abandonavam depois de lhe terem prometido a salvação, nenhuma queixa, nenhuma blasfêmia proferiu. Na prisão, confessa-o ela própria, eles lhe haviam 33 dito: “Serás libertada por uma grande vitória” e, em lugar da libertação, era a morte o que lhe vinha. Seus inquiridores, que nenhum meio de a desesperar desprezavam, insistiam nesse abandono aparente e Joana respondia sem se perturbar: “Nunca praguejei nem de santo, nem de santa.” A história da boa Lorena apresentava casos de clarividência e de premonição em número bastante elevado para lhe emprestarem, aos olhos de toda gente, um misterioso poder divinatório.
Às vezes parece ler no futuro; por exemplo, quando diz ao soldado de Chinon que a injuriara, ao vê-la entrar no castelo: “Ah! Tu renegas de Deus e, no entanto, estás tão perto da morte!” Efetivamente, nessa 34 mesma tarde o soldado, por um acidente, morre afogado. Fato idêntico sucede com relação ao inglês Glasdale, no ataque à bastilha da Ponte, diante de Orleães. Ela o intima a se render ao rei dos céus, acrescentando: “Tenho grande compaixão de tua alma!” No mesmo instante, Glasdale cai, armado, no Líger, onde se 35 afoga. Mais tarde, em Jargeau, prevê o perigo que ameaça o duque d'Alençon, cuja vida prometera proteger: “Gentil duque – exclama –, retire-se daí, senão aquela boca de fogo que lá vê lhe dará a morte.” A previsão era justa, pois o Senhor du Lude, indo ocupar o lugar deixado 36 pelo duque, foi morto pouco depois.
Doutras vezes e com muita freqüência, atesta-o a própria Joana, suas vozes a previnem. Em Vaucouleurs, sem jamais o ter visto, vai direto ao senhor de Baudricourt: “Reconheci-o, graças à minha voz. Foi ela que me disse: Está ali 37 ele!”. Conforme as revelações que tivera, Joana lhe prediz a libertação de Orleães, a sagração do rei em Reims e lhe anuncia a derrota dos Franceses na 38 jornada dos Arenques, no instante mesmo em que acabava de verificar-se. 32 Ibidem, 3º interrogatório público, pág. 69. 33 Ibidem, 5º interrogatório secreto, pág. 159. 34 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO.
Depoimento de Jean Pasquerel, t. I, pág. 218. 35 Ibidem, pág. 227. 36 Ibidem, pág. 179. 37 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 2º interrogatório público, pág. 58. 38 JOURNAL SU SIEGE, pág. 48.– CHRONIQUE DE LA PUCELLE, pág. 275. Em Chinon, levada à presença do rei, não hesitou em descobri-lo entre os trezentos cortesãos no meio dos quais se dissimulara: “Quando fui introduzida no aposento do rei – diz –, logo o reconheci entre os outros, porque a minha voz mo 39 indicou”. Numa entrevista íntima, lembra-lhe ela os termos da prece muda que, sozinho no seu oratório, ele dirigira a Deus. Suas vozes lhe comunicam que a espada de Carlos Martel está enterrada na 40 Igreja de Santa Catarina de Fierbois e mostram-lha.
É ainda a voz que a desperta em Orleães, quando, extenuada de fadiga, se atira no leito, ignorando o ataque à bastilha de Saint-Loup: “Meu conselho me disse que vá contra os ingleses, exclama de repente. E não me dizíeis que o 41 sangue da França estava sendo derramado.” Porque seus guias lho predisseram, sabe que será ferida por um dardo no ataque às Tourelles, a 7 de maio de 1429. Uma carta do encarregado de negócios de Brabante, conservada nos arquivos de Bruxelas e datada de 22 de abril do mesmo ano, escrita, por conseqüência, quinze dias antes do fato, relata essa predição e a maneira pela qual havia de realizar-se. Na véspera do combate, Joana 42 ainda declara: “Amanhã sairá sangue de meu corpo”. Nessa mesma jornada, prediz, contra toda a verossimilhança, que o exército vitorioso reentraria em Orleães pela ponte, que se achava então destruída.
E foi o que se deu. Libertada a cidade, Joana insiste com o rei para que não defira a partida para Reims, repetindo: “Não durarei mais que um ano, Sire; é preciso, pois, que me 43 aproveitem bem!” Que presciência da curteza de sua carreira! Por suas vozes foi avisada de que Troyes, em breve, se renderia, assim como, mais tarde, o foi também do seu próprio cativeiro. “Na semana da Páscoa, achando-me junto ao fosso de Melun, minhas vozes me disseram que seria presa antes do dia de São João – refere a acusada aos juízes de Rouen – e como eu lhes pedisse que, quando fosse presa, morresse logo, sem o prolongado tormento da prisão, elas me disseram: Recebe tudo com resignação. É preciso que assim se 44 faça.
Mas, não me disseram a hora”. A propósito, citemos, de passagem, esta bela resposta aos seus inquiridores: “Se eu soubera a hora, não me teria ido entregar voluntariamente. Entretanto, teria feito segundo me ordenassem minhas 45 vozes, quaisquer que fossem para mim as conseqüências”. Conta-se também uma cena tocante passada na igreja de Compienha (Compiègne). Diz ela, chorando, aos que a cercavam: “Bons amigos e queridos 39 J.
Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 2º interrogatório público, págs. 6162. 40 Ibidem, 4º interrogatório público, págs. 8586. 41 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I. Depoimento do pajem de Joana, pág. 210. 42 Ibidem, t. I.
Depoimento de Jean Pasquerel, pág. 226. 43 Ibidem, t. I. Depoimento do duque d'Alençon, pág. 182. 44 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 1ºinterrogatório secreto, pág. 129. 45 Ibidem, pág. 130. 33 – JOANA D´ARC, MÉDIUM filhos, sabei que me venderam e traíram. Dentro em breve, dar-me-ão a morte. 46 Orai por mim!”. 47 Na prisão, seus guias lhe predizem a libertação de Compienha, o que lhe causa grande alegria.
Teve também a revelação do seu fim trágico, sob uma forma que ela não compreendeu, mas cujo sentido seus juízes apreenderam: “O que minhas vozes mais me dizem é que serei salva... Acrescentam: Recebe tudo com resignação, não te aflijas por causa do teu martírio. Virás, enfim, para o reino 48 do paraíso”. De contínuo, suas vozes a advertem dos conciliábulos secretos dos capitães, ciosos da sua glória, e que dela se ocultam para deliberarem sobre os feitos da guerra. Mas, de súbito, Joana aparece e, conhecendo-lhes de antemão as resoluções, as frustra: “Estivestes no vosso conselho e eu estive no meu.
O 49 conselho de Deus se cumprirá, o vosso perecerá”. Não é, igualmente, às inspirações de seus guias que Joana deve a posse das eminentes qualidades que formam os grandes generais: o conhecimento da estratégia, da balística, a habilidade no emprego da artilharia, coisa inteiramente nova naquela época? Como teria podido saber que os franceses gostam mais de avançar do que de combater por trás das trincheiras? E como explicar de maneira diversa que uma simples camponesa se tenha tornado, de um dia para outro e aos dezoito anos, incomparável comandante de exército, consumado tático? Sua mediunidade, vê-se, revestia formas variadas.
Essas faculdades, disseminadas, fragmentadas, na maior parte dos indivíduos do nosso tempo, nela se acham reunidas, grupadas em possante unidade. Além disso, seu grande valor moral as reforçava. A heroína era a intérprete, o agente desse mundo invisível, sutil, etéreo, que se estende para além do nosso e cujas harmonias e vozes alguns seres humanos percebem. Os fenômenos que enchem a vida de Joana se encadeiam e concorrem para o mesmo fim. É nítida e precisa a missão que recebeu das altas Entidades e cuja natureza e caráter mais longe procuraremos determinar.
Foi anunciada previamente e se cumpriu segundo as linhas principais. Toda a sua história o atesta. Aos juízes de Ruão, dizia: “Vim da parte de Deus; nada tenho que fazer 50 aqui; mandai-me de novo a Deus, de quem vim”. E quando, na fogueira, as chamas a envolvem e lhe mordem as carnes, ainda 51 exclama: “Sim, minhas vozes eram de Deus! Minhas vozes não me enganaram”.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.