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Capítulo 21 de 29

Parte 21 de 29

Joana D’Arc, Médium · Léon Denis

Tocamos neste ponto o magno problema. Antes de tudo, precisamos compenetrar-nos de uma coisa: de que o homem é livre, de que a Humanidade é livre e responsável. Não existe responsabilidade sem liberdade. A Humanidade, sendo livre, arca com as conseqüências de seus atos no curso dos tempos. Temos visto que são os mesmos os seres que de século em século reaparecem na História, para recolher numa nova vida os frutos, doces ou amargos, de alegrias ou de dores, que plantaram em vidas precedentes.

O esquecimento do passado, por meramente temporário, nada prova contra a lei. A Humanidade é livre, mas a liberdade, sem a sabedoria, sem a razão, sem a luz, pode conduzi-la aos abismos. Também o cego é livre e, contudo, sem guia, de que lhe serve a liberdade? Assim, pois, a Humanidade precisa de ser amparada, guiada, protegida, inspirada, dentro de certos limites, pela Providência. Mas, convém que esse apoio não seja muito ostensivo, porquanto, se a potestade superior se impõe abertamente, sua ação se torna constrangedora; diminui, aniquila a liberdade humana; o homem perde o mérito da iniciativa, deixa de elevar-se por seus próprios esforços; o objetivo falha, a obra de progresso fica comprometida.

Daí as dificuldades da intervenção nas horas de agitações. Que faz então o enviado do Alto, o ministro das vontades eternas? Não se impõe, oferece-se; não ordena, inspira; e o indivíduo, a coletividade, a Humanidade inteira conservarão a liberdade de suas resoluções. 145 – JOANA D´ARC, MÉDIUM Assim se explicam a missão, os triunfos e os reveses, a glória e o martírio de Joana. Do mesmo modo se explica a lei das influências espirituais na Humanidade. A potência que Deus envia não atua no mundo senão na medida em que o mundo a aceita.

Se é bem acolhida, obedecida, coadjuvada, mostra-se ativa, fecundante, reformadora. Se é repelida, nada pode fazer. O enviado, o messias, se afasta, então, da Terra. A Humanidade marcha pelos séculos à conquista dos supremos bens: a verdade, a justiça, o amor, cabendo-lhe alcançá-los por seus livres esforços. Tal a lei de seu destino, a razão mesma de sua existência.

Entretanto, nos momentos de confusão, de perigo, de recuo, o céu expede seus missionários à Humanidade que se desorienta, que se oblitera e se transvia. Joana pertence ao número destes. Como quase todos os emissários divinos, ela, baixando a Terra, fez sua aparição entre os mais pobres, os mais obscuros. Sua infância tem esse traço de comum com a do Cristo. É uma lei da História e uma lição de Deus: o que há de mais elevado provém do que há de mais rasteiro.

O Cristo foi o filho de um carpinteiro humilde; Joana d'Arc uma camponesa nascida no seio do pobre povo da França. Nenhum dos dois messias, vindo ao mundo, escolheu para lhe embalar o berço, a ciência ou a riqueza. Que préstimos lhes reservavam uma ou outra? Os filhos da Terra precisam do poder material ou científico para praticar grandes façanhas. Inúteis eram esses poderes àqueles messias, que dispunham da força por excelência.

Nascendo e conservando-se humildes, não eram por isso superiores aos mais nobres e aos mais sábios. A Joana cumpria executar uma dupla missão, à qual ainda hoje ela se consagra nos páramos espirituais. Trouxe a salvação à França e à Terra inteira traz a revelação do mundo invisível e das forças que ele encerra; traz o ensinamento e as palavras de vida que devem repercutir na sucessão das eras. Na Idade Média, a Humanidade não estava apta nem a compreender tal ensinamento, nem a aplicá-lo. Necessários foram, para que houvesse possibilidade e proveito daquela revelação, mais de quatro séculos de trabalho e progresso.

Eis porque a Vontade suprema permitiu que durante quatrocentos anos a memória de Joana permanecesse envolta em sombras e que deslumbrante fosse a sua revivescência. Hoje, a grandiosa figura da heroína se destaca resplendente, da escuridão dos tempos. O pensamento humano se apresta para dar solução ao problema e penetrar no mundo dos Espíritos, que tem, na vida e na missão de Joana, em sua comunhão com a Além, uma das afirmações, um dos mais eloqüentes testemunhos da História. * Joana tinha seus protetores, seus guias invisíveis. Devemos fazer notar que, numa ordem menos elevada, o mesmo se verifica com cada um de nós. Todo ser humano tem perto de si um amigo invisível, que o ampara, aconselha e dirige pelo bom caminho, se ele consente em seguir a inspiração que recebe.

As mais das vezes, são os entes que amamos na Terra: um pai, uma mãe que se foram, uma esposa prematuramente morta. Muitos seres velam por nós e se esforçam por dominar os instintos, as influências, as paixões que nos impelem para o mal. Sejam os gênios familiares, como os gregos os designavam, sejam os anjos de guarda do Catolicismo, pouco importam os nomes que lhes emprestem. O que é certo é que todos temos nossos guias, nossos inspiradores ocultos, que todos temos nossas vozes. Mas, enquanto que as de Joana eram exteriores, objetivas, percebidas pelos sentidos, as da maior parte de nós outros são interiores, intuitivas e só repercutem no domínio da consciência. Nenhum há dentre vós, leitores, que tenha escutado essas vozes?

Elas se fazem ouvir no silêncio e no recolhimento; falam das lutas que havemos de sustentar, dos esforços que precisamos empregar para nos elevarmos, elevando os outros. Certamente, vós todos já tendes ouvido a voz que no santuário da alma nos exorta ao dever e ao sacrifício. E quando quiserdes percebê-la de novo, concentrai-vos e erguei o pensamento. Pedi e recebereis. Apelai para a ajuda divina.

Indagai, estudai, meditai, a fim de vos iniciardes nos grandes mistérios e, pouco a pouco, verificareis o acordar de novas faculdades; percebereis que as ondas de uma luz desconhecida vos banham; vereis que no vosso ser desabrocha a flor delicada da esperança e vos sentireis penetrados da energia que a certeza do Além e a confiança na justiça eterna prodigalizam. Tudo então se vos tornará fácil. Vosso entendimento, em vez de rastejar penosamente no dédalo escuro das dúvidas e das contradições terrestres, desferirá o vôo, vivificado, iluminado pelas inspirações do Alto. Devemos lembrar-nos de que, em cada um de nós, infinitas riquezas jazem inúteis, improdutivas, donde a nossa aparente indigência, a nossa tristeza e mesmo, por vezes, o tédio da vida. Mas, abri o coração, deixai que nele penetre a centelha, o bafo regenerador, e então uma vida mais intensa e mais bela reflorirá em vós.

Tomareis gosto por mil coisas que vos eram indiferentes e que passarão a constituir o encanto de vossos dias; observareis que vos estais engrandecendo; caminhareis pela existência com passo mais firme, mais seguro, e vossa alma se transformará num templo transbordante de esplendor e de harmonia. * Joana, dissemos, era a mensageira do mundo dos Espíritos, um dos médiuns de Deus. As faculdades que possuía não se encontram senão de longe em longe num grau tão eminente, e é lícito afirmar-se, como já o fizemos, que ela realizou, em nossa história, o ideal de mediunidade. Entretanto, os predicados, de que desfrutava a título excepcional, podem constituir partilha de grande número de entes humanos. Já tivemos ocasião de citar algures estas proféticas palavras: “Quando os tempos forem vindos, espalharei meu espírito por sobre toda a carne: os jovens 218 terão visões e os velhos terão sonhos”. Tudo parece indicar que esses tempos vêm próximos.

Aquela predição se verifica pouco a pouco em volta de nós. O que no passado foi privilégio de alguns 218 Atos, 2:17. 147 – JOANA D´ARC, MÉDIUM tende a tornar-se patrimônio de todos. Já por toda parte há, no seio do povo, missionários ignorados; por toda parte há sinais, indicações anunciadoras dos novos tempos. Dentro em breve, o que constitui a grandiosidade e a beleza do humano gênio, todas as glórias da civilização, tudo será renovado, fecundado pela prodigiosa torrente de inspirações, que virá descerrar ao espírito do homem um domínio, um campo não lindado, onde se hão de erigir obras que eclipsarão as maravilhas das eras transatas. Todas as artes, filosofias, letras e ciências, a música e a poesia se abeberarão nas fontes inesgotáveis, tudo se transmudará sob o influxo poderoso do infinito.

A missão do novo espiritualismo, como a de Joana, é uma missão de luta, entrecortada de duras provações. Indícios e presságios a assinalam. Marca-a o selo divino. Sua tarefa consiste em combater, em expulsar o inimigo, e o inimigo, hoje, é o negativismo, o pessimismo, é essa filosofia gélida e nebulosa, que só produz gozadores e desesperados. Primeiramente, ele terá que percorrer a via dolorosa.

Tal a sorte de qualquer idéia nova. Neste instante, soou-lhe a hora do processo. Como Joana em presença dos examinadores de Poitiers, a nova revelação enfrenta as crenças e os sistemas do passado, os teólogos, os representantes da ciência tacanha e da letra. Defrontam-na todas as autoridades, os mandatários da idéia envelhecida ou incompleta, da idéia que se tornou insuficiente e que deve ceder o passo ao novo verbo, que reclama lugar no mundo, sob o glorioso sol da vida. No momento atual, esse processo se desenrola à face da Humanidade, expectadora interessada e cujo próprio futuro está em causa.

Qual será o resultado, o julgamento? Nenhuma dúvida pode haver. Entre a idéia jovem e fecunda, cheia de vida, que sobe e avança, e a outra, decrépita, valetudinária, que desce e se abisma, como hesitar? A Humanidade necessita de viver, de prosperar, de engrandecer-se, e não será no meio de ruínas que se lhe há de deparar asilo para a razão e para o coração. O novo Espiritualismo está à barra do tribunal da opinião.

Dirigindo-se às Igrejas e às potestades terrenas, diz-lhes: “Dispondes de todos os meios de ação que uma autoridade muitas vezes secular vos criou e nada podeis contra o materialismo e o pessimismo, contra o crime e a imoralidade, que se alastram, como corrosiva chaga. Sois fracas para salvar a Humanidade em perigo. Não vos conserveis, pois, insensíveis aos reclamos do espírito novo, que vos traz, com a verdade e a vida, os recursos precisos para erguer e regenerar a sociedade. Apelai para o que de grande e de belo encerra a alma do homem e, comigo, dizei-lhe: “Solta o vôo, eleva-te, alma humana! Penetra-te do sentimento da força que te sustém; avança confiante para o teu magnífico porvir.

As potências infinitas te assistem; a Natureza se associa à tua obra; os astros em seus cursos te aclaram a estrada. “Vai, alma humana, fortalecida pelo socorro que te ampara! Vai, como a Joana d'Arc das batalhas, através do mundo da matéria, através dos embates das paixões. À tua voz, as sociedades se transfigurarão, desaparecerão as formas envelhecidas, para dar campo a formas novas, a organizações juvenis, mais ricas de luz e de vida.” Quanto a Joana, vimo-la, sua influência, sua ação persistiram no mundo, depois que ela do mundo partiu. Graças a ela é que, em primeiro lugar, a França se libertou dos ingleses, não numa só campanha, não por efeito de uma única arremetida semelhante à das vagas do oceano varrendo as areias das praias, como houvera sucedido se os homens tivessem a fé e a fortaleza de ânimo que a escudavam; mas, permeando repetidas vicissitudes, alternativas de êxito e de malogro.

A alma de Joana, maciça de amor e de vontade do bem, de dedicação a seu país, não podia imobilizar-se na beatitude celeste. Volta-nos atualmente com uma outra missão: a de executar em esfera mais vasta, no plano espiritual e moral, o que fez pela França, do ponto de vista material. Auxilia, incita os servidores, os porta-vozes da nova fé, todos aqueles que no coração aninham inabalável confiança no futuro. Sabei-o: começou uma revolução maior do que quantas já se operaram no mundo, revolução pacífica e regeneradora, que arrancará as sociedades humanas da rotina e dos carreiros e dirigirá o olhar do homem para os destinos esplêndidos que o esperam. Reaparecem as grandes almas que viveram neste planeta; suas vozes ressoam, concitando a Humanidade a acelerar a marcha.

E a alma de Joana é uma das mais poderosas que atuam no globo, que trabalham por preparar para o gênero humano uma nova era. É por isso que, no momento preciso, luziu a verdade sobre o caráter e a missão da virgem Lorena. Por seu intermédio, com seu apoio, com o auxílio dos grandes Seres que amaram e serviram à França e à Humanidade, confirmar-se-ão as esperanças dos que desejam o bem e buscam a justiça. A radiante legião dos Espíritos cujos nomes, como faróis, balizam as fases da História, os iniciados de antanho, os profetas de todos os povos, os mensageiros da verdade, todos os que compuseram a Humanidade em séculos e séculos de trabalho, de meditação, de sacrifício, se acham empenhados na obra, e, acima deles, está a própria Joana convidando-nos ao labor, ao esforço. Todos nos clamam: “A postos!

Não mais para o cruzar das espadas, mas para as lutas fecundas do pensamento. A postos! Para a luta contra uma invasão mais temível do que a do estrangeiro, contra o materialismo, o sensualismo e todas as suas conseqüências: o abuso dos prazeres, a ruína dos ideais; contra tudo o que pouco a pouco vos deprime, vos enerva, enfraquece e conduz à humilhação e à queda. A postos! Trabalhai e lutai pela salvação intelectual e pelo levantamento de nossa raça e da humana gente!” * Por sobre nós adeja a alma sublime, cuja lembrança pungente e gloriosa este livro evoca.

Em várias ocasiões, pôde dizer-nos o que pensava do movimento de idéias que a objetivam, de tantas apreciações diversas e contraditórias sobre o seu papel e sobre a natureza das forças que a sustentavam. Cedendo aos nossos rogos, 149 – JOANA D´ARC, MÉDIUM consentiu em resumir todo o seu pensamento numa mensagem, que nos consideramos no dever de reproduzir com escrupulosa fidelidade, como o mais belo fecho que pudéramos dar a este capítulo. Esta mensagem traz em si mesma todas as garantias desejáveis de autenticidade. O Espírito que a ditou escolheu para intérprete um médium que vivera no décimo quinto século e conservava, no seu eu profundo, lembranças, reminiscências daquela época. Por esta circunstância, possível lhe foi imprimir à 219 linguagem, dentro de certos limites, o cunho do tempo.

Mensagem de Joana, 15 de julho de 1909 “Doce me é a comunhão com os que, como eu, amam a Nosso Senhor e Pai – e não me dói a visão do passado, por isso que ela me aproxima de vós e a lembrança de minhas comunicações com os mortos e os santos me faz irmã e amiga de todos aqueles a quem Deus concedeu o favor de conhecer o segredo da vida e da morte. “Rendo graças a Deus por me permitir transmitir-vos minha crença e minha fé e por poder ainda dizer, aos que sabem um pouco, que as vidas que o Senhor nos dá devem ser utilizadas santamente, a fim de estarmos em sua graça. Devem ser-nos gratas as vidas em que possamos desempenhar a tarefa que o todo poderoso Juiz e Pai nos assinou e devemos bendizer o que de suas mãos recebemos. “Ele sempre escolheu os fracos para realizar seus desígnios, porquanto sabe dar força ao cordeiro, conforme o prometeu; mas, este não deve misturar-se com os lobos e a alma inflamada pela fé deve guardar-se das ciladas e sofrer com paciência todas as provações e castigos que ao Senhor apraza dar-lhe. “Ele nos ministra a sua verdade sob as mais variadas formas, porém nem todos penetram a sua vontade.

Submissa às suas leis e procurando respeitá-las, mais acreditei do que compreendi. Eu sabia que conselhos tão salutares não podiam ser obra de inimigo e o reconforto que me deram foi para mim um arrimo e a mais doce das satisfações. Jamais soube qual era a vontade remota do Senhor. Ele me ocultou, por seus enviados, o fim doloroso que tive, compadecido da minha fraqueza e do medo que o sofrimento me causava; porém, chegada a hora, recebi, por intermédio daqueles enviados, toda a força e toda a coragem. “É-me doce e delicioso volver aos momentos em que primeiramente ouvi minhas vozes.

Não posso dizer que me amedrontei. Fiquei grandemente admirada e mesmo um pouco surpreendida de me ver objeto da misericórdia divina. Senti subitamente, antes que as palavras me houvessem chegado, que elas vinham de servos de Deus e grande doçura experimentei em meu coração, que afinal se aquietou quando a voz do santo ressoou aos meus ouvidos. Dizer-vos o que se passava então em mim não é possível, porque eu não vos poderia descrever a 219 Objetar-me-ão, talvez, que Joana não sabia ler, nem escrever. Responderei que depois de sua morte trágica, ao regressar para o espaço, ela recobrou todos os seus conhecimentos anteriores. minha alegria calma e intensa; mas, senti tão grande paz que, ao partirem os mensageiros, me julguei órfã de Deus e do Céu.

Compreendi um pouco que a vontade deles devia ser a minha; porém, desejando imensamente que me visitassem, admirei-me das ordens que me davam e receei um pouco ver realizados os desejos que exprimiam. Parecia-me, certamente, uma bela obra tornar-me eu a salvaguarda da França; mas, uma donzela não vai para o meio de homens d'armas. Finalmente, na doce e habitual companhia dos seres que me falavam, cheguei a ter mais confiança em mim própria e o amor que sempre consagrei a Deus me indicou a conduta a seguir, pois que não é decorosa a rebelião contra a vontade de um pai. “Foi-me penoso, embora também motivo de alegria, o obedecer e, enfim, fiz primeiramente à vontade de Deus. Por essa obediência sou feliz e nisto também acho uma razão para fazer o que Deus quer, para perdoar aos que foram o instrumento de minha morte, crente de que não tinham ódio à minha alma, tanto que lhe deram a liberdade, mas sim à obra que era por mim executada.

“Tendo sido essa obra abençoada por Deus, eles eram grandemente culpados; também nenhum ódio lhes tenho às almas. Sou inimiga de tudo o que Deus reprova, da falta e da maldade. A obra que fizeram é que está fora da graça. Todos reentrarão na graça de Deus, mas a lembrança do passado não se lhes apagará. Choro o ódio que plantaram entre seus irmãos, o mau grão que semearam no campo da Igreja e que levou esta mãe que tanto amei a procurar mais a fé do que o amor do perdão.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.