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Capítulo 12 de 29
Parte 12 de 29
Joana D’Arc, Médium · Léon Denis
Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, pág. 422. É exato que mais tarde a pena de excomunhão o fulminou, porém não como castigo de seu crime; simplesmente porque recusou satisfazer a um pagamento que o Vaticano exigia. Assim, foi por uma questão de dinheiro que esse prelado se viu atingido pelos raios pontifícios, ao abrigo dos quais esteve, enquanto só carregava 147 a culpa de haver levado à condenação a libertadora de seu país. De fato, nenhuma voz se elevou em toda a cristandade, para protestar contra o iníquo julgamento de Joana, quer do lado do clero que se conservara francês, quer do lado do clero que se passara para os ingleses. Ao contrário, uma circular que a seus diocesanos dirigiu Regnault de Chartres, arcebispo de Remos, nos revela o vergonhoso estado de espírito de Carlos VII e de seus conselheiros. Num relatório escrito de acordo com os documentos da municipalidade e almotacelado de Reims, encontrou-se a análise de uma missiva do chanceler aos habitantes de sua cidade arquiepiscopal, concebida nos termos que se vão ler.
Dá notícia da prisão de Joana diante de Compiègne e diz que tal sucedera “por ela não ter querido aceitar conselho, mas fazer tudo a seu bel-prazer... Deus consentira em que fosse presa, por se haver enchido de orgulho, por causa das ricas vestes que trajava e por não ter feito o que Deus lhe ordenara, mas só o que 148 era da sua vontade, dela Joana”. Entretanto, Carlos VII, embora pessimamente aconselhado, recebera altas e instantes solicitações em favor da heroína. Jaques Gélu, fidalgo, arcebispo d'Embrun, que fora preceptor do delfim Carlos, escreveu a seu real discípulo, depois da captura de Joana, lembrando-lhe o que a Pucela fizera pela coroa da França. Rogava-lhe que perscrutasse a própria consciência e visse se não “foram suas ofensas a Deus que ocasionaram aquela desgraça”.
“Recomendo-vos – acrescenta Gélu – que não poupeis meios nem dinheiro, para recobrar essa donzela e resgatar-lhe a vida, seja a que preço for, se não quiserdes incorrer na pecha indelével de uma censurabilíssima ingratidão.” Aconselha-lhe que ordene se façam por toda parte preces pela libertação de Joana, a fim de obter o perdão de alguma possível falta. Assim falou o velho bispo, que se lembrava de ter sido conselheiro do delfim 149 nos maus dias e que amava estremecidamente o rei e o reino. O resgate de Joana, quando em poder do conde de Luxemburgo, era possível. Nada fizeram. Havia também a possibilidade de a resgatarem por um golpe de força: os franceses ocupavam Louviers, a pequena distância de Ruão.
Conservaram-se imóveis. Os que, antes da viagem a Remos, falavam em atacar a Normandia, agora se calavam. No mínimo, podiam ter conseguido alguma coisa pelos meios processuais, embaraçando a sentença do tribunal, mediante os recursos formalísticos do que os juízes se mostravam tão respeitadores. O bispo de Beauvais, que dirigia o 147 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t.
II, páginas 222223. 148 H. Martin – HISTOIRE DE FRANCE, t. VI, pág. 234. 149 Ver: A. France, VIE DE JEANNE D'ARC, t. II, páginas 185186. 85 – JOANA D´ARC, MÉDIUM processo, era sufragâneo do arcebispo de Remos.
Podia este exigir que lhe ele desse, pelo menos, conhecimento dos debates. Reinaldo de Chartres, porém, se absteve de toda e qualquer intervenção. Poderiam ter recorrido aos protestos da família de Joana, reclamar a apelação para o papa, ou para o Concílio, ameaçar os ingleses de represálias em Talbot e nos outros prisioneiros de guerra, para salvação da vida da Pucela. Nada se tentou! 150 “O abandono de Joana à sua sorte – diz Wallon – obedeceu a deliberado propósito: sua morte entrava nos cálculos daqueles detestáveis políticos... Regnault de Chartres, La Trémoille e todas aquelas outras tristes personagens sacrificaram, com Joana, o príncipe, a pátria e até Deus, unicamente para guardarem o ascendente de que desfrutavam nos conselhos do rei.” Tudo bem pesado, a responsabilidade do suplício e da morte de Joana toca, parece-nos, em partes iguais, à Igreja e às coroas da Inglaterra e da França.
Todavia, no que respeita à Igreja, uma circunstância devemos lembrar. É que, se tantos padres e prelados, se a própria Inquisição chafurdaram no Processo de condenação de Joana d'Arc, também foi sob a direção do grande inquisidor João Béhal que o Processo de reabilitação se desenrolou. Assim como houve sacerdotes capazes de condenar Joana, outros houve, e não dos de menor valor, que tomaram a si glorificá-la, contando-se entre esses o grande Gerson e o arcebispo d'Embrun. Evidentemente, tendo sido Joana queimada como feiticeira, a coroa da França não queria nem podia ficar sob a acusação de haver pactuado com o inferno. Mas, para conseguir o processo de revisão, que viria aliviá-la desse peso, foi-lhe preciso negociar durante três anos, com a corte de Roma; foi precisa toda a influência do rei e de seus conselheiros, influência que, entretanto, o pontífice romano tinha o maior interesse em salvaguardar, numa época de cisma, quando três papas acabavam de disputar a autoridade sobre o mundo cristão.
Foi necessária uma pressão forte, para obter-se a revisão, e, sem a pressão e a insistência havidas, é provável que a reparação nunca se daria. “O tribunal de reabilitação – diz Joseph Fabre –, que se fez esperar vinte e cinco anos, sancionou a impunidade dos carrascos, do mesmo passo que proclamou a inocência da supliciada. Ainda mais: declarou Joana isenta do crime de heresia; mas, admitiu, que como herética, a virgem teria merecido o fogo, consagrando, assim, o exemplo dos juízes do primeiro tribunal, o nefasto 151 princípio da intolerância, do qual foi ela vítima”. Conquanto tardia e insuficiente, aceitamos a reparação tal como se operou. Recordemos que nas principais cidades da França se levaram a efeito procissões expiatórias, em que o clero tomou parte saliente.
Lembremos igualmente que, em época mais recente, os próprios ingleses glorificaram a memória de Joana: um de seus poetas, Southey, proclamou-a a maior glória do gênero humano. Muitas e 150 Wallon – JEANNE D'ARC, pág. 358. 151 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. II, pág. 223. muitas vozes se hão erguido na Inglaterra, pedindo que, nas praças públicas de Ruão, representantes da coroa e do parlamento cantem a palinódia. Relembremos tudo isso e digamos que diante da portentosa figura de Joana devem desaparecer todos os ressentimentos, todos os ódios devem cessar.
Em torno de seu augusto nome, nenhuma luta de partidos ou de nações se pode empenhar, porque esse nome, sendo um símbolo de patriotismo, é também, e sobretudo, um símbolo de paz e de concórdia. Joana pertence a todos, certamente, e em particular à França. Todavia, se houvesse cabimento para uma exceção no seio do país, em favor de alguma coletividade ou grupo, se Joana pudesse pertencer mais a uns do que a outros, mandaria a lógica inflexível que fossem favorecidos pela exceção os que lhe souberam compreender a vida e penetrar-lhe o mistério, os que procuram ainda hoje, no estudo do mundo invisível, as forças, o amparo, os socorros que lhe asseguraram o triunfo, para pô-los ao serviço do bem moral e da salvação da pátria. * Voltemos aos juízes de Ruão. Quando se estudam as fases do processo, ressalta evidente que, no espírito daqueles sofistas de corações gelados, no pensamento daqueles padres vendidos aos ingleses, Joana estava de antemão condenada. Não se encheram eles de despeito e raiva ao verem uma mulher levantar, em nome de Deus, de quem se diziam representantes, a causa que traíram, julgando-a perdida, a causa da França?
Todos aqueles homens só visavam a um fim, só alimentavam um desejo: vingar nessa mulher a autoridade de que eram ciosos e que sentiam ameaçada, a situação de que gozavam e que consideravam comprometida. Para eles, como para os ingleses, Joana estava destinada à morte; mas, que apenas morresse não lhes bastava à política e ao ódio; era preciso que a vissem morrer desonrada, renegando sua própria missão, e que os salpicos dessa desonra atingissem o rei e toda a França! Para isso, um único recurso havia: obterem que ela se retratasse, que negasse a missão de que se achava investida. Era necessário que se confessasse inspirada pelo inferno. Um processo por feitiçaria, eis o caminho mais bem indicado para conduzi-la a tal extremo.
A fim de alcançar-se o objetivo, não se devia hesitar no emprego de qualquer meio: o embuste, a espionagem, maus tratos, todos os sofrimentos, todos os horrores de uma horrenda prisão, onde a castidade da virgem se encontrasse exposta aos últimos ultrajes. As ameaças e a própria tortura lhes serviam. Mas, a tudo Joana resistiu. Concebei uma sala abobadada, onde, por estreitas aberturas, se filtra mortiça luz. Dir-se-ia uma cripta funerária.
O tribunal está reunido. Uns sessenta juízes o compõem, sob a presidência do bispo de Beauvais, a quem os ingleses prometeram o arcebispado de Ruão, se soubesse servir-lhes aos interesses. Por sobre suas cabeças (pungente ironia!) pende da parede a imagem do Cristo crucificado. Ao fundo da sala, em todas as saídas, brilham as armas dos soldados ingleses, de odientos semblantes, ferozes. 87 – JOANA D´ARC, MÉDIUM Para que essa ostentação de força? Para o julgamento de uma menina de dezenove anos!
Joana lá está, pálida, cambaleante, carregada de ferros; enfraqueceram-na os sofrimentos de um longo cativeiro. Lá está ela, só, em meio de inimigos que juraram perdê-la. Só? Oh! Não!
Pois que, se os homens a abandonam, se seu rei a esquece, se os nobres da França nada fazem para arrancá-la aos ingleses, à força ou pelo resgate, ao menos há seres invisíveis velando por ela, amparando-a, inspirando-lhe réplicas tais, que, por vezes, causam espanto aos juízes. E que barulho! Que tumulto! No auge do furor, cheios de raiva, os membros do tribunal, de momento a momento, se interpelam reciprocamente e disputam entre si. As questões se multiplicam.
Engendram mil ardis para desnortear a acusada, por meio de tretas hipócritas, apoquentam-na com perguntas tão sutis, tão difíceis que, segundo a expressão de um dos assessores, Isambard de la Pierre, “os mais notáveis clérigos da assistência não teriam podido a elas responder, sem 152 grandes embaraços”. No entanto, ela a todos responde, ora com admirável finura, ora com um sentido tão profundo e com palavras tão sublimes, que ninguém mais podia duvidar de que fosse inspirada pelos Espíritos. Temerosa impressão se apoderava dos assistentes, quando ela dizia: “Eles aqui estão sem que os vejais.” Aqueles homens se achavam, porém, demasiadamente enterrados no crime, para serem capazes de retroceder. Assim, esforçavam-se por oprimir a donzela, física e moralmente. Submetiam-na a interrogatório sobre interrogatório.
Efetuavam, às vezes, dois por dia, de três horas cada um. E durante todo o tempo obrigavam-na a ficar de pé, suportando o peso de grossas correntes. Contudo, Joana não se deixa intimidar. Aquele sinistro lugar se lhe afigura um novo campo de batalha, com o que dá mostra de sua grande alma, de sua coragem máscula. A potência invisível que a inspira prorrompe em frases veementes, que aterrorizam seus acusadores.
Dirigindo-se ao bispo de Beauvais, exclama: “Dizeis que sois meu juiz. Não sei se sois. Mas, tende o cuidado de não julgar mais; porque, do contrário, vos exporeis a grande perigo. Advirto-vos, a fim de que, se Nosso Senhor vos castigar, eu tenha cumprido o dever que me cabia de vos prevenir.” – “Vim da parte de Deus. Nada tenho que fazer aqui.
Entregai-me ao julgamento de Deus de quem 153 vim”. Fazem-lhe esta pergunta prenhe de insídia: “Acreditas estar na graça de Deus?” – “Se não estou, que Ele me faça estar; e, se estou, que Ele nela me 154 conserve”. – “Julgas, pois, inútil confessar-te, ainda que em estado de pecado mortal?” – “Jamais cometi pecado mortal.” – “Podes lá sabê-lo?” – “Minhas 152 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I, págs. 9394. 153 J.
Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, págs. 60 e 158. 154 Ibidem, pág. 71. vozes me teriam abandonado!” – “Que dizem tuas vozes?” – “Dizem-me: Não 155 tenhas medo; responde desassombradamente; Deus te ajudará”. Procuram levá-la a reconhecer-se culpada do crime de magia, de sortilégios, pretendendo que se servira de objetos dotados de poderes misteriosos: “Defendias o estandarte, ou o estandarte é que te defendia?” Ela responde: “Fosse do estandarte ou de Joana a vitória, tudo pertencia a Deus.” – “Mas, era no estandarte ou em ti mesma que fundavas a esperança da vitória?” – “Em Deus 156 e em nada mais”. Quantos outros em seu lugar teriam podido ou sabido resistir à tentação de atribuírem a si próprios o mérito de suas vitórias? O orgulho se infiltra até ao fundo das mais nobres e mais puras almas. Quase todos nós somos inclinados a dar crescido valor aos atos que praticamos, a lhes exagerar o alcance, a nos glorificarmos sem razão.
Entretanto, tudo nos vem de Deus. Sem ele, nada seríamos, nada poderíamos. Joana o sabe e, na atmosfera de glória que a cerca, se faz humilde, pequenina, atribuindo unicamente a Deus o merecimento da obra realizada. Longe de se envaidecer de sua missão, restringe-a a justas proporções. Não fora mais do que um instrumento ao serviço da Potência suprema: “Aprouve a Deus obrar assim, por intermédio de uma simples virgem, para 157 repelir os adversários do rei”.
Mas, que instrumento admirável de sabedoria, de inteligência e de virtude! Que profunda submissão às vontades do Alto! “Todos os meus atos e palavras estão nas mãos de Deus e confio n’Ele.” * Um dia o bispo de Beauvais entra no cárcere, revestido dos paramentos sacerdotais e acompanhado de sete padres. Joana é prevenida de que será decisivo o interrogatório pelo qual vai passar. Suas vozes, depois de lhe darem esse aviso, aconselham-na que resista com denodo, que defenda a verdade, que desafie a morte.
Tanto basta para que, ao defrontar os ministros da Igreja, o corpo extenuado se lhe enrije, o semblante se lhe ilumine e seu olhar brilhe com vivo e inigualável fulgor. “Joana – diz o bispo –, queres submeter-te à Igreja?” Terrível pergunta esta, na Idade Média, e da qual depende a sorte da heroína. “Reporto-me a Deus em todas as coisas – responde ela –, a Deus, que sempre me inspirou.” – “Aí está uma palavra bastante grave. Entre ti e Deus, há a Igreja. Queres, sim ou não, submeter-te à Igreja?” – “Vim ao encontro do rei para salvação da França, guiada por Deus e por seus santos Espíritos.
A essa Igreja, a de lá do Alto, me submeto, com relação a tudo o que tenho feito e dito!” – “Assim, recusas submeter-te à Igreja, recusas renegar as tuas visões 155 PROCESSO, passim. 156 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, pág. 184. 157 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, pág. 152. 89 – JOANA D´ARC, MÉDIUM diabólicas?” – “Reporto-me a Deus somente. Pelo que respeita às minhas visões, não aceito o julgamento de homem algum!” Eis aqui o ponto capital do processo. Tratava-se de saber, acima de tudo, se Joana subordinaria a autoridade de suas revelações às vontades da Igreja.
Por ocasião do Processo de reabilitação, os juízes e as testemunhas tiveram como preocupação única demonstrar que a virgem hesitara e, por fim, aceitara a supremacia do papa e da Igreja. Ainda hoje, é o argumento dos que colocam a heroína no paraíso católico. Durante o Processo de condenação, ao contrário, Joana, em todas as suas respostas, se mostra resoluta; seu pensamento não tem obscuridade, à palavra não lhe falta firmeza. Profundo é o sentimento que nutre no tocante à causa que defende. Em realidade, esse solene debate prossegue entre dois princípios inflexíveis.
De um lado está a regra, o despotismo das tradições, a suposta infalibilidade de um poder que se imobilizou há séculos. De outro lado encontram-se a inspiração, os direitos sagrados da consciência individual. E a inspiração aqui se manifesta sob uma das mais sugestivas, mais empolgantes formas já vistas no correr dos tempos. Forçoso é, pois, reconhecer: muito melhor do que os testemunhos do Processo de reabilitação, os interrogatórios de Ruão nos dão a ver Joana em toda a sua grandeza, em todo o esplendor de suas respostas apaixonadas, nas quais a palavra lhe sai vibrante, “enquanto o olhar – diz uma testemunha – despede lampejos”. Fascinava até os próprios juízes.
Em parte alguma, em nenhuma ocasião se mostrou mais bela, mais imponente. “Reporto-me a Deus somente!” dissera. Diante dessa resolução inabalável, diante dessa vontade que coisa alguma será capaz de amolgar, não mais hesitam. A 9 de maio conduzem-na à sala das torturas. Lá se acham os torturadores com os apetrechos sinistros.
Preparam os instrumentos; incandescem os ferros. Joana resiste. Defende a França e o ingrato rei que a abandonou. “Ainda que me arrancásseis os membros e que separásseis do corpo a alma, outra coisa não vos 158 diria!”. Deixaram de torturá-la, não por piedade, mas porque, no estado de fraqueza física a que chegara, ela evidentemente expiraria durante os tormentos e o que se queria era uma morte pública, um cerimonial espetaculoso, de molde a impressionar a massa popular.
Os juízes nada esqueciam do que pudesse fazê-la sofrer. Num requinte de crueldade, compraziam-se em lhe descrever os horrores do suplício do fogo. Ora, este era o martírio que Joana mais particularmente temia: “Preferia que me decapitassem – dizia –, a ser assim queimada.” Longe de tocá-los, o queixume da donzela mais lhes excitava a perversidade. Esmagada ao peso das correntes, vigiada de perto por inimigos brutais, no fundo daquele abismo de miséria, onde nenhum raio de compaixão, nenhuma palavra de conforto penetrava, por vezes um grito de revolta lhe assomava aos lábios e um apelo a Deus, “o grande juiz”, 158 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, pág. 324. motivado pelos ultrajes que lhe infligiam.
Mas acrescentava: “Bem pode ser que os que me querem tirar deste mundo vão antes de mim.” Douta feita, declarava ao juiz interrogante: “Não haveis de fazer contra mim o que acabais de dizer, sem 159 que daí vos advenha mal ao corpo e à alma”. Efetivamente, muitos dos que a julgaram e condenaram tiveram miserando fim. Todos se viram flagelados pelo desprezo público e pelos remordimentos das consciências. Cauchon morreu acabrunhado de remorsos. O povo desenterrou-lhe o cadáver para lançá-lo a uma sentina.
O promotor João d'Estivet expirou dentro de um esgoto. Alguns outros, vinte e cinco anos depois, em presença do novo tribunal, no correr do Processo de reabilitação, mais pareciam réus do que testemunhas. Causava dó a atitude em que se apresentavam e a maneira por que falavam traía a perturbação que lhes lançara n'alma o sentimento da própria indignidade. Nos interrogatórios, nem sempre respeitavam a verdade, quando transcreviam as palavras da acusada. Um dia, em que a inquiriam acerca de suas visões, ao lerem-lhe uma das respostas que anteriormente dera, João Lefèvre notou um erro de redação e apontou-o.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.