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Capítulo 11 de 29
Parte 11 de 29
Joana D’Arc, Médium · Léon Denis
João de Luxemburgo descendia de alta linhagem; era, porém, mesquinho de coração e falto de fortuna. Inscrevera no brasão uma divisa de desalentado: “Contra o impossível nada se consegue”. Quão mais vibrante a de seu contemporâneo Jaques Cœur: “Para um coração valoroso, nada é impossível”. Muito endividado, arruinado quase, o conde não queria resignar-se a viver pobre. Não pôde, conseqüentemente, recusar as dez mil libras em ouro que o rei da Inglaterra oferecia.
Por esse preço, vendeu Joana e a entregou. Dez mil libras em ouro! Era uma soma enorme para a época. Os ingleses, entretanto, estavam baldos de recursos; assim é que já não podiam mais pagar os seus funcionários. À falta de dinheiro, suspendeu em Paris, durante semanas, o funcionamento da justiça.
O notário que redigia os atos do parlamento teve que 135 interromper o trabalho, por não haver mais pergaminho. Desde, porém, que se tratava de comprar Joana, os ingleses acharam meio de obter tão grossa quantia. Que fizeram para isso? Uma coisa que lhes era familiar: lançaram pesado imposto sobre toda a Normandia. E eis um fato que merece assinalado: com dinheiro francês é que o sangue de Joana d'Arc foi pago!
No recesso do cárcere, não era a sua própria sorte o que mais atribulava Joana. Acima de tudo, afligia-a o pensamento, que assim, tristemente, exprimiu: “Não mais poderei servir ao nobre país de França!” Ao ter notícia de que sobre a boa gente de Compienha pesa a ameaça de ser passada a fio de espada, se a cidade cair em poder dos inimigos, precipita-se do alto da torre de Beaurevoir, para ir compartilhar-lhes da sorte. “Eu ouvira falar – dirá ela aos juízes – que todos os de Compienha, até a idade de sete anos, seriam tratados a ferro e fogo. Achei, então, que mais valia correr o risco de morrer, do que sobreviver à destruição das boas 136 criaturas”. De etapa em etapa, de prisão em prisão, chega finalmente a Crotoy, nos confins da Normandia, que os ingleses ocupavam.
Metem-na numa torre de defesa, que guarda a embocadura do Soma. Da janela gradeada de ferro, descortina ela um panorama de praias e mais longe a amplidão do mar. Pela primeira vez, dado lhe é contemplar o imenso lençol líquido e o espetáculo a impressiona fortemente. 135 Registres du Parlement, t. XV, fevereiro de 1431, segundo H. Martin, t.
VI, pág. 245. 136 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 5º interrogatório secreto. 77 – JOANA D´ARC, MÉDIUM O mar! Com suas vagas espumantes, seus horizontes ilimitados, seus reflexos multicores! Ela, tão sensível às harmonias do céu e da terra, às belezas dos dias luminosos e do firmamento estrelado, se extasia na contemplação da vasta superfície, que ora apresenta a coloração cinzenta da prata, ora a de um azul intenso, e reflete à noite as cintilações dos astros; escuta, maravilhada, o sussurro misterioso do vento e das ondas. Quando, à hora de preamar, lhe chegam aos ouvidos o queixume das vagas, o soluçar do oceano, profunda sensação de tristeza a invade.
Os ingleses vão chegar, os ingleses que a compraram tão caro! Até então fora, desde Compienha, prisioneira dos borgonheses, seus adversários, sem dúvida, mas homens da mesma língua, da mesma raça e que a tratavam com atenções. Dali por diante, que é o que pode esperar dos bárbaros estrangeiros a quem tantas vezes vencera e que, votando-lhe ódio feroz, jamais perderam ocasião de injuriá-la? Sentindo horrível angústia a lhe despedaçar a alma, põe-se a orar. Ouve, então, a voz que lhe diz e repete: “Recebe tudo de bom grado!” Passou assim em Crotoy três semanas.
Um dia, as senhoras de Abbeville foram visitá-la, consolá-la e, por instantes, misturaram suas lágrimas com as da 137 virgem. 137 Wallon – JEANNE D'ARC, pág. 222. X Ruão; a prisão O escolhido por Deus para qualquer missão, Mártir, soldado seja, apóstolo ou salvador, D'alto valor precisa e muda submissão; Que belo é o combater, nobre sofrer a dor. Paul Allard Joana está nas mãos dos ingleses. Amordaçada, para que não possa falar às populações, conduzem-na bem escoltada ao castelo do Ruão. Aí, lançaram-na num calabouço, encerrada numa gaiola de ferro: “Mandaram forjar para mim – diz-nos ela – uma espécie de gaiola em que me meteram e na qual fiquei extremamente comprimida; puseram-me ao pescoço umas grossas correntes, uma na cintura e outras nos pés e nas mãos. Teria sucumbido a tão horrível aflição, se Deus e meus Espíritos não me houvessem prodigalizado consolações.
Nada é capaz de pintar a tocante solicitude deles para comigo e os inefáveis confortos que me deram. Morrendo de fome, seminua, cercada de imundícias, machucada pelos ferros, tirei de minha fé a coragem de perdoar a meus algozes.” Procedimento atroz! Joana é prisioneira de guerra, é mulher e a enjaulam, como se fosse uma fera! Pouco mais tarde, é certo, os ingleses se contentaram com o prendê-la pelos pés a uma pesada trave por duas fortes correntes. Assim começa uma paixão de seis meses, paixão sem exemplo na História, paixão mais dolorosa mesmo do que a do Cristo, pois que o Cristo era homem, ao passo que aqui se trata de uma moça de dezenove anos, posta à mercê de soldados brutos, estúpidos e lúbricos.
Cinco deles, malfeitores, a escória do exército inglês, dizem todos os historiadores, vigiam-na dia e noite dentro do cárcere. Imaginai o que pode uma donzela acorrentada esperar de homens vis e grosseiros, bêbedos de furor contra aquela que consideram a causadora de todos os reveses que sofreram. Os miseráveis a atormentavam com os maus tratos. Muitas vezes procuravam violentá-la e, como não o conseguissem, batiam-lhe brutalmente. Ela se queixava disso aos juízes no curso do processo e, freqüentemente, quando estes lhe entravam na prisão para interrogá-la, a 79 – JOANA D´ARC, MÉDIUM encontravam banhada em lágrimas, com o rosto inchado e pisado pelas pancadas 138 recebidas.
Imaginai os horrores de semelhante situação, os pensamentos da mulher, os temores da virgem exposta a todas as surpresas, a todos os ultrajes, à privação contínua do repouso, do sono, o que lhe alquebrava o corpo e aniquilava as forças, em meio das ansiedades, das incessantes agonias. Sozinha entre aqueles infames, não consentia em abandonar as vestes masculinas e este ato de pudor lhe era profligado como um crime! Os visitantes não se revelam menos abomináveis do que os guardas. O conde de Luxemburgo, que a vendera, lembrou-se um dia de ir escarnecê-la no cárcere. Acompanhavam-no os condes de Warwick e de Stafford e o bispo de Thérouanne, chanceler do rei da Inglaterra.
“Vim aqui para te resgatar – diz-lhe ele –, porém sob a condição de prometeres que nunca mais pegarás em armas contra nós.” – “Escarneceis de mim – exclamou a donzela –. Sei perfeitamente que não tendes nem o desejo, nem o poder de fazê-lo.” E, como o conde insistisse, acrescentou: “Sei perfeitamente que estes ingleses me farão morrer, acreditando que depois da minha morte se apoderarão do reino da França. Sejam eles, porém, cem mil vezes mais numerosos do que são e ainda assim não terão o reino.” Estas palavras os põem furiosos, chegando o conde de Stafford a desembainhar a adaga para feri-la. 139 Warwick obstou a que o fizesse. Depois, são os juízes que confiam a um padre indigno, traidor e espião, Loyseleur, a incumbência de penetrar na prisão em trajes de leigo e, dizendo-se loreno e prisioneiro dos ingleses, captar a confiança de Joana e decidi-la a tomá-lo por confidente. Durante seus colóquios com a virgem, escrivães postados à espreita ouviam, por uma abertura feita de propósito, e registravam todas as confidências da heroína.
Acreditavam os ingleses que um “encantamento” havia na virgindade de Joana e que, se esta a perdesse, eles nada mais tinham que recear dela. Um exame prático pela duquesa de Bedford, em companhia de lady Ana Bavon e de muitas matronas, demonstrara que aquela virgindade era real. Particularidade que revela a baixeza de um caráter: o duque de Bedford, regente da Inglaterra, assistia, oculto, ao exame. Foi pouco depois desses fatos que o lorde condestável, conde de Stafford, levado tanto pela superstição, quanto por uma paixão hedionda, entrou no cárcere 140 de Joana e tentou violentá-la. Quem poderia dizer o que ela sofreu nas trevas de sua enxovia!
Abandonada de todos, traída e vendida a peso de ouro, experimentou os requintes da dor! Conheceu as horas de angústia, de tortura moral, em que tudo se nos escurece ao 138 H. Martin – HISTOIRE DE F'RANCE, t. VI, págs. 258, 290. 139 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO.
Depoimento do cavaleiro Aimond de Macy, que assistiu à cena, t. II, págs. 143144. 140 Ibidem. Depoimentos de Martin Ladvenu e Isambard de la Pierre, t. II, págs. 8899. 141 derredor, em que as vozes do céu parecem que se calam, em que o invisível se conserva mudo, quando os furores, os ódios da Terra se desencadeiam e arremessam contra nós. Todos os missionários hão provado as amarguras dessas horas cruciantes e ela as amargou mais do que todos, ela, pobre menina, entregue indefesa às mais vis ofensas.
Porque permite Deus tais coisas? Para sondar a alma e o coração de seus fiéis, para tirar a prova da fé que depositam n’Ele; para que os méritos dos que assim são feridos aumentem e para que a coroa que lhes reserva ganhe mais brilho e beleza. Mas, dir-se-á, como é que Joana, extenuada, carregada de ferros, pôde escapar às tentativas ignóbeis de seus visitantes e guardas? Como pôde manter incólume a flor da pureza, que era sua salvaguarda, pois que, de acordo com a opinião corrente naquela época, a uma virgem não se podia imputar o crime de sortilégio? Ora bem, eis aqui!
Nessas horas terríveis, que lhe causavam mais horror do que a própria morte, o invisível intervém. Uma legião radiosa se introduz na gélida e sombria prisão. Seres que só ela vê e aos quais chama “seus irmãos do paraíso”, vêm cercá-la, ampará-la, dar-lhe as forças necessárias para resistir ao que teria sido um sacrilégio abominável. Esses Espíritos a reconfortam e lhe dizem: “Sofrer é engrandecer-se, é elevar-se!” Em meio das trevas que a envolvem, uma claridade se produz; suaves cânticos lhe chegam aos ouvidos, como eco das harmonias do espaço. As vozes a consolam e lhe repetem: “Tem coragem! serás libertada por uma grande vitória!” Na ingenuidade da sua fé, julga que essa libertação é a soltura.
Ah! Conforme o ensinavam nossos antepassados, os druidas, “era a libertação da morte”, a morte pelo martírio. O martírio era indispensável, para dar àquela santa figura toda a sublime radiosidade. Não é privilégio das almas superiores ter por destino sofrer pelas causas nobres? Não é imprescindível que passem pelo cadinho das provações, para mostrarem todas as virtudes, todos os tesouros, todos os esplendores que encerram?
Uma grande morte é o coroamento necessário de uma grande vida, de uma vida de devotamento, de sacrifícios; é a iniciação numa existência mais elevada. Porém, nas horas dolorosas, durante a suprema purificação, sobrehumana força sustenta essas almas, força que lhes permite tudo afrontar, tudo vencer! 141 Os Espíritos nem sempre a assistiam. É assim que suas vozes não a previnem das ciladas e artifícios de Loyseleur e não intervêm no correr das numerosas visitas que ele lhe faz. 81 – JOANA D´ARC, MÉDIUM XI Ruão; o processo Entro todo a tremer nest’árdua escuridade! Seja feita, ó meu Deus, tua santa vontade! Paul Allard Chegamos agora ao processo.
Com efeito, ao mesmo tempo em que padecia tão duro e horrível cativeiro, Joana ainda tinha que sofrer as longas e tortuosas fases de um processo, tal como nunca houve igual no mundo. De um lado, tudo quanto de hipócrita perversidade, de astúcia, de perfídia, de ambição servil ressumar pode o espírito do mal: setenta e um clérigos, padres e doutores, fariseus de corações petrificados, todos homens da Igreja, mas que fazem da religião uma máscara destinada a dissimular ardentes paixões – a cupidez, o espírito de intriga, o fanatismo tacanho. De outro lado, só, sem amparo, sem conselheiro, sem defensor, uma criança de dezenove anos, a encarnação da pureza e da inocência, uma alma heróica num corpo de virgem, um coração sublime e terno, pronto aos maiores sacrifícios para salvar seu país, para cumprir fielmente sua missão e dar o exemplo da virtude no dever. Jamais se viu a natureza humana subir tão alto de uma parte e, de outra, cair tão baixo. A História já definiu as responsabilidades.
Nada quero dizer que possa acirrar os ódios políticos, ou religiosos. Pois o nome de Joana d'Arc não é, entre todos os nomes gloriosos, aquele em torno do qual se devem coligar os sentimentos de admiração, partam de onde partirem? A Igreja procurou desculpar-se da acusação que lhe pesava, havia séculos, e para isso se empenhou na tarefa de lançar o odioso da condenação de Joana exclusivamente sobre Pedro Cauchon, bispo de Beauvais. Renegou-o, coberto de maldições. Mas, Pedro Cauchon é o único grande culpado? Lembremos um fato.
A 26 de maio de 1430, três dias depois da captura de Joana às portas de Compiègne, o vigário geral do inquisidor-mor da França, residente em Paris, escrevia ao duque de Borgonha, suplicando e “ordenando que, sob as penas de direito, lhe enviasse presa uma certa mulher chamada Jehanne a Pucela, veementemente suspeitada de crimes cheirando à heresia, a fim de 142 comparecer perante o promotor da Santa Inquisição”. Assim, o temível tribunal do Santo Ofício, que na época já não era mais do que um fantasma, reaparecia, saía da sombra, para reclamar a maior vítima de quantas lhe compareceram à barra. E a Universidade de Paris, a principal corporação eclesiástica da França, lhe apoiava as reivindicações. Anatole France, 143 bem informado sobre este ponto, diz: “No caso da Pucela, não era unicamente um bispo quem punha a Santíssima Inquisição em movimento, era a filha dos reis, a mãe dos estudos, o belo e refulgente sol da França e da cristandade, a Universidade de Paris.
Atribuindo-se o privilégio de conhecer das causas relativas às heresias, seus pareceres, reclamados de todas as partes, faziam fé por toda a face do mundo em que a cruz fora plantada.” Havia um ano que ela pedia a apresentação da Pucela ao inquisidor, como suspeita de sortilégio. 144 O mesmo autor acima citado ainda diz: “Depois de se entender com os doutores e mestres da Universidade de Paris, o bispo de Beauvais surgiu, a 14 de julho, no acampamento de Compienha e reclamou a Pucela como pertencente à sua justiça.
Apresentava em apoio da reclamação as cartas que a Alma Mater endereçara ao duque de Borgonha e ao senhor de Luxemburgo.” Era a segunda vez que a Universidade reclamava Joana ao duque; temia que outros a libertassem “por vias oblíquas” e lha pusessem fora da alçada. O emissário levava também autorização para oferecer dinheiro. Pedro Cauchon, bispo de Beauvais, que, por se ter aliado aos ingleses, o povo expulsara de seu sólio, instruiu em pessoa e dirigiu o processo. Coube-lhe o papel mais importante, é incontestável; mas, o vice-inquisidor João Lemaitre aprovou todas as escolhas que o mesmo bispo fez para a composição do tribunal, em que os dois muitas vezes se sentaram lado a lado. E quando Cauchon estava impedido, 145 João Lemaitre presidia às sessões.
Todos os documentos comprovam este fato. O vice-inquisidor assinou e autenticou os autos das audiências, que os escrivães do tribunal redigiam em três vias. Um desses exemplares ainda existe na Biblioteca da Câmara dos Deputados, trazendo aposto o selo da Inquisição. 142 PROCESSO, t. I, págs. 8 seg. 143 A. France – VIE DE JEANNE D'ARC, t.
II, pág. 179. 144 Ibidem, t. II, pág. 195. 145 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 4º interrogatório secreto. Declaração de Pedro Cauchon a Joana. 83 – JOANA D´ARC, MÉDIUM Era de direito que nos processos de heresia as decisões e julgamentos fossem tomados e pronunciados pelos dois juízes: o bispo e o inquisidor. Foi o que se verificou em Ruão, como algures.
Impossível, portanto, deixar-se de reconhecer que a jurisprudência inquisitorial acobertava Cauchon. Mas, não é tudo. Os bispos de Coutances e Lisieux, consultados no curso do processo, aprovaram a acusação. Há mesmo a esse respeito uma particularidade, que convém seja posta em relevo: o bispo de Lisieux, Zanon de Castiglione, ao manifestar-se pela condenação, fundamentou seu voto, dizendo que Joana era de muito baixa condição para ser inspirada por Deus. Realmente!
Que teriam pensado de semelhante resposta os apóstolos do Cristo, aqueles humildes artífices e pescadores da Galiléia, e o próprio Cristo, filho de um carpinteiro? Também figuram no processo os bispos de Thérouanne, de Noyon e de Norwich. Todos três tomaram parte nas admoestações à Pucela. Cauchon cercou-se de personagens consideradas e de teólogos de fama. Deu assento no tribunal a homens como Tomás de Courcelles, apelidado mais tarde “a luz do concílio de Basiléia e o segundo Gerson”, Pedro Maurício e João Beaupère, que foram reitores da Universidade de Paris; a doutores e mestres em Teologia, tais como Guilherme Érard Nicole, Midi, Jacques de Touraine e a grande número de abades mitrados das grandes abadias normandas.
Ora, nenhum, dentre tantos clérigos eminentes, se mostrou imparcial. Todos eram partidários dos ingleses e inimigos de Joana. O promotor João d'Estivet, a alma danada de Cauchon, homem sem fé nem escrúpulos, se tornou particularmente notável pelo ódio e pelas violências contra a acusada. Nenhum direito lhe reconheceram a pretender, conforme pediu, que do tribunal fizessem parte, em número eqüitativo, alguns eclesiásticos amigos da França. Dessa decisão ela apelou para o papa e para o concílio.
Tudo em vão. Os juízes, sem exceção, assessores, cônegos, doutores em Teologia, recebiam dos ingleses, por sessão, uma paga equivalente a 40 francos, moeda atual. Os recibos estão juntos ao processo. Os assessores chegaram a ser quase cem, mas não funcionavam todos ao mesmo tempo. Os que se mostravam mais hostis a Joana, além da paga, também recebiam presentes.
O rei da Inglaterra deu aos membros do tribunal cartas de garantia para o caso que “aqueles que tivessem tido por agradáveis os erros de Joana tentassem 146 pleiteá-los perante o papa, o concílio, ou noutra parte”. Houve muitos pareceres da Sorbona, entre outros o de 19 de abril, confirmado pelas quatro Faculdades a 14 de maio. Todos concluíam contra a Pucela. Cumpre acrescentar que o inquisidor geral João Graverend, num sermão que pregou na igreja de São Martinho dos Campos, em Paris, após o suplício de Joana, repetiu todos os termos da acusação e aplaudiu a sentença. Pouco tempo depois, o papa nomeava Pedro Cauchon bispo titular de Lisieux. 146 J.
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