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Capítulo 8 de 29

Parte 8 de 29

Joana D’Arc, Médium · Léon Denis

Mais vibrante do que o tilintar das armas e o ressoar das trombetas é a voz que lhe fala no íntimo, repetindo: “Vai, filha de Deus, estou contigo!” Entre meus leitores, alguns hão de estranhar esses dizeres. É, pois, chegada à ocasião de afirmar, de recordar que o Espírito existe anteriormente ao corpo; que, antes de seu último nascimento na Terra, já ele percorreu dilatados períodos de tempo, habitou muitos lugares, e que, retornando a este mundo a cada nova encarnação, traz consigo volumosa bagagem de qualidades, faculdades e aptidões, reunidas durante o passado oculto que atravessou. Há em todos nós, nas profundezas da consciência, um amontoado de impressões e de lembranças, constituído no decurso de nossas vidas antecedentes, seja na Terra, seja no Espaço. Essas lembranças e impressões jazem adormecidas: o espesso manto da carne as abafa e apaga. Mas, às vezes, e sob a ação de algum agente exterior, despertam repentinamente.

Chispam então as intuições, ignoradas faculdades reaparecem e nos tornamos, por instantes, um ser diferente do que 91 éramos aos olhos de nossos semelhantes. Já sem dúvida haveis de ter observado certas plantas que se balouçam na superfície das águas dormentes dos lagos. Aí tendes uma imagem da alma humana, a flutuar sobre as profundezas sombrias de seu passado, mergulhando as raízes em regiões desconhecidas e longínquas, donde haure a vivificante seiva, necessária à formação da flor esplendente que vai desabrochar, crescer, desdobrar-se no campo da vida terrena. 88 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, pág. 150. 89 M. de Cougny– CHINON ET SES MONUMENTS, in8º, 1898, págs.3536. 90 PROCESSO. Depoimento de Dunois. 91 Ver: Léon Denis, O PROBLEMA DO SER E DO DESTINO, páginas 240 e seguintes. 55 – JOANA D´ARC, MÉDIUM Joana foi introduzida num imenso salão do castelo, onde se achavam reunidos trezentos fidalgos, cavaleiros e damas da nobreza, ricamente trajados.

Que impressão não devera produzir na humilde camponesa aquele espetáculo! De que coragem não precisou para afrontar tantos olhares licenciosos ou inquisitoriais, tão numerosa assembléia de cortesãos, que ela percebia lhe ser hostil? Lá estavam Regnault de Chartres, chanceler de França, arcebispo de Reims, sacerdote de alma empedernida, pérfido e cúpido; La Trémoille, o grande camarista, homem invejoso e dissimulado, que dominava o monarca e, em segredo, urdia traições com os ingleses; o duro e orgulhoso Raul de Gaucourt, mordomo-mor do rei, o marechal Gilles de Retz, infame feiticeiro, mais conhecido pela alcunha de “Barba Azul”, e uma infinidade de outros cortesãos titulares, de padres astuciosos e ávidos. Joana sentia em torno de si uma atmosfera de incredulidade e animadversão. Tal o meio em que vivia Carlos VII, amolentado pelo abuso dos prazeres, longe do teatro da guerra, entre os favoritos e as amantes.

Suspeitoso e tímido, o rei, para experimentá-la, pusera no trono um cortesão e se ocultara na multidão de fidalgos. A donzela, porém, vai direto à sua presença, ajoelha-se e lhe fala por longo tempo em voz baixa. Revela-lhe pensamentos que ele guardava em segredo, as dúvidas que nutria sobre seu próprio nascimento, suas hesitações ocultas, e um raio de confiança e de fé ilumina, diz a Crônica, o 92 semblante do monarca. Os que presenciavam a cena compreenderam, tomados de espanto, que um fenômeno extraordinário acabava de operar-se. Entretanto, “ninguém houve que pudesse crer achar-se a sorte do mais altivo reino da cristandade confiada a tais mãos, nem que ao braço débil de uma pobre aldeã estivesse reservado o desempenho de uma tarefa que malograra os 93 conselhos dos mais avisados e a coragem dos mais fortes”.

Contudo, Joana ainda teve que suportar muitas humilhações e sofrer exame feito por matronas, para verificação de sua pureza. Em Poitiers, onde a mandaram, comparece diante de uma comissão de inquérito, composta de uma vintena de teólogos, dois dos quais bispos, os de Poitiers e de Maguelonne. 92 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO. Testemunho do camarista Guilherme Gouffier, t. II, pág. 256, Pierre Sala, autor das HARDIESSES DES GRANDS ROIS ET EMPEREURS, obra publicada em 1516, conhecia, porque lhe revelara o camarista Guilherme Gouffier, senhor de Boisy, “o segredo da entrevista do rei com a Pucela.

Tido em grande estima pelo monarca – diz Pierre Sala – Guilherme fora o depositário de suas confidências. Carlos VII descera tanto que não sabia o que fazer e não cogitava senão de salvar a vida, sitiado, como se via, de todos os lados, pelos inimigos. Certa manhã, entrou só em seu oratório e, numa prece humilde, rogou a Nosso Senhor, no íntimo do coração, sem pronunciar palavra, devotamente, que, se ele Carlos fosse o legítimo herdeiro da coroa da França, lhe guardasse o reino, ou, quando não, lhe concedesse a graça de escapar salvo e ganhar a Espanha ou a Escócia.” A Pucela, diz ainda Sala, em resumo, tendo tido a revelação dessas coisas nos campos, as repetiu ao delfim, logo que lhe falou, animando-o e afirmando-lhe da parte de Deus que ele era verdadeiramente filho de rei e herdeiro da coroa da França. Ver manuscritos da Biblioteca Nacional, suplementos franceses, nº 191. J.

Queicherat cita, com Sala, depositário das confidências do senhor de Boisy, duas outras versões inteiramente acordes; ap. PROCESSO, t. IV, págs. 257, 272 e 279. Ver também a importantíssima carta de Alain Chartier, ap. PROCESSO, t.

V, pág. 133. 93 Dupanloup – PANEGYRIQUE DE JEANNE D'ARC, 1855. “Era um belo espetáculo – diz Alain Chartier, escrevendo sob a impressão da cena – vê-la disputar, ela, mulher, contra os homens; ignorante, contra os doutores, só, contra tantos adversários.” Todas as suas réplicas denotam grande vivacidade de espírito e são sempre de surpreendente oportunidade. A cada momento lhe irrompem dos lábios ditos chistosos, tão imprevistos quanto originais, que arrasam as lastimosas objeções de seus examinadores. Os autos dos interrogatórios de Poitiers foram destruídos. Alguns historiadores responsabilizam por essa destruição os agentes da coroa da França, que se mostraram tão ingratos e indiferentes para com a Pucela durante seu longo cativeiro. Não nos resta mais do que um resumo das conclusões a que 94 chegaram os doutores chamados a emitir opinião acerca de Joana.

“Nela não se encontra maldade alguma – dizem eles –, e sim tudo o que é bom; humildade, 95 virgindade, devoção, honestidade e simpleza”. Possuímos, além disso, os testemunhos do PROCESSO DE REABILITAÇÃO. Frei Seguin, da Ordem dos Dominicanos, exprimia-se assim, com muita bonomia e simplicidade. “’Eu que vos falo perguntei a Joana de que idioma se servia a voz que lhe falava. – ‘De um melhor do que o vosso’, respondeu-me.

E, com efeito, eu falo o limosino. Interrogando-a de novo, disse 96 lhe: ‘Crês em Deus?’ — ‘Sim, melhor do que vós’, foi a resposta que me deu”. Outro dos juízes de Poitiers, Guilherme Aimery, lhe objetava: “Dizes que Deus te prometeu a vitória e pedes soldados. Para que soldados, se a vitória está garantida?” – “Os soldados batalharão em nome de Deus – replicou Joana – e 97 Deus dará a vitória”. Quando lhe pedem que mostre os sinais de ser verdade o que diz, isto é, quando lhe pedem milagres, ela observa: “Não vim a Poitiers para dar sinais de coisa alguma.

Levai-me, porém, a Orleães e vos mostrarei os sinais de que sou 98 enviada”. Pela segunda vez, obrigam-na a sujeitar-se a ser examinada por um conselho de matronas, a que a rainha da Sicília preside; para lhe verificarem a virgindade. Depois de sair triunfante de todas essas provações, ainda foi forçada a esperar mais de um mês, para marchar contra os Ingleses. Só quando a situação de Orleães se torna desesperadora é que Dunois consegue que a enviem, como último recurso, à frente de um comboio de víveres. * Joana veio primeiramente a Tours, para mandar fazer sua armadura e seu estandarte. Reinava aí viva agitação, entregues os habitantes a ativos trabalhos de defesa.

A 14 de outubro de 1428, o Marechal de Gaucourt, bailio de Orleães e 94 Manuscrito 7301 da Biblioteca Nacional. 95 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I, pág. 170. 96 Ibidem, Depoimento de frei Seguin. 97 PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I, pág. 152. 98 Ibidem, t. I, pág. 153. 57 – JOANA D´ARC, MÉDIUM mordomo-mor do rei, os avisara de que os Ingleses haviam posto cerco a Orleães e 99 que tencionavam em seguida marchar sobre Túrones.

A cidade se aprestava para resistir. Por toda parte pedreiros, obreiros de toda espécie, trabalhadores braçais, porfiavam numa atividade febril. Trabalhava-se com ardor em levantar baluartes, cavar e alargar fossos, reparar e aparelhar as pontes. Nas torres e trincheiras, construíam-se guaritas de madeira para as atalaias. Abriam-se canhoneiras nas muralhas de circunvalação.

Bombardas e colubrinas, balas de pedra, pólvora, tudo o que compunha a artilharia da época estava sendo armazenado. O inimigo podia vir; saberiam responder-lhe. A antiga cidade dos Túrones gozava então de grande importância. Chamavam-lhe a segunda Roma, por causa de seu numeroso igrejário, de seus mosteiros e, sobretudo, por causa da romaria a São Martinho, para a qual vinham peregrinos de todos os pontos da cristandade. A fim de fazermos idéia de sua situação ao tempo de Joana d'Arc, subamos pelo pensamento a uma das torres da colegiada de São Martinho, à de Carlos Magno, por exemplo, conservada até hoje e que encerra o túmulo de Luitgarde, esposa daquele rei, circunstância que lhe deu o nome.

Vista de relance, ela nos apresentará, mais ou menos, aspecto idêntico ao que ofereciam todas as grandes cidades francesas da Idade Média, razão pela qual convém demoremos um pouco a inspeção. Cintavam-na quatro linhas contínuas de muralhas e de torres. No interior desse perímetro, um labirinto de ruas estreitas e praças apertadas, ao longo das quais se enfileiravam casas de frontões ogivais e coberturas, denticuladas, com os pavimentos inclinados uns sobre os outros, as portas guarnecidas de estatuetas, vigas esculpidas, altas trapeiras e vidros de cores variadas. Completando tão pitoresco conjunto, grandes divisas de ferro, recortadas pelas mais extravagantes formas, substituem os números das casas, balançando ao vento. Umas têm sentido histórico ou heráldico, o de outras é emblemático, comemorativo ou religioso.

Eis aqui, por exemplo, algumas das da Grand' Rue: Ao Unicórnio; À Pega; Aos Padrenossos de Ouro; Ao Asno Vigilante; da praça São Martinho: Ao Macaco 100 Pregador, À Coruja; da rua de la Rôtisserie: Às Três Tartarugas, etc. . Do ponto elevado em que nos achamos, observai a floresta de lanternins agudos, de campanários, de muros donde emergem os três corpos da catedral, que já tem a nave principal mais ou menos acabada, porém, cujas torres são altas apenas de dez ou vinte metros, a abadia de São Juliano e a mole imponente da colegiada de São Martinho, da qual hoje duas torres somente restam. A nossos pés, a cidade inteira, com suas cinqüenta igrejas ou capelas, seus oito grandes claustros, cercados de muros, suas numerosas hospedarias e habitações nobres; verdadeira brenha de flechas, de agulhas, de pontas de minaretes, de torrinhas em forma de fusos, de compridas chaminés góticas. Em baixo, o dédalo das ruas que se cortam e entrecruzam e as encruzilhadas 99 Ver: REGISTRES DES COMPTES DE LA VILLE DE TOURS, tomo XXIV, e BULLETINS DE LA SOCLETE ARCHEOLOGIGNE DE TOURAINE, t. XII. 100 Dr.

Giraudet – HISTOIRE DE LA VILLE DE TOURS. atravancadas de gente e de cavalos. Prestai atenção ao sussurro e ao rumor que sobem até onde estamos. Escute o retinir de todos os sinos a darem as horas. Imaginai, luzindo sobre este panorama, um límpido raio de Sol; contemplai os reflexos cambiantes do rio; ao longe, as colinas cobertas de vinhedos, as florestas que ocupam os dois planaltos, especialmente ao Sul, e cujos maciços profundos formam grandioso quadro à cidade, que se estende pelo recôncavo do vale. Considerai tudo isso e fareis idéia do que era Túrones no dia em que Joana 101 d'Arc lá chegou acompanhada de sua casa militar.

Conforme ao depoimento de seu pajem Luís de Contes, no processo, ela se 102 hospedou na casa de uma senhora chamada Lapau. Segundo o testemunho de 103 seu capelão, João Pasquerel, foi o burguês João du Puy quem lhe deu agasalho. Essas contradições são apenas aparentes. Com efeito, o nobre turonense Jehan du Puy era casado com Eleonora de Paul e o povo, sempre avezado às corruptelas, deformou este último nome. Yolanda, rainha de Aragão e da Sicília, dera Eleonora, por dama de honra, à sua filha Maria d'Anjou, rainha da França.

“Ela 104 era enjovina – diz de Beaucourt em sua HISTOIRE DE CHARLES VII, – e provavelmente fora educada com a jovem princesa.” Tendo-lhes a rainha Yolanda pedido hospedagem para a estrangeira, que tomara sob sua proteção, João du Puy, conselheiro do rei e almotacel, e sua esposa a acolheram. O prédio em que habitavam ficava perto da igreja de Saint-Pierre-le-Puellier e muitos arqueólogos 105 julgam reconhecê-la na casa chamada de Tristão. Foi em Túrones que, na qualidade de capelão, entrou para o serviço de Joana 106 frei Pasquerel, então leitor do convento dos Agostinhos daquela cidade, o qual a acompanhará fielmente até ser presa em Compienha, um ano depois. Também foi em Túrones que a intrépida menina recebeu seu equipamento militar, a espada e a bandeira. Seguindo suas indicações, um armeiro da cidade foi procurar a espada que Carlos Martel depositara em Santa Catarina de Fierbois.

Estava enterrada atrás do altar e ninguém no mundo sabia que se achava ali. Para a heroína, essa espada sairá da poeira dos séculos e novamente expulsará o estrangeiro. 107 Outro armeiro de Túrones lhe fabricou um arnês de rutilante alvura. 101 Compunha-se esta de João d'Aulon, seu escudeiro; dos dois cavaleiros que lhe vinham na companhia desde Vaucouleurs; de dois pajens e de seus irmãos João e Pedro d'Arc, que se lhe reuniram. 102 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I, pág. 208. 103 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, pág. 217. 104 Ibidem, t.

II, pág. 183. 105 Outros arqueólogos são de parecer que a casa atual, na rua Briconnet, data apenas do reinado de Carlos VIII e que foi construída no mesmo local da em que habitou a Pucela. 106 No mês de outubro de 1905, depois das importantes reformas feitas nas disposições internas do imóvel situado à rua des Halles nº 47, nasceu a convicção de que nesse lugar existira, como parte do convento dos religiosos Agostinhos, a capela de Joana d'Arc, onde ela gostava de ir orar. – Louis de Saint-Gildas, TOURAINE RÉPUBLICAINE, 20 oct. 1905. 107 De acordo com as contas de Hémon Regnier, tesoureiro das guerras, publicadas por Quicherat (PROCESSO DE JOANA D'ARC, t. V, pág. 158), foram pagas “ao mestre armeiro, por um arnês completo para a dita Pucela, cem libras tornezas.” (cerca de 690 fracos em moeda corrente). 59 – JOANA D´ARC, MÉDIUM Obedecendo às instruções de suas vozes, Joana mandou fazer, por um artista turonense, uma bandeira branca, que serviria de estandarte e seria o emblema em torno do qual se reuniriam as tropas dispersas. Ornavam-na franjas de seda e continha, além da imagem de Deus abençoando as flores de lis, a divisa: “Jhésus 108 Maria!”. A heroína jamais separava a causa da França dessa outra, mais alta, a inspiração divina, donde lhe decorria a missão.

A 25 de abril de 1429 partiu de Túrones para Blois, onde a esperavam os chefes militares e o grosso do exército. Doze dias depois, data de imperecível memória, ganhava a batalha das Tourelles e forçava o inimigo a levantar o cerco de Orleães. Quando deixou Túrones, a população inteira se premia nas ruas para vê-la passar e aclamá-la. Envergando a armadura toda branca, que cintilava ao Sol da manhã, ela, garbosa, fazia caracolar o belo cavalo de guerra que montava. Empunhando a bandeira, trazendo à cinta a espada de Fierbois, avançava radiante de esperança e de fé.

Dir-se-ia o anjo dos combates, como celeste mensageiro. 108 Nos mesmos registros do tesoureiro das guerras se lê a seguinte nota: “Pago a Annes Poulvoir, pintor, residente em Tours, por haver pintado e pregado estofos para um grande estandarte e um pequeno destinado à Pucela, 25 libras tornezas.” VII Orleães Entrando em Orleães, quanto era grande e bela! Premindo-se, os soldados fremem em torno dela. Para os abençoar, mães os filhos lhe mostram, E, à medida que avança, eis que todos se prostram! Paul Allard De Túrones a Orleães a viagem foi uma contínua ovação. Por onde passava, ia Joana semeando a alegria.

Se os cortesãos a olham com suspeita e desdém, o povo esse ao menos acredita nela e na sua missão libertadora. Os próprios ingleses, tomados de estupor, permanecem imóveis nas trincheiras, vendo desfilar, sob o comando da Pucela, o exército de salvação. Os habitantes de Orleães, loucos de entusiasmo, esquecendo o perigo, transpõem os muros da cidade e correm ao encontro da heroína. No dizer de uma testemunha ocular, “eles já se sentiam reconfortados e desassediados pela divina virtude que lhes tinham dito haver naquela simples pucela, que todos consideravam muito afetuosamente, tanto os 109 homens como as mulheres e as crianças”. As campanhas de Joana d'Arc no Loire oferecem um espetáculo único na História: o dos capitães de Carlos VII, os Dunois, os La Hire, os Gaucourt, os Xaintrailles, marchando contra o inimigo sob as ordens de uma rapariga de dezoito anos!

Inúmeras dificuldades se lhe antolham. Os ingleses haviam feito um círculo de formidáveis fortificações em torno de Orleães. Dentro em pouco, na cidade reinará a miséria e será fatal a rendição de uma das maiores e mais fortes praças do reino. Lá se acham as melhores tropas da Inglaterra, comandadas pelos seus mais hábeis generais, as mesmas que vêm de alcançar sobre os franceses longa série de vitórias. Eis o imenso e principal obstáculo que cumpre à donzela vencer.

São bravos os que ela comanda, mas estão desmoralizados por tantas derrotas sucessivas e pessimamente organizados para evitarem novos desastres. 109 E. Lavisse – HISTOIRE DE FRANCE, t. IV, pág. 53. 61 – JOANA D´ARC, MÉDIUM Um primeiro ataque às trincheiras de Saint-Loup, tentado em sua ausência, é repelido. Avisada, a heroína se arroja a toda brida, com a bandeira desfraldada. Eletriza os soldados e, num ímpeto fascinador, arrasta-os ao assalto.

“Era a primeira vez – diz Anatole France, numa das raras passagens de sua obra, em que lhe faz justiça – que Joana via combater e logo, entrando na batalha, se tornou o chefe, porque era melhor que todos. Fez mais do que os outros. Não que fosse mais versada do que eles em coisas de guerra; era-o muito menos; mas, por ter o coração mais abnegado. Quando cada um pensava em si, ela pensava em todos; quando cada um tratava de se resguardar, ela a tudo se expunha, pois de antemão se votara sem reserva ao sacrifício. Assim, aquela criança que, como qualquer criatura humana, temia os sofrimentos e a morte, a quem suas vozes, seus pressentimentos haviam anunciado que seria ferida, tomou lugar à frente dos guerreiros e, sob uma chuva de projéteis arremessados pelas bestas e colubrinas, permaneceu de pé à borda do fosso, empunhando o 110 estandarte, para manter unidos os combatentes”.

Com esse vigoroso ataque, conseguiu romper as linhas inglesas. Uma a uma, as fortificações foram tomadas e em três dias Orleães estava livre do cerco. Depois, os combates se sucedem, como relâmpagos num céu de fogo. Cada assalto é uma vitória. É Jargeau, é Meung, é Beaugency!

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.