[user_registration_my_account]
Capítulo 13 de 29
Parte 13 de 29
Joana D’Arc, Médium · Léon Denis
Joana pediu ao escrivão Manchon que repetisse a 160 leitura. Relido o trecho, ela declarou que dissera precisamente o contrário. Outra ocasião, ponderou-lhes, num tom de censura: “Registrais só o que é contra mim e nada do que é a meu favor!” Apesar de tudo, a energia sobre-humana, a linguagem inspirada, a grandiosa serenidade da donzela nos sofrimentos, acabaram por impressionar os juízes. Cauchon sentia bem que ali estava um ente excepcional, um ente que o Céu amparava. E já entrevia as conseqüências hediondas de seu crime; já elas se lhe erguiam diante dos olhos.
Em certos momentos, a voz da consciência o repreendia e ameaçava. O pavor assaltava o prelado. Mas, como recuar? Os ingleses, sempre presentes, acompanhavam com febril atenção a marcha do processo, aguardando com tenebroso furor a hora de poderem imolar Joana, depois de a terem torturado e desonrado. Ao bispo de Beauvais só se lhe deparou um recurso: fazer com que a vítima desaparecesse assassinada.
Era evitar um crime público, por meio de um crime secreto. Pensou em matá-la a veneno e providenciou para que lhe enviassem um peixe envenenado. Ela o comeu e logo enfermou, acometida de vômitos. Chegou ao extremo de abatimento. Receando que viesse a morrer, prodigalizamlhe pérfidos cuidados, pois não convém que morra assim obscuramente.
Os ingleses pagaram-na caro e a destinavam à fogueira. Por fim, a robusta constituição da heroína triunfa e imediatamente recomeçam seus sofrimentos morais. Aproveitam o estado de fraqueza em que a vêem para redobrarem de insistência.. Exigem-lhe uma abjuração. Nada fora olvidado para a consecução desse fim: espionagem, mentiras, tentativa de defloramento e até o veneno.
A virgem, que era objeto da admiração de um povo inteiro, estava, por seus juízes e guardas, saciada de ignomínias. 159 Ibidem, pág. 321. 160 H. Wallon, JEANNE D'ARC, pág. 230. – J. Fabre, PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I, pág. 358.
Depoimento do bispo João Lefèvre. 91 – JOANA D´ARC, MÉDIUM Uma cena – poder-se-ia dizer uma comédia – é preparada no cemitério de Saint-Ouen. Aí, à vista do povo e dos ingleses, diante dos juízes reunidos, tendo à frente um cardeal e quatro bispos, intimam Joana a declarar que se submete à Igreja. Exortam-na e pedem-lhe que se compadeça de si mesma, que não se condene ao suplício do fogo. Lá está com efeito, na sua carreta sinistra, bem junto do estrado para o qual a mandaram subir, o carrasco que, em caso de recusa, a conduzirá ao Vieux-Marché, onde uma fogueira a espera. Nesse instante, à luz merencória de um dia sombrio, como que velado pelos crepes do luto de que se cobrira a Natureza, sob a impressão de tristeza que se desprende dos túmulos, das sepulturas que a rodeiam, ela se sente presa de imenso desânimo.
Pelo pensamento, foge daquele campo mortuário e revê a terra que lhe fora berço, a velha Lorena, com seus frondosos bosques onde canta o passaredo, todos os amados lugares de sua meninice. Parece-lhe ouvir as canções das fiandeiras e dos pastores, escuta as modulações cheias de doçura e de queixumes que de tão longe o vento lhe traz nas asas. Torna a ver a choupana em que habitava, a mãe, o velho pai que encontrara em Remos todo encanecido, uma e outro destinados a sofrer duramente, quando souberem de sua morte! Nasce-lhe no íntimo a saudade da vida! Morrer aos vinte anos!
Que coisa cruel! Pela primeira vez, o anjo fraqueja. O Cristo, o próprio Cristo, também teve seus momentos de fraqueza. No monte das Oliveiras não desejou afastar de si o cálice das amarguras? Não disse: “Que se afaste de mim este cálice!”?
Joana, sem mais forças para resistir, assina o papel que lhe apresentam. Lembremos que ela não sabe ler, nem escrever. Além disso, o papel que lhe deram para assinar não é o que ficará arquivado. Operou-se uma substituição infame. Nem mesmo diante desse ato odioso recuaram.
Hoje, a prova está feita de que é falsa a fórmula de abjuração que figura no processo, assinada com uma cruz. Difere, quer no contexto, quer na extensão, da que Joana subscreveu. Nenhuma só pessoa das que depuseram na revisão do processo atestou a identidade de tal documento: cinco a negaram. A fórmula que se encontra apensa aos autos é extremamente longa. Três testemunhas, Delachambre, Taquel, Monnet, disseram “Estávamos muito perto, vimos o papel, não continha mais do que seis ou sete 161 linhas”.
A leitura da fórmula durou tanto quanto a recitação de um “Padre 162 nosso”, acrescenta Migiet. Outra testemunha declarou: “Sei positivamente não 163 ser a que se menciona no processo a fórmula que li a Joana e que ela assinou”. Ora, esta testemunha não é outra senão o escrivão Massieu, que foi quem leu, para que Joana repetisse, a fórmula de abjuração. A donzela, aturdida, não ouviu nem compreendeu o que se achava escrito no papel. Assinou-o sem fazer juramento, sem ter plena consciência de seu ato.
Afirma-o ela própria aos juízes, alguns dias depois, dizendo: “O que estava na 161 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. II, págs. 19, 63 e 134. 162 Ibidem, t. II, pág. 365. 163 Ibidem, t. II, pág. 76.
Depoimento de João Massieu. fórmula de abjuração eu não compreendi. Não entendi desdizer-me, senão do que 164 fosse do agrado de Deus que eu desdissesse”. Assim, o que as ameaças, as violências e todo o instrumental das torturas não puderam obter da heroína, conseguiram-no as súplicas, as solicitações hipócritas. Aquela alma tão meiga se deixou levar pelas refalsadas aparências de simpatia, pelas fementidas demonstrações de benevolência. Mas, na mesma noite, as vozes se fizeram ouvir imperiosas na prisão e, a 28 de maio, Joana o declara aos juízes: “A voz me disse que abjurar é uma traição.
A verdade é que Deus me enviou. O que fiz está bem feito”. E retomou as vestes masculinas, que fora obrigada a trocar pelas de seu sexo. Que é o que se passara depois da abjuração, quando, com menosprezo das promessas de a porem numa “prisão da Igreja” e de lhe darem por guarda uma mulher, a reconduziram à enxovia abjeta, onde até então estivera? Os testemunhos seguintes no-lo vão dizer.
“Joana me referiu que, depois da abjuração, a atormentaram violentamente na prisão, que a molestaram e lhe bateram e que um milorde inglês tentara forçá-la. Dizia publicamente e me disse a mim que por esse motivo é que retomara as 165 vestes de homem”. “Em minha presença perguntaram a Joana porque retomara os trajes de homem e ela respondeu que o fizera para defender seu pudor, pois, vestida de mulher, não se considerava em segurança, na companhia de guardas que já 166 tinham querido atentar contra sua honra”. “Muitas pessoas e eu estávamos presentes na ocasião em que ela se justificava de haver retomado aquele trajo, dizendo e afirmando publicamente que os ingleses lhe tinham feito na prisão toda espécie de ofensas e de violências, quando usava roupas de mulher. De fato, eu a vi acabrunhada, com o rosto banhado em lágrimas, desfigurado e de tal modo ultrajado, que tive piedade e 167 compaixão”.
Na prisão dos ingleses, Joana esgotou o cálice de amarguras; pôde medir a profundidade do abismo das misérias humanas. Todos os seus sofrimentos se acham resumidos nestas palavras que dirigiu aos juízes: “Prefiro morrer, a 168 suportar por mais tempo o martírio do cárcere”. E durante essas horas de horror, lá no castelo do Loire, Carlos VII, ao lânguido som das violas e das rabecas, se entrega aos prazeres da dança, a todos os gozos da volúpia. No burburinho das festas, esquece aquela que lhe dera a coroa! Fatos tais contristam o pensamento e atribulam os corações.
Chega-se a duvidar da justiça eterna. Semelhante ao grito de angústia de Joana, enviamos 164 J. Fabre, PROCESSO DE CONDENAÇÃO, pág. 367. 165 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. II, págs. 88 e 89.
Depoimento de frei Martinho Ladvenu. 166 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. II, pág. 41. Depoimento do escrivão Manchon. 167 Ibidem, t. II, pág. 98.
Depoimento de frei Isambard de la Pierre. 168 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, pág. 366. 93 – JOANA D´ARC, MÉDIUM dolorosas queixas aos céus imensos. Ao nosso apelo, porém, um morno silêncio responde. Entretanto, desçamos ao fundo de nós mesmos e sondemos o grande mistério da dor. Não é ela necessária à beleza das almas e à harmonia do Universo?
Que seria o bem sem o mal, que lhe serve de contraste e lhe realça o brilho? Apreciaríamos os benefícios da luz, se não tivéssemos que sofrer a treva? Sim, a Terra é o calvário dos justos, mas é também a escola do heroísmo, da virtude e do gênio; é o vestíbulo dos mundos felizes, onde todas as penas aqui passadas, todos os sacrifícios feitos nos preparam compensadoras alegrias. As almas se depuram e embelezam pelo sofrimento. Só mediante a dor se conquistam todas as felicidades.
Os que não são imolados partilham delas em maior escala. Todos os corações puros sofrem na Terra: o amor nunca é desacompanhado de lágrimas. No âmago das sociedades humanas, não há senão o vazio e o amargor e por entre os nossos mais belos sonhos se insinuam espectros. Mas, tudo neste mundo é passageiro. O mal pouco dura, enquanto que no Alto, nas esferas superiores, o reino da justiça se desdobra numa duração eterna.
Não, a confiança dos crentes, o devotamento dos heróis, as esperanças dos mártires não são quimeras vãs! A Terra é um degrau para subir-se aos céus. Que essas almas sublimes nos sirvam de exemplo e que sobre nós irradie, através dos séculos, a fé que as sustentou. Expulsemos de nossos corações as tristezas e os desânimos. Saibamos tirar das provações e dos males todo o fruto que nos oferecem para nossa elevação.
Saibamos tornar-nos dignos de renascer em mundos mais belos, lá onde não vicejam o ódio, nem a injustiça, nem a secura dos corações, onde as existências correm numa harmonia cada vez mais penetrante e numa luz cada vez mais viva. * Após a retratação, Joana foi declarada relapsa, herética, cismática e condenada sem remissão. Só lhe restava morrer, morrer pelo fogo! Tal a sentença proferida por seus juízes! Esses juízes, esses crentes do décimo quinto século não quiseram reconhecer a missão de Joana d'Arc. Acreditam nas longínquas manifestações de que falam as Bíblias; apraz-lhes reportarem-se pelo pensamento às épocas em que os enviados do Alto descem à Terra e entram na sociedade dos homens.
Crêem num Deus que imobilizaram nas profundezas do céu e ao qual dirigem cotidianamente estéreis louvores. Mas, ao Deus que vive, obra e se manifesta no mundo, na espontaneidade, na frescura, na juvenilidade da vida; aos grandes Espíritos que diante deles bafejam os missionários com o sopro de uma inspiração poderosa, só votam ódio, só reservam o insulto e a ignomínia! Os juízes de Ruão e os doutores da Universidade de Paris declaram Joana inspirada pelo inferno. Por quê? Porque os defensores, os representantes da letra, da fórmula, da rotina, somente dispõem de um saber superficial, de um saber que esteriliza o coração, priva de nutrição o pensamento e, em certos casos, pode levar até à injustiça e ao crime. É assim que em todas as épocas os homens de letra se constituíram, incidentemente, os algozes do ideal e do divino.
É assim que, com a roda de ferro da tirania, se tem esmagado o que de mais belo, de mais grandioso, de mais generoso há neste mundo. Os resultados não se fizeram esperar e para a Igreja 169 foram terríveis. Di-lo Henri Martin pelas seguintes palavras: “Condenando Joana, a doutrina da Idade Média, a doutrina de Inocêncio III e da Inquisição proferiu a condenação de si mesma. Essa doutrina primeiramente queimou sectários, depois dissidentes que ensinavam a pura moral cristã; agora, acaba de queimar um profeta, um messias! O Espírito se retirou dela.
Daqui por diante, a seu mau grado e em seu desfavor, é que se operarão os progressos da Humanidade e as manifestações do governo da Providência da Terra.” Sim, a Humanidade caminhou; o mundo progrediu. Não mais se pode dar a morte na cruz ou na fogueira aos enviados de Deus. Fecharam-se as masmorras e as salas de torturas, desapareceram os patíbulos. Entretanto, outras armas se levantam contra os inovadores, contra os porta-vozes da idéia nova. Essas armas são a chacota, o sarcasmo, a calúnia, a luta surda e contínua.
Mas, se as temíveis instituições da Idade Média, se todo o arsenal dos suplícios, se os patíbulos e as piras foram impotentes para deter a marcha da verdade, como poderiam hoje embaraçá-la? Soou a hora em que o homem não mais admite, no domínio do pensamento, outro soberano que não seja a sua consciência e a razão. Por isso, devemos conservar-nos fiéis ao eterno direito que nos assiste de julgar e de compreender. Aproxima-se, chegou mesmo, o momento em que todos os erros do passado têm que comparecer, em plena luz, à barra do tribunal da História. Já se reconsideram e explicam as palavras e as ações dos grandes missionários, dos mártires e dos profetas.
A todos os olhos elas apresentam um brilho novo. Breve, o mesmo sucederá com as sociedades e instituições de outrora. Umas e outras serão julgadas por sua vez e só conservarão o ascendente moral, a autoridade, aquelas que souberam dar ao homem mais meios e recursos para pensar, mais liberdade para amar, elevar-se e progredir. 169 H. Martin – HISTOIRE DE FRANCE, t. VI, pág. 302. 95 – JOANA D´ARC, MÉDIUM XII Ruão; o suplício Do Cristo, com ardor, Joana a imagem beijava.
Casimir Delavigne Estamos a 30 de maio de 1431. O drama toca ao desenlace. São oito horas da manhã. Todos os sinos da grande cidade normanda dobram lugubremente. É o dobre fúnebre, o dobre a finados.
Anunciam a Joana que sua última hora soara. “Ai! de mim! – exclama ela chorando – Tratam-me horrível e cruelmente; é preciso até que meu corpo, intacto e puro, jamais conspurcado, seja hoje consumido e reduzido a cinzas! Ah! Preferia que me decapitassem sete vezes a ser assim queimada...
Oh! Invoco a Deus por testemunha das grandes ofensas que me 170 fazem!”. Impressiona-a cruciantemente a idéia do suplício do fogo. Pensa nas chamas que se alteiam, na morte que se aproxima lentamente, na prolongada agonia de um ser vivo a sentir as mordeduras ardentes que lhe devoram as carnes. Tal gênero de morte era destinado aos piores criminosos e, no entanto, vai sofrê-la Joana, a virgem inocente, Joana – a libertadora de um povo!
Isto põe a nu a baixeza de seus inimigos, daqueles que ela tantas vezes vencera. Em lugar de lhe renderem à coragem, ao gênio, as homenagens que os soldados civilizados dispensam aos adversários que a má sorte lhes faz cair nas mãos, os ingleses reservam para Joana, depois dos mais atrozes maus tratos, ignominioso fim. Seu corpo será consumido e suas cinzas lançadas ao Sena. Não lhe permitirão repousar num túmulo, onde os que a amaram possam ir chorar, depositar flores, praticar o tocante culto da saudade. Fazem-na entrar na carreta sinistra e a tétrica procissão se encaminha para o local do suplício.
Oitocentos soldados ingleses a escoltam. Imensa multidão consternada se comprime para vê-la passar. O cortejo desemboca na rua Écuyère, 170 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. II, pág. 104.
Depoimento de frei João Toutmouillé. na praça do Vieux-Marché, onde se erguem três palanques. Os prelados e oficiais tomam lugar em dois deles. O cardeal de Winchester, revestido da púrpura romana, ocupa seu trono. Lá estão também o bispo de Beauvais e o de Bolonha, todos os juízes e os capitães ingleses. Entre os palanques avulta a fogueira, de aterradora altura.
É um monte de lenha, dominando toda a praça. Querem que o suplício seja longo, a fim de que a virgem, vencida pela dor, grite implorando graça, renegue de sua missão e de suas vozes. Lêem o libelo acusatório, composto de 70 artigos, nos quais se acumulou tudo quanto o ódio mais venenoso pode imaginar para desnaturar os fatos, iludir a opinião e fazer da vítima um objeto de horror. Joana se ajoelha. Nesse solene momento, em presença da morte que se avizinha, sua alma se desprende das sombras terrenas e entrevê os esplendores eternos.
Ora em voz alta. Profere uma prece extensa e fervorosa. Perdoa a todos, a seus inimigos, a seus algozes. Num sublime arroubo do pensamento e do coração, reúne dois povos, enlaça dois reinos. As inflexões de sua voz emocionam vivamente a multidão; de dez mil peitos ofegantes rebentam os soluços.
Os próprios juízes, tigres de feições humanas, Cauchon, Winchester, todos choram. Pouco lhes dura, porém, a emoção. O cardeal faz um aceno e Joana é amarrada por fios de ferro ao poste fatal; passam-lhe à volta do pescoço pesada golilha. Ela então se dirige a Isambard de la Pierre e diz: “Eu vos peço, ide buscarme a cruz da igreja mais próxima; quero tê-la erguida bem defronte de meus 171 olhos, (até ao último instante)”. Quando lhe apresentam a cruz, cobre-a de beijos e de pranto.
No momento em que vai morrer de uma morte horrível, abandonada por todos, quer ter diante de si a imagem desse outro supliciado que, lá nos confins do Oriente, no cume de um monte, deu a vida em holocausto à verdade. Naqueles minutos graves a heroína revê toda a sua vida, curta, mas brilhante. Evoca a lembrança dos entes que ama, recorda os dias serenos da sua infância em Domremy, o semblante meigo de sua mãe, a fisionomia austera do velho pai e as companheiras de sua meninice, Hauviette e Mengette, seu tio Durand Laxart, que a acompanhou a Vaucouleurs, e, finalmente, os homens dedicados, que lhe fizeram companhia até Chinon. Numa visão rápida, passa em revista as campanhas do Liger, os gloriosos combates de Orleães, de Jargeau, de Patay; escuta as fanfarras guerreiras e os gritos de alegria da multidão em delírio. Revê, ouve tudo isso na hora derradeira.
Quis, por essa forma, num como supremo abraço, dizer o adeus final a todas aquelas coisas, a todos aqueles entes amados. Não tendo nenhum deles diante da vista, concretizou na imagem do Cristo crucificado suas lembranças, suas ternuras. Dirigiu-lhe o adeus que assim dizia à vida, nos extremos anseios de seu coração despedaçado. Os carrascos põem fogo à lenha e turbilhões de fumaça se enovelam no ar. A chama cresce, corre, serpeia por entre as pilhas de madeira.
O bispo de Beauvais acerca-se da fogueira e grita-lhe: “Abjura!” Ao que Joana, já envolvida num 171 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. II, pág. 100. Depoimento de frei Isambard de la Pierre. 97 – JOANA D´ARC, MÉDIUM círculo de fogo, responde: “Bispo, morro por vossa causa, apelo do vosso julgamento para Deus!” As labaredas rubras, ardentes, sobem, sobem mais e lambem-lhe o corpo virginal; suas roupas fumegam. Ei-la que se torce nas ataduras de ferro.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.