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Capítulo 10 de 29
Parte 10 de 29
Joana D’Arc, Médium · Léon Denis
De pé, junto ao fosso, com o estandarte na mão, a Pucela ia ordenar às trombetas que tocassem a avançar, quando os sitiados, transidos de pavor, pediram lhes permitisse capitular. Fácil foi o acordo sobre as condições da rendição. Interesse máximo tinha o rei em poupar as cidades que se quisessem entregar. No dia seguinte, 10 de julho, a guarnição inglesa se retirava, levando como prisioneiros de guerra alguns franceses, cuja sorte os negociadores esqueceram de regular. Esses desgraçados, ao passarem por Joana, lançaram-se-lhe aos pés, implorando-lhe que interviesse a favor deles.
A heroína se opôs energicamente a que fossem levados e o rei teve que os resgatar a dinheiro. 69 – JOANA D´ARC, MÉDIUM Seguindo o exemplo de Troyes, Châlons e Remos abriram as portas a Carlos VII. Em Châlons, foi dada a Joana a satisfação de encontrar muitos habitantes de Domremy, que ali tinham vindo para vê-la, entre eles o lavrador Gérardin, de cujo filho Nicolau era ela madrinha. A esses amigos confiou tudo o que lhe ia ao pensamento e no coração, expondo as esperanças que nutria e os temores que a afligiam, narrando as lutas que sustentara, as vitórias que obtivera, falando do esplendor da sagração próxima e da ressurreição da França, até então aviltada e espezinhada. Sentia-se à vontade e se expandia sem reservas no meio dessa gente humilde, porém boa, que lhe trazia vivíssima recordação da infância. Fazia-lhes compreender que aquelas glórias a deixavam impassível e quão grande lhe seria o prazer de voltar para sua aldeia, de retomar, com a vida tranqüila de outrora, as ocupações campestres, no seio da família.
Sua missão, entretanto, a retinha perto do rei e forçoso lhe era submeter-se à vontade do Alto. Menos a inquietava a guerra contra os ingleses, do que as intrigas da corte e a perfídia dos poderosos. 125 “Nada receio, senão a traição”, dizia-lhes. E, com efeito, pela traição é que viria a perecer. Contra todo grande missionário, tramando-lhe a perda, haverá sempre, agachado na sombra, um traidor. * No profundo azul do céu se recortam as altas torres da catedral de Remos, já velha de muitos séculos, na época de Joana d'Arc. Pelas três largas portas, abertas de par em par, se lobrigam as vastas naves resplandecentes à luz de milhares de círios e nas quais se comprime uma multidão policrômica de padres, fidalgos, homens d'armas e burgueses em trajos de festa.
As vibrações dos cânticos sacros enchem as abóbadas e, por instantes, ressoam as notas estridentes das fanfarras de guerra. Apinham-se no adro as confrarias, as corporações com seus estandartes, todos os que não conseguiram lugar na basílica. Cerca o edifício imensa turba de populares, cidadãos e camponeses dos arredores, contida a custo por cavaleiros barbados de ferro e por arqueiros que ostentam nos uniformes as armas da França. Pajens e escudeiros seguram pelas rédeas as magníficas cavalgaduras do rei, dos pares e dos chefes militares. É objeto da curiosidade geral o cavalo preto da Pucela, que um soldado de seu séquito mantém preso.
Penetremos na alta nave gótica e avancemos até a capela-mor. O rei, cercado dos doze pares do reino, leigos e eclesiásticos, ou de seus suplentes, e do condestável Carlos d'Albert, que conduzia a espada da França, acaba de ser armado cavaleiro. Perto, encostada ao pilar da direita, no sítio que ainda hoje se aponta, está Joana, armada em guerra, empunhando seu estandarte branco, aquele estandarte, que “depois de ser lábaro de tantos trabalhos, viria a ser objeto de 126 subidas honras”. 125 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I.
Depoimento de Gérardin. 126 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, pág. 189. A unção, o monarca recebeu-a do arcebispo de Remos, Reinaldo de Chartres, que, tomando a coroa de sobre o altar, a entregou aos dozes pares, os quais, com os braços erguidos, a sustêm por cima da cabeça do rei. Depois de havê-la cingido, Carlos de Valois revestiu os mantos reais, azuis, ornados de lírios douro. Nesse momento, a Pucela, num ímpeto de emoção, lançando-se-lhe aos pés, se lhe abraçou aos joelhos e disse: “Gentil sire, está feito assim o que foi do agrado de Deus, cuja vontade era que eu levantasse o cerco de Orleães e vos trouxesse a esta cidade de Remos, a fim de receberdes aí a vossa digna sagração e provardes por essa forma que sois verdadeiramente rei e herdeiro da coroa da França.” Clangorejam de novo as trombetas e o cortejo se move. Quando, no limiar da porta principal, aparece o rei, uma oscilação imensa se produz na multidão e as aclamações reboam.
As eminentes abóbadas vibram ao som das fanfarras. Pelo espaço, elevam-se os cânticos, os gritos de alegria e milhares de vozes lhes respondem do invisível. Eles lá estão, todos os grandes Espíritos da Gália, festejando o renascimento do país natal, todos os que amaram e serviram até a morte à nobre terra da França. Pairam por sobre o povo em delírio. Eis aqui Vercingétorix, acompanhado dos heróis de Gergóvia e de Alésia!
Eis Clóvis e seus Francos! Ali, Carlos Martel e seus companheiros! E Carlos Magno, o grande imperador de crescida barba! Com sua espada, a Joyeuse, ele saúda Joana e o rei Carlos. Além, Rolando e os valorosos!
E a coorte inumerável dos cavaleiros, dos sacerdotes, dos monges, dos populares, cujos corpos repousam sob as pesadas lápides das tumbas, ou sob o pó dos séculos, todos os que deram a vida pela França! Lá estão e também gritam: Natal! Festejando a ressurreição da pátria, o acordar da Gália!... O cortejo se distende pelas ruas estreitas e pelas augustas praças. Ladeando o rei, vê-se Joana em seu garboso ginete, com a bandeira desfraldada; vêm a seguir os príncipes, os marechais e os capitães, ricamente trajados e cavalgando magníficos corcéis.
Pendões, flâmulas e estandartes flutuam ao vento. Mas, entre os fidalgos de suntuosas vestes e os guerreiros de rebrilhantes armaduras, o alvo dos olhares curiosos era a donzela, que os conduzira à cidade da sagração, conforme predissera em sua aldeia, quando não passava de simples camponesa, de pastorinha desconhecida. Intensa alegria dominava a cidade inteira. De muito longe viera gente para assistir à coroação. Jaques d'Arc, pai de Joana, chegara de Domremy dois dias antes, com Durand Laxart.
Hospedaram-se no albergue da Zebra, rua do Adro. Emocionante cena se desenrola quando a heroína, em companhia de seu irmão Pedro, se encontra com o velho pai. Prostrando-se de joelhos, ela lhe pede perdão de haver partido sem o seu consentimento, acrescentando que essa era a vontade de Deus. Cedendo a instâncias suas, o rei os recebeu e outorgou aos habitantes das aldeias de Greux e Domremy isenção de todos os tributos e impostos. As despesas 71 – JOANA D´ARC, MÉDIUM de Jaques d'Arc foram pagas pelos cofres públicos e em nome da cidade lhe ofereceram um cavalo para regressar à sua aldeia.
Joana percorreu as ruas, acolhendo com modéstia os humildes e os mendigos. O povo se apertava ao redor dela; todos queriam tocar-lhe as mãos e o anel. Ninguém havia que não estivesse convencido de que fora enviada por Deus, para fazer cessar as calamidades que pesavam sobre o reino. Tudo isso ocorria num domingo, a 17 de julho de 1429, data que assinala o ponto culminante da epopéia de Joana d'Arc. Todavia, Michelet se equivocou, quando disse que a missão de Joana devia terminar em Remos e que ela desobedeceu às suas vozes, continuando a luta.
As próprias palavras da heroína, suas declarações aos examinadores de Poitiers e aos juízes de Ruão desmentem semelhante asserção. Mais positivo é ainda o desmentido, na intimação que dirigiu aos capitães ingleses diante de Orleães, em documento datado de 22 de março: “De onde quer que encontre vossos homens na França, fa-los-ei sair, queiram ou não queiram... Vim da parte de Deus para vos pôr fora de toda a 127 França”. Nenhuma dúvida, portanto, é possível. A versão, segundo a qual o papel de Joana findava em Remos, começou a ter curso por ocasião do Processo de reabilitação, colimando esconder dos pósteros a deslealdade, poder-se-ia dizer o crime, de Carlos VII e de seus conselheiros e livrá-los das tremendas responsabilidades que pesam sobre um e outros.
Tiveram o cuidado, obedecendo a esse intuito, de fazer com que a História fosse falsificada, mutilada, os depoimentos alterados, destruído o registro dos interrogatórios de Poitiers, que, 128 em suma, se praticasse um ato odioso, uma obra de mentira e de iniqüidade! Contudo, não foi sem apreensão, sem pesar, já o vimos, que Joana prosseguiu na sua árdua tarefa. Alguns dias depois, indo a cavalo entre Dunois e Reinaldo de Chartres, dizia: “Quanto eu estimara que a Deus prouvesse permitir-me regressar agora, abandonando as armas, voltar ao serviço de meu pai e de minha mãe e à guarda de seus rebanhos, na companhia de minha irmã e de meus irmãos, que se 129 sentiriam muito felizes por me tornarem a ver”. Estas palavras demonstram que o fulgor dos triunfos e os esplendores da corte não a deslumbraram. Atingira o fastígio da glória, constituíra-se o ídolo de um povo, era na realidade a primeira do reino e seu prestígio eclipsara o de Carlos VII.
Entretanto, tinha por única aspiração tornar à paz dos campos, às doçuras do lar paterno. Nem as vitórias, nem o poderio que adquirira a haviam transmudado. Conservava-se simples e modesta, em meio das grandezas. Que lição para aqueles 127 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, pág. 27. 128 João Chartier, secretário dos arquivos reais, diz ingenuamente, na sua história de Carlos VII, que “as crônicas não dão a conhecer os fatos escolhidos pelo rei para serem confiados à História, com o sentido e à luz sob os quais ele entendia conveniente que fossem apreciados”.
Foi, conseguintemente, o rei que obrigou seus escribas a dizerem que a missão de Joana d'Arc terminava em Reims. 129 PROCESSO DE REABILITAÇÃO. Depoimento de Dunois. que se embriagam e se enchem de orgulho com o bom êxito no mais insignificante empreendimento, para aqueles a quem os favores da fortuna causam vertigem! 73 – JOANA D´ARC, MÉDIUM IX Compienha Nada receio, senão a traição. Jehanne A Paris! Clamava a Pucela no dia seguinte ao da sagração. A Paris!
Repetia o 130 exército inteiro. Se houvessem marchado logo sobre a capital, como Joana queria, teriam tido ensanchas de penetrar facilmente na cidade, graças à confusão que reinava entre os ingleses. Mas, Carlos VII perdeu um tempo precioso, que o duque de Bedford aproveitou para reforçar a defesa daquela praça, requisitando da Inglaterra o auxílio de um exército, que o cardeal de Winchester, tio do rei Henrique, levantara com o objetivo de combater os Hussitas. Aí começa a estrela de Joana a empalidecer. Aos triunfos, às brilhantes vitórias, vão seguir-se as horas trevosas, as horas de provação, que precederão o encarceramento e o suplício.
À medida que a fama da heroína se dilata, que sua glória sobrepuja todas as glórias, o ódio se lhe avoluma em torno e as intrigas se tecem entre os grandes fidalgos, cujos planos e tenebrosas maquinações ela viera frustrar. Todos aqueles cortesãos pérfidos, que se sentem eclipsados, aqueles ministros da Igreja, cujas almas destilam fel, que lhe não perdoam o dizer-se, menosprezando-lhes a autoridade, enviada do céu e o preferir-lhes aos conselhos as inspirações das vozes que escutava; muitos até dos chefes militares vencidos em centenas de combates e que se vêem desbancados no que respeita à ciência da guerra, todos esses homens, feridos no orgulho, juraram perdê-la e só esperam o momento propício. Vem próximo esse momento. Os ingleses, a seu turno, estão aterrados com os reveses sofridos. Fora destroçado o principal exército de que dispunham.
Morreram ou caíram prisioneiros os melhores capitães com que contavam. Seus soldados desertam de medo da Pucela, a “feiticeira da França”, como lhe chamam e de cujo sobrehumano poder não duvidam. Assim, é inquestionável que, se Carlos VII, logo após a sagração, tivesse avançado sobre Paris, a grande cidade se teria rendido sem combate. 130 Henri Martin – HISTOIRE DE FRANCE, t. VI, pág. 200. Em vez disso, seis semanas se gastam em hesitações e quando, por fim, defrontam com a capital, nenhuma precaução tomam. As ordens de Joana não são cumpridas; deixam de entupir os fossos e de sustentar o ataque.
Deram-lhe por ajudantes os dois comandantes que mais a hostilizavam, “os homens mais ferozes que já existiram”, diz Michelet: Raul de Gaucour e o Marechal de Retz, o odioso 131 bruxo, que mais tarde subirá ao cadafalso para expiar o crime de feitiçaria. O rei não quis mostrar-se às tropas. Em vão mandavam-lhe mensagens sobre mensagem; não vinha. O duque d'Alençon correu a buscá-lo em Senlis. Prometeu ir e faltou à palavra.
No ataque à porta Saint-Honoré, Joana, como sempre, se portou heroicamente. Durante um dia todo permaneceu junto ao fosso, sob uma saraivada de projeteis, incitando os soldados ao assalto. Ao cair da tarde, recebeu um tiro de besta, que a feriu profundamente na coxa, obrigando-a a deitar-se no talude. Ainda assim, não cessava de exortar os franceses, exclamando continuamente: “O rei! O rei!
O rei que apareça!” O rei, porém, nunca apareceu. Por volta das onze horas da noite, vieram retirá-la dali e a levaram contra a vontade. As forças recuaram para Saint-Denis, onde já o monarca se encontrava, tomando providências a fim de regressar aos castelos do Líger. Joana não podia resignar-se a perder de vista os campanários de Paris: “era como se estivesse 132 presa à grande cidade por uma força extra-humana”. No dia seguinte, quis recomeçar o ataque.
Porém, que aconteceu? Não puderam mais passar. O rei havia mandado destruir as pontes e impusera a retirada. Cometeu-se assim uma das maiores infâmias que a História registra. Coligaram-se contra a divindade aqueles mesmos a quem ela enviara um messias salvador.
Lograram desta forma entravar a missão de Joana d'Arc e, segundo a forte expressão de Henri Martin, “obrigaram Deus a mentir”. Revelaram tal egoísmo e tão grande cegueira que, por sua própria indignidade, sustaram a ação da Providência. Com o desastre diante dos muros de Paris, abre-se para Joana extenso período de incertezas, de inquietações, de íntimas angústias. Durante oito meses, experimentará as alternativas das vitórias e dos reveses: vence em Saint-Pierre-le Moûtier, é derrotada em Charité. Sente que a boa fortuna a abandona.
À borda dos fossos de Melun, suas vozes lhe dirão: “Joana, serás capturada antes do dia de São João!” A uma causa única é lícito atribuir essa reviravolta da sorte: à má vontade dos homens, à ingratidão do rei e de seus conselheiros, que criaram mil obstáculos à heroína e ocasionaram o malogro de seus empreendimentos. Apoucaram-na com isso? De maneira alguma. A partir desse momento é que ela se torna verdadeiramente grande, maior do que era por efeito de suas vitórias. As provações, o cativeiro, o martírio suportado com tanta nobreza, a elevarão acima dos mais ilustres conquistadores e a sublimarão aos olhos da posteridade.
No cárcere, diante do tribunal de Ruão, sobre a fogueira, será mais imponente do 131 Nos calabouços de seus castelos de Suze, de Tiffauges, etc. encontraram-se as ossadas de muitas centenas de crianças, cujo sangue servira para suas bruxarias. 132 Henri Martin – HISTOIRE DE FRANCE, t. VI, pág. 209. 75 – JOANA D´ARC, MÉDIUM que no tumultuar dos combates, ou na embriaguez do triunfo. Sua atitude, seus sofrimentos, suas palavras inspiradas, suas lágrimas, sua dolorosa agonia, farão dela uma das mais puras glórias da França, um alvo da admiração dos séculos, um motivo dos zelos de todos os povos! A adversidade lhe adornará a fronte com uma auréola sagrada. Pelo heroísmo com que recebe a dor, pela grandeza d'alma nos reveses e em presença da morte, virá a ser justa causa de orgulho para todos aqueles nos quais vibram e palpitam o sentimento da beleza moral e o amor a seu país.
É bela a glória das armas; porém, só o gênio, a santidade e o martírio têm direito às apoteoses da História! * Fracassado o cerco da Charité, Joana foi chamada à corte. Bem depressa, porém, a inação começa a pesar-lhe e ei-la novamente deixando-se arrebatar por seu ardor. Abandona o rei aos prazeres e festas em que se comprazia e à frente de uma tropa que lhe era dedicada voa para Compienha, então assediada. É aí que lhe sucede cair prisioneira do conde de Luxemburgo, do partido da Borgonha. Durante uma das sortidas, que ela constantemente fazia, o governador da cidade, Guilherme de Flavy, mandou arriar o rastilho e a heroína, não tendo podido mais entrar na praça, foi capturada.
Que responsabilidade cabe ao senhor de Flavy em tal sucesso? Muitos o consideraram resultado de premeditada traição. Fazia pouco que o chanceler Regnault de Chartres passara por Compienha, onde tivera entrevistas com o duque de Borgonha. Não obstante, a maioria dos historiadores – H. Martin, Quicherat, 133 Wallon e Anatole France – crêem na lealdade daquele capitão.
Mau grado a essas opiniões, seu papel no tocante à captura de Joana permaneceu equívoco e mal definido. É verdade que o moderno historiógrafo do comandante Flavy, Pierre Champion, não conseguiu, pelo exame dos textos existentes, chegar a uma 134 conclusão formal e, por seu lado, não descobriu documento algum probante. De conformidade com indicações recebidas do Além, somos levados a acreditar que não houve premeditação; mas, que souberam aproveitar a ocasião que se oferecia, para livrar-se de uma personalidade que se constituíra empecilho a certas ambições. Embora, porém, nenhuma conspiração tenham tramado previamente contra Joana, nem por isso deixou de haver traição, uma vez que G. de Flavy não tentou sequer salvá-la. Encurralada pelos borgonheses no ângulo da estrada de Margny com o baluarte que defendia a ponte, a alguns metros da entrada, a heroína podia ser facilmente socorrida.
No momento crítico, o comandante de Compienha ocupava o baluarte com muitas centenas de homens. Observando tudo o que se 133 Ver: Henri Martin, HISTOIRE DE FRANCE, t. VI, pág. 231. – Wallon, JEANNE D'ARC, pág. 211. – Quicherat, Apercus nouveaux, págs. 7785.
Nem Lavisse, nem Michelet dizem coisa alguma a respeito (ver Lavisse, t. VI, pág. 61). 134 Ver: GUILLAUME DE FLAVY, por Pierre Champion, 1 volume, 1906. passava, nenhuma tentativa de socorro fez e abandonou a donzela à sua sorte. Nisto é que a traição parece flagrante. Joana foi primeiramente encarcerada no castelo de Beaulieu, a pequena distância de Compienha, sendo depois transferida para a torre de Beaurevoir, de propriedade do conde de Luxemburgo. Durante seis meses, andou de prisão em prisão, por Arrás, Drugy, Crotoy, até que a 21 de novembro, em obediência às intimações prementes e cominatórias da Universidade de Paris, foi vendida aos ingleses, seus inimigos cruéis, por dez mil libras tornesas, além de uma renda consignada ao soldado que a prendera.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.