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Capítulo 22 de 29
Parte 22 de 29
Joana D’Arc, Médium · Léon Denis
É-me grato, entretanto, vê-los emendar-se a confessar um pouco o erro que cometeram; porém, não o fizeram como eu desejara e a minha afeição à Igreja se desligará cada vez mais desta antiga reitora das almas, para se dar tão somente ao nosso doce e gracioso Senhor.” Jehanne 151 – JOANA D´ARC, MÉDIUM XVIII Retrato e caráter De Joana d’Arc Viva o trabalho! Jehanne Assunto algum ainda excitou tanto a emulação entre os nossos poetas, artistas e oradores como a personalidade de Joana. A poesia, a música e a eloqüência rivalizam em primores, celebrando-a. A pintura e a estatuária recorrem à inspiração e se empenham, sem o conseguirem, em lhe recompor a imagem. Por toda parte, o mármore e o bronze são torturados, no afã de lhe reproduzirem os traços e um dia sua estátua se ostentará em todas as cidades da França.
Mas, ali! Quantas obras medíocres e positivamente más no acervo dessas reproduções fantasiosas! Realmente, de Joana nenhum retrato autêntico possuímos. Dentre as obras modernas, a fisionomia que parece apresentar maior semelhança com a da virgem é a que lhe emprestou o escultor Barrias no monumento de Bon-Secours, em Ruão. Pelo menos, é o que afirmam os videntes a quem ela apareceu.
Os grandes artistas, por vezes, têm intuições seguras, vislumbram a verdade e, sob esse aspecto, também são médiuns. Em muitas ocasiões, Joana se tem feito visível e em circunstâncias que não admitem dúvidas sobre a realidade do fenômeno. E é certo que os erros e os embustes abundam nessa ordem de manifestações. Numerosos casos imaginários e fraudulentos se poderiam citar, nos quais a intrometeram inadmissivelmente. De nenhuma individualidade psíquica ainda se abusou tanto.
Nas exibições de um mistificador célebre, havia sempre uma Joana d'Arc com o sotaque inglês do operador e que se prestava a demonstrações excêntricas. De fato, são raras as suas manifestações. Conhecemos, entretanto, algumas absolutamente autênticas, que deixamos assinaladas. Acrescentemos que, em certos fenômenos de incorporação, ela se mostra com tal majestade, tal grandeza, que impressionam. Parece-me ainda a estar vendo apoderar-se bruscamente de seu médium favorito, no auge de uma discussão política, e erguer-se com um movimento cheio de dignidade, com um gesto de autoridade e um relâmpago no olhar, para protestar contra as teorias dos sem-Pátria e dos sem-Deus.
Não menos veemente se revela nas discussões religiosas. A um eclesiástico, que excepcionalmente presenciava uma de nossas reuniões, disse: “Não faleis jamais de penas eternas! Fazei de Deus um carrasco. Deus é amor; não pode infligir sofrimentos sem utilidade, sem proveito. Falando desse modo, afasta de Deus o homem.” Quando se manifesta, a voz do médium adquire geralmente extrema doçura; tem inflexões melodiosas, que abalam e subjugam os insensíveis.
Comove tanto a manifestação, que todos experimentam um como desejo de ajoelhar-se. Seu aparecimento nas sessões é anunciado por uma harmonia que nada tem de terrestre e que só os médiuns percebem. Faz-se uma grande luz e ela se lhes torna visível. Brilha-lhe na fronte e nas palavras uma auréola divina e um bater de asas agita o ar que a cerca. Ninguém lhe resiste à influência.
É, com efeito, a “filha de Deus”. Não é, porém, a única. Muito acima de nós, uma região existe, superior e pura, onde viceja uma criação angélica, que os homens ignoram. De lá vêm os messias, os agentes da divindade, incumbidos das missões dolorosas. Eles encarnam nos mundos da matéria e muitas vezes se misturam conosco, para dar aos filhos da Terra o exemplo do amor e do sacrifício.
Surdem nas camadas dos humildes e dos obscuros e são sempre reconhecíveis por seus sentimentos nobres e por suas altas virtudes. * De Joana não há, dissemos, nenhuma imagem coetânea. Todavia, nas escavações praticadas em Orleães, para a abertura da rua Joana d'Arc, achou-se uma estatueta antiga, representando uma mulher armada de capacete e cujo fino 220 perfil se aproxima, sensivelmente, das linhas fisionômicas da estátua de Barrias. Por outro lado, são pouco numerosos e precisos os documentos históricos que descrevem o físico da Pucela. Merece citada, em primeiro lugar, uma carta escrita pelos condes Guy e André de Laval à sua mãe, em 8 de junho de 1429: “Eles a encontraram em Selles, em Berry, armada toda de branco, exceto a cabeça, com uma pequena acha na mão, montando negro corcel”. E acrescentam com 221 entusiasmo: “parece coisa divina, realmente, vê-la e ouvi-la”.
Um cronista picardo fala de Joana, segundo os testemunhos de muitas 222 pessoas que a viram em viagem, entre Remos e Soissons, nestes termos: “E cavalgava à frente do rei, armada de um arnês completo, com o estandarte desfraldado. Quando desarmada, trazia vestuário de cavaleiro, sapatos atados acima dos pés, gibão e calções justos, um capuz na cabeça; usava trajes muito nobres, de brocado de ouro e de seda, bastante grossos.” Segundo o depoimento do cavaleiro João d'Aulon, “ela era bela e bem 223 224 feita”, “robusta e infatigável”, no dizer do presidente Simon Charles, “tendo 220 L'ART GOTHIQUE, DICTIONNAIRE ENCYCLOPEDIQUE: Musée Archéologique d'Orléans, par L. Gonse. 221 Wallon – JEANNE D'ARC, pág. 100. 222 Chronique picarde, REVUE HEHDOMADAIRE, 17 de abril de 1909. 223 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I. 153 – JOANA D´ARC, MÉDIUM ao mesmo tempo um ar risonho e as lágrimas fáceis”, conforme ao relatório do 225 conselheiro-camarista Perceval de Boulainvilliers.
“Tem bom porte quando em 226 armas e o busto belo”, diz o duque d'Alençon. “Suas sobrancelhas finamente desenhadas, sombreando belos olhos pardos, davam-lhe uma expressão de doçura 227 infinita ao olhar inspirado”, acrescenta um escritor nosso contemporâneo. Os debates havidos no curso do processo nos cientificam de que seus cabelos, a que tantos pintores imprimiram um tom louro e figuraram caindo-lhe esparsos sobre os ombros, “eram pretos e cortados curtos em escudela, de maneira a formarem na cabeça uma espécie de calota, semelhante a um tecido de seda escura”. O coronel Biottot, resumindo os informes de diversos cronistas, assim se 228 exprime, a respeito das vestes e do porte da Pucela: “O semblante da heroína, de traços regulares, tinha o cunho da doçura e da modéstia. Modelavam-lhe o corpo linhas cheias e harmoniosas.
Desde os primeiros dias, surpreendem e encantam seus gestos desembaraçados de menina, sua graciosa flexibilidade em todas as circunstâncias e particularmente em trajos guerreiros a cavalo, empunhando a lança ou a bandeira. Enfim, o cândido fulgor de sua virgindade e a chama da inspiração lhe espargiam por sobre o conjunto uma virtude secreta, que afastava os desejos carnais, impondo respeito e atenção aos mais sensuais. “Cobrem-na brilhantes atavios de guerra. As vestes e a bandeira são de alvos e preciosos tecidos, como convinha, para lembrarem sua castidade e a missão angélica a que esta se achava ligada.” Todas as descrições concordam em acentuar o suave reflexo que lhe irradiava do semblante iluminado por um pensamento íntimo. A alma, até certo ponto, esculpe os traços de seu invólucro.
Por aí podemos fazer idéia da beleza daquele ser excepcional, do luzeiro nele oculto e que, fulgurando-lhe na fisionomia, em todos os seus atos rebrilha. Dela emanava uma serenidade, um eflúvio que envolviam todos os que se lhe aproximavam, acalmando os mais insubmissos. No torvelinho das batalhas e dos acampamentos, conserva sempre a calma, que é o apanágio das almas superiores. Em Compienha, no mais aceso da luta, quando os borgonheses lhe cortam a retirada, quase a ser capturada, diz, como que absorta em pleno sonho, aos franceses que a rodeiam e se mostram desesperados “Não penseis senão em ferir!” À luz dos mais variados documentos, Joana nos aparece como uma flor das campinas da França, esbelta e robusta, fresca e perfumada. Por isso mesmo, é de todo lamentável o modo pelo qual a maioria dos pintores e estatuários a 224 Ibidem, t.
I. 225 J. Fabre, JEANNE D'ARC LIBERATRICE, pág. 263. 226 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I. 227 LE PORTRAIT DE JEANNE D'ARC PAR UN ESSENIEN DU DIX-NEUVIEME SIECLE. Chamuel, editeur. 228 Coronel Biottot – LES GRANDS INSPIRES DEVANT SCIENCE, págs. 123 e 125. desfiguraram, desrespeitando a verdade e a História.
Certo crítico, não sem fundamento, fala assim da estátua talhada por Frémiet e colocada na praça das Pirâmides, no coração de Paris: “Ele fez um rapazola aborrecido, desgostoso, de cabelos compridos como uma crina, com um braço de pau sustentando uma longa bandeira e uma coroa no ar!” Que há nisso de surpreendente? Observa o crítico: Frémiet é um animalista, razão pela qual sua Joana resultou “um ser híbrido, de pequena estatura, sobre um 229 cavalo enorme”. Essa estátua é uma paródia, uma vergonha para os franceses, sobretudo no lugar em que a erigiram, exposta aos olhos dos estrangeiros. A de Roulleau, em Chinon, ainda é pior, pesada, maciça, tão material quanto possível. Outros artistas se saíram melhor, sem todavia se mostrarem mais escrupulosos em respeitar a História.
Charpentier no-la representa em oração. A fisionomia é graciosa e tocante. Mas, para que aquele livro caído a seus pés, quando ela não sabia ler e viveu numa época em que a imprensa ainda não fora inventada? Os pintores não são mais atentos à verdade histórica. Jean-Paul Laurens assinou o tríptico que orna uma das salas do novo palácio da Municipalidade em Túrones (Tours) e reproduz três cenas da vida da heroína.
No terceiro painel, vê-se a praça em que se consumou o suplício. Está vazia e por cima da fogueira, que acaba de apagar-se, um pouco de fumaça volteia nos ares. É noite e o último juiz se retira. J. P.
Laurens não leu. Ignora que os ingleses, logo que Joana expirou, mandaram apagar o fogo, para que seu corpo carbonizado ficasse exposto como ficou, durante oito dias, à vista do povo, de modo a todos poderem certificar-se de que a virgem não pertencia mais a este mundo. Ao cabo de uma semana, reacenderam a fogueira para destruir completamente os despojos da vítima, cujas 230 cinzas foram depois lançadas no Sena. * O estudo das almas é dos mais belos que se oferecem às lucubrações do pensador e nenhuma cativa tanto como a de Joana d'Arc. O que de mais surpreendente há nela não é a sua obra de heroísmo, ainda que única na História, é o caráter em que se casam e fundem as qualidades aparentemente mais contraditórias: a força e a brandura, a energia e a meiguice, a providência e a sagacidade, o espírito arguto, engenhoso, penetrante, que em poucas palavras, nítidas e precisas, deslinda as mais difíceis questões, aclara as situações mais ambíguas. Por efeito dessas qualidades, sua vida nos ministra toda a sorte de nobres exemplos.
Patriota e francesa, quaisquer que sejam as circunstâncias, ela nos dá lições de devotamento levado até ao sacrifício. Profundamente religiosa, idealista 229 LE PORTRAIT DE JEANNE D'ARC PAR UN ESSENIEN DU DIX-NEUVIEME SIECLE. 230 Ver: H. Martin, HISTOIRE DE FRANCE, t. VI, págs. 304305. 155 – JOANA D´ARC, MÉDIUM e cristã, numa época em que o Cristianismo constitui a única força moral de uma sociedade ainda bárbara, exortam-na os subidos dotes, as eminentes virtudes do crente isento de fanatismo e de beatice. Na vida íntima, familiar, pratica as virtudes modestas que são a riqueza dos humildes: a obediência, a simplicidade, o amor ao trabalho.
Em resumo, toda a sua existência é uma lição para aquele que sabe ver e compreender. Porém, o que acima de tudo a caracteriza é a bondade, sem a qual não há verdadeira beleza d’alma. Essa harmoniosa aliança, esse equilíbrio perfeito de predicados, que, à primeira vista, parecem de molde a se repelirem, fazem de Joana d'Arc um enigma, que, entretanto, alimentamos a pretensão de resolver. Todos os coevos que lhe cultivaram as relações dão testemunho de que, quer em meio da ação guerreira, quer durante as provações, ela consorciava grande doçura a uma vontade cuja firmeza coisa alguma poderia abalar. Os burgueses de Orleães foram acordes em dizer nos seus depoimentos: “Era um grande consolo 231 tratar com ela”.
Os mesmos traços de caráter se nos antolharam novamente no Espírito que, com o seu nome, se manifestou diversas vezes em nosso grupo de estudos. Também nele, as virtudes, os mais variados dons morais se combinam, em perfeita harmonia. Para bem se julgar de uma entidade tão superior, importa insulá-la das disputas partidárias e contemplá-la à luz pura de sua vida e de seus pensamentos. Uma influência do Além lhe aureola a fronte bela e grave e à emoção que incute se agrega um sentimento de respeito. Não obstante o cepticismo dos tempos presentes, ninguém se pode furtar à sensação de que, acima das eventualidades habituais da vida humana, há seres de escol, que são a honra de nossa raça e o eterno esplendor da História.
A existência da virgem Lorena é comparável a uma sinfonia, em que as vozes comovedoras e trágicas da Terra se entrelaçam com as exortações misteriosas do mundo invisível. Como todas as grandes almas, ela acreditava em si mesma, na sua alta missão, e sabia transfundir a fé nos outros, fazendo-a emanar de seu ser. Sempre ponderada e circunspeta, alia a humildade da camponesa à nobreza da rainha, uma pureza absoluta a uma extrema audácia. Vestida de homem, vive nos acampamentos qual anjo sobre quem Deus pousa o olhar e ninguém se escandaliza. A glória que a cinge parece-lhe tão natural que nunca lhe ocorre envaidecer-se dela.
Não fora para praticar grandes obras que viera ao mundo e não era natural que de seus feitos lhe decorressem honras? Daí o desembaraço com que se porta em presença dos nobres e das fidalgas. Somente a Deus se curva; mas apraz-lhe fazer-se humilde para com os pequeninos que lhe prestam homenagens. Na igreja, é dentre as crianças que prefere elevar a alma ao céu. Seus conceitos não são menos admiráveis do que os atos.
Nas mais confusas discussões sempre lhe acodem o termo apropriado, o argumento preciso. Sob certa ingenuidade gaulesa que a enfaixa, nela se expande um senso profundo dos seres e 231 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I, pág. 266. das coisas, o qual, nos momentos decisivos, lhe sugere as inflexões capazes de atear o ardor nas almas e de, nos corações, reavivar os sentimentos fortes e generosos. Como se admitir que uma menina de dezoito anos haja podido por si só encontrar expressões, quais as que temos consignado?
Como se duvidar-se da que fosse inspirada por gênios invisíveis, conforme o foram, antes e depois, tantos outros agentes do Além? As palavras profundas, como já vimos, pululam na curta existência da heroína e não fugiremos à oportunidade de ainda reproduzir algumas. Aqueles lábios juvenis proferiram sentenças que merecem figurar ao lado dos mais belos preceitos da antiguidade. 232 “Era muito circunspeta e pouco loquaz”, dizia a Crônica, mas, quando falava, sua voz tinha vibrações que penetravam no íntimo dos ouvintes, nos quais sensibilizava fibras que lhes eram desconhecidas e que nenhum poder lograra ainda despertar a tal ponto. Esse o segredo do ascendente que exercia sobre tantas criaturas rudes, porém fundamentalmente boas. E tais palavras não aproveitaram somente aos que as ouviram.
Recolhidas pela História, irão, séculos em fora, consolar as almas e estimular os corações. Joana acha sempre os dizeres que convêm e às imagens de que se serve sobram relevo e colorido. O mesmo sucede hoje nas mensagens que dita a alguns raros médiuns e que, em parte, temos inserido aqui. Para nós, são outras tantas provas, outras tantas demonstrações de identidade. Relembremos algumas de suas palavras, há um tempo ingênuas e ponderadas.
Nunca, seria demasiado repeti-las, nem propô-las como normas e lições a tanta gente que, honorificando-a, pouco diligencia por se lhe assemelhar, no que concerne ao caráter e às virtudes. Todos temos interesse pessoal em lhe estudarmos a existência, em nos alçarmos à altura dos ensinamentos que ela contém, pelos exemplos que oferece do viver íntimo e do viver social, de beleza moral e de grandeza na simplicidade. “A partir do momento em que soube que devia vir à França, pouco me 233 entreguei aos brincos e aos passeios”. O descuido e a leviandade são habituais na infância e em muitos persistem até avançada idade. Joana, ao contrário, tem a preocupação constante do futuro, da relevante missão que lhe tocara, dos encargos que lhe vão pesar sobre os ombros.
Roçaram-na as asas das criaturas angélicas e a sua vida recebeu assim uma impulsão que só a morte paralisará. Percebeu os chamados mistérios do Alto e suas práticas com o invisível lhe imprimiram à atitude e ao pensamento a gravidade que ostentará sempre unida à graça e à doçura. No interrogatório de Poitiers, Guilherme Aimery lhe observa: “Pedes soldados e dizes ser do agrado de Deus que os ingleses se vão. Ora, se é assim, 232 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t.
I, pág. 135, nota 1. 233 Terceiro interrogatório público. 157 – JOANA D´ARC, MÉDIUM não há necessidade de soldados, pois que Deus só basta.” – “Em nome de Deus! 234 – retrucou ela –, os soldados batalharão e Deus lhes dará vitória”. Essa resposta resume uma grande lição. O homem é livre. A lei suprema exige que ele próprio edifique seu destino no volver dos tempos, mediante inúmeras existências. Sem isso, quais seriam seus méritos, seus títulos à ventura, ao poder, à felicidade?
Se lhe fora possível alcançá-los sem trabalho, esses bens nenhum preço teriam a seus olhos. Nem mesmo lhes compreenderia o valor, visto que o homem só aprecia as coisas na razão dos esforços que elas lhe custam. Quando, porém, os obstáculos são insuperáveis e ele pelo pensamento se associa à vontade divina, as forças e os socorros lhe descem do infinito e o fazem triunfar das maiores dificuldades. Naquelas poucas frases, Joana afirma o princípio da intervenção da Providência na História, a comunhão fecunda do Céu e da Terra, que nos aplaina as estradas e faculta às nossas almas, nas horas de desespero, a possibilidade da salvação. Estranho fato!
O homem desconhece e muitas vezes despreza o que lhe é mais necessário. Sem os auxílios do Alto e alheios à íntima solidariedade que conjuga a fraqueza humana às forças do Céu, como poderíamos prosseguir, armados unicamente dos recursos que nos são peculiares, a imensa ascensão que nos leva do fundo dos abismos da vida até Deus? A só perspectiva da senda interminável a percorrer bastaria para nos abater e desalentar. O extremo afastamento da meta e a necessidade do esforço persistente nos imobilizariam. É a razão pela qual, nos primeiros degraus da prodigiosa escada, nas primeiras estações do percurso, o objetivo distante se nos conserva velado e restritos nos parecem os horizontes da existência.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.