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Capítulo 7 de 29
Parte 7 de 29
Joana D’Arc, Médium · Léon Denis
“Estala a guerra russo-japonesa, o coronel de R. recebe ordem de seguir. Parte e sucumbe na Manchúria. Seu corpo, numa ambulância, é transportado com outros para Mukden, a fim de ser enviado para a Rússia. Mas, o destacamento que os conduzira teve que abandoná-los durante a retirada geral do exército russo. Não obstante as inúmeras investigações efetuadas, nunca se pôde saber o que fora feito daqueles corpos.
“A profecia do Espírito, pai do coronel de R., se cumprira: a jovem viúva não poderá jamais orar sobre o túmulo do marido.” Falemos agora das aparições, que não são raras na época presente e cuja autenticidade, nalguns casos, se tem podido firmar por meio da fotografia. A Revista de 15 de janeiro de 1909 traz a narrativa de um fato deste gênero, feito por W. Stead, o grande publicistas inglês, tão conhecido pela sua lealdade, como pelo seu desinteresse e ainda pela sua coragem. Exigisse-o a verdade e vêlo-íamos em qualquer ocasião enfrentar toda a Inglaterra. É sabido que, com grave dano para seus interesses pessoais, esquecendo os muitos milhões que herdaria de Cecil Rhodes, ousou apontar publicamente o poderoso milionário como um dos principais responsáveis pela guerra sul-africana, chegando a reclamar que lhe fosse aplicada a pena de trabalhos forçados (hard labour).
No decurso dessa mesma guerra, W. Stead se dirigiu ao gabinete de um fotógrafo muito ignorante, mas dotado de dupla vista, para experimentar o que poderia obter, pois que o estudo do mundo oculto o atraía vivamente. Diante do fotógrafo e de Stead surgiu uma aparição, que já dias antes se mostrara ao primeiro. Convencionaram fotografá-la com o escritor. Durante a operação, respondendo a uma pergunta, a personagem invisível aos olhos humanos disse chamar-se Piet Botha.
Entre todos os Botha conhecidos de Stead, nenhum havia com aquele prenome. Efetivamente, ao seu lado se via muito nítida, na fotografia, a figura de um boer. Quando, concluída a paz, o General Botha veio a Londres, W. Stead lhe enviou a imagem obtida. No dia seguinte recebeu a visita de um dos delegados da 82 Junho de 1909. 47 – JOANA D´ARC, MÉDIUM África do Sul, o Sr.
Wessels, que, muito admirado, lhe disse “Este homem nunca o conheceu! Jamais pôs pé na Inglaterra. É meu parente e tenho dele um retrato em minha casa!” “Morreu?” perguntou-lhe Stead. “Foi o primeiro comandante boer morto no cerco de Kimberley – respondeu-lhe o interlocutor –; chamava-se Petrus Botha, mas nós o tratávamos abreviadamente por Piet.” Os outros delegados dos Estados livres também reconheceram na fotografia o guerreiro boer. Não raro as aparições se apresentam a crianças, incapazes de qualquer enredo, de qualquer fraude, e essa circunstância milita fortemente a favor da autenticidade desejada em tais casos.
Os ANNALES DES SCIENCES PSYCHIQUES, de 1 a 16 de fevereiro de 1909, citam muitos desses fatos. Num deles, é protagonista uma menina de dois anos e meio que, por diversas vezes e em diferentes lugares, vê uma irmãzinha que lhe morrera havia algum tempo e estende-lhe a mão. Noutro, figura uma criança de três anos que, por ocasião da morte de um irmão, vê uma de suas tias já falecida e corre para ela, acompanhando-a para onde quer que se dirija o vulto. Brierre de Boismont, nos ANNALES MÉDICO-PSYCHOLOGIQUES, 83 1851, narra o seguinte: “Um rapaz de dezoito anos, sem nenhuma tendência para a exaltação, para o romanesco, ou para as superstições, fora habitar em Ramsgate por causa da saúde. Indo passear a uma das aldeias próximas, entrou, ao cair da tarde, numa igreja, e ficou transido de pavor ao dar com o espectro de sua mãe, que falecera meses antes, em conseqüência de uma enfermidade muito dolorosa, que infundia compaixão a quantos lhe rodeavam o leito.
A aparição se conservou imóvel durante um tempo considerável entre a parede e o rapaz, que, afinal, fugiu para casa, aonde chegou quase desfalecido. Acontecendo repetir-se o fenômeno por muitas noites consecutivas, no seu próprio aposento, ele se sentiu doente e cuidou sem demora de regressar a Paris, onde residia seu pai, ao qual resolveu nada dizer da visão, com receio de aumentar a dor que o acabrunhava desde que perdera a esposa adorada. “Obrigado a dormir no quarto do pai, causou-lhe surpresa haver aí uma luz acesa durante toda a noite, o que não era dos hábitos nem do gosto de qualquer dos dois. Ao cabo de muitas horas de insônia produzida pela claridade, o rapaz levantou-se para apagar a luz. Imediatamente o pai despertou em grande agitação e lhe ordenou que tornasse a acendê-la, o que o moço fez, muito admirado da irritação do velho e do terror que lhe alterava a fisionomia.
Inquirindo do motivo de tanto pavor, obteve apenas uma resposta vaga e a promessa de que a explicação do fato lhe seria revelada mais tarde. “Passada uma semana, quando muito, depois dessa ocorrência, o rapaz, não podendo dormir pelo incômodo que lhe causava a luz, aventurou segunda vez apagá-la. Mal o fizera, eis que o pai salta do leito, agitado, a tremer convulso, censura-lhe a desobediência e novamente acende a lâmpada. Confessou então que, estando no escuro, o fantasma da mulher lhe aparecia e se conservava imóvel, para só desaparecer quando o quarto se iluminava. 83 Des Hallucinations compatibles avec la raison, páginas 245246. “Profundamente impressionado com o que ouvira e temendo aumentar a aflição ao pai, se lhe contasse a aventura de Ramsgate, o mancebo pouco tempo depois deixou Paris e foi para uma cidade do interior, a sessenta milhas de distância, visitar um irmão que aí se achava num internato e ao qual nada comunicara do que lhe sucedera, receando o ridículo. “Apenas entrara e trocara os cumprimentos de uso, o filho do diretor do internato o interroga: ‘Seu irmão já alguma vez manifestou sintomas de loucura?
A noite passada ele desceu em camisa, fora de si, declarando ter visto o Espírito da mãe, acrescentando que não ousava mais voltar para o quarto e desmaiou de medo.” Poderíamos enumerar muitos outros fatos da mesma natureza. Os habitantes do espaço não desdenham um só dos meios de nos indicarem e demonstrarem que a sobrevivência é uma realidade. Os Espíritos superiores dão acentuada preferência ao fenômeno da incorporação, por ser o que lhes permite obrar mais conscientemente nas manifestações, o que lhes faculta mais amplos recursos intelectuais. Na incorporação, o médium, imerso em profundo sono, por efeito de uma ação magnética invisível, abandona o organismo às Entidades que se querem manifestar, as quais, apoderando-se dele, entram em relação conosco, mediante o emprego da voz, dos gestos e das atitudes. Tão sugestiva e imponente é às vezes a linguagem de que usam, que, por ela, sem sombra de dúvida, se lhes reconhecem o caráter, a natureza, a identidade.
Tanto tem de fácil a imitação dos fenômenos físicos, tais como as mesas falantes, a escrita automática, o aparecimento de fantasmas, quão difícil, se não impossível, se mostra a simulação das coisas de elevada ordem intelectual, pois que o talento não é imitável e ainda menos o gênio. Muitas ocasiões temos tido de assistir a cenas desse gênero e sempre nos deixaram funda impressão. Viver, um momento que seja, na intimidade dos grandes Seres, vale por uma das raras felicidades concedidas ao homem neste mundo. Graças à mediunidade de incorporação é que temos podido comunicar com os Espíritos guias, com a própria Joana, e receber deles os ensinos e as revelações que consignamos em nossas obras. Todavia, essa faculdade mediúnica, constituindo para os experimentadores uma fonte de gozo, não dá motivo de satisfação ao médium, que, ao despertar, nenhuma lembrança conserva do que se passou, enquanto seu Espírito esteve ausente do corpo cedido a outro.
Uma imensidade de pessoas tem o dom da mediunidade em estado latente. Por toda parte, nas moças, nos rapazes, nas meninas, se encontram em gérmen faculdades sutis e, em elaboração, poderosos fluidos, capazes de servirem de ligação entre o cérebro humano e as inteligências do espaço. Ainda nos faltam, porém, escolas e métodos para desenvolver cientificamente e com perseverança tão inestimáveis elementos e assim valorizá-los, tornando-os capazes de produzir todos os frutos que poderiam dar e que colheríamos, se não fora a carência, ainda reinante, de preparo metódico e de paciente estudo. Infelizmente, em vez de frutos, o que com desconsoladora freqüência se observa é que, à míngua de saber e de um trabalho regular, os promissores embriões secam e só flores envenenadas dão. 49 – JOANA D´ARC, MÉDIUM Pouco a pouco, entretanto, uma ciência nova e uma nova crença despontam e se propagam, levando a todos os homens o conhecimento das leis que regem o universo invisível e os meios de bem cultivarem as preciosas faculdades mediúnicas, transformando-as em instrumento das grandes Almas depositárias dos segredos do Além.
Os experimentadores, em conseqüência, terão que renunciar aos acanhados pontos de vista em que se colocam, aos processos rotineiros de uma ciência que já envelheceu, para se consagrarem à utilização dos poderes do espírito, mediante a elevação do pensamento, que é o motor supremo, o traço de união entre os mundos divinos e as esferas inferiores.
E desde logo verão que um raio de luz desce do Alto para lhes fecundar as pesquisas e verificarão que o estudo dos grandes problemas filosóficos, a prática do dever, a dignidade e a retidão da vida são as condições essenciais de bom êxito. Em matéria de experimentação psíquica, além da ciência e do método, elementos indispensáveis, prodigiosa é a importância dos surtos generosos da Alma por meio da prece. Eles constituem o ímã, a corrente fluídica que atraem as potências benfazejas e afastam as influências funestas, como o demonstra sobejamente a vida inteira de Joana. No dia em que estiverem preenchidas todas essas condições, o Novo Espiritualismo terá entrado plenamente no caminho de seus destinos e, para tantas crenças que oscilam ao embate das paixões, como para a alma humana que se chafurda na materialidade, por entre o rebaixamento geral dos caracteres e das consciências, será um meio de salvação, uma força, uma fé vivaz e ativa, que unirá o Céu à Terra e enlaçará as almas e os mundos numa comunhão eterna e infinita. V Vaucouleurs Eis, vou partir! Adeus, vós todos a quem eu amava.
Paul Allard Retomemos o curso da história de Joana. Vimo-la sair de Domremy. A partir desse dia, as provações vão surgir sob cada um de seus passos e serão tanto mais cruéis, quanto lhe virão daqueles cuja simpatia, afeição e amparo devia esperar. São-lhe aplicáveis estas palavras: “Ela veio para o meio dos seus e os seus não a 84 conheceram”. Desde os primórdios de sua missão, Joana sentiu as penosas alternativas que, depois, freqüentemente, a assaltaram.
Tão devotada a seus deveres, tão submissa à autoridade de seus genitores, ela se vê, mau grado ao amor que a ambos consagra, na contingência de lhes infringir as ordens e de abandonar clandestinamente a casa onde nascera. Seu pai tivera em sonho a revelação dos desígnios que ela acariciava. Sonhou, uma noite, que a filha deixava a terra natal, a família, e partia, acompanhada de homens de guerra. Vivamente preocupado, falou disso aos filhos, ordenando-lhes que, de preferência a consentirem que se ausentasse assim, “a afogassem no Mosa”. E acrescentava: “Se o não fizerdes, fa-lo-ei eu próprio!” Joana fora obrigada a dissimular, resolvida, como estava, “a obedecer antes a Deus do que aos homens”.
Em Ruão, os juizes lhe fazem carga dessa circunstância: “Acreditavas proceder bem – perguntam-lhe – partindo sem permissão de teu pai e de tua mãe?” – “Sempre obedeci a meu pai e a minha mãe em tudo, exceto no que respeitava à minha partida. Mas, depois lhes escrevi e eles me perdoaram.” Mostra-se assim cheia de deferência e submissão para com aqueles que a criaram. No entanto, os juízes insistem: “Quando deixaste pai e mãe, não consideraste estar cometendo um pecado?!” Joana então exprime todo o seu 84 Ver as palavras de Jesus, sobre o retorno de Elias – (Mateus, 17: 12) 51 – JOANA D´ARC, MÉDIUM pensamento, nesta bela resposta: “Pois que Deus ordenava, era preciso fazer. Mesmo que eu tivesse cem pais e cem mães e que fosse filha de rei, ainda assim 85 teria partido!” Acompanhada por um de seus tios, Durand Laxart, a quem, passando por Burey, se reunira, o único parente que lhe acreditou na vocação, o único que a animou a executar seus projetos, apresenta-se a Roberto de Baudricourt, comandante de Vaucouleurs, em nome do delfim. O primeiro acolhimento foi brutal: Joana, porém, não desanima, prevenida que fora por sua vozes.
Escudada numa resolução inabalável, nada é capaz de desviá-la de seu objetivo. Afirma-o em termos enérgicos à boa gente de Vaucouleurs: “Antes que a quaresma vá a meio, hei de estar na presença do rei, ainda que tenha de gastar minhas pernas até aos joelhos!” E, pouco a pouco, à força de insistência, o rude comandante lhe presta mais atenção aos propósitos. Como todos os que dela se aproximavam, Roberto de Baudricourt experimentou o ascendente daquela criança. Depois de mandá-la exorcizar por Jean Tournier, cura de Vaucouleurs, e de convencer-se de que nenhuma tenção má a guiava, não mais ousa negar-lhe crédito à missão, nem cumular-lhe de obstáculos o caminho. Manda lhe dêem um cavalo e escolta.
Já o cavaleiro Jean de Metz, dominado pela ardente convicção de Joana, lhe prometera conduzi-la à presença do rei. E, como lhe perguntasse: “Mas, quando?” prontamente ela respondeu “Antes já do que amanhã, antes amanhã do que mais tarde!” Finalmente, partiu, ouvindo do comandante da praça, por despedida, estas palavras de uma frieza pouco animadora: “Vai e suceda o que haja de suceder!” Que importam, entretanto, a Joana tais palavras! Não é às vozes da Terra que dá ouvidos, mas às do Alto, que a estimulam e alentam. As incertezas e perigos do futuro lhe revigoram a força da alma e a confiança, tanto que de contínuo repetirá o ditado de sua província: “Ajuda-te a ti mesmo, que Deus te ajudará!” O porvir é de infundir terror. Ela, porém, de posse das forças divinas, nenhuma coisa teme!
Dá, por essa forma, um exemplo a todos os peregrinos da vida. Emboscadas tremendas se multiplicam na estrada que cumpre ao homem percorrer: por todos os lados atoleiros, angulosas pedras, sarças, espinhos. Todavia, para transpormos tão perigosos óbices, temos em nós, dados por Deus, os recursos de uma energia oculta, de que podemos usar com eficácia, atraindo, pela mediação das potências invisíveis, os misteriosos socorros do Alto, que nos centuplicam as forças pessoais, assegurando-nos o bom êxito na luta. Ajuda-te a ti mesmo e Deus te ajudará! Joana parte, levando por companhia unicamente alguns homens de coragem.
Viaja dia e noite por províncias inimigas, para vencer as cento e cinqüenta léguas que a distanciavam de Chinon, onde reside o delfim Carlos, cognominado, por escárnio, o rei de Burges, porque, sob o cetro, somente conserva uns farrapos de reino, vivendo despreocupado de seu infortúnio, absorvido pelos prazeres, cercado de cortesãos, que o traem e secretamente pactuam com o inimigo. 85 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 2ºinterrogatório secreto, pág. 139. Para chegar até lá, tem que atravessar a terra dos borgonheses, aliados da Inglaterra, caminhar à chuva por atalhos escondidos, vadear rios transbordados, dormir sobre o solo encharcado. Não hesita um só instante. Suas vozes lhe repetem sem cessar: “Vai, filha de Deus, vai, nós iremos a teu auxílio!” E ela vai, vai, a despeito dos obstáculos, por entre todos os perigos. Voa em socorro de um príncipe desesperançado e sem coragem.
E vede que mistério admirável! Uma criança é quem vem tirar a França do abismo. Que traz consigo? Algum socorro militar? Algum exército?
Não, nada disso. Traz apenas a fé em si mesma, a fé no futuro da França, a fé que exalta os corações e desloca as montanhas. Que diz a quantos se apinham para vê-la passar? “Venho da parte do Rei do céu e vos trago o socorro do céu!” 53 – JOANA D´ARC, MÉDIUM VI Chinon, Poitiers, Tours Vai, avança ousadamente Que do triunfo irás à frente. Paul Allard Para a maior parte dos autores, Joana entrou na Touraine por Amboise, seguindo a estrada romana que se alonga pela margem esquerda do Loire.
Teria então vindo primeiramente de Gien a Blois, pelo Sologne. Saindo de Amboise, teria atravessado o Cher, em Saint-Martin-le-Beau, o Indre, em Cormery, e parado em Sainte-Catherine-de-Fierbois, onde havia uma capela consagrada a uma de suas santas. Segundo antiga tradição, Carlos Martel, vencedor dos Sarracenos, tendo-os exterminado nos bosques bravios (ferus boscus, Fierbois), depusera a espada na ermida, que se erguia em meio desses bosques. Reconstruída em 1375, ela era freqüentada pelos cavaleiros e homens d'armas que, para obterem a cura de ferimentos, faziam voto de lá ir em peregrinação depositar seus gládios. A certa altura da estrada, fora posto de alcatéia, provavelmente pelo pérfido La Trémoille, um troço de soldados pagos para se apoderarem de Joana.
Ao enfrentarem, porém, com a enviada de Deus, os bandidos ficaram como que 86 pregados ao solo. Conforme aos depoimentos, idênticos, de Poulengy e de Novelonpont, a viagem de Vaucouleurs a Chinon se efetuou em onze dias. Segue-se daí, diz o padre Bosseboeuf, que Joana chegou a Chinon a 23 de fevereiro, numa quarta 87 feira. Wallon, Quicherat e outros dizem ter sido a 6 de marco. Eis aqui a cidade e seus três castelos, cujos contornos se confundem numa extensa massa cinzenta de muros ameados, de torres e torreões.
Ao entrar em Chinon, a pequena caravana desfilou pelas ruas ladeirentas, margeadas de edificações góticas, com os frontispícios chapeados de ardósias e as quinas ornadas de estatuetas de madeira. Desde logo, às portas das casas, ou nos 86 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I, págs.150151. Depoimento de frei Seguin. 87 BULLETIN DE LA SOCIETE ARCHEOLOGIQUE DE TOURAINE, t.
XII. serões à noite, junto à lareira crepitante, começam a circular de boca em boca maravilhosos contos, em que figura como protagonista a donzela que viera dos confins da Lorena, para cumprir as profecias e pôr termo à insolente fortuna dos Ingleses. Joana e sua escolta pousaram “em casa de uma boa mulher, perto do 88 castelo”, sem dúvida a do gentil-homem Reignier de la Barre, cuja viúva, ou 89 filha, recebeu a Pucela com muita alegria. Passou aí dois dias, sem conseguir a 90 audiência que pedira. Mais tarde, alojou-se no próprio castelo, na torre de Coudray. Afinal, a tão desejada entrevista lhe foi concedida.
Era noite. O flamejar das tochas, o estridular das fanfarras, o aparato da recepção, tudo isso não irá causar-lhe assombro e intimidá-la? Não, porque ela vem de um mundo mais brilhante do que o nosso. Desde tempos remotos, conheceu magnificências ao lado das quais toda aquela encenação é por demais descolorada. Muito para lá de Domremy, muito para além da Terra, em épocas que lhe precederam o nascimento, freqüentou moradas mais gloriosas do que a corte de França e disso guardou a intuição.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.