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Capítulo 5 de 29

Parte 5 de 29

Joana D’Arc, Médium · Léon Denis

Poderia Joana mentir? Por ela respondem a sinceridade, a retidão que manifestou em todas as circunstâncias. Uma alma tão leal, que preferiu todos os sacrifícios a renegar da França e de seu rei, uma alma assim não podia degradar-se 46 Ver: Henri Martin, HISTOIRE DE FRANCE, tomo IV, pág. 228 e nota 2. 47 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 5º interrogatório secreto, pág. 156. 48 Ibidem, pág. 159. 49 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t.

I. Depoimento de Jean Pasquerel, pág. 226. 50 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 3º interrogatório público, Pág. 66. 51 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. II, pág. 91. até a mentira.

Há nas suas palavras tal acento de verdade, de convicção, que ninguém, mesmo entre os seus detratores mais ardentes, ousou acusá-la de impostura. Anatole France, que, certo, não a poupa, escreve: “O que, sobretudo, ressalta dos textos é que ela foi uma santa. Foi uma santa, com todos os atributos da santidade no século XV. Teve visões e estas visões não foram nem fingidas, 52 nem forçadas.” E, mais adiante: “Não pode ser suspeitada de mentira”. Sua lealdade era absoluta; para apoiar o que dizia, não se servia, como tanta gente, de termos excessivos, de expressões descomedidas.

“Nunca jurara”, diz uma testemunha no PROCESSO DE REABILITAÇÃO, e, para afirmar, 53 contentava-se com acrescentar: “Sem dúvida”. Estas palavras se encontram também nos interrogatórios do processo de Ruão. Revestiam uma significação particular na sua boca, pronunciadas no tom de franqueza e com aquela fisionomia aberta, que lhe eram peculiares. Outro ponto de vista: ter-se-ia ela enganado? Seu bom senso, sua lucidez de espírito, seu critério firme, os relâmpagos de gênio que lhe iluminam, aqui e ali, a vida, não permitem que em tal se creia.

Joana não era uma alucinada! Certos críticos, entretanto, o acreditaram. A maior parte dos fisiologistas, por exemplo, Pierre Janet, Tr. Ribot, o Doutor Grasset, aos quais convém juntar alguns alienistas, como os Drs. Lélut, Calmeil, etc., não vêem na mediunidade senão uma das formas da histeria ou da neurose.

Para eles, os videntes são enfermos e a própria Joana d'Arc não lhes escapa às apreciações sob este critério. Ainda recentemente, o professor Morselli, no seu estudo PSICOLOGIA E ESPIRITISMO, não considerou os médiuns como espíritos fracos ou desequilibrados? É sempre fácil qualificar de quimeras, de alucinações ou de loucuras os fatos que nos desagradam, ou que não podemos explicar. Nisto, muitos cépticos se consideram pessoas bastante criteriosas, quando não passam de vítimas dos seus preconceitos. Joana não era neurótica, nem histérica.

Robusta, gozava de saúde perfeita. Era de costumes castos e, ainda que de uma beleza plena de atrativos, sua presença 54 impunha respeito, veneração, mesmo aos soldados que lhe partilham da vida. Três vezes: em Chinon, no princípio de sua carreira, em Poitiers e em Ruão, sofreu exame feito por matronas, que lhe atestaram a virgindade. Suportava, sem fraquejar, as maiores fadigas. “Sucede-lhe passar até seis dias em armas”, escreve, a 21 de junho de 1429, Perceval de Boulainvilliers, conselheiro camarista de Carlos VII.

E, quando a cavalo, excitava a admiração de seus companheiros de armas, pelo tempo que podia permanecer assim, sem ter 55 necessidade de apear-se. Muitos depoimentos lhe atestam a resistência física. 52 Anatole France – VIE DE JEANNE D'ARC, t. I, páginas 32, 39. 53 J. Fabre – PROCESSO DE REABILITAÇÃO, t. I.

Depoimento das três madrinhas de Joana, pág. 78. 54 Ibidem, t. I. Depoimento de Jean de Metz, pág. 128. – Dep. de Bertrand de Poulengy, pág. 133. – Dep. do escudeiro Gobert Thibault, pág. 164.

– Dep. do duque d'Alençon, pág. 183. – Dep. do intendente de Joana, págs. 249250. – Dep. de Dunois, pág. 201, etc. 55 Ibidem, t. I. Depoimento do presidente Simon Charles, pág. 149. 35 – JOANA D´ARC, MÉDIUM “Ela se comportava de tal maneira, diz o cavaleiro Thibault d'Armagnac, que não seria possível a qualquer homem melhor atitude no que respeita à guerra.

Todos 56 os capitães se maravilhavam das fadigas e trabalhos que suportava”. O mesmo ocorre com a sua sobriedade: há, sobre esse ponto, numerosos testemunhos, desde o de pessoas que a viram por pouco tempo, como a senhora Colette, até os de homens de seu séquito habitual. Citemos as palavras do pajem, Luís de Contes: “Joana era extremamente sóbria. Muitas vezes, durante um dia inteiro, não comeu mais do que um pedaço de pão. Admirava-me que comesse tão 57 pouco.

Quando ficava em casa, só comia duas vezes por dia”. A rapidez maravilhosa com que a nossa heroína se curava dos próprios ferimentos mostra a sua poderosa vitalidade: alguns instantes, alguns dias de repouso lhe bastam e volta para o campo de batalha. Ferida gravemente, por haver saltado da torre de Beaurevoir, recobra a saúde assim que consegue tomar algum alimento. Denotarão todos estes fatos uma natureza fraca e neurótica? E se, das qualidades físicas, passamos às do espírito, a mesma conclusão se impõe.

Os numerosos fenômenos dos quais Joana foi o agente, longe de lhe turbarem a razão, como sucede com os histéricos, parece, ao contrário, terem-na robustecido, a julgar pelas respostas lúcidas, claras, decisivas, inesperadas, que dá aos seus interrogadores de Ruão. A memória se lhe conservou fiel, o juízo são; manteve a plenitude de suas faculdades e foi sempre senhora de si. O Dr. G. Dumas, professor da Sorbona, em comentário publicado por Anatole France no fim do seu segundo volume, declara não ter conseguido, pelos testemunhos, descobrir em Joana qualquer dos estigmas clássicos da histeria.

Insiste demoradamente sobre a exterioridade dos fenômenos, sobre a clareza objetiva deles, sobre a “independência e autoridade relativas” da inspirada em presença das “santas”. Não lhe parece que suas visões possam ser filiadas a qualquer tipo patológico verificado experimentalmente. 58 “Nenhum indício – diz por sua vez Andrew Lang – permite supor que Joana, enquanto em comunhão com suas santas, se houvesse achado em estado de dissociação, ou inconsciente do que a cercava. Pelo contrário, vemos que, na cena terrível da abjuração, ela ouve ao mesmo tempo, com igual nitidez, as vozes das santas e o sermão do pregador, cujos erros não teme criticar.” Acrescentemos que nunca foi vítima de obsessão, pois que seus Espíritos não intervêm senão em certos momentos e sobretudo quando os chama, ao passo que a obsessão se caracteriza pela presença constante, inevitável, de seres invisíveis. Todas as vozes de Joana tratam da sua grande missão; jamais se ocupam com puerilidades; sempre tem razão de ser o que fazem ouvir, não se contradizem, nem se mostram eivadas das crenças errôneas do tempo, o que teria cabimento se Joana 56 Ibidem, t. I.

Depoimento do cavaleiro Thibault d'Armagnac, pág. 282. 57 Ibidem, t. I. Depoimento de Luís de Contes, pajem de Joana, pág. 211. – Dep. de Dunois, pág. 201. – Dep. do casal Millet, pág. 273.

– Dep. do padeiro Richarville, página 279, etc. 58 Andrew Lang – LE JEANNE D'ARC DE M. ANATOLE FRANCE, págs. 126127. fosse predisposta a sofrer de alucinações. Longe de acreditar em fadas, nas virtudes da mandrágora e em mil outras idéias falsas da época, a donzela demonstra, nos interrogatórios, ignorância a esse respeito, ou exprime o desprezo 59 que vota a tudo isso. Nada, nela, de sentimentos egoístas, nenhum orgulho, como se nota nos alucinados que, atribuindo grande importância às suas insignificantes pessoas, só vêem à roda de si inimigos e perseguidores. É à França e ao rei que se dirigem seus pensamentos, sob a inspiração divina.

O grande alienista Brierre de Boismont, que se consagrou a um estudo atento 60 da questão, reconhece em Joana uma inteligência superior. Entretanto, qualifica de alucinações os fenômenos de que ela é objeto, mas emprestando-lhes caráter fisiológico e não patológico. Quer com isso dizer que tais alucinações não a impediram de conservar a integridade da razão; seriam fruto de uma exaltação mental, o que todavia nada tem de mórbido. Para ele, a concepção da idéia diretriz, “estimulante poderoso”, se fez imagem no cérebro de Joana, em quem admira uma alma de escol, um desses “mensageiros que nos são enviados do fundo do misterioso infinito”. Sem ser da mesma opinião do célebre prático da Salpêtrière, quanto às causas determinantes dos fenômenos, o Doutor Dupouy, que os atribui à influência de Entidades celestes, conclui no mesmo sentido.

Somente, no seu entender, as alucinações de Joana teriam tido o dom de objetivar as personalidades angélicas que lhe serviam de guias. Poderíamos adotar este modo de ver, pois sabemos que ela considerava suas santas como sendo aquelas cujas imagens adornavam a igreja de Domremy. Mas, diremos ainda: pode-se atribuir caráter alucinatório a vozes que nos despertam em pleno sono, para prevenir-nos de acontecimentos presentes ou futuros, como foi o caso de Orleães e durante o processo de Joana, em Ruão? A vozes que nos aconselham proceder por forma diversa da que preferimos? Por ocasião de seu cativeiro na torre de Beaurevoir, recebeu bastantes recomendações de seus guias, desejosos de lhe evitarem um erro; no entanto, não puderam impedi-la de saltar do alto da torre, do que teve que se arrepender.

Dizer, com Lavisse, A. France e outros, que a voz ouvida por Joana era a da sua consciência, afigura-se-nos igualmente em contradição com os fatos. Tudo prova que as vozes eram exteriores. O fenômeno nada tinha de subjetivo, pois que ela é despertada, como vimos, aos chamados de seus guias e muitas vezes não 61 apanha mais do que as últimas palavras do que dizem. Não as escuta bem, senão nas horas de silêncio, conforme o reconhece o 62 próprio Anatole France.

“A agitação das prisões e as disputas entre os 59 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 3º e 5º interrogatórios públicos; 9º interrogatório secreto; auto de acusação. 60 Brierre de Boismont – DES HALLUCINATIONS.DE L'HALLUCINATION HISTORIQUE. 61 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 3º interrogatório público, pág. 68. 62 A. France – VIE DE JEANNED'ARC, t. I, pág. 359. 37 – JOANA D´ARC, MÉDIUM 63 guardas obstam a que compreenda claramente o que seus guias lhe comunicam.” É, pois, de toda evidência que as palavras vêm de fora; o ruído não embaraça a voz interior, que se percebe no segredo da alma, até nos momentos de tumulto.

Concluamos, pois, de nossa parte, reconhecendo, mais uma vez, em Joana, um grande médium. 64 Em que pese ao Doutor Morselli e a tantos outros, a mediunidade não se manifesta exclusivamente nos indivíduos de espírito fraco ou de almas inclinadas à loucura. Há talentos de amplas envergaduras, tais como Petrarca, Pascal, Lafontaine, Goethe, Sardou, Flammarion e quantos mais, pensadores profundos, como Sócrates, homens penetrados do espírito divino, santos ou profetas, que tiveram suas horas de mediunidade, nas quais essa faculdade, latente em todos, se revelou, sendo que, nalguns, repetidas vezes. Nem a altura da inteligência, nem a elevação da alma servem de empecilho a essa espécie de manifestações. Se há muitas produções mediúnicas, cuja forma ou substância deixam a desejar, é que são raras as altas inteligências e os grandes caracteres, qualidades que se achavam reunidas em Joana d'Arc, razão pela qual suas faculdades psíquicas atingiram tão elevado grau de pujança. Da virgem de Orleães se pode dizer que “realizava o ideal da mediunidade”.

Agora uma outra questão se apresenta e da mais alta importância: Quais eram as personalidades invisíveis que a inspiravam e dirigiam? Por que santas, anjos, arcanjos? Que devemos pensar dessa intervenção constante de São Miguel, Santa Catarina, Santa Margarida? Para resolver o problema, seria necessário primeiramente analisar a psicologia dos videntes e dos sensitivos e compreender a necessidade, em que eles se vêem, de emprestar às manifestações do Além as formas, os nomes, as aparências que a educação recebida, as influências experimentadas, as crenças do meio e da época em que vivem lhes sugeriram. Joana d'Arc não escapava a essa lei.

Servia-se, para traduzir suas percepções psíquicas, dos termos, das expressões, das imagens que lhe eram familiares. É o que fazem os médiuns de todos os tempos. Conforme aos meios, os habitantes do mundo oculto receberão os nomes de deuses, de gênios, de anjos ou demônios, de espíritos, etc. As próprias inteligências invisíveis, que intervêm ostensivamente na obra humana, se sentem obrigadas a entrar na mentalidade daqueles a quem se manifestam, de adotar as formas e os nomes de entes ilustres, conhecidos deles, a fim de os impressionar, de lhes inspirar confiança, de melhor prepará-los para o papel a que estão destinados. Em geral, no Além não se liga tanta importância, como entre nós, aos nomes e às personalidades.

Lá, se empreendem obras grandiosas e as Potências prepostas à sua realização recorrem aos expedientes reclamados pelo estado de espírito, 63 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 5º interrogatório secreto, pág. 157. 64 PSYCHOLOGIE ET SPIRITISME, por H. Morselli. poder-se-ia dizer de inferioridade e de ignorância, das sociedades e dos tempos em que desejam intervir. Objetar-me-ão, talvez, que à virgem de Domremy essas Potências sobre-humanas teriam podido revelar sua verdadeira natureza, iniciando-a num conhecimento mais alto, mais largo do mundo invisível e de suas leis. Mas, além de muito demorado e difícil iniciar um ser humano, por melhor dotado que seja, nas leis da vida superior e infinita, que nenhum ainda apreende no conjunto, o mesmo fora que contrariar o fim visado; que tornar, no caso de Joana, irrealizável a obra concebida, obra toda de ação, com o criar, na heroína, um estado de espírito e divergências de vista, que a houveram colocado em oposição à ordem social e religiosa sob a qual era chamada a operar.

Examinando-se com atenção o que diz Joana, com respeito às suas vozes, um fato significativo ressalta logo: é que o Espírito a quem ela dá o nome de São 65 Miguel nunca declarou chamar-se assim. As duas outras Entidades teriam sido designadas pelo próprio São Miguel, 66 sob os nomes de Santa Catarina e de Santa Margarida. Lembremos que as estátuas destas santas ornavam a igreja de Domremy onde Joana ia orar diariamente. Nas suas longas meditações e nos seus êxtases, tinha quase sempre diante de si as imagens de pedra daquelas duas virgens mártires. Ora, a existência destas duas personagens é mais do que duvidosa.

O que sabemos de ambas consiste em lendas muito contestadas. Cerca do ano 1600, um censor da Universidade, Edmond Richer, que acreditava nos anjos, mas não em Santa Catarina, nem em Santa Margarida, aventa a idéia de que as aparições percebidas pela donzela se fizeram passar, a seus olhos, como sendo as santas que ela venerava desde a infância. “O Espírito de Deus, que governa a Igreja, se 67 amolda à nossa imperfeição”, dizia ele. Mais tarde, outro doutor da Sorbona, Jean de Launoy, escrevia: “A vida de Santa Catarina, virgem e mártir, é inteiramente fabulosa, do começo ao fim. Não 68 se lhe deve dar crédito algum”.

Bossuet, na sua HISTOIRE DE FRANCE POUR 1'INSTRUCTION DU DAUPHIN, não menciona as duas santas. Em nossos dias, Marius Sepet, aluno da Escola de Chartes e membro do 69 Instituto, prefaciando a Vie de Sainte Catherine, de Jean Miélot, se manifesta com patentes reservas acerca dos documentos que serviram de base à obra: “A vida de Santa Catarina, diz ele, sob a forma que tomou no manuscrito 6449 do 65 Henri Martin diz o contrário (HISTOIRE DE FRANCE, t. VI, pág. 142); mas, nas fontes que indica, PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 2º interrogatório público, não se fala em São Miguel. Joana se exprime deste modo: “a voz de um anjo”. (Ver também o 7º interrogatório secreto.) 66 J. Fabre – PROCESSO DE CONDENAÇÃO, 7º interrogatório secreto, págs. 173174. 67 Edmond Richer – HISTORIE DE LA PUCELLE D'ORLEANS, manuscrito Bibl.

Nat. 68 Ver: A. France – VIE DE JEANNE D'ARC, t. I, pág. LIX. 69 Edição Hurtel, 1881, pág. 35. Ver também F.

X. Feller, DICTIONNAIRE HISTORIQUE. 39 – JOANA D´ARC, MÉDIUM cabedal francês da Biblioteca Nacional, não poderia aspirar a nenhum valor 70 canônico”. Notemos ainda que o caso mais moderno do cura d'Ars apresenta muita analogia com o de Joana d'Arc. Como a donzela, o célebre taumaturgo era vidente e se entretinha com Espíritos, especialmente com o de Santa Filomena, sua protetora habitual. Sofria também as importunações de um Espírito inferior chamado Grapin.

Ora, do mesmo modo que Catarina e Margarida, Filomena é 71 simplesmente um nome simbólico, significando que ama a Humanidade”. * Se é certo que os nomes atribuídos às Potências invisíveis que influenciaram a vida de Joana d'Arc só têm importância relativa e são, em si, muito contestáveis, outro tanto não se dá, já o vimos, com a realidade objetiva das mesmas Potências e com a ação constante que exerceram sobre a heroína. Parecendo-nos insuficiente a explicação católica, somos levados a nelas ver Entidades superiores, que resumem, concentram, acionam as forças divinas, nas ocasiões em que o mal se alastra sobre a Terra, quando os homens, por suas obras, entravam ou ameaçam o desenvolvimento do plano eterno. Essas Potências se nos deparam sob as mais diversas denominações, em épocas bem diferentes. Mas, qualquer que seja o nome que se lhes dê, é fora de dúvida a intervenção que têm tido na História. No século XV, são os gênios protetores da França, as grandes almas que mais particularmente velam pelo nosso país.

Dir-se-á talvez: tudo isso é sobrenatural. Não! Por esta palavra o que se designa são as regiões elevadas, as alturas sublimes e, por assim dizer, o coroamento da Natureza. Pela inspiração dos videntes e dos profetas, pelos 70 Críticos eminentes, muitos dos quais católicos e até prelados, mostraram, em trabalhos recentes, que os hagiógrafos cometeram numerosos erros. Monsenhor Duchesne, diretor da Escola Francesa de Roma, que goza de grande autoridade no mundo religioso, provou que muitos santos e santas, entre os quais São Maurício, da legião tebana, patrono da catedral de Angers, nunca existiram.

Demonstrou que as santas Marias jamais vieram à França e que a lenda, de que são objeto na Provença, é puramente obra de imaginação. Fato mais grave: oito nomes de papas foram dados por inexatos. Em conseqüência, por uma Ordem emanada de Roma, emendou-se a lista dos pontífices. Pio X, que correspondia na relação ao número 264, passou a ser o 256º papa. Por exemplo, São Cleto e Santo Anacleto são uma só individualidade.

Ora, se tantos enganos foram possíveis no tocante a personagens que ocuparam o trono pontifício, como pode haver certeza quanto à existência de personalidades ainda mais hipotéticas? Ver as obras de Monsenhor Duchesne intituladas: CATALOGUES EPISCOPAUX DES DIOCESES; ORIGINES CHRETIENNES(lições dadas na Sorbonne). 71 Ver P. Saintyves: LES SAINTS, SUCCESSEURS DES DIEUX, págs. 109 a 112, resumo da questão de Santa Filomena segundo Marucchi e os ANACLETA BOLLANDIANA. Consultar igualmente, com relação a Santa Margarida: P. Saintyves, LES SAINTS, SUCCESSEURS DES DIEUX, págs. 365 a 370.

Com relação a Santa Catarina de Alexandria, ver: Hermann Knust, GESCHICHTE DER LEGENDEN DER H. KATARINA VON ALEXANDRIA UND DER H. MARIA AEGYPTIACA. Halle, 890, in8º. Aí se encontram todas as referências anteriores.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.